sexta-feira, 3 de abril de 2026

A primeira sociedade de canto de Blumenau e do Vale do Itajaí — Sociedade de Canto Germânia (1863), Blumenau

 

Sede da Sociedade de Canto Germânia. Arquitetura pioneira, eclética, década de 1920; tipologia rara construída com a técnica autoportante, cobertura com estrutura de madeira e telhas planas, tijolos maciços rebocados e aberturas em madeira. Planta marcada pela simetria clássica, com a fachada principal dotada de varanda e uma grande escada de acesso ao lado direito. Muito interessante a presença do Lüftlmalerei na fachada frontal, caracterizando uma edificação com origem na região sul da Alemanha. Fonte: Fundação Cultural de Blumenau.


O canto e a música faziam parte do cotidiano daqueles que fundaram a rede de cidades na região do Vale do Itajaí, Blumenau. Inúmeras sociedades de canto surgiram e fundaram inúmeros espaços, sendo alguns já citados por nós em outros registros para a história.
Deparamo-nos com um texto do pesquisador Frederico Kilian, anunciando que descobriu o estatuto da Sociedade de Canto Germânia, fundada em 3 de agosto de 1863.
Antes de se chamar Sociedade de Canto Germânia, denominava-se Sociedade de Canto Blumenau (Gesangverein Blumenau), e foi a primeira sociedade de canto não somente de Blumenau, mas de toda a região do Vale do Itajaí. Seus fundadores foram:
  1. Karl Wilhelm Friedenreich (Presidente); 
  2. Viktor Friedrich Bruno Gaertner (Secretário);
  3. Pastor Oswald Hesse (Regente);
  4. Hermann Ernst Ludwig Wendeburg;
  5. Georg Repsold;
  6. Friedrich Löscke;
  7. Gustav Spierling; 
  8. Hans Breithaupt;
  9. Emil Odebrecht;
  10. Oswald Zwicker;
  11. Victor von Gilsa;
  12.  W. Meyer;
  13. Bernhard Knoblauch;
  14. Oscar Kluge;
  15. Hermann Willerding;
  16. Carl Sasse;
  17. Julio Baumgarten.
Parte dos fundadores da Sociedade de Canto Germânia.
Quadro obrigatoriamente exposto em casas comerciais, repartições
 públicas, clubes, ou em locais de aglomeração pública. Produzido pela
 Delegacia de São Lourenço do Sul – RS, em 2 de março de 1942, atendendo
 à legislação da ditadura Vargas. Foto acervo: Edilberto Luiz Hammes.
As reuniões do grupo de canto, ainda no século XIX, eram semanais. Os ensaios do coro eram frequentes. Em 1888, para comemorar os 25 anos de fundação, organizou-se uma grande festa.
Um ano após o lançamento da pedra fundamental da nova sede da Sociedade Teatral Frohsinn, que aconteceu em 10 de novembro de 1935 (atual Teatro Carlos Gomes), em 1936 a Sociedade Frohsinn unia-se à Sociedade do Coro Masculino Liederkranz (Fundado em 1909), cujo grupo de canto tinha a presença de cantores da Sociedade de Canto Germânia. Em 1937, teve início o processo da Nacionalização, o que fez encerrar oficialmente o canto e suas atividades em 1939, durante o período da Campanha de Nacionalização de Getúlio Vargas. Parte do grupo se reuniu ao grupo da Sociedade do Coro Masculino Liederkranz e depois ao Teatro Carlos Gomes, sob a batuta de Heinz Geyer.
As políticas de nacionalização proibiram o uso da língua alemã em público e o funcionamento de associações que mantivessem vínculos culturais ou nomes estrangeiros. Muitas dessas sociedades foram dissolvidas ou precisaram mudar de nomes e estatutos para sobreviver.
Após o período de restrições, o espírito associativo dessas antigas sociedades de canto influenciou a criação de novos centros culturais, como o C.C. 25 de Julho de Blumenau, fundado em 1954 e que depois forneceu teto ao Coro Masculino Liederkranz, cuja história pretérita tem relação a esta.

Interessante conhecer o conteúdo de autoria de Frederico Kilian, que, além de mencionar documentos da primeira sociedade de canto de Blumenau, igualmente aponta e destaca os cantores que estiveram entre os "Voluntários da Pátria" na Guerra do Paraguai.
Os cantores da sociedade de canto que pereceram no conflito:
  1. Christian Müller - 25 anos;
  2. Otto Lobedan – 40 anos;
  3. Eugen Kurz – 38 anos;
  4. Küchendahl;
  5. Wendelin Kraemar - 45 anos ;
  6. Wilhelm Fischer.
Fotografia de documento encontrado no Setor de Documentos Raros da Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nomes dos cantores citados que pereceram na Guerra do Paraguai, citados por Frederico Kilian na Lista dos Voluntários da Pátria.
Nomes registrados na publicação da revista Blumenau em Cadernos (T17, nº 9, 1976) — os nomes de todos os Voluntários da Pátria oriundos da Colônia Blumenau, com acréscimo de nomes listados somente no ofício de Hermann Wendeburg. Os nomes grifados eram cantores da Sociedade de Canto Germânia.
  1. Capitão Victor von Gilsa - comandante do Contingente de Blumenau; 
  2. Tenente Emil Odebrecht;
  3. Alferes Wilhelm Friedenreich;
  4. Alferes Sametzki;
  5. Soldados:
  6. Francisco Ewald;
  7. Luiz Hoffmann;
  8. Günther Tranche;
  9. Eugen Kurz;
  10. Guilherme Mohr; (Nome está somente na lista original de Hermann Wendeburg)
  11. Hermann Echelberg; 
  12. Henrique Kriegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
  13. Conrad Kriegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
  14. Fernando Schuhmacher; (Nome corrigido de acordo com documento original)
  15. Elias Müller; (Nome está somente na lista original do Sr. Hermann Wandeburg)
  16. Christiano Müller;
  17.  Henrique Lucas;
  18. Miguel Kiegel; (Nome corrigido de acordo com documento original)
  19. Wendelin Kraemer;
  20. Ernesto Richter;
  21. Carlos Siebert;
  22. Otto Lobedan;
  23. Rodolf Wagner; (Nome corrigido de acordo com documento original)
  24. Jacob Jasper;
  25. Carlos Baucke;
  26. Christiano Lucas;
  27. Oscar Kluge;
  28. Christ Frederico Krüger;
  29. Augusto Persch;
  30. Guilherme Hafenstein;
  31. Fried Guilherme Gross;
  32. Julio Hartmann;
  33. João Fred Hafenstein; (Nome está somente na lista original do  Hermann Wendeburg)
  34. Gottlieb Gneewuch;
  35. Fred Guilherme Krieger  (Nome está somente na lista original do Hermann Wendeburg)
  36. Wilhelm Peters;
  37. Nicolau Hänche;
  38. Friederich August Thomas;
  39. Carl Sänberlich;
  40. Carl Hinze;
  41. Gustav Bosse;
  42. Friederich  Giehe;
  43. Ludwig Helmbrech;
  44. Francisco Boehmer;
  45. Albert Marx;
  46. Carl Jansen;
  47. Heinrich Engel;
  48. Guilherme Fischer;
  49. Jacob Riedinger;
  50. Fr. Bähr;
  51. Paul Stahl;
  52. Christiano Witthoft;
  53. Johan Weisensee;
  54. Velentim Blasius;
  55. Hermann Kühendahl;
  56. Wilhelm Vogel;
  57. Fritz Riemer;
  58. Hermann Grahl;
  59. Eduard Köchy;
  60. Hermann Willerding;
  61. Johan Fischer;
  62. Hermann  Geyer;
  63. Carl Luchtenberg;
  64. Ernst Scheefer;
  65. Carl Kressien;
  66. Woldemar von Zenschau;
  67. Fernando Ebert;
  68. Hugo Praun;
  69. João Oltmann;
  70. Isidor Hirt;
  71. Ricardo Ebert;
  72. Carlos Geier;
  73. Gottlieb Zeschke;
  74. Simon Kreiss;
  75. Heinrich Hansen
  76. Wilhelm Fischer
Página da publicação da revista Blumenau em Cadernos T17 N°9 – 1976.
Publicação de Frederico Kilian sobre a Sociedade de Canto Germânia

Visitando o arquivo municipal de Blumenau, veio-me às mãos uma pasta com um maço de folhas amarelecidas. Na capa azul da pasta achava-se escrito com letras desbotadas pelo tempo, porém, em caligrafia bem traçada e impecável: "GERMANIA - Estatutos - atas - correspondências". 
Com muito cuidado, como se fossem asas de borboletas, manuseei estas folhas que o tempo amareleceu e tornou frágeis, e me profundei, com o interesse de um papelista, nos assuntos que elas continham.
Logo as primeiras páginas cativaram toda minha atenção, pois continham o texto original dos "Estatutos da Sociedade de Canto da Colônia de Blumenau". Esta peça, que em seus três capítulos contém 13 parágrafos, traz a data de 3 de agosto de 1863. 
Está assinada por C. W. Friedenreich, como Presidente; Victor Gaertner, como Secretário e Pastor Oswald Hesse como Dirigente Musical. 
Seguem-se ainda as assinaturas de 27 sócios ativos. Como "Membros Sociais" assinaram H. Wendeburg, Georg Repsold, Fr. Löscke, Spierling, H. Breithaupt, E. Odebrecht, Oswald Zwicker, von Gilsa. W. Meyer, Dr. Knoblauch, O. Kluge, H. Willerding, C. Sasse, J. Baumgarten. 
Várias averbações marginais nos dão conta das alterações havidas no decorrer dos anos, por resoluções tomadas em assembleias gerais. 
Primitivamente a Sociedade denominava-se "Sociedade de Canto da Colônia de Blumenau", mas em uma destas averbações marginais consta o seguinte: "Por resolução unânime da assembleia de 10 de agosto de 1865, a Sociedade de Canto recebeu o nome de "Germania". 
Atenciosamente leio página por página, folheio folha por folha que contém a pasta. Seguem-se cartas, editais, propostas dirigidas às assembleias, atas de reuniões e de assembleias, relatórios e correspondência. 
Encontram-se nestas folhas as mais variadas caligrafias, aqui uma letra firme , angular, acolá outra cheia de arabescos, todas, porém, mostrando a cultura dos seus autores. E assim, inteiramente absorto na leitura destas folhas amarelecidas, parece-me que emborquei, no folheá-las, a ampulheta que Chronos talvez havia escondido entre as mesmas. Retrograda o tempo. O passado reaparece. Estamos no ano de 1866. Desfaz-se a neblina. 
Personagens ressaltam das trevas, vozes atingem meus ouvidos. Encontro-me numa modesta sala, onde os cantores se reúnem para o ensaio semanal. O Dirigente Musical Pastor Oswald Hesse, começa o ensaio por vozes - passagens difíceis são repetidas várias vezes; forma-se o coro com os tenores e os baixos que obedecem à batuta do dirigente. As melodias de velhas e conhecidas cantigas ressoam na sala. Todos se esforçam e prestam a máxima atenção, pois os ensaios já são os preparativos para o terceiro aniversário da fundação da Sociedade que se realizará no próximo mês de agosto deste ano de 1866. 
Depois do primeiro intervalo deste ensaio, o Presidente troca algumas palavras em voz baixa com o Dirigente. Recomeça o ensaio, a repetição das cantigas ensaiadas Levanta-se então o Presidente e solicita um momento de atenção. Algo de importante deve ter ocorrido, pois não é hábito o Presidente usar da palavra nas horas do ensaio. Todos os cantores olham com uma certa curiosidade para o Presidente, que tira uma carta do bolso e diz: "Dedicados consócios, cantores nossos que daqui partiram para dar sua vida e seu sangue Por nossa nova Pátria, o Brasil, nos enviaram um sinal de vida do longínquo Paraguai. 
Infelizmente esta carta, que é dirigida a nossa Sociedade de Canto, também contém a triste notícia de que seis cidadãos blumenauenses confirmaram com sua vida o seu amor e sua fidelidade a esta nossa nova pátria. O sangue destes blumenauenses que encharcou os campos de batalha em terras paraguaias e as lágrimas de suas famílias que regaram o nosso solo virgem aqui, são ligas mais fortes do que todos os tratados ou títulos de cidadania documentados. Quem deixa sua vida é quem derrama o seu sangue e suas lágrimas pelo Brasil, quem com árduo trabalho, banhado em suor e lama, se empenha dia a dia, tanto no sol como na chuva, a transformar esta mata virgem e hostil num lar florescente para seus filhos e netos, tem o incontestável direito de ser considerado e tratado neste país com a mesma igualdade dos demais cidadãos. E nosso coração está sangrando com os nossos consócios que estão lutando nos campos do Paraguai e nossas lágrimas caem sobre as cabecinhas loiras dos filhos órfãos dos que tombaram e banham as suas oficinas e o solo onde antes trabalhavam". - A seguir o Presidente, Sr. Victor Gaertner desdobra a carta recebida e lê: "PARAGUAI, em 13-6-66. 
A todos os Sócios da Sociedade de Cantores "Germania" as saudações dos consócios aqui presentes, com os melhores votos para uma festa de aniversário de fundação cheia de alegria. Desde algum tempo se vinha manifestando entre os alemães e principalmente entre os blumenauenses uma disposição triste e desalentada, motivada pelo fato de terem sido os alemães divididos e embarcados em dois destacamentos como equipação em 2 navios, porém, agora estamos outra vez satisfeitos, porque esta- mos novamente reunidos e isto em uma ilha na barra do Paraguai, na qual está sendo construído um grande hospital da marinha e a qual mantemos ocupada. 
Sempre alimentamos a esperança de podermos estar novamente em Blumenau por ocasião da festa da fundação da Sociedade, porém, esta esperança cada vez se torna mais, em fumo, pois não se nota que a " cousa vai adiante. Os brasileiros estão a 3 léguas de Humaitá. Entre os alemães grassou há algum tempo a febre fria, tendo alguns sofrido muito, porém, agora já estão todos melhor. De Blumenau morreram até agora: Chr. Muelier, Lobedan, Kurz, Küchendahl, W. Kremar e Wilhelm Fischer da Garcia.
Eu sinto vontade de escrever ainda algumas linhas sobre o anterior Comandante do Contingente, porém, para descrever todas as más maquinações do mesmo, eu teria que encher ainda várias páginas; mas mesmo sem isso, ainda irão saber que, chega em Blumenau sobre o mesmo. Fritz Riemer, pede dar especiais lembranças a seus pais e avisá-los que na Direção, em Blumenau, se acha depositada para os mesmos a quantia de Rs. 20$000. 
Pedimos igualmente a todos transmitir lembranças nossas a todos os conhecidos de lá (assinaram a carta) H. Willerding, F. Riemer, C. Hinze" . - Profundo silêncio reinava durante a leitura desta carta. O Presidente determina que a mesma seja juntada aos documentos da Sociedade e incluída no arquivo desta. O Dirigente levanta a batuta e anuncia: "Agora vamos dedicar aos nossos irmãos cantores que lutam no Paraguai e aos que lá tombaram, á cantiga' do Bom 'Camarada, que o poeta alemão Ludwig Uhland escreveu e foi musicada pelo compositor Friedrich Silcher, ambos falecidos há poucos anos" .
Suavemente o dirigente, Pastor Oswald Hesse, toca em seu violino um prelúdio à cantiga anunciada e a um sinal seu entram as vozes dos cantores. E na noite silenciosa da selva virgem, soa a comovente cantiga do Bom Camarada:
Eu tinha um camarada;
Melhor quem pode achar?
Quando o tambor rufava,
Ao lado meu marchava,
De passo sempre par.
Um registro para a História.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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terça-feira, 31 de março de 2026

Gotfredo (Gottfried) Thaler – O escultor de Treze Tílias e as obras da fachada da Catedral São Paulo Apóstolo, Blumenau

Em 25 de janeiro de 2026, estivemos presentes na Catedral São Paulo Apóstolo, em Blumenau, para registrar a missa comemorativa pelos 161 anos da primeira celebração na colônia e pelos 68 anos de Dedicação do templo.
Durante a cerimônia, observamos novamente a escultura da fachada principal: uma imponente obra em madeira concebida pelo arquiteto original da catedral, Dominikus Böhm — pai de Gottfried Böhm, que deu continuidade ao projeto da atual matriz, construída entre 1953 e 1958.
O Padre João Humberto Luciani confirmou que o escultor era de Treze Tílias. A obra foi executada por Gotfredo Thaler, artista radicado naquela cidade e neto de Andreas Thaler, o pioneiro e fundador do município.
Com Judite Thaler, guardiã do acervo e atelier de Gotfried Thaler
Treze Tílias SC.
Em função disso, estivemos na residência, atelier e memorial do escultor, onde fomos recebidos por sua esposa e guardiã do local, Judite Thaler. Conversamos com ela em 31 de janeiro de 2026, oportunidade em que pudemos conhecer mais sobre o legado de Gotfredo Thaler

Gotfredo Thaler (1940–2012)

O nome Gotfredo  — é derivado do original alemão Gottfried. Para fins deste trabalho, adotaremos a grafia Gotfredo, conforme utilizada por sua família.
 Foto de acervo do Museu Municipal Andreas Thaler.
Gotfredo Thaler foi filho do filho mais velho de Andreas Thaler, fundador da Treze Tílias, Andrä Thaler (1914-1938) e de sua esposa Mariana Zimmermann (1913-2010). Nasceu em 1º de fevereiro de 1940, em Treze Tílias.
Pai de Gotfredo Thaler -  escultor e artista plástico Andrä Thaler - filho mais velho de Andreas Thaler.

Thaler posando com uma das peças feita em nó de pinho.
Gotfredo Thaler
aprendeu a arte da escultura em madeira com seu pai, Andrä Thaler, seu grande incentivador e mestre. Já durante o período escolar, Gotfredo esculpia cabeças de Cristo em nós de araucária.
Em 1967, viajou para a Áustria, na vila de Wildschönau-Oberau, terra natal de seus pais, para aprimorar seus estudos técnicos e artísticos. Durante os três meses em que permaneceu no país, morou com sua tia e trabalhou ao lado do Professor Bachlechner. Nesse período, esculpiu um Cristo que foi fixado em uma tília plantada pelo imperador Franz Josef durante sua passagem pela cidade — árvore que ficou conhecida como Kaiserlinde.
Localização de Wildschönau-Oberau, Áustria.


 
Em Wildschönau-Oberau, Áustria.

Entregando sua escultura para ser fixada no Keiserlinde, Wildschönau-Oberaun, com o prefeito da cidade.
Escultura de Thaler no Keiserlinde, Wildschönau-Oberau, Áustria.
Na Áustria, Gotfredo especializou-se na técnica tirolesa de escultura em madeira, com ênfase no realismo dos detalhes e na força expressiva de suas figuras.
Ao retornar para Treze Tílias, em 1970, executou uma de suas obras mais emblemáticas: um crucifixo de oito metros de altura, entalhado em um único bloco de cedro. A imagem de Cristo, com 4,3 metros, foi instalada no Santuário Dom Bosco, em Brasília, por ocasião do Congresso Eucarístico Nacional.
 Santuário Dom Bosco, em Brasília.
Cristo talhado em cedro:
Enaltecido na Câmara Federal o trabalho de Gotfredo Thaler 

Ainda permanecem bem vivas, na alma do povo brasilense, as emoções do Congresso Eucarístico Nacional. Aquele espetáculo de fé, com sua beleza, encantou a todos que tiveram a ventura de presenciá-lo.
Gostaria, sr. Presidente, de deixar registrado, nesta Casa, a brilhante contribuição que Santa Catarina prestou, por um dos seus ilustres filhos, ao brilho daquele conclave e ao enriquecimento do patrimônio da arte sacra nacional.
Os milhares de peregrinos, que acorreram a esta Capital, tiveram a oportunidade de extasiar-se ao contemplarem um imponente Cristo talhado em cedro, que, com seus quatro metros e vinte centímetros de altura, dominava a praça de se realizava o Congresso.
Seu autor, o escultor catarinense, descendente de ilustre família que se deslocou da Áustria em 1933, radicando-se no município de Joaçaba, colônia Papuã, na companhia de 300 outras famílias. Esse numeroso contingente de pioneiros trazia em sua bagagem toda série de máquinas agrícolas e industriais, sendo responsável pelo surgimento de inúmeras industrias em Joaçaba, hoje município de Treze Tílias, ex-colônia Papuã, e pelo grande impulso que imprimiu à agricultura e à pecuária da região.
Desejo, pois, sr. Presidente, na pessoa de Gotfredo Thaler, que dedicou toda sua alma de poeta e perícia de artista, па confecção daquela obra de arte, que emocionou até as lágrimas muitos dos que tiveram a felicidade de mirá-la, a minha homenagem e o meu reconhecimento pelo muito que tem contribuído em favor do engrandecimento da cultura artística catarinense e nacional.
Era o que tinha a dizer.
Deputado Romano Massignan 
Arena SC.   -   Jornal Cruzeiro do Sul 1971 - Joaçaba
Nessa mesma época, Gotfredo construiu sua casa e esculpiu uma obra monumental: um Cristo crucificado para a entrada de sua residência. Antes de fixar a peça em seu local definitivo — onde permanece em Treze Tílias desde então —, ele a expôs em Blumenau, no pavilhão da Famosc, em 1972.
Escultura de Cristo para o acesso de sua residência, exposta em Blumenau, na FAMOSC, em 1972.


Residência de Gotfredo Thaler. Atrás a residência de seus avós. Residência Andreas Thales, atual museu municipal.




Seu pai, Andrä Thaler, que também se dedicava à pintura, reproduziu a obra em madeira de Gotfredo em uma tela, unindo as duas formas de expressão artística da família.
Nosso registro do local em 31 de janeiro de 2026.
Nosso registro do local em 31 de janeiro de 2026.
Judite Thaler, gentilmente nos recebeu no atelier e atual
memorial de Gotfredo Thaler.
Com a casa construída, Gotfredo Thaler casou-se com Judite (Caron) Thaler em 12 de julho de 1975. Judite, nascida em 7 de julho de 1955, é filha de Severino Caron (1931–2000) e Dalva Maria Caron (1934–2004). O casal teve quatro filhas: Karin (nascida em 16/05/1975), Ingrid (15/01/1976), Astrid (29/06/1980) e Ellen Thaler (07/07/1982). Em 1988, Gotfredo conquistou a nacionalidade austríaca.
Gotfredo Thaler faleceu em 14 de novembro de 2012, com 72 anos de idade, em Treze Tílias onde está sepultado.

O atelier de Gotfredo Thaler, visitado por nós em janeiro de 2026, é atualmente o memorial do escultor e permanece como residência da família desde 1972. O local, que preserva o legado artístico do mestre, já é frequentado pelos netos do casal, mantendo viva a tradição entre as novas gerações.






O escultor recebendo a Medalha Anita
Garibaldi,  em Florianópolis.
Sua obra é de valor imensurável. Dedicou-se à arte sacra, com expressivas representações de santos, anjos e do Cristo na Cruz. Entre as peças mais singulares do memorial, destacam-se os autorretratos: em uma de suas obras mais curiosas, Gotfredo esculpiu a própria imagem. Também homenageou seu pai e primeiro mestre, Andrä Thaler, retratando-o em uma escultura datada de 1986.
Executando o busto de seu pai Andrä Thaler.



























Recém casados e esperando a primeira filha, Gotfredo e Judite recebem o Cônsul da Áustria  e sua esposa em 1975.








Judite Thaler participava ativamente da finalização dos trabalhos de Gotfredo, sendo responsável pelos acabamentos em cera que a madeira recebia. Uma diretriz fundamental da obra do escultor era que as peças nunca deveriam ser pintadas, preservando a textura e a nobreza natural do material.
Desenho de Gotfredo Thaler (1995), para o Cristo da Igreja de nossa Senhora de Guadalupe - Goiás.
Esculturas "Quadro da família" - Catedral São Paulo Apóstolo - Blumenau - 1973
Catedral São Paulo Apóstolo - Blumenau com a obra "Quadro da família" de Gotfredo na fachada principal do templo, desde 1973.
Entre suas dezenas de obras consagradas, o escultor de Treze Tílias executou — a partir do desenho do arquiteto Dominikus Böhm — as monumentais peças fixadas na Catedral São Paulo Apóstolo, em Blumenau. O conjunto, esculpido por Gotfredo Thaler, inclui as imagens de Nossa Senhora, do Cristo Crucificado, de São José e do Cordeiro Pascal.
As peças foram instaladas na fachada principal da então Igreja Matriz a partir de 30 de maio de 1973. O conjunto compõe um quadro que representa a família, o perdão, a comunidade e o sacrifício — simbolismo que, à época, foi detalhadamente explicado pelo vigário da paróquia, Frei Bernardo.










Fixação da obra na fachada frontal da Igreja. 1973.






A obra está desprovida de limpeza.



Uma visita ao seu Memorial-Atelier em janeiro de 2026

O Memorial Gotfredo Thaler, instalado em seu antigo atelier, funciona como memorial e galeria de arte aberto à visitação pública. O local abriga o que é considerado o maior acervo de obras esculpidas em madeira de Santa Catarina.
Ao longo de sua carreira, o escultor produziu mais de 200 obras de grande escala, que hoje adornam igrejas e coleções particulares tanto no Brasil quanto no exterior. Especialista em arte sacra de variadas dimensões, Gotfredo criou peças pródigas em criatividade e beleza, reconhecidas mundialmente por sua maestria técnica.



As imagens comunicam




Viúva de Gotfredo Thaler e guardião do Memorial, Judite Thaler.




Além de mestre entalhador, Andrä Thaler dedicou-se à pintura, deixando um legado de obras em tela que dialogam com sua técnica na madeira. Em suas pinturas, Andrä frequentemente retratava temas regionais, paisagens e, de forma notável, reproduzia em duas dimensões as próprias esculturas e as obras monumentais de seu filho, Gotfredo. Esse exercício artístico em tela servia tanto como registro quanto como uma interpretação pictórica do rigor técnico da escola tirolesa.


































Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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