O canto e a música faziam parte do cotidiano daqueles que fundaram a rede de cidades na região do Vale do Itajaí, Blumenau. Inúmeras sociedades de canto surgiram e fundaram inúmeros espaços, sendo alguns já citados por nós em outros registros para a história.
Deparamo-nos com um texto do pesquisador Frederico Kilian, anunciando que descobriu o estatuto da Sociedade de Canto Germânia, fundada em 3 de agosto de 1863.
Antes de se chamar Sociedade de Canto Germânia, denominava-se Sociedade de Canto Blumenau (Gesangverein Blumenau), e foi a primeira sociedade de canto não somente de Blumenau, mas de toda a região do Vale do Itajaí. Seus fundadores foram:
- Karl Wilhelm Friedenreich (Presidente);
- Viktor Friedrich Bruno Gaertner (Secretário);
- Pastor Oswald Hesse (Regente);
- Hermann Ernst Ludwig Wendeburg;
- Georg Repsold;
- Friedrich Löscke;
- Gustav Spierling;
- Hans Breithaupt;
- Emil Odebrecht;
- Oswald Zwicker;
- Victor von Gilsa;
- W. Meyer;
- Bernhard Knoblauch;
- Oscar Kluge;
- Hermann Willerding;
- Carl Sasse;
- Julio Baumgarten.
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| Parte dos fundadores da Sociedade de Canto Germânia. |
Um ano após o lançamento da pedra fundamental da nova sede da Sociedade Teatral Frohsinn, que aconteceu em 10 de novembro de 1935 (atual Teatro Carlos Gomes), em 1936 a Sociedade Frohsinn unia-se à Sociedade do Coro Masculino Liederkranz (Fundado em 1909), cujo grupo de canto tinha a presença de cantores da Sociedade de Canto Germânia. Em 1937, teve início o processo da Nacionalização, o que fez encerrar oficialmente o canto e suas atividades em 1939, durante o período da Campanha de Nacionalização de Getúlio Vargas. Parte do grupo se reuniu ao grupo da Sociedade do Coro Masculino Liederkranz e depois ao Teatro Carlos Gomes, sob a batuta de Heinz Geyer.
As políticas de nacionalização proibiram o uso da língua alemã em público e o funcionamento de associações que mantivessem vínculos culturais ou nomes estrangeiros. Muitas dessas sociedades foram dissolvidas ou precisaram mudar de nomes e estatutos para sobreviver.
Após o período de restrições, o espírito associativo dessas antigas sociedades de canto influenciou a criação de novos centros culturais, como o C.C. 25 de Julho de Blumenau, fundado em 1954 e que depois forneceu teto ao Coro Masculino Liederkranz, cuja história pretérita tem relação a esta.
Interessante conhecer o conteúdo de autoria de Frederico Kilian, que, além de mencionar documentos da primeira sociedade de canto de Blumenau, igualmente aponta e destaca os cantores que estiveram entre os "Voluntários da Pátria" na Guerra do Paraguai.
Os cantores da sociedade de canto que pereceram no conflito:
- Christian Müller - 25 anos;
- Otto Lobedan – 40 anos;
- Eugen Kurz – 38 anos;
- Küchendahl;
- Wendelin Kraemar - 45 anos ;
- Wilhelm Fischer.
Nomes registrados na publicação da revista Blumenau em Cadernos (T17, nº 9, 1976) — os nomes de todos os Voluntários da Pátria oriundos da Colônia Blumenau, com acréscimo de nomes listados somente no ofício de Hermann Wendeburg. Os nomes grifados eram cantores da Sociedade de Canto Germânia.
- Capitão Victor von Gilsa - comandante do Contingente de Blumenau;
- Tenente Emil Odebrecht;
- Alferes Wilhelm Friedenreich;
- Alferes Sametzki;
- Soldados:
- Francisco Ewald;
- Luiz Hoffmann;
- Günther Tranche;
- Eugen Kurz;
- Guilherme Mohr; (Nome está somente na lista original de Hermann Wendeburg)
- Hermann Echelberg;
- Henrique Kriegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
- Conrad Kriegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
- Fernando Schuhmacher; (Nome corrigido de acordo com documento original)
- Elias Müller; (Nome está somente na lista original do Sr. Hermann Wandeburg)
- Christiano Müller;
- Henrique Lucas;
- Miguel Kiegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
- Wendelin Kraemer;
- Ernesto Richter;
- Carlos Siebert;
- Otto Lobedan;
- Rodolf Wagner; (Nome corrigido de acordo com documento original)
- Jacob Jasper;
- Carlos Baucke;
- Christiano Lucas;
- Oscar Kluge;
- Christ Frederico Krüger;
- Augusto Persch;
- Guilherme Hafenstein;
- Fried Guilherme Gross;
- Julio Hartmann;
- João Fred Hafenstein; (Nome está somente na lista original do Hermann Wendeburg)
- Gottlieb Gneewuch;
- Fred Guilherme Krieger (Nome está somente na lista original do Hermann Wendeburg)
- Wilhelm Peters;
- Nicolau Hänche;
- Friederich August Thomas;
- Carl Sänberlich;
- Carl Hinze;
- Gustav Bosse;
- Friederich Giehe;
- Ludwig Helmbrech;
- Francisco Boehmer;
- Albert Marx;
- Carl Jansen;
- Heinrich Engel;
- Guilherme Fischer;
- Jacob Riedinger;
- Fr. Bähr;
- Paul Stahl;
- Christiano Witthoft;
- Johan Weisensee;
- Velentim Blasius;
- Hermann Kühendahl;
- Wilhelm Vogel;
- Fritz Riemer;
- Hermann Grahl;
- Eduard Köchy;
- Hermann Willerding;
- Johan Fischer;
- Hermann Geyer;
- Carl Luchtenberg;
- Ernst Scheefer;
- Carl Kressien;
- Woldemar von Zenschau;
- Fernando Ebert;
- Hugo Praun;
- João Oltmann;
- Isidor Hirt;
- Ricardo Ebert;
- Carlos Geier;
- Gottlieb Zeschke;
- Simon Kreiss;
- Heinrich Hansen
- Wilhelm Fischer
Publicação de Frederico Kilian sobre a Sociedade de Canto GermâniaVisitando o arquivo municipal de Blumenau, veio-me às mãos uma pasta com um maço de folhas amarelecidas. Na capa azul da pasta achava-se escrito com letras desbotadas pelo tempo, porém, em caligrafia bem traçada e impecável: "GERMANIA - Estatutos - atas - correspondências".Com muito cuidado, como se fossem asas de borboletas, manuseei estas folhas que o tempo amareleceu e tornou frágeis, e me profundei, com o interesse de um papelista, nos assuntos que elas continham.Logo as primeiras páginas cativaram toda minha atenção, pois continham o texto original dos "Estatutos da Sociedade de Canto da Colônia de Blumenau". Esta peça, que em seus três capítulos contém 13 parágrafos, traz a data de 3 de agosto de 1863.Está assinada por C. W. Friedenreich, como Presidente; Victor Gaertner, como Secretário e Pastor Oswald Hesse como Dirigente Musical.Seguem-se ainda as assinaturas de 27 sócios ativos. Como "Membros Sociais" assinaram H. Wendeburg, Georg Repsold, Fr. Löscke, Spierling, H. Breithaupt, E. Odebrecht, Oswald Zwicker, von Gilsa. W. Meyer, Dr. Knoblauch, O. Kluge, H. Willerding, C. Sasse, J. Baumgarten.Várias averbações marginais nos dão conta das alterações havidas no decorrer dos anos, por resoluções tomadas em assembleias gerais.Primitivamente a Sociedade denominava-se "Sociedade de Canto da Colônia de Blumenau", mas em uma destas averbações marginais consta o seguinte: "Por resolução unânime da assembleia de 10 de agosto de 1865, a Sociedade de Canto recebeu o nome de "Germania".Atenciosamente leio página por página, folheio folha por folha que contém a pasta. Seguem-se cartas, editais, propostas dirigidas às assembleias, atas de reuniões e de assembleias, relatórios e correspondência.Encontram-se nestas folhas as mais variadas caligrafias, aqui uma letra firme , angular, acolá outra cheia de arabescos, todas, porém, mostrando a cultura dos seus autores. E assim, inteiramente absorto na leitura destas folhas amarelecidas, parece-me que emborquei, no folheá-las, a ampulheta que Chronos talvez havia escondido entre as mesmas. Retrograda o tempo. O passado reaparece. Estamos no ano de 1866. Desfaz-se a neblina.Personagens ressaltam das trevas, vozes atingem meus ouvidos. Encontro-me numa modesta sala, onde os cantores se reúnem para o ensaio semanal. O Dirigente Musical Pastor Oswald Hesse, começa o ensaio por vozes - passagens difíceis são repetidas várias vezes; forma-se o coro com os tenores e os baixos que obedecem à batuta do dirigente. As melodias de velhas e conhecidas cantigas ressoam na sala. Todos se esforçam e prestam a máxima atenção, pois os ensaios já são os preparativos para o terceiro aniversário da fundação da Sociedade que se realizará no próximo mês de agosto deste ano de 1866.Depois do primeiro intervalo deste ensaio, o Presidente troca algumas palavras em voz baixa com o Dirigente. Recomeça o ensaio, a repetição das cantigas ensaiadas Levanta-se então o Presidente e solicita um momento de atenção. Algo de importante deve ter ocorrido, pois não é hábito o Presidente usar da palavra nas horas do ensaio. Todos os cantores olham com uma certa curiosidade para o Presidente, que tira uma carta do bolso e diz: "Dedicados consócios, cantores nossos que daqui partiram para dar sua vida e seu sangue Por nossa nova Pátria, o Brasil, nos enviaram um sinal de vida do longínquo Paraguai.Infelizmente esta carta, que é dirigida a nossa Sociedade de Canto, também contém a triste notícia de que seis cidadãos blumenauenses confirmaram com sua vida o seu amor e sua fidelidade a esta nossa nova pátria. O sangue destes blumenauenses que encharcou os campos de batalha em terras paraguaias e as lágrimas de suas famílias que regaram o nosso solo virgem aqui, são ligas mais fortes do que todos os tratados ou títulos de cidadania documentados. Quem deixa sua vida é quem derrama o seu sangue e suas lágrimas pelo Brasil, quem com árduo trabalho, banhado em suor e lama, se empenha dia a dia, tanto no sol como na chuva, a transformar esta mata virgem e hostil num lar florescente para seus filhos e netos, tem o incontestável direito de ser considerado e tratado neste país com a mesma igualdade dos demais cidadãos. E nosso coração está sangrando com os nossos consócios que estão lutando nos campos do Paraguai e nossas lágrimas caem sobre as cabecinhas loiras dos filhos órfãos dos que tombaram e banham as suas oficinas e o solo onde antes trabalhavam". - A seguir o Presidente, Sr. Victor Gaertner desdobra a carta recebida e lê: "PARAGUAI, em 13-6-66.A todos os Sócios da Sociedade de Cantores "Germania" as saudações dos consócios aqui presentes, com os melhores votos para uma festa de aniversário de fundação cheia de alegria. Desde algum tempo se vinha manifestando entre os alemães e principalmente entre os blumenauenses uma disposição triste e desalentada, motivada pelo fato de terem sido os alemães divididos e embarcados em dois destacamentos como equipação em 2 navios, porém, agora estamos outra vez satisfeitos, porque esta- mos novamente reunidos e isto em uma ilha na barra do Paraguai, na qual está sendo construído um grande hospital da marinha e a qual mantemos ocupada.Sempre alimentamos a esperança de podermos estar novamente em Blumenau por ocasião da festa da fundação da Sociedade, porém, esta esperança cada vez se torna mais, em fumo, pois não se nota que a " cousa vai adiante. Os brasileiros estão a 3 léguas de Humaitá. Entre os alemães grassou há algum tempo a febre fria, tendo alguns sofrido muito, porém, agora já estão todos melhor. De Blumenau morreram até agora: Chr. Muelier, Lobedan, Kurz, Küchendahl, W. Kremar e Wilhelm Fischer da Garcia.Eu sinto vontade de escrever ainda algumas linhas sobre o anterior Comandante do Contingente, porém, para descrever todas as más maquinações do mesmo, eu teria que encher ainda várias páginas; mas mesmo sem isso, ainda irão saber que, chega em Blumenau sobre o mesmo. Fritz Riemer, pede dar especiais lembranças a seus pais e avisá-los que na Direção, em Blumenau, se acha depositada para os mesmos a quantia de Rs. 20$000.Pedimos igualmente a todos transmitir lembranças nossas a todos os conhecidos de lá (assinaram a carta) H. Willerding, F. Riemer, C. Hinze" . - Profundo silêncio reinava durante a leitura desta carta. O Presidente determina que a mesma seja juntada aos documentos da Sociedade e incluída no arquivo desta. O Dirigente levanta a batuta e anuncia: "Agora vamos dedicar aos nossos irmãos cantores que lutam no Paraguai e aos que lá tombaram, á cantiga' do Bom 'Camarada, que o poeta alemão Ludwig Uhland escreveu e foi musicada pelo compositor Friedrich Silcher, ambos falecidos há poucos anos" .Suavemente o dirigente, Pastor Oswald Hesse, toca em seu violino um prelúdio à cantiga anunciada e a um sinal seu entram as vozes dos cantores. E na noite silenciosa da selva virgem, soa a comovente cantiga do Bom Camarada:
Eu tinha um camarada;Melhor quem pode achar?Quando o tambor rufava,Ao lado meu marchava,De passo sempre par.
Um registro para a História.
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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