domingo, 10 de maio de 2026

Loja Vivenda Decor - Odete Maria Poffo - Descendente do pioneiro trentino Ermenegildo Poffo (1837–1907) Ascurra/SC

Loja Vivenda - Trabalho de Odete Maria Poffo e família.
Há fatos que não esquecemos e que permanecem em nossas memórias como referência. Conhecemos Odete Maria Poffo, para além das práticas culturais e sociais, durante a década de 1990, em pleno trabalho — ou "lavoro". Para ela, não havia "tempo ruim".
Éramos recém-formadas (arquitetura) e participamos de uma mostra de decoração com nossas amigas no final daquela década e, posteriormente, no início dos anos 2000, já de forma independente. Nesses eventos, buscávamos parceiros que desejassem expor seus produtos naquela vitrine que se tornou a conhecida "Mostra Bordeaux", marco de uma época em Blumenau e região.




Recebendo convidados na Vivenda Decor - 2006.
Odete Maria Poffo
, na época também conhecida como Odete Maria Poffo Campestrini, nos atendia com vigor, empatia e um espírito de parceria — sempre prestativa e pronta para contribuir. Demonstrava profundo conhecimento em acabamentos de cortinas e em tudo o que envolvesse o assunto, desde os tecidos até os elementos decorativos, com uma leve tendência ao clássico, alinhada ao seu berço cultural: a Itália
Ela sempre esteve disposta a trabalhar em conjunto com nossa equipe em, pelo menos, quatro edições da Mostra Bordeaux. 

Odete Maria Poffo

Odete Maria Poffo nasceu em Ascurra, em 7 de maio de 1952, filha de Andreas Poffo (1931-1964) e Irma (Buzzi) Poffo
Seus pais casaram-se em Ascurra no dia 13 de outubro de 1951. Andreas era neto de pioneiros trentinos; seu pai, Ermenegildo Luigi Poffo (1877-1960), também nasceu em Ascurra e era casado com Lucia Laura (Venturi) Poffo (1885-1952).
Encontramos o nome do pai de Odete Maria registrado como Andréa. No entanto, como este prenome não é usual na Áustria e considerando a origem da família, temos plena convicção de que houve um erro de registro, sendo o correto Andreas.
Essa imprecisão documental era recorrente na época, mas, para fins de resgate histórico e genealógico, optamos por adotar a grafia correta, respeitando a onomástica da região de origem.
Ao casar-se com Lucia em 29 de junho de 1907, Ermenegildo já era viúvo de Rosina Amabile Girardi e tinha um filho, Narciso Poffo (1906-1997). O "Nono Gigio", como era carinhosamente chamado pelos netos, e a "Nona Lucia" tiveram 14 filhos, sendo Andreas, pai de Odete Maria, um dos mais novos da numerosa família.
Odete Maria Poffo nasceu na casa do Nono Gigio. in loco, encontramos e fotografamos sua mãe, Irma — sem saber, naquele momento, que se tratava da mãe de Odete.
Casa do Nono Gigio. Ascurra/SC. Andreas pode ser uma das crianças menores. Ascurra/SC
Casa do Nono Gigio. Ascurra/SC.

Madeira beneficiada a mão - falquejada. Ascurra/SC

Madeira beneficiada a mão - falquejada. Ascurra/SC

Casa do Nono Gigio. Ascurra/SC.

Casa do Nono Gigio. Ascurra/SC.

Irma Poffo, mãe de Odete Maria, na porta da casa do Nono Gigio, onde nasceu Odete, Ascurra/SC.
"Eu nasci nesta casa de Nonno Gigio Poffo. Nós conservamos a casa até hoje. Faz parte de nossas raízes italianas." Odete Maria Poffo Campestrini
 Levico Terme, Áustria, atualmente território da Itália - local do casamento do casal pioneiro Poffo.

O casal pioneiro da família foi Ermenegildo Poffo (1837–1907) e Fausta (Libardi) Poffo (1840–1916), pais do Nono Gigio. Eles se casaram em Levico Terme, atual Itália, no dia 13 de abril de 1861, e tiveram 16 filhos. Na época, fazia parte do território da Áustria.
Localização da terra natal dos Poffo, Levico Terme.
A família pioneira Poffo chegou ao Brasil em 31 de dezembro de 1876, a bordo do Vapor Ville de Santos, proveniente do porto de Havre. Naquela época, a família era composta por Ermenegildo Poffo, Fausta (Libardi) e seus filhos: Rosa Violante, Giuseppe, Enrica Maria, Giordano Luigi, Michele (Miquêle) Magoriano e Maria Giuseffa.
Em Santa Catarina, o patriarca Ermenegildo Poffo e sua família instalaram-se na Colônia Blumenau, especificamente no território que hoje compreende a cidade de Ascurra. A chegada definitiva à Colônia ocorreu em 11 de março de 1877; o "Nono Gigio" tinha apenas dois dias de vida, tendo nascido em 9 de março de 1877, em meio à jornada. A família foi inicialmente encaminhada ao lote nº 40 da linha Ribeirão São Paulo, sendo posteriormente transferida para o lote nº 13 da mesma linha colonial, em Ascurra, na época território da Colônia Blumenau.






Lotes Coloniais definidos em 1874 pelos agrimensores da Colônia Blumenau - Local marcado da propriedade do colono Ermenegildo Poffo e da Igreja Matriz de Ascurra.

Localização atual do traçado histórico. Google Earth.
Odete Maria Poffo nunca perdeu suas raízes em Ascurra, mesmo residindo e trabalhando em Blumenau. 
Família, Ascurra/SC.

Odete Maria Poffo e José Campestrini.
Casou-se com o professor José Campestrini (1946–2022), ex-agente consular honorário em Blumenau. Juntamente com ela, ele foi um dos fundadores dos Círculos Italianos de Blumenau e de Balneário Camboriú, reforçando o compromisso do casal com a preservação da herança cultural. O casal teve dois filhos: Johnny e José Jr..
Odete Maria Poffo e família - fundadora da Vivenda

Como mencionado, conhecemos Odete Maria Poffo em pleno trabalho em sua loja, a Vivenda. Chamou nossa atenção o fato de ela ser uma das pessoas que mais trabalhava entre todos — familiares ou colaboradores. Sua energia e determinação eram contagiantes. Posteriormente, ela participou da montagem de nossos ambientes em pelo menos quatro edições da Mostra Bordeaux, além de colaborar e fornecer para diversos outros projetos nossos de arquitetura e de interiores.
Projeto de nossa autoria, 2000.
Projeto de nossa autoria, 2000. Com peças da Vivenda.

Projeto de nossa autoria, 2000. Com peças da Vivenda.
A loja Vivenda Cortinas e Decorações Ltda., fundada por Odete Maria Poffo em 4 de maio de 1977, iniciou suas atividades na Rua XV de Novembro, no centro de Blumenau, atendendo exclusivamente o mercado de cortinas. Como grande parte da cidade, o estabelecimento foi atingido pelas grandes enchentes de 1983 e 1984, o que motivou a mudança de endereço para a Rua Amadeu da Luz — local onde viemos a conhecer Odete Maria Poffo.
Durante esse período, ela buscou constante aperfeiçoamento, realizando inúmeros cursos de História da Arte, Decoração e Design em centros especializados no Brasil e na Itália. 
Em 1999, a empresa construiu sua sede própria no bairro Vorstadt. Com a mudança, o nome e o mix de produtos foram ampliados, passando a oferecer soluções completas para a montagem de ambientes. A marca expandiu-se ainda com uma filial em Balneário Camboriú e um showroom em Itapema.

Seu filho, Johnny André Campestrini, passou a atuar ao lado de Odete, assumindo uma importância estratégica dentro da empresa e tornando-se o gerente da unidade de Balneário Camboriú.
Quando a loja mudou-se para a Rua Itajaí, nº 2021, no bairro Vorstadt, o objetivo foi transformá-la em uma verdadeira central de decoração. Com essa nova proposta, o empreendimento passou a se chamar Vivenda Decor. Seus amplos espaços ofereciam, além das tradicionais cortinas, um mix variado de produtos: utilidades domésticas, itens de cama, mesa e banho, tapetes de diversos estilos, persianas, colchas, almofadas e mantas.
Loja Vivenda Decor - Bairro Vorstadt, Blumenau/SC

Loja Vivenda Decor - Bairro Vorstadt, Blumenau/SC

Loja Vivenda Decor - Bairro Vorstadt, Blumenau/SC

Loja Vivenda Decor - Bairro Vorstadt, Blumenau/SC
A curadoria da Vivenda Decor também incluía móveis alinhados aos mais apurados gostos — tanto clássicos quanto contemporâneos —, assinados por designers nacionais e internacionais. A exposição contava com salas de jantar e de estar, quartos, móveis de apoio, home theaters, além de soluções para cozinhas, churrasqueiras e áreas de piscina.
Odete possuía, naturalmente, um olhar apurado para a composição de ambientes e a definição de estilos, sentindo-se plenamente realizada em sua profissão.

"Quando se vem de uma família onde os valores morais e culturais são a base, aprende-se que as pessoas devem ser felizes. Este é o grande segredo que nos impulsiona a sermos arrojados. [...] É preciso  gostando do que se faz, reciclar, persisitir, assumir riscos com responsabilidade, ter foco nos negócios e objetividade. É transformar informações em conhecimentos, ser mobilizador, pró-ativo, criativo, inovador, ter idéias, ser articulador, ter autoestima motivada, visão sistemica. É saber trabalhar sob pressão numa política sócio-financeira instável..."    Entrevista de Odete Maria Poffo - cedida em 2006

Família - Ascurra/SC.
Como mantenedora da cultura ancestral de sua família e das atividades culturais italianas em toda a região, a arquitetura da nova loja foi inspirada em conceitos clássicos greco-romanos. Apreciava comentar que a Vivenda Decor constituía um marco arquitetônico desse estilo em Blumenau e região.
O idealizador intelectual do projeto buscou estilizar ruínas gregas e elementos da cultura italiana, em uma tentativa de remeter à imigração regional e reverenciar os antepassados. Odete nunca se afastou de suas raízes; a casa do "Nono Gigio" ainda permanece na paisagem de Ascurra, local onde a família sempre se reunia em torno da matriarca, Irma Poffo.
Além de sua marcante atuação profissional e cultural, Odete Maria sempre dedicou-se a trabalhos sociais. Foi nessa trajetória que a reencontramos, desta vez na senda das Soroptimistas, em 2013.

Quem é Odete Maria Poffo? (2006)

Uma pessoa simples e autêntica. Sempre antenada em tudo o que acontece em sua volta e no universo. Que procura fazer o bem sem olhar a quem.  Entrevista de Odete Maria Poffo - cedida em 2006
Com a irmã Lizete Anelise Laura Poffo.

Atualmente Odete
Sede da Zeus do Brasil, está instalado no endereço, onde estava Vivenda
Maria Poffo r
eside em Balneário Camboriú.
A loja Vivenda Decore, localizada na Rua Itajaí, no bairro Vorstadt em Blumenau, encerrou suas atividades e deu lugar à nova sede da Zeus do Brasil, cujas obras de substituição foram anunciadas no início de 2019, com inauguração marcada para 6 de março daquele ano
Odete Maria Poffo.
Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Estações ferroviárias da EFSC: Encano, Indaial e Warnow — Em destaque no trabalho coordenado pela Fundação Indaialense de Cultura: 117 anos de história

Durante a Semana Nacional dos Museus, a Fundação Indaialense de Cultura — por meio do Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva, representado por Luiz Claudio Altenburg — promoveu um encontro entre pesquisadores regionais para trocas de conhecimento e ideários. O evento viabilizou um registro em vídeo no local da Estação de Warnow, com foco nas três estações ferroviárias que pertenceram à EFSC localizadas no território de Indaial: Encano, Indaial e Warnow.
As três estações ferroviárias de Indaial fizeram parte do primeiro trecho ferroviário, inaugurado em 3 de maio de 1909. Naquela época, Indaial e todo o Médio e Alto Vale do Itajaí pertenciam ao território de Blumenau.
Mapa desenhado por José Deeke - 1905. Território de Blumenau.
Parte do mapa de Dr. Wettstein, engenheiro alemão que desenho rota de caminhos na região, na virada do século XIX para o XX. Utilizou o mapa de Deeke de 1905.

São estações importantes que compunham o primeiro trecho inaugurado da EFSC em 1909 e que foram construídas no território que hoje pertence ao município de Indaial. Na ocasião, juntamente com outras quatro estações, formavam o traçado inicial de 117 anos atrás.
As estações que compunham o trecho original da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC), inaugurado oficialmente em 3 de maio de 1909, conectavam Blumenau ao núcleo de Warnow, em Indaial.
Os nomes das estações e paradas deste traçado inaugural eram:
1) Estação Blumenau (Km: 47,970): A sede da ferrovia, localizada onde hoje está a Prefeitura de Blumenau.
2) Parada Itoupava (Km 50,778): Localizada na região da Itoupava Seca.
3) Estação Salto (Km 56,57): Situada no bairro Salto Weissbach. (1,82 km)
4) Estação Passo Manso (Km 58,39): Localizada em Blumenau. (6,60km)
5) Estação Encano (Km 64,981): Já em território de Indaial. (4,98km)
6) Estação Indaial (Km 69,962): Estação central da cidade, que atualmente abriga o Museu Ferroviário. (8,70km)
7) Estação Warnow (Km 78,654): Ponto final da cerimônia de inauguração em maio de 1909.

Mapa acervo do Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva.

A direção da Companhia Estrada de Ferro Santa Catarina deliberadamente escolheu o dia 3 de maio de 1909 para a inauguração deste primeiro trecho, a fim de coincidir com a data de aniversário do descobrimento do Brasil (celebrado em 3 de maio na época), fato lembrado posteriormente nos discursos das autoridades presentes ao evento.
2026 - Google Earth.


Estações no território de Indaial (atual)

1) Encano (Indaial) – km 65,891 

A primeira estação de Encano da EFSC foi construída com a técnica enxaimel, sob supervisão do engenheiro tcheco Ludwig Muzika
Ela possuía fechamentos com tijolos maciços rebocados e caiados de branco. A estrutura do telhado era em madeira, com telhas planas. Teve uma ampliação, criando uma simetria que não existia. Recebemos uma fotografia de Isa Meyer, filha de seu antigo agente ferroviário, que mostra a estação ainda com a primeira volumetria, feita na década de 1920. 
Na sequência, uma fotografia da Fundação Cultural de Blumenau mostra a Estação de Encano ampliada e com a simetria de fachada.
Para a ampliação, foi observada a posição exata dos Strebe dentro da estrutura, inclinados para dentro. É possível observar o acabamento muito bem feito nas quinas do madeirame estrutural.
Também existe o registro fotográfico com outro agente ferroviário, Rodolf Sprengel, da família do Salto Weissbach.
A estação foi demolida em 1982. Isa Meyer, filha do agente Ferdinand Klein, também nos repassou uma fotografia da Estação de Encano de 1977.


Na frente da Estação do Encano, o agente ferroviário Klein, pai de Isa Meyer.
Estação do Encano com a ampliação, criando a simetria da fachada. Novas construções no entorno.

Do acervo de Luiz Carlos Henkels - publicado no livro A Ferrovia no Vale do Itajaí.
Rudolf Sprengel foi o primeiro agente ferroviário da Estação do Encano que está localizada no atual município de Indaial (SC) e parte da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC).
Rudolf Sprengel trabalhou como agente na Estação de Encano desde a sua inauguração, em 1909, até o ano de 1917.
A residência da família Sprengel e a estação ficavam na região do atual Salto Weissbach/Encano, na Rua Bahia, em Blumenau, próximo à atual Comercial Sprengel.
Residência de Rudolf Sprengel, na Rua Bahia, Salto Weissbach - Blumenau/SC.
Estação do Encano em 1977 - Acervo Isa Meyer - publicada no livro "A Ferrovia no Vale do Itajaí - Estrada de Ferro Santa Catarina".
2) Indaial – km 69,962 

Indaial também teve duas estações. A primeira, inaugurada paralelamente à abertura do primeiro trecho entre Blumenau e Warnow, foi construída com a técnica construtiva enxaimel; a segunda seguiu a tipologia das estações em estilo art déco, construídas a partir da década de 1940 e seguindo a ideologia vigente presente no período do Nacionalismo.
Atualmente, o local abriga o Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva, preservando parte da história da Estrada de Ferro Santa Catarina e sendo responsável pelo encontro de pesquisadores ocorrido na Semana Nacional dos Museus.
Foi neste local que encontramos demais pesquisadores e a equipe responsável.
Acervo de Bruno Kadletz - publicado no livro A Ferrovia no Vale do Itajaí.



3) Warnow – km 78,654 

Assim como Indaial, Warnow teve duas estações. A primeira, também inaugurada paralelamente à inauguração do primeiro trecho entre Blumenau e Warnow, em 1909 e a segunda, construída na década de 1940.
A Estação de Warnow, localizada em Indaial (SC), foi inaugurada em 3 de maio de 1909 como o ponto terminal inicial da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC), conectando-a a Blumenau. O local foi crucial para o desenvolvimento regional, tornando-se estação intermediária pouco tempo depois e sendo desativada em 1971
O primeiro trecho da EFSC, com 30 km, ligava Blumenau ao núcleo de Warnow (atual bairro Warnow, em Indaial).
Tornou-se estação intermediária após a expansão para Ascurra. O primeiro edifício, construído com a técnica construtiva enxaimel, foi substituído, na década de 1940, por uma segunda construção,  no estilo da ideologia política vigente - art decó, que, apesar de desativada em 1971, permaneceu no local.
Atualmente faz parte da memória da história da EFSC, em estado de ruinificação, que teve 184 km de extensão máxima, ligando o Vale do Itajaí de Blumenau até a região do Alto Vale.


Inauguração do 1º Trecho da EFSC, contando com a presença da 3 estações de Indaial - Há 117 anos
Texto do livro "A Ferrovia no Vale do Itajaí - Estrada de Ferro Santa Catarina"

Clicar sobre.
No dia da inauguração oficial, de acordo havia um grande público presente, sendo que, deste, aproximadamente 200 pessoas eram convidados que estavam hospedados em Blumenau para a data. Vale destacar que entre as autoridades estavam somente pessoas relacionadas à construção e lideranças políticas e empresariais da região, sem a presença de alguma autoridade de Florianópolis, exceto a do Deputado Cel. Feddersen, que residia em Blumenau. Entre as autoridades presentes merecem destaque os nomes do Cel. Crispim Ferreira, comandante e oficial do 55º. Batalhão de Caçadores; do Engenheiro Scheffler, representante da sociedade construtora; do Cel. Pedro Christiano Feddersen, representante do governo do Estado; e o do engenheiro Muzika, engenheiro-chefe. Todo o pátio da estação de Blumenau foi tomado por pessoas da comunidade que testemunharam o evento, e grande parte delas estava no trem da viagem inaugural entre a sede da Colônia Blumenau e Warnow.
Pelas oito e meia da manhã, a locomotiva dessa composição, soltando largos rolos de fumo e estridentes apitos, apareceu transpondo a ponte do “Velha”, toda ornamentada de palmas, flores, bandeiras e escudos do Brasil e da Alemanha, vinda da estação de Itoupava Seca, onde ficavam a oficina e os abrigos de carros e máquinas.
A banda de música do 55º Batalhão, gentilmente cedida pelo seu comandante, à chegada dos convidados executava peças de seu repertório, provocando admiração e aplausos gerais. 
Às 8 horas e 30 minutos da manhã do dia 3 de maio de 1909, uma das duas locomotivas que chegara a Blumenau após a Macuca surgiu na ponte do ribeirão da Velha, sob festivos apitos. Ela estava ornamentada com palmas, flores, bandeiras e escudos do Brasil e da Alemanha, e veio até a estação principal de Blumenau das oficinas localizadas na Itoupava Seca, onde, atualmente, se situa o Campus II da FURB.
O engenheiro Scheffler, o Cel. Feddersen e o engenheiro Muzika subiram à plataforma do primeiro carro de passageiros, de onde o engenheiro Scheffler discursou para todos, enaltecendo a importância da inauguração do primeiro trecho ferroviária da EFSC. Mencionou, na ocasião, as inúmeras tentativas e projetos de se implantar uma ferrovia do Vale do Itajaí. Abaixo, parte do discurso de Scheffer: 
Referiu-se ainda o orador aos vários projetos que haviam sido elaborados e abandonados e aos esforços que, por mais de 25 anos, vinham fazendo as autoridades e o povo de Blumenau no sentido de concretizar uma das maiores aspirações. Fez, por fim, votos para que os 30 quilômetros de estrada que iam ser inaugurados servissem de fundamento para uma grande ferrovia que, partindo do porto de Itajaí, fosse até as fronteiras com a Argentina e o Paraguai. (SILVA, 1969, p. 85).
Após o discurso do representante da sociedade construtora da EFSC, o representante do governo estadual, Cel. Pedro Christiano Feddersen, cortou a fita inaugural, declarando aberto o tráfego do trecho entre a sede de Blumenau e Warnow, em Indaial. A seguir, de acordo com a narrativa de Silva (1969, p. 85), convidados e populares lotaram, não somente os três carros previstos no trem, como também vários outros extras, que foram acoplados, nos quais haviam sido colocados cadeiras e bancos para atender ao maior número possível de pessoas que desejassem participar da primeira viagem de trem na EFSC.
 O trem rumou à estação de Itoupava Seca, onde foi recebido, igualmente, por grande festa popular, e assim se sucedeu em todas as demais estações,   até o final do trecho inaugurado na localidade de Warnow, na extensão de 30 quilômetros. 
Todas as estações estavam festivamente adornadas de palmas e bandeiras. À chegada do trem, espocavam nos ares centenas de foguetes e, em alguns lugares, conjuntos musicais faziam-se ouvir. A banda do 55º, que também seguira num dos vagões, tocava lindas marchas e dobrados, arrancando aplausos e admiração dos colonos reunidos ao longo da linha, coisa que, muitos deles, nunca haviam visto nem ouvido. (SILVA, 1969, p. 85).
Em Warnow, o trem foi recebido – não diferentemente das outras estações do trajeto – com muita festa. As crianças de todas as escolas estavam agrupadas em frente à estação, ouvindo-se o som de foguetes e acordes musicais. Muitas pessoas apreciavam o evento na estação e ao longo da linha férrea.
Nessa estação, ponto terminal do trecho inaugurado, desceram os convidados, que foram saudados, com alguns cantos e recitativos, pelos alunos da escola regida pelo professor Hoffmann, depois do que o Sr. Leopoldo Hoeschel fez uso da palavra, para enaltecer os esforços do Cel. Pedro Feddersen em prol da construção da ferrovia e do engenheiro Muzika, que também foi incansável.
Todos os convidados desembarcaram na estação de Warnow, que estava com seu ambiente externo montado e ampliado com a ajuda de um toldo, sob o qual foi servido um coquetel com sanduíches, cucas, bolos e bebidas. No interior da estação um coquetel foi igualmente servido, reservadamente, ao Cel. Crispim Ferreira e seus oficiais, ao Cel. Feddersen, ao vice-cônsul alemão Landmann e a outros convidados, entre os quais engenheiros da sociedade construtora, banqueiros e empresários locais.
O Cel. Feddersen usou da palavra para saudar o Exército Brasileiro na pessoa de seus representantes e fez votos para que a amizade e as boas relações entre o Brasil e Alemanha prosseguissem se estreitando cada vez mais, para o bem e o engrandecimento das duas grandes nações. O Cel. Crispim respondeu, terminando por levantar um “viva!” à Alemanha, que foi correspondido com entusiasmo, tocando a banda militar uma canção patriótica alemã. O vice-cônsul levantou um brinde à boa amizade brasileiro-germânica, ao Brasil e a Blumenau.
Foram ainda encarecidos pelos oradores os esforços da diretoria da sociedade construtora, dos banqueiros que forneceram os meios pecuniários necessários, do engenheiro Goes, fiscal do governo, dos demais engenheiros e empreiteiros. 
Os convidados e participantes da primeira viagem inaugural do trem da EFSC, após a parada na estação, fizeram um passeio em Warnow e visitaram a residência do Sr. Leopoldo Hoeschel, onde, igualmente, foram servidos doces e bebidas. Depois, retornaram ao trem e fizeram a viagem de volta à estação de Blumenau.
Os trens de passageiros e cargas da EFSC começaram a trafegar regularmente, entre Blumenau e Warnow, no dia 4 de maio de 1909. Partiam da Estação de Blumenau, na Praça Victor Konder, às 6h30 e chegavam a Warnow às 8h28, retornando às 10h e chegando a Blumenau às 11h58. Faziam o percurso de 30 quilômetros em duas horas. A passagem de 1ª classe custava 3 mil réis (U$ 9,30), e 1$800 (U$ 5,58) a de segunda .
Assim, foi inaugurado o primeiro trecho ferroviário da EFSC. As obras prosseguiam para o interior, sentido oeste, em direção ao núcleo de Subida (localidade de Aquidaban, atual Apiúna).
O tema da Semana Nacional dos Museus desse ano é Museu: Unindo um Mundo Dividido. Esse tema está bem relacionado com a EFSC. Como podemos hoje refletir sobre a história dessa ferrovia?

A ferrovia regional, materializada na Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC), foi uma das questões do planejamento regional dos pioneiros alemães.
Surgiu em um contexto de isolamento geográfico, quando a região era desprovida de infraestrutura de caminhos e o acesso dependia exclusivamente do transporte marítimo e fluvial pelos portos litorâneos. O esforço inicial de abertura das picadas culminou, em menos de seis décadas após a imigração, na inauguração do primeiro trecho ferroviário da Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC) entre Blumenau e Warnow.
Acervo de José Carlos Henkels - publicado no livro A Ferrovia no Vale do Itajaí.
Em sua concepção máxima, a EFSC possuía um caráter transcontinental: pretendia conectar o Atlântico à Argentina, integrando uma nova rede de núcleos urbanos e povoados recém-criada, e viabilizando o escoamento da produção industrial emergente no Vale do Itajaí, a partir da indústria alimentícia nascente.
Por diretrizes políticas e econômicas, o Brasil priorizou a expansão rodoviária em detrimento da malha ferroviária. Em um país de dimensões continentais, a ausência de uma intermodalidade concreta — que integre os sistemas marítimo, ferroviário, cicloviário e rodoviário — revela uma lacuna no planejamento, ao contrário de nações que mantiveram o modal ferroviário ativo, modernizando traçados e incorporando tecnologias atuais.
No âmbito da preservação patrimonial, poucos municípios — a exemplo de Rio do Sul, Ibirama, Indaial, Apiúna, Rio Negrinho e Curitiba — investiram na manutenção e preservação da memória de um sistema que ainda poderia estar operante e integrado na região (Santa Catarina). Tais iniciativas são fundamentais, pois preservam fragmentos de uma identidade técnica, histórica e sociocultural que foi dramaticamente suprimida da paisagem regional e do Brasil.
 - 100 anos após a foto anterior (macuca) - Estação de Warnow em 2008.
Debate promovido pela Fundação Indaialense de Cultura/Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva

Como mencionado, em 4 de maio de 2026 — um dia após o 117º aniversário de inauguração do primeiro trecho ferroviário da EFSC —, a Fundação Indaialense de Cultura, por meio do Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva e mediada por Luiz Claudio Altenburg, convidou-nos, juntamente com os pesquisadores Luiz Carlos Henkels (Indaial/SC) e Claudio Júnior (Timbó/SC), para um debate sobre o trecho ferroviário inaugurado e as estações que compõem este patrimônio localizadas no território do município.
Esteve presente a equipe de profissionais do setor da Prefeitura de Indaial: William Diego Schroeder, Graciely Guesser Ramos, Emilly Coelho Farias e Henrique Bona Peters, integrantes do Setor de Comunicação
O grupo seguiu até as ruínas da estação ferroviária de Warnow, onde foram gravadas imagens e entrevistas com os três convidados para compor uma matéria a ser divulgada nas redes sociais do município.
Após os trabalhos externos, o grupo dirigiu-se ao Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva, onde ocorreu uma mesa-redonda gravada em áudio e coordenada por Luiz Claudio Altenburg. Também esteve presente Jeremias Soares Lopes (estagiário de História - FURB).
Museu Ferroviário de Indaial - Plataforma em granito de Lontras.
Tudo foi devidamente registrado para a história, partindo da memória ferroviária regional existente no tempo presente com base em sua trajetória pretérita, servindo de lastro para a memória futura. Assim que o trabalho for disponibilizado, elencaremos o link neste espaço.

As Imagens comunicam...
Ladrilho Hidráulico - Museu Municipal Ferroviário Silvestre Ernesto da Silva.

Vídeo






Ladrilho Hidráulico - Estação de Warnow.



















Henrique Bona Peters, Emilly Coelho Farias, Graciely Gesser e William Diego Schroeder - Setor de Comunicação da Prefeitura de Indaial.















William Diego Schroeder, Henrique Bona Peters, Emilly Coelho Farias, Graciely Gesser - Setor de Comunicação da Prefeitura de Indaial.







Claudio Júnior, Luiz Claudio Altenburg e Luiz Carlos Henkels.

Claudio Júnior, Luiz Carlos Altenburg, Luiz Carlos Henkels e Angelina Wittmann.
















História nem tão antiga assim.




No Caminho entre as estações de Warnow e Indaial - resquícios da EFSC










Luiz Claudio Altenburg, Roberto Wittmann, Henrique Bona Peters, Luiz Carlos Henkels, Emilly Coelho Farias, William Diego Schroeder, Claudio Júnior, Graciely Guesser Ramos e Angelina Wittmann.






Novamente no museu ferroviário para prosseguir os trabalhos...










Claudio Júnior, Angelina Wittmann, Luiz Claudio Altenburg, Luiz Carlos Henkels e Jeremias Soares Lopes. 

Um Registro para a História...

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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Referências
  • GERLACH, Gilberto S.; KADLETZ, Bruno K.; MARCHETTI, Marcondes. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. 1. ed. São José: Clube de cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019.
  • GIESBRECHT, Mennucci Relph. Estações ferroviárias no Brasil. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/index.html> Acesso em: 14 jun. 2022.
  • VIDOR, Vilmar. Indústria e urbanização no nordeste de Santa Catarina. Blumenau: Edifurb, 1995. 248p, il.
  • SILVA, José Ferreira. História de Blumenau. -2.ed. – Blumenau: Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988. – 299 p.
  • WETTSTEIN, Phil. Brasilien und die Deutsch-brasilieniche Kolonie Blumenau. Leipzig: Verlag von Friedrich Engelmann, 1907.
  • WITTMANN, Angelina C. R. A ferrovia no Vale do Itajaí: Estrada de Ferro Santa Catarina: Edifurb, 2010. – 304 p. :il.