| Passando por Lages em agosto de 2026 - para a pesquisa. Local do Morro Grande/Morro da Cruz. |
Ao avançarem pelo interior, esses pioneiros fundaram diversos núcleos urbanos, dando origem à rede de cidades do Vale do Itajaí integrada às localidades serranas.
Trata-se de um tema que nos atrai por múltiplos aspectos:
A partir da visão regional dos primeiros imigrantes e lideranças da Colônia Blumenau, articulou-se uma rede de caminhos para consolidar conexões comerciais no final do século XIX. Esse projeto valorizou o entreposto localizado em Südarm, no raso do Rio Itajaí do Sul — atual município de Rio do Sul —, por onde transitavam as mercadorias do Vale e da Serra.
| Do livro publicado na Alemanha "Brasilien Und Die Deutsch-brasilianische Kolonie Blumenau" do engenheiro - Dr. Phil Wettstein. Na região de Lages. |
A partir dali, estabeleceu-se a ligação direta com Lages e, paralelamente, o projeto da Estrada Blumenau-Curitibanos, projetada e executada por Emil Odebrecht, com o objetivo estratégico de alcançar a fronteira com a Argentina
Foram muitos os viajantes, tropeiros e comerciantes que abriram as picadas por onde transitavam as tropas de mulas, como também a tropa de Jorge Vieira de Camargo. A evolução dos transportes acompanhou as transformações da região, em uma transição na qual os passos de mulas deram lugar aos carros de boi e carroções, coexistindo e integrando-se quase simultaneamente à chegada do trem e ao surgimento dos primeiros automóveis.
Apresentamos a história de um tropeiro em particular e de sua família, buscando compreender a vida privada dessas pessoas (social e econômica) em um período no qual o deslocamento entre regiões envolvia relações de tempo, distância e contexto completamente distintas das atuais.
Trata-se de Jorge Vieira de Camargo (1913-2001), oriundo de uma família pioneira de tropeiros de Bom Jesus (RS) — antigo distrito de Vacaria (RS), do qual se emancipou um ano antes do nascimento do ex-tropeiro. Ele migrou acompanhando as tropas, passou por Lages e constituiu família em Urubici, onde deu continuidade à atividade tropeira conduzindo tropas de mulas até Palhoça, Jaguaruna (cujo percurso cruzava a Serra do Corvo Branco) e Südarm (atual Rio do Sul)
| Caminho comuns por onde passava a tropa que trabalhava Jorge Vieira de Camargo. |
A Família Camargo das Serras Catarinense e Gaúcha
Origem da Família Camargo e as Tropas
Para compreender a trajetória da família que se estabeleceu em Vacaria (RS), é preciso retroceder às origens do sobrenome Camargo, de antiga ascendência ibérica. A família provém do Vale de Camargo, localizado na região da Cantábria (Montanhas de Burgos, no norte da Espanha).
No Brasil, a linhagem teve início com a chegada do pioneiro Jusepe Ortiz de Camargo a São Vicente (SP), por volta de 1583. Seus descendentes consolidaram-se como uma das principais forças políticas e militares da Vila de São Paulo no século XVII, protagonizando episódios marcantes como o conflito entre os Pires e os Camargo, antes de iniciarem a expansão em direção ao Sul.
A conexão da família Camargo com Bom Jesus (RS) constitui uma extensão direta da própria história de Vacaria (RS). Durante todo o século XIX, Bom Jesus (RS) figurou como o 3º Distrito de Vacaria (RS) — conhecido como Costa do Mar —, conquistando sua emancipação política apenas em 1913, ano de nascimento de Jorge Vieira de Camargo.
A Migração dos Camargo - de São Paulo para o Sul
Para compreender com mais detalhamento a história da família Camargo na região de Vacaria (RS), no século XIX, é necessário conectá-la ao fenômeno do tropeirismo e à própria fundação econômica dos Campos de Cima da Serra e de Lages. A família integrava o fluxo de povoamento que se deslocou entre São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, impulsionado pelo comércio de gado e mulas, bem como pela abertura dos caminhos das tropas.
Os Camargo que se estabeleceram no Rio Grande do Sul descendiam de pioneiros paulistas. Sua rota de migração esteve intimamente associada à tropeirismo: seus membros chegaram ao Sul do Brasil atuando ao longo do Caminho das Tropas — também conhecido como Estrada Real do Sul —, a histórica via comercial que conectava as pastagens sulistas ao mercado de Sorocaba, em São Paulo.
A região de Vacaria (RS) era conhecida originalmente pelos jesuítas como Vaqueria de los Piñales. Seus imensos campos naturais, entremeados por florestas de araucárias, serviam como um gigantesco criatório de gado livre e ponto de paragem crucial para os tropeiros engordarem os animais antes de seguir viagem em direção a São Paulo. Essa vasta reserva funcionava como ponto de invernada e descanso essencial. Vale lembrar que, ao longo do tempo, as estradas abertas pelas lideranças da Colônia Blumenau viabilizaram os embriões de muitas das atuais cidades do Vale do Itajaí, localizadas junto a essas novas ramificações por onde passavam as tropas além da Estrada Real do Sul.
Inicialmente itinerantes ou comerciantes de gado, vários ramos da família Camargo adquiriram sesmarias ao longo do século XIX e fundaram fazendas de criação nos Campos de Cima da Serra, consolidando sua presença e sua contribuição para o desenvolvimento econômico regional a partir da atividade tropeira.
O ramo de Miguel Antônio de Camargo (1797–1886) — identificado em alguns documentos como Miguel Joaquim de Camargo —, antepassado de Jorge Vieira de Camargo, constitui um dos troncos familiares mais documentados e expressivos de Vacaria (RS) durante o século XIX. Seus registros retratam com clareza a típica transição geracional do período imperial brasileiro.
Quando Miguel Antônio de Camargo nasceu em 1797, seu pai, Bento Antônio de Camargo, tinha 50 anos, e sua mãe, Josefa Maria de Jesus, 42 anos. Ele se casou com Joana Rosa da Silva em 6 de fevereiro de 1815, na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Rio Pardo (RS).
“Aos 3 de julho de 1886, nesta paróquia de Vacaria, faleceu, sem assistência médica, o Tenente Coronel Miguel Joaquim de Camargo, natural desta Província, com 96 anos de idade, casado com Dona Cristina Borges dos Santos Camargo. Não recebeu os últimos socorros de Nossa Igreja por não os ter pedido. Foi encomendado e sepultado no Cemitério de Santa Cruz desta Vila, de que, para constar, lavrei o presente que assino”. Freguesia de N. S. da Oliveira de Vacaria, Livro 20 de óbitos, fl. 37. Imagem 84
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A rotina e o perfil da família Camargo no século XIX eram ditados pela própria estrutura agrária da época. Viviam em fazendas marcadas pelas taipas de pedra — muros erguidos manualmente sem argamassa para delimitar as propriedades e conter o gado —, uma expressiva herança cultural da arquitetura tropeira, a qual fotografamos em Lages (RS) em agosto de 2026.
Como proprietários de terras e integrantes da elite agrária serrana, os membros da família exerciam papéis de liderança local: assumiam postos na Guarda Nacional, participavam ativamente das irmandades religiosas e articulavam-se por meio do complexo sistema de compadrio e da partilha de heranças que estruturavam as relações sociais da região. Quando Miguel Joaquim de Camargo faleceu, exibia a patente de tenente Coronel. Ele foi o avô do avô de Jorge Viera de Camargo.
Os Camargo de Bom Jesus (RS) para Lages (SC)
A descendência dos Camargo em Bom Jesus ramificou-se a partir dos filhos de Miguel Antônio de Camargo (1797–1886) e Joana Rosa da Silva (1799 – 1879).
Ao buscarem novas terras para a criação de gado e o estabelecimento de fazendas, os descendentes fixaram-se nos distritos vizinhos de Vacaria (RS).
Os casamentos na região eram estratégicos e uniam os Camargo às poucas famílias que dominavam os Campos de Cima da Serra, tais como os Vieira, os Silva, os Oliveira e os Rosa. Nome de famílias que se encontraram com os descendentes dos pioneiros Camargo.
Um dos principais ramos documentados em Bom Jesus (RS) é o de João Vieira de Camargo, neto de Miguel Antônio de Camargo e de Joana Rosa da Silva (1799–1879), pai de Cypriano Vieira de Camargo e avô de Jorge Vieira de Camargo — figura central desta publicação.
João Vieira de Camargo teve marcante presença local na transição do século XIX para o século XX. Ele teve filhos com Mariana, mulher escravizada de sua propriedade, os quais foram por ele legitimados e receberam seu sobrenome. Seus descendentes constituíram uma expressiva base residencial nas áreas urbana e rural de Bom Jesus (RS) e de Lages (SC).
No contexto prático das propriedades rurais do século XIX onde havia pessoas escravizadas, as relações entre senhores e mulheres escravizadas faziam parte da rotina das fazendas e contavam com a aceitação factual da Igreja Católica.
Na prática do cotidiano colonial e imperial, a Igreja mantinha a estrutura social operando sem interferir nas dinâmicas internas das propriedades. Os padres realizavam os batismos das crianças nascidas dessas uniões, registrando-as nos livros paroquiais — frequentemente como "filhos naturais" ou com a paternidade declarada quando assumida pelo senhor —, o que inseria essas pessoas na vida religiosa local.
Do ponto de vista prático da dinâmica da fazenda, essas relações eram integradas ao funcionamento da casa-grande. Para a mulher escravizada, a ligação com o proprietário resultava na transição do trabalho braçal do campo para as tarefas domésticas, garantindo vantagens materiais diretas, proteção à prole e, em diversos casos, a alforria e a inclusão dos filhos na partilha de bens por meio de testamentos. Foi o que ocorreu com os descendentes de João Vieira de Camargo, avô de Jorge Vieira de Camargo, que receberam o nome de família e a devida herança paterna.
Com isso, esclarecemos que a descendência dos Camargo ramificou-se a partir dos filhos e netos de Miguel Antônio de Camargo (1797–1886) e de Joana Rosa da Silva (1799–1879). Ao buscarem novas terras para a criação de gado e o estabelecimento de fazendas, os descendentes fixaram-se nos municípios e distritos vizinhos, como Bom Jesus (RS) e Lages (SC).
Os Camargo que se estabeleceram em Lages (SC) e em Vacaria (RS) no século XVIII e XIX não eram imigrantes europeus recentes; eram birivas (paulistas/paranaenses de cepa bandeirante).
A rota dos Camargo dentro da história de migração interna tem o sentido, saída de São Paulo, passagem em Lages (SC) e fixação em Vacaria (RS).
A genealogia dessa linhagem obedece a um movimento geográfico muito claro de descida do continente ao longo do século XVIII.
Os Camargo saíam da Capitania de São Paulo, onde já eram uma força política e militar influente desde o século XVII. Pousavam em Lages (SC), povoação fundada em 1766 pelo paulista Antônio Correia Pinto, sendo Lages (SC) a primeira grande parada do planalto catarinense. Ramos dos Camargo estabeleceram ali imensas estâncias de gado na região da Coxilha Rica, conhecida por seus quilômetros de corredores com taipas de pedra. Quando avançaram para Vacaria (RS), cerca de 100Km, cruzavam o Rio Pelotas (que divide os dois estados), e se fixava nos campos de Vacaria (RS), onde o gado livre jesuítico se multiplicava e as terras eram vastas.
Tanto em Lages (SC) quanto em Vacaria (SC), os Camargo ostentavam o mesmo estilo de vida e perfil socioeconômico:
- Invernadores de Tropas: A principal atividade econômica não era apenas criar gado, mas a "invernada". Eles compravam lotes de mulas e bois magros vindos do sul do Rio Grande do Sul, pastoreavam os animais em suas fazendas de Lages (SC) ou Vacaria (RS) para engorda e descanso, e depois os revendiam com imenso lucro nas feiras do Sudeste.
- Liderança Centenária e a Raça Crioula: A ligação da família com a pecuária do planalto atravessou séculos. Um exemplo moderno e emblemático dessa herança foi o fazendeiro Nelson Camargo (falecido em Lages (SC) aos 89 anos), célebre por ser o grande preservador e criador do gado na Coxilha Rica, uma raça rústica originada diretamente dos rebanhos coloniais do século XVIII.
- O Casamento entre Parentes e Fronteiras: Para não fragmentar as gigantescas sesmarias de taipas de pedra, os Camargo de Lages (SC) casavam-se constantemente com os Camargo de Vacaria (RS) e Bom Jesus (RS). Havia um vaivém constante de noivos cruzando o Rio Pelotas a cavalo para unificar propriedades rurais.
Por que alguns membros desta grande família possuem o sobrenome somente Camargo e outros, De Camargo, como é o caso de Jorge Vieira de Camargo?
A variação entre Camargo e De Camargo dentro de uma mesma família no século XIX é um fenômeno linguístico e social muito comum na genealogia brasileira. Naquela época, a forma como um sobrenome era escrito não seguia uma regra fixa, e a mesma pessoa poderia ser registrada de formas diferentes ao longo da vida.
Os principais motivos para essa diferença ocorrer entre irmãos ou parentes próximos são:
- Falta de Padronização Ortográfica: No século XIX, não existiam cartórios de registro civil como os de hoje (eles só surgiram em massa após 1889). Os registros eram feitos à mão por padres nas paróquias de Vacaria (RS), Bom Jesus (RS) ou mesmo em Lages (SC). A grafia dependia inteiramente do sotaque da pessoa e do ouvido do padre. Um padre poderia achar mais elegante escrever [Nome] "de Camargo", enquanto outro padre, anos depois, batizava o irmão escrevendo apenas [Nome] "Camargo" por pura economia de texto ou costume.
- Do local de origem: O "De" é apenas uma preposição de origem (indica que a linhagem veio do Vale de Camargo, na Espanha).
- O Uso do "De" como Distinção Social: Em algumas ramificações, a partícula "De" era mantida ou adicionada intencionalmente para denotar status, posse ou nobreza. Dizer que alguém era "De Camargo" reforçava que aquela pessoa pertencia à Casa dos Camargo, proprietária de terras e estâncias na região serrana. Irmãos que subiam na vida pública (tornando-se militares, políticos ou grandes fazendeiros) às vezes adotavam o "De" para se diferenciarem socialmente de outros parentes que permaneciam na lavoura ou em posições mais humildes. Jorge Vieira de Camargo, após deixar de ser tropeiro, tornou-se lavrador, portanto fugia desta opção, mesmo possuindo o "De" em seu nome.
- Omissão por Praticidade: No dia a dia das fazendas de Vacaria (RS) e Bom Jesus (RS), o uso oral simplificava tudo. As pessoas eram chamadas apenas pelo sobrenome direto. Com o tempo, ao irem casar ou batizar seus próprios filhos, muitos membros da família assinavam ou ditavam seus nomes sem a preposição, fazendo com que o "De" desaparecesse em ramos inteiros da árvore genealógica.
- A questão dos filhos legítimos e naturais: Em casos de filhos tidos fora do casamento formal (como filhos de mães escravizadas ou de uniões não oficializadas pela Igreja, o filho legítimo (da esposa oficial) herdava o nome completo e formalizado com todas as partículas decorativas ("De Camargo". O filho natural, como era o avô de Jorge Vieira de Camargo, João Vieira de Camargo, ou reconhecido tardiamente por apadrinhamento, podia receber apenas o sobrenome seco ("Camargo") no registro de batismo, criando essa diferenciação documental entre irmãos de mesmo pai, oque não ocorreu na família de Jorge, pois seu pai recebeu o "De Camargo".
- O Desejo de Proteção e Afirmação do Pai: Quando o fazendeiro ou patriarca fazia questão de incluir a preposição "De", ele estava dando um recado claro para a sociedade local de Vacaria (RS) ou Bom Jesus (RS). O "De" funcionava como um selo de pertencimento. Ao ditar o nome do filho ao padre com o "De Camargo", o pai estava vinculando aquela criança diretamente à sua linhagem e ao seu patrimônio (a Casa dos Camargo). Era uma forma de garantir que, mesmo sendo um filho "natural" (bastardo), o menino ou a menina carregasse o máximo de prestígio social possível para não ser marginalizado. Foi o que aconteceu com o avô de Jorge Viera de Camargo, que era filho do fazendeiro e de sua escravizada.
Basicamente, "Camargo" e "De Camargo" são o exato mesmo sobrenome. Para a pesquisa genealógica, essa variação deve ser ignorada, pois ambos os grupos pertencem à mesma raiz familiar.
A história da família Camargo no Sul do Brasil — unindo de forma umbilical as regiões de Lages (SC) e Vacaria (RS) — confunde-se com a própria história da ocupação do planalto serrano meridional. O elo que conecta os Camargo dessas duas cidades é a Estrada das Tropas (Caminho do Viamão), a rota que cruzava os campos de cima da serra levando mulas e gado do Rio Grande do Sul até Sorocaba, em São Paulo.
Como identificar a linha da família oriunda de Lages e de Vacaria
- Os Camargo - Lages (SC): Seus registros mais antigos (século XVIII e XIX) estão concentrados na Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages e nos antigos inventários do arquivo histórico de Santa Catarina. Eles frequentemente aparecem cruzando nomes com as famílias Ramos, Córdova, Arruda e Ribas.
- Os Camargo - Vacaria (RS): Seus papéis estão concentrados na Paróquia de Nossa Senhora de Oliveira de Vacaria (RS) e, nos casos mais antigos, na Igreja Matriz de Rio Pardo, que controlava as terras de cima da serra antes da emancipação das capelas serranas. Cruzam laços com as famílias Vieira, Silva, Oliveira e Fonseca.
Para compreender o isolamento geográfico e as paisagens percorridas por essas famílias ao cruzarem a divisa entre os dois estados, observa-se o cenário característico do planalto serrano entre Lages (SC) e Vacaria (RS).
| Paisagem rural entre Lages e Vacaria. Fonte: Paulo Hoeper / Getty Images. |
Destaca-se o deslocamento das famílias que migraram de Vacaria(RS) em direção a Lages (SC) — a exemplo da linhagem de Jorge Vieira de Camargo —, movimento que evidencia uma dinâmica histórica singular da segunda metade do século XIX. Embora o fluxo povoador original do século XVIII tenha corrido no sentido norte-sul, a consolidação das divisas provinciais e a expansão da pecuária motivaram os descendentes dos pioneiros vacarianos a empreender o trajeto de regresso ao território catarinense.
A migração de retorno para Lages (SC), ao longo do século XIX aconteceu impulsionada por três fatores principais.
O primeiro deles foi o impacto da Lei de Terras de 1850. Até meados do século, os campos em Vacaria (RS) eram facilmente ocupados por posse, mas com a aprovação do dispositivo legal, a regularização de heranças e o registro de grandes fazendas no Rio Grande do Sul tornaram-se dispendiosos e burocráticos. Com isso, muitos filhos mais novos de famílias tradicionais — incluindo famílias com menos recursos ou filhos naturais — preferiram cruzar o Rio Pelotas rumo ao planalto lageano, onde ainda encontravam oportunidades para adquirir ou ocupar terras a custos mais acessíveis.
O segundo fator decisivo foi a atração por casamentos e dotes na região catarinense. Jovens da família Camargo nascidos em Vacaria (RS) e Bom Jesus (RS) deslocavam-se com frequência a Lages (SC) para negociar gado na Coxilha Rica. Ao longo dessas viagens e contatos comerciais, firmavam matrimônio com filhas de estancieiros locais e acabavam se fixando nas propriedades rurais que as esposas recebiam como dote. Somava-se a isso a busca por refúgio diante dos intensos conflitos políticos no território gaúcho. Durante o século XIX, o Rio Grande do Sul foi palco de sublevações como a Revolução Farroupilha e a Revolução Federalista de 1893, em que a Serra Gaúcha e a região de Vacaria (RS) sofriam constantemente com a passagem de tropas e o confisco de rebanhos e cavalos. Assim, a mudança para o norte, atravessando a divisa em direção a Lages (SC), consolidou-se como uma estratégia essencial de sobrevivência para salvaguardar as famílias e a subsistência da criação de gado.
Jorge Vieira de Camargo
Vamos conhecer melhor a história de um dos descendentes da quinta geração de Miguel Antônio de Camargo (1797–1886), batizado em Lages (SC) e depois fixado em Vacaria (RS) e Joana Rosa da Silva (1799–1879).
Jorge Vieira de Camargo pertence à quinta geração da linhagem iniciada nos Campos de Cima da Serra. Sua trajetória sintetiza as transformações sociais e econômicas vivenciadas pelos descendentes dos pioneiros paulistas no transcorrer dos séculos XIX e XX.
Nascido em uma família ligada às tradições rurais e à pecuária de Bom Jesus (RS), Lages (SC) e Urubici (SC), Jorge acompanhou a transição das antigas rotas do tropeirismo para a fixação na terra. Neto de João Vieira de Camargo — figura que reconheceu e legitimou os filhos que teve com sua escravizada Mariana, garantindo-lhes o sobrenome e o acesso ao patrimônio familiar —, Jorge herdou esse legado de pertencimento e inserção social na região serrana.
| Certidão de nascimento de Jorge Vieira de Camargo e mais dois de seus irmãos onde é apontado o nome de sua avó paterna, Mariana, sem o nome de família. |
Jorge Vieira de Camargo nasceu em 17 de julho de 1913 em Bom Jesus (RS), curiosamente um dia depois que a localidade deixou de ser Distrito de Vacaria (RS). Curiosamente, até o dia 16 de julho de 1913 Bom Jesus (RS) era Distrito e então, se emancipou, por meio do Decreto Estadual Nº 2000. Antes de sua independência, a região era conhecida geograficamente como o 3º Distrito da Costa e enfrentava grandes dificuldades de integração, uma vez que a enorme distância até a sede em Vacaria e as estradas precárias da época isolavam os moradores locais e atrasavam as decisões administrativas. Após a assinatura do decreto de desmembramento, o novo município passou por um período de transição e foi formalmente instalado em 21 de agosto de 1914, consolidando sua autonomia na região dos Campos de Cima da Serra.
Jorge Vieira de Camargo foi filho de Cypriano Vieira de Camargo (1872 - 1936) e de Maria Catharina da Rosa (1883 - - ), casados em 12 de fevereiro de 1905, no Distrito de Bom Jesus (RS), Vacaria (RS). Teve 7 irmãos. São eles:
- Sebastiana Vieira de Camargo (1908– -);
- Anna Maria Vieira de Camargo (1909– - );
- Maria Benta Vieira de Camargo (1910–1959);
- Tolentina Vieira de Camargo (1911– -);
- João Vieira de Camargo (1912– -);
- Joaquina Vieira de Camargo (1915– -) e
- Inês Vieira de Camargo (1916– -).
| Urubici SC |
| Pai de Iracema Iracema Rodrigues da Silva (1923–2015) |
Para as pessoas criadas na cultura das estâncias e do gado, o vale de Urubici (SC) e as localidades vizinhas da Serra Catarinense ofereciam as condições ideais para prosperar na pecuária ou na agricultura de clima frio.
Jorge Vieira de Camargo casou-se no religioso em 22 de julho de 1939 e no civil em 20 de novembro de 1942 com Iracema Rodrigues da Silva (1923–2015), que passou a assinar Iracema Rodrigues Vieira de Camargo. Ela era filha de Gasparino Vieira Borges e de Dorvalina Rodrigues da Silva (conforme registro do Cartório de Bom Retiro (SC), Talão 4, páginas 4 verso e 5). Gasparino era filho de Antonio Vieira e de Rita Vieira Borges, enquanto Dorvalina era filha de Manoel Rodrigues e de Verginia da Silva.
Quando Iracema nasceu, Jorge e sua mãe foram visitá-la, visto que as famílias eram amigas. Na ocasião, Jorge levou uma galinha como presente para a recém-nascida. Assim, desde o berço, começava a se desenhar a união com aquela que seria sua companheira por mais de sessenta anos, com quem viria a comemorar as bodas de diamante ao lado da família.
O primeiro trabalho de Jorge Vieira de Camargo, seguindo a tradição dos homens de sua família, desde o pioneiro de chegou de São Paulo, foi o de tropeiro. Fazendo parte de um tropa de mulas carregadas de charque, queijo e farinha de trigo, percorria as trilhas vendendo seus produtos. A sua tropa descia pela Serra do Corvo Branco até Grão Pará e seguia até Laguna (SC) e Jaguaruna (SC).
Quando a tropa retornava voltavam trazendo encomendas e produtos de região, como farinha de mandioca, sal e pescados. A tropa também descia por Barracão, atual Alfredo Wagner, seguiam até Palhoça (SC) - de onde também retornavam com sal e pescado, onde comercializavam a carga e também algumas das mulas da tropa. Por último há outro traçado, que de Bom Retiro (SC), seguiam em direção ao Alto Vale do Itajaí, onde passavam por Barracão, atual Alfredo Wagner (SC), e seguiam até Salto Grande, atual Ituporanga e chegavam em Südarm, atual Rio do Sul (SC).
Em uma das inúmeras histórias contadas por Jorge Vieira de Camargo — esta relatada ao seu genro Nilo Momm (1947–), natural de Ituporanga —, foi uma de suas viagens a Jaguaruna(SC).
Contou que, quando retornava, perdeu-se no alto da serra durante uma nevasca e foi encontrado em estado muito grave por causa do frio intenso, dizendo estar “congelado”. Foi socorrido por outros viajantes ao redor de uma fogueira.
Também lembrava das palavras que aprendeu no idioma alemão para poder comercializar nas terras colonizadas por essa etnia, geralmente no Alto Vale do Itajaí. Outra história marcante de suas andanças envolve seu cachorro "Respeito", que o acompanhava na tropa: em determinada viagem, o cão desapareceu, e Jorge, desolado, seguiu caminho. Quando chegou à localidade de Águas Brancas, em Urubici (SC), onde residia com a família, o cachorro já o aguardava na soleira de casa.
E assim guardava inúmeros causos que contava a familiares e amigos.
Logo que se casou, adquiriu uma gleba de terra em Águas Brancas, onde atuou como líder comunitário e auxiliava nas atividades da capela local, sendo festeiro em diversas ocasiões.
Nessas terras e, anteriormente, em áreas arrendadas, iniciou a atividade agrícola, encerrando sua atividade com as tropas. A família crescia e com isso o trabalho e a responsabilidade.
O casal Jorge e Iracema tiveram 23 filhos, dos quais 13 sobreviveram, todos nascidos em Urubici (SC). A grande preocupação do casal era oferecer condições de estudo aos filhos, o que motivou a decisão de se mudarem para um centro urbano maior, onde dois deles já residiam.
Os filhos:
- Antonio Fleury Camargo
- Maria Elsa Camargo
- Maria Cerly Camargo
- José Rodrigues de Camargo
- Rita Rogrigues Camargo
- Eloina Rodrigues Camargo
- João Vieira de Camargo
- Eluiza Terezinha Camargo
- Ivo Rodrigues Camargo.
- Eli Rodrigues Camargo
- Regina Rodrigues Camargo
- Mariléia Rodrigues Camargo
- Eliane Rodrigues Camargo
Em 19 de dezembro de 1970, Jorge Viera de Camargo e a Família mudaram-se definitivamente para a Rua Professor Custódio de Campos, número 25, no bairro Campinas, em São José. Atualmente, o imóvel corresponde ao número 210, situado no bairro Capoeiras, em Florianópolis, na área limítrofe entre os dois municípios.
Na região metropolitana, estabelecido entre Florianópolis (SC) e São José (SC), Jorge ingressou no setor da construção civil, mesmo sem qualificação prévia na área, dada a sua trajetória como ex-tropeiro e ex-agricultor. Iniciou suas atividades como servente de pedreiro, progrediu para carpinteiro e, com o tempo, passou a atuar como supervisor de obras.
Desde sua juventude, Jorge Vieira de Camargo manteve uma dedicada atuação em trabalhos voluntários junto à comunidade católica, fé que professou ao longo de toda a vida e também repassou aos filhos a partir do exemplo prático e de sua orientação. Celebrou suas bodas de ouro com Iracema cercado pelo carinho da comunidade local, onde desfrutava de grande respeito e de uma ampla rede de amigos; a missa comemorativa foi oficiada por seu amigo particular, o padre Francisco Wloch (padre Chico). Mais tarde, o casal celebrou também as bodas de diamante ao lado de sua numerosa família, em momento devidamente registrado em imagens para a memória familiar.
Em 8 de março de 2001, quando caminhava em direção à Igreja de Campinas, Jorge foi atropelado por uma motocicleta no cruzamento da Rua Josué Di Bernardi com a Rua Professor Custódio de Campos. Em decorrência do acidente, sofreu fratura exposta na perna e veio a falecer em 24 de março de 2001, aos 87 anos de idade.
Foi sepultado no Cemitério Municipal de Barreiros, em São José. Como reconhecimento à sua trajetória e memória, o município de São José prestou-lhe homenagem perpetuando o nome do antigo tropeiro na denominação da Rua Jorge Vieira de Camargo, localizada no bairro Forquilhas.
Sua história ilustra de maneira efetiva como a árvore, que teve início com bandeirantes paulistas e passou pelos criadores de gado em taipas de pedra de Vacaria (RS) e Bom Jesus (RS) continuou subindo a serra para desbravar e povoar regiões de Santa Catarina.
Momórias
Referências
- CÓRDOVA, U. A. Tropeiros, Caminhos e Queijos no Planalto das Araucárias. Florianópolis: Epagri, [20--].
- GERLACH, Gilberto. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz, Marcondes Marchetti, pesquisa; Gilberto Schmidt-Gerlach, organização; tradução Pedro Jungmann. – São José: Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019. 2 t. (400 p.) : il., retrs.
- GOULARTI FILHO, Alcides. Formação econômica de Santa Catarina. 3. ed. rev. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2016.
- MORAES, Aldair Goeten de; SILVA FILHO, Júlio Bernardo da; POPINHAKI, Antônio Carlos; MACEDO, Elizabeth Maria Stüpp de. A Saga dos Tropeiros em Curitibanos. 1. ed. Curitiba: Maxigráfica, 2024.
- MOMM, Nilo. Árvore genealógica da Família Camargo. Florianópolis, 16 out. 2004.
- MOREIRA, Sandro César. O Legado da Cultura Tropeira. Blumenau: Nova Letra, 2010.
- VIDOR, Vilmar. Indústria e urbanização no Nordeste de Santa Catarina. Blumenau: Editora da FURB, 1995.
- SOUZA, Reinaldo. Menino Tropeiro. [S. l.]: Edição do Autor, 2021.
- VIDOR, Vilmar. Indústria e urbanização no Nordeste de Santa Catarina. Blumenau: Editora da FURB, 1995.
Um Registro para a História...
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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