sábado, 20 de julho de 2024

Michael Lochner - de Die Odenwälder à Herr Schmidt - Da Alemanha ao Brasil.

 Em ritmo de Oktoberfest Blumenau 2040.


Muitos foram os músicos  que conheceram o Brasil, através do Oktoberfest Blumenau e permaneceram morando no país e na região - dando sequência ao intercâmbio entre Alemanha e Brasil iniciado em 1850, na região da antiga Colônia Blumenau, e antes ainda, com a vinda dos imigrantes alemães de São Pedro de Alcântara, como por exemplo, a família Wagner (História no final da postagem).
Uma das dezenas de bandas alemãs que se apresentaram no Oktoberfest Blumenau foi a Die Odenwälder. Em sua primeira vez no Oktoberfest Blumenau, no  ano de 1990, trouxe entre os vocalistas,  o vocalista e músico  Hans Jurgen Jopp (Link de sua história - no final) e depois, no ano de 1992, a banda retornou com um novo vocalista: Michael Lochner, que fazia grande sucesso com o grupo da banda. Die Odenwälder geralmente se apresentava no Pavilhão "D" - Ginásio de Esporte Galegão adaptado  para as apresentações das bandas durante o Oktoberfest. No palco deste, Michael Lochner tomava a bandeira do Brasil e subia no local mais alto e mais próximo ao público - que aplaudia a performance da banda alemã. Sucesso. 



Atualmente Michael Lochner - reside e trabalha na cidade de Pomerode. Canta e toca na Banda Herr Schmidt, onde está também o primeiro vocalista da Die Odenwälder, Hans Jurgen Jopp, entre outros nomes da música regional, como por exemplo, o Lino.
Michael Lochner - Da Alemanha para o Brasil.

Michael Lochner nasceu em Frankfurt am Main em 19 de fevereiro de 1967. Com 8 anos de idade iniciou suas aulas com gaita. Depois passou aos estudos com violão e guitarra. Nesse período participou do coro da escola. Fez parte de sua formação musical, dois anos de estudos com saxofone no Instituto de Jazz de München - Neue Jazzschool München e.V..

Neue Jazzschool München e.V.
Michael sempre possuiu gosto pela música e esta sempre esteve presente na sua vida - na Alemanha e também no Brasil. A música o trouxe para o Brasil.
Na Alemanha fez parte da banda de rock "Don't Eat Yellow Snow" e da banda Funpunk "Die Freunde vom Chef". Em 1993, recebeu o convite para ser o vocalista e tocar na Banda Die Odenwälder, durante sua passagem na edição do Oktoberfest Blumenau deste ano e depois, retornou nos anos seguintes. Até então, o vocalista foi Hans Jurgen Jopp, o qual não o conhecia. A capa desta postagem é registro do Oktoberzeitung do dia 5 de outubro de 1993, o qual ilustra o sucesso que se tornou o Die Odenwälder a partir deste ano. 

Canção  Hey Brasil - cantada por Michael Lochner no Oktoberfest Blumenau 1993.


Nós prestigiávamos todas as apresentações e quase sempre - o ponto máximo acontecia quando Michael Lochner tomava a bandeira do Brasil nas mãos e agitava, antes, durante ou depois da canção  Wind Of Change - da banda alemã Scorpions, com direito assovio e tudo. Naquela época, não  existia a tecnologia de hoje e, portando, não fizemos  registros como nos é possível fazer hoje. Contamos que Michael Lochner possa compartilhar reproduções de registros de seu acervo histórico, para colocarmos e ilustrar esta história, para a História. 
Para relembrar, apresentamos um vídeo da canção de maior sucesso que Die Odenwälder apresentava, interpretada por Michael Lochner -  Wind Of Change - da banda alemã Scorpions. A foto do Oktoberzeitung da capa desta postagem, reporta a este momento da canção do Scorpions, pois eram acendidas este tipo de luz nas mãos de todos.
Em 1996, Michael Lochner, já residindo no Brasil e com os cabelos curtos, fez parte da Banda Cavalinho, novo nome da antiga Cavalinho Branco fundada por Rikobert Döring no final da década de 1970.
Na Banda Cavalinho.

Na Banda Cavalinho.
Michael Lochner e Markus Blumenschein -  28 de maio de
2019 - posse da Cônsul Honorária da Alemanha em
Blumenau e região – Susanne Klemz Adam.
Em maio de 2013, Lochner começou a apresentar o programa  Jetzt geht's los (Agora vai, na tradução livre do alemão). O programa era semanal e ia ao ar todos os sábados, ao meio-dia, na Rádio Nereu Ramos de Blumenau. Os ouvintes podiam acompanhar semanalmente, uma hora de programação pouco usual para as rádios brasileiras. O projeto foi idealizado por Markus Blumenschein. 

"Grande parte dos imigrantes alemães vieram para o Brasil há 150 anos. Eles não tinham uma comunicação fácil com a Alemanha. Quando cheguei aqui, nos anos 1990, eles ainda eram muito conservadores. Hoje as coisas estão começando a melhorar". Michael Lochner - entrevista à DW Brasil. 

Para Michael Lochner, a ideia do Jetzt geht's los era de mostrar um "lado musical contemporâneo" da Alemanha. Houve resistência de parte da comunidade alemã do Sul do Brasil, como também haveria em algumas regiões da Alemanha (ver comentário no final). O programa poderia ser ouvido em todo o Brasil e no mundo, via internet pelo site da emissora de rádio.
Em  2015/1916, Michael Lochner fundou, com outros músicos, a Banda Herr Schmidt, já residindo em Pomerode SC. A banda continua fazendo música até os dias atuais e se apresenta, no Oktoberfesr Blumenau e na Festa Pomerana, entre outros eventos culturais na região e no Brasil.
Seu lançamento aconteceu na Festa Pomerana de 2016 e neste tempo, Hans Jurgen Jopp, ainda não fazia parte da formação da banda.

Lançamento da banda Herr Schmidt na Festa Pomerana 2016.


Festa Pomerana - Janeiro de 2016 - Herr Schmidt sendo apresentada e lançada.
Nesse tempo, Hans Jurgen Jopp ainda não participava do Herr Schmidt e o que deveria estar sendo sondado, quando encontramos os dois amigos francos em Pomerode, no aniversário do G.F. Alpino Germânico, em 18 de setembro de  2016. Ambos, foram ex integrantes do Die Odenwälder.
Die Zwei Franken - Hans Jurgen Jopp und Michael Lochner.
Herr Schmidt no Oktoberfest 2019 - com Hans Jurgen Jopp.
Este reencontro musical de amigos e conterrâneos no Brasil, não demorou muito para resultar em outros projetos. Em janeiro de 2019, Michael Lochner e Hans Jurgen Jopp, apresentam o Die Zwein Franken (Os dois francônios) na Festa Pomerana, com um repertório divertido munido de canções pop's da Alemanha. Assistimos uma de suas apresentações em Pomerode, em janeiro de 2019.
Hans Jurgen Jopp und Michael Lochner.
Com Die Zwei Franken - Festa Pomerana 2019.
Palavra de Michael Lochner:

A música é meu grande sonho. Eu consegui viver da música com a Banda Cavalinho entre 1996 e 2001. Atualmente a música é meu hobby. Eu gosto muito de tocar, principalmente, poder interagir com o público. Energia muito positiva. Michael Lochner.

Michael Lochner se formou em psicologia em 1993, ano da primeira viagem ao Brasil, na Julius Maximilians Universität Würzburg. Especializou-se em Psicologia do Trabalho, Organização e também, em Psicoacústica
Julius Maximilians Universität Würzburg.

Atualmente, no Brasil, na cidade de Pomerode, além de fazer música, é o Gerente de Marketing da Weiku.

Michael Lochner  - Palestra on line - Weiku.
Curiosamente, esteve presente, de maneira virtual, em uma de nossas aulas, na Disciplina de Materiais e Revestimento - curso de Arquitetura e Urbanismo, falando sobre aberturas de PVC e as vantagens dos produtos com isolamento térmico acústico.
Outras imagens de Michael Lochner e a Música
Michael Lochner e Lino - 28 de maio de 2019 - posse da Cônsul Honorária da Alemanha em Blumenau e região – Susanne Klemz Adam.















Com Lino da festa de 50 anos de Cavalinho Branco/Cavalinho.



Dezembro de 2021 - comemoração de 20 anos, quando  Arnd E. Kilian me convenceu Michael a trabalhar na Weiku. Como o "músico popular" se tornou um "construtor de janelas". Noite especial - 20 anos Weiku.

Registros para a história.
Aguardaremos os antigos registros desta história - por enquanto resume-se ao jornal.


Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (Twitter)

Um comentário

Michael Lochner nasceu em uma região e cidade que historicamente foi dominada culturalmente, por culturas fortes e dominantes, ao longo de sua história, por pelo menos, duas vezes (romanos e americanos). Os dominadores, que chegaram ao local em tempos históricos distintos, impuseram sua forma de viver e muitas vezes, desmereceram as práticas nativas locais. Como acontece em todo o lugar do mundo - sob a ótica da antropologia. Alemanha, mesmo sendo territorialmente muito pequena, é tão rica sob o aspecto da diversidade cultural, quanto o Brasil o é, com o território continental.
Michael, comenta algo sobre os descendentes dos imigrantes alemães que fundaram as cidades do Vale do Itajaí estarem estagnadas, quanto às práticas musicais, por exemplo - "...Serem conservadores!"...Que poderá, também ser visto, como um tipo de tradição. 
Após alguns anos de pesquisas e estudos sobre Alemanha e sua cultura, podemos afirmar que há pessoas de outras regiões da Alemanha (Além de Frankfurt e região), que não foram submetidos, muitas vezes por vias bélicas, à outras práticas e que, prezam a sua tradição (e continuam conservadores). Nestes locais, quanto mais ancestral  forem as práticas, melhor. Muitos locais da Alemanha, fazem questão de ensinar aos seus filhos, o dialeto ancestral e tudo o mais ligado às práticas de suas tribos antepassadas. Tradição é atemporal. Vimos inúmeras festividades em agrupamentos "medievais" por onde passamos na Alemanha.
Frankfurt, cidade de Michael, foi dominada pelos romanos e depois pelos americanos, agora recentemente, após a 2° Guerra Mundial. É claro que muito de suas práticas - dos dominantes - permaneceram no local, destoando de outras, de outros locais. Talvez isto explique o porque desta cidade, Frankfurt, ser uma das poucos cidades da Alemanha que possua arranha céus, ou, a verticalização, não muito bem vista em outras regiões do país. Alemanha possui mais de 85% de sua população vivendo em cidade médias e pequenas, com menos de 10 mil habitantes. Portanto, para os brasileiros que acreditam que "alemão é tudo igual", não é não. Depende sempre de qual lugar da Alemanha, "o alemão" nasceu. Em outras bandas alemãs, que chegaram para tocar no Oktoberfest Blumenau, encontramos muitos alemães - músicos, mas muitos mesmos, e vimos também lá na Alemanha, que vivem intensamente a tradição ancestral. 
Entre estas diversidades culturais, dentro da Alemanha, há muito etnocentrismo e "duelos", como na época feudal, só que agora, na brincadeira. Vimos isto no local. Sugerimos a leitura do primeiro texto na lista de leituras complementares desta postagem (abaixo). Lembramos também, que a região de onde vieram os Pomeranos não teve contato com o Francos e nem com  Romanos, que interferiram muito nas práticas da região mais ao Sul da Alemanha. Hermann, o primeiro herói alemão, não permitiu o avanço romano para o norte do Danúbio. O assunto é extenso... Deixamos a dica, que sempre é bom refletir antes de generalizar as práticas culturais das várias regiões da Alemanha e dos locais distintos, do Brasil, por exemplo, para onde vieram diferentes tipos de imigrantes alemães e continuam vindo. Evitar o etnocentrismo. 







sexta-feira, 19 de julho de 2024

Musik in der Nacht

Guten Abend Freunde!
Um pouco de música na noite.








Bis Morgen.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (Twitter)







segunda-feira, 15 de julho de 2024

Neoenxaimel e as edificações construídas com a técnica enxaimel nos dias atuais

A Casa Enxaimel é resultado de um processo evolutivo, com ritmos diferentes nas várias regiões do planeta, e este processo existe até os dias atuais, o qual acompanha as necessidades da sociedade, a tecnologia e tipos de materiais nos locais e industrializados, com atualizações.

Lembramos que a casa enxaimel construída no Vale do Itajaí é um fragmento do processo que se iniciou no Sul da Europa Central e Balçãs, no Vale do Danúbio, em território da Alemanha, há aproximadamente 7.500 anos atrás, ou seja a 5.500 a.C. período no qual, arqueólogos estão estudando e pesquisando as primeiras povoações feitas com as construções das primeiras casas, a partir da estrutura de madeira. Depois desta região, o neolítico chegou à Moldávia e à Bacia de Paris. A migração seguiu para o norte da Europa Central (norte da Alemanha) e norte da Europa somente entre 4.200 e 4000a.C, nas imediações da Baixa Saxônia e Mar do Norte e onde estavam localizados a Pomerânia e o Mar Báltico. O processo evolutivo da técnica construtiva é viva e contínua e nele não cabe o conceito neoenxaimel.
Casa com estrutura enxaimel contemporânea - a técnica mais sustentável não somente na Alemanha, mas em outros países da Europa, construída com madeira de reflorestamento e dentro da fábrica com máquinas de última geração. Não há desperdício de materiais e o mínimo de geração de lixo e demanda de energia. Casa sustentável, com objetivo em obter selos de qualidade. Não é um Neoenxaimel. Fonte: Lumipolar, 2020.



Outro dia ouvimos uma expressão, durante a transmissão de um programa de rádio do qual participávamos, expressão essa que conhecemos no âmbito de uma pergunta feita para nós, pouco antes de palestrarmos em Itapiranga - extremo Oeste de Santa Catarina, sobre a técnica construtiva enxaimel. Refletimos sobre a pauta e decidimos comentá-la: Neoenxaimel.
Casa temporária no interior do Vale do Itajaí, em  direção ao
 norte. Mata derrubada para fazer a roça e as pastagens  e com
 a madeira, o primeiro abrigo - século XIX. 
WITTMANN, 2019
Atualmente, a expressão neoenxaimel vem ganhando espaço no Brasil, (só no Brasil) por arquitetos, pesquisadores da academia, leigos, e também construtores - para denominar alguma coisa que se reporta a um tipo de construção que, cenicamente, “lembre” a técnica construtiva enxaimel trazida pelos pioneiros alemães ao País. Essa técnica atualmente, na Alemanha é resultante de uma evolução tecnológica e social, cuja origem ocorreu no período neolítico, há 7.500 anos atrás. Onde não haviam cavernas e tinham muitas florestas, o novo agricultor e pastor oriundo da revolução agrícola, limpava o lugar para a lavoura e a pastagem e com a madeira, construíam seus primeiros abrigos. 
Já não vimos essa mesma prática muito próxima de nós?
Como se construía uma das tipologias do embrião da técnica construtiva enxaimel, período neolítico, na região de origem desta técnica construída, na Alemanha. Embrião do processo evolutivo, da casa pioneira do Vale do Itajaí, a partir do século XIX.  Observar a independência da estrutura de madeira - a principal característica. WITTMANN, 2019.





Blumenau - Fake. 
Por meio das construções atuais denominadas neoenxaimel, aparentemente pretende-se apresentar alguma coisa aparentemente alinhada à técnica construtiva e à cultura dos pioneiros alemães, com objetivos focados no aspecto econômico e comercial destes cenários – denominado por Vieira (2013) de kitsch.
O neoenxaimel sugere que há uma nova maneira de construir o enxaimel. Não se trata da mesma técnica construtiva ou uma variação desta. Mas sim, de um decorativismo cênico aplicado sobre uma outra técnica construtiva. O resultado é um cenário  que lembra a aparência final de uma edificação enxaimel, mas sem a estrutura de madeira independente do fechamento – uma das características de sua originalidade – seja antiga ou nova. Os primeiros pesquisadores sobre enxaimel na cidade de Blumenau e região denominavam esse tipo de construção, por décadas, de pseudoenxaimel ou enxaimeloide.  
O que é pseudoenxaimel e neoenxaimel?
Tipologia enxaimel construída no antigo território de Blumenau - Pomerode.
A técnica construtiva foi trazida para a região pelas mãos dos imigrantes alemães, no entanto, essa técnica existe no mundo inteiro - como por exemplo - no Japão.
As edificações Fachwerkhaus - enxaimel - nunca deixaram de ser construídas na Alemanha. Erroneamente muitos afirmam tratar-se de "coisa velha" e questão de saudosismo de poucos intelectualmente evoluídos. Ledo engano.
Edificação original do século XIII localizada no  Fränkische Freilandmuseum Bad Windsheim - Alemanha, onde há edificações com idades que variam entre 100 à 1000 anos de idade preservadas e abertas a visitação pública. Nesse lugar conseguimos entender a evolução da técnica construtiva enxaimel na região de onde  tem a origem da edificação enxaimel construída no Brasil, em Santa Catarina e Blumenau, com também nas várias regiões do planeta. 
Edificação do Fränkische Freilandmuseum Bad Windsheim - Alemanha - data de construção  - 1367.
Edificação do Fränkische Freilandmuseum Bad Windsheim - Alemanha - data de construção  - 1367.







































Estrutura enxaimel atual - com fechamento feito com vidro.
A primeira vez que ouvimos a expressão neoenxaimel foi em Itapiranga, Oeste de Santa Catarina, em setembro de 2018, durante o momento de perguntas efetuadas no decorrer de uma palestra sobre o enxaimel. Depois, ouvimos a expressão novamente em 2020, durante um debate, do qual participamos, efetuado ao vivo, na Rádio Arquitetura. 
Também constatamos que há uma produção acadêmica por meio de artigos, dissertações e teses. Algo bem recente como linguística. 
Há pesquisas suficientes no País sobre a técnica construtiva enxaimel, para então, se compreender o que é neoenxaimel?

O neo-enxaimel, é um estilo  arquitetônico inspirado no enxaimel, uma antiga técnica de construção de casas, trazida pelos imigrantes. Tendo se proliferado pelo centro destas cidades e alterado a estética urbana, esta arquitetura foi novamente trazida ao presente dentro de um contexto histórico e social bastante diferente daquele das antigas casas. Além disso, para sua implantação não houve qualquer comprometimento histórico, resultando em uma arquitetura inautêntica e até mesmo Kitsch, devido ao seu caráter comercial. VEIGA (2013)

 No Brasil, há uma pequena produção acadêmica sobre a técnica construtiva enxaimel, quase sempre desprovida de embasamentos mais profundos sobre a evolução da técnica, por ser um tema muito recente. E, no interior da pesquisa existente, o estudo é setorizado dentro de períodos históricos e é fracionado e analisado através destes segmentos, desconsiderando sua sequência evolutiva ao longo da linha histórica – que teve início no neolítico e segue até o tempo presente. Há definições prontas a partir de composições e de olhares diferentes sobre fragmentos dessa evolução da técnica construtiva dentro de determinados períodos históricos, desconsiderando sua continuidade, para compreensão ampla e o entendimento evolutivo da definição da técnica no tempo presente, resultante deste processo e não um novo enxaimel ou neoenxaimel

O enxaimel foi bastante utilizado em países do centro e norte da Europa, desde fins da Idade Média  até a Revolução Industrial. A técnica caracteriza-se basicamente pela construção de paredes formadas por uma estrutura com peças de madeira horizontais, verticais e inclinadas encaixadas umas nas outras, sem o uso de pregos; os espaços vazios entre as madeiras eram depois preenchidos, geralmente, de taipa. No século XVIII, o tijolo começaria a ser usado como material de preenchimento das paredes das casas em cidades no norte da Alemanha. (VEIGA, 2014).

Conjunto de casas construídas no último período do neolítico, na Europa Central,  com estrutura independente de madeira, fixada no solo, cobertura vegetal e fechamento em taipa. Houve uma evolução da técnica e não "nasceu" na idade média. WITTMANN, 2019.



Estrutura enxaimel com contraventamento com cabos de aço de fechamento com vidro - construção atual, na Alemanha. Cobertura parcial feita de colmo.



Construção de enxaimel tradicional atual - Alemanha.

Manutenção, por uso de material orgânico é necessária periodicamente, substituindo por novo e mesmo material.



Edificação enxaimel histórica na Alemanha com fechamento misto, taipa rebocada com gesso e madeira. Aberturas atuais.

Edificação construída com estrutura enxaimel na qual, em 2014, momento de nosso registro, residia representante da 5° geração daquele que a construiu. Detalhe para a cozinha edificada afastada do corpo principal da casa, também em enxaimel. Na parte frontal, novamente a presença da varanda - no momento de nossa visita, usada como é acontece há mais de 140 anos, pelas membros das famílias e gerações que nela residiram.

Quando publicamos o livro “Fachwerk – A Técnica Construtiva Enxaimel”, com parte da organização da pesquisa de mais de 25 anos sobre o assunto, na época, o objetivo foi suprir lacunas e contribuir com informações sobre a técnica construtiva enxaimel, uma das mais antigas do Planeta e presente em quase todos os continentes – com diferentes resultados. 
Veiga (2014) escreveu um artigo sobre neoenxaimel com forte crítica ao “cenário” comercial praticado em muitas cidades e também em Blumenau, nas quais já existiu um considerável conjunto de edificações construídas originalmente com técnica enxaimel. Estas não foram preservadas, tendo sido retiradas, paulatinamente, das paisagens rurais e urbanas, sem muita reflexão.
Rua XV de Novembro, início do século XX.
Com isto, há o surgimento de definições com bases voláteis, insólitas e fracionadas, desprovidas de fundamentações sólidas, e, muitas vezes, criando expressões insustentáveis como neoenxaimel, cujo conteúdo pretendido já era destacado e apontado décadas anteriores na região de Blumenau, com outra denominação: pseudoenxaimel e enxaimeloide, contendo, em si, o lastro crítico, na época usado por boa parte de pesquisadores e técnicos. Lembramos da construção da praça Victor Konder, junto à prefeitura de Blumenau, que também é outro exemplo. 
Projeto da construção Fake na praça pública, Victor Konder e que foi executado. No projeto  o edifício está fora da escala.

A construção da estrutura de madeira - enxaimel da Estação Ferroviária de Blumenau. Foi demolida para a construção do novo edifício da Prefeitura Municipal de Blumenau atual,  com estrutura de alvenaria e ripas coladas na fachada.




Estação Ferroviária de Blumenau construída no início do Século XX. 
Prefeitura Municipal de Blumenau, construída no terreno da primeira estação ferroviária de Blumenau, com estrutura de alvenaria rebocada e ripas coladas em suas fachadas.
Pioneirismo - Pesquisa - Técnica construtiva enxaimel no Vale do Itajaí
Observando o trabalho de Veiga (2014), pode-se afirmar que a ausência de profundidade das pesquisas existentes no País e o entendimento sobre o enxaimel no Vale do Itajaí, no final da década de 1970, contribuíram para o surgimento de conclusões não tão verídicas para sustentar as análises de expressões recentes, surgidas a partir da década de 2010, como, por exemplo,  neoenxaimel. A definição do conceito está correta, mas o contexto social que o fez surgir, não. Este termo é muito mais recente e apresenta outra conotação – como significado dentro dos períodos históricos.

As casas de enxaimel catarinenses, que eram únicas e autênticas, verdadeiros resquícios materiais de um importante período da história brasileira – o da imigração estrangeira em massa – perderam sua aura ao serem copiadas visando o consumo turístico. A partir do final dos anos de 1970, inicia-se na cidade de Blumenau – a maior cidade na região do Vale do Itajaí –, uma política cultural voltada para o turismo, que visava reconstruir a imagem da cidade como uma cidade germânica. Esta política cultural, que se utilizava fortemente do discurso de resgate da identidade e da tradição, culminou, entre outras coisas, na construção de uma arquitetura artificial, o chamado neo-enxaimel , o qual limitava as formas da antiga e obsoleta técnica de arquitetura popular para denominar também um estilo arquitetônico, uma vez que estas novas edificações não foram construídas utilizando a antiga técnica: elas apenas mimetizavam sua aparência, sem qualquer comprometimento histórico. Assim, propaga-se uma ideia errônea com relação ao enxaimel, sendo bastante comum ver situações que se referem a ele como um estilo, enquanto que ele sempre foi uma técnica construtiva. (VEIGA, 2013)

O contexto histórico dos fatos sequenciais na cidade de Blumenau foi diferente da narrativa feita por Veiga (2013). A expressão sugerida em seu trabalho surgiu na região somente na década de 2010 – como algo “novo” e não como algo arbitrário, como tinha a conotação da expressão usada anteriormente para denominar uma edificação que recebia o decorativismo do enxaimel sobre uma estrutura qualquer - o pseudoenxaimel. Em Blumenau, mesmo construções com estas características, já eram denominadas com os conceitos enxaimeloide ou pseudoenxaimel.
Blumenau. Fotografia de Vilmar Vidor.


Em 1974, quando o ex-prefeito de Blumenau Félix Theiss assumiu a administração, e este priorizou a formação de uma equipe técnica formada por arquitetos, a fim de implantar o Plano Diretor da cidade de Blumenau desenvolvido na administração anterior, do ex-prefeito Evelásio Vieira - Lazinho, foi contratado o arquiteto recém-formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Vilmar Vidor, que assumiu a coordenação do Planejamento Urbano de Blumenau, e chamou mais colegas seus, da área de Arquitetura e Urbanismo, para trabalharem na cidade. Esta equipe técnica coordenada por Vidor fez um trabalho pioneiro de pesquisa, levantamentos e estudos das tipologias pertencentes ao patrimônio histórico arquitetônico, não somente de Blumenau, mas do Vale do Itajaí. A pesquisa se desenvolveu em várias frentes e áreas com o perfil interdisciplinar – no âmbito da Universidade – FURB, na Administração pública – Prefeitura Municipal de Blumenau e, também, no âmbito do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Blumenau – IPPUB. Toda esta movimentação, bem ou mal, influenciou a administração seguinte – a do prefeito Renato de Mello Viana, sob o aspecto da construção dos cenários do pseudoenxaimel, como era denominada a prática da construção do fake - até o século XXI. Neste período, Vilmar Vidor estava na Universidade Sorbonne, em Paris, França, cursando seu doutorado.
Vilmar Vidor  no Setor de Planejamento Urbano da Prefeitura Municipal de Blumenau.
Durante os duros anos da década de 70, embalados pelo “generoso” milagre econômico e pela exacerbada ditadura militar, vivenciados mais arduamente nos grandes centros, cujo policiamento ostensivo constrangia qualquer cidadão, resolvi mudar de vida e de lugar.
Neste momento de decisão/transição, Blumenau preenchia meu imaginário como lugar paradisíaco, ambientalmente puro, lugar propício ao desenvolvimento de grandes ideias e à cristianização de futuro promissor. (...) 
Nunca me arrependi desta decisão de mudança para Blumenau.  É minha terra de coração e continuará a sê-lo enquanto a dinâmica, a perspicácia e a vontade de toda a gente desta cidade permanecerem voltadas para melhorar e qualificar a vida de todos. Entretanto, um lamento final: por que tanto desleixo com o enxaimel, arquitetura que personaliza, identifica e projeta a cidade para o mundo todo?  (VIDOR, 2000)

O Arquiteto Vilmar Vidor também fundou a Associação de Proprietários de Imóveis Antigos, trouxe o renomado pesquisador alemão, o qual ministrou curso prático de restauro (40h), Manfred Gerner, coordenou o primeiro levantamento de edificações pertencentes ao patrimônio histórico arquitetônico da região – Projeto Memorvale. Foi pioneiro na pesquisa do enxaimel por mais de três décadas, na região do Vale do Itajaí. Durante este tempo, a expressão usada para a arquitetura produzida com alvenaria estrutural, com ripas coladas nas paredes, caracterizando o decorativismo fake era conhecida como pseudoenxaimel, enxaimeloide e não neoenxaimel.
  Cônsul Honorário da Alemanha em Blumenau - Hans Prayon, Professor Manfred Gerner, Reitor da Furb, Professor e arquiteto  representante da Fundação Cultural de SC -  Pedro Ernesto Bühler e o Professor e Arquiteto Vilmar Vidor. Curso de restauro de enxaimel da Casa Franz em 12 a 16 de agosto de 1996 - Vila Itoupava. Iniciativa do Professor Vilmar Vidor.






Disseminando  o conhecimento da técnica da estrutura enxaimel que até a sua chegada, não era estudada na região. O professor Vilmar Vidor promoveu o início da formação técnica e o estudo do enxaimel na região do Vale do Itajaí. 
Nomes de alguns que participaram do curso  ministrado por Manfred Gerner em 1996: 1 - mestre carpinteiro Bernd Kuschinik; 2 - Michele; 3 - Patrícia Schwanke; 4 - Silvana; 5 - Inês; 6 - Manfred Gerner; 7 - Sávio Abi-Zaid; 8 - Luciana Grebe Rosa; 9 - Iara Gomes; 10 - Juliana Stefanes; 11 - Egon Tiedt; 12 - Angelina Wittmann; 13 - Arthur Bonna; 14 - Guido Paulo Kaestner Neto;  15 - Pedro Ernesto Bühler; 16 - Egon Belz; 17 - Vera Krummenauer; 18 - Joice; 19 - Ione Pereira;20 - Osvaldo Segundo.







 Enxaimel – Pseudoenxaimel
Fotografia de Vilmar Vidor.
O desenvolvimento da técnica enxaimel aconteceu no sul do Brasil, por indivíduos europeus que trouxeram consigo, arquivados em suas memórias, conhecimentos produzidos no cotidiano, nos respectivos lugares de origem.     O enxaimel não é uma criação alemã, assim como as construções ecléticas não são germânicas, nem italianas, nem açorianas, mas têm sua base nestes lugares. De base alemã, italiana ou portuguesa engendram-se localmente outras formas e funções na construção e no cotidiano da arquitetura local/regional. (...)
No Brasil, especialmente no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e no Vale dos Sinos no Rio Grande do Sul, a reprodução do “fachwerk" dito aqui enxaimel, teve continuidade, porém limitada e modificada pelos condicionamentos locais. Em decorrência do clima subtropical não era necessária a inclinação superior de 45 graus dos planos da cobertura, mas tornou-se necessária a construção de uma varanda, característica das construções nos lugares de clima quente úmido. (VIDOR, 2007)

A pesquisa sobre o enxaimel e demais tipologias pertencentes ao patrimônio histórico arquitetônico na cidade de Blumenau, como assunto de pauta prioritário, dentro da administração pública - IPPUB, da Universidade – FURB e dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Serviço Social, propiciou o surgimento de conselhos, associações e uma legislação formal municipal, alinhada às entidades e legislações estaduais e federais, com objetivo de enaltecer, registrar, coibir ações que atingissem este conjunto patrimonial e prestação de assessoria técnica à sociedade no que tange a preservação, com ações práticas e incentivos. Em 22 de dezembro de 1994, o prefeito de Blumenau, Renato de Mello Viana, sancionou a Lei Complementar n° 79, regulamentada pelo Decreto n° 5.100 em 8 de março de 1995. Esta lei instituiu o programa de proteção e valorização do patrimônio histórico-arquitetônico do município, concedendo incentivos tributários ao proprietário de imóvel que fizesse parte do Cadastro do Patrimônio Histórico (Projeto Memorvale) que também fosse útil às ações de instituições de preservação na escala estadual e federal. Para atender aos objetivos do programa, foram criados o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico Arquitetônico e o Fundo Municipal de Conservação do Patrimônio Histórico Arquitetônico.

O Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Blumenau (IPPUB) é o órgão gerenciador do programa. Cabe a ele executar o levantamento, no qual é apurada a idade, estilo arquitetônico, características próprias de engenharia, peculiaridades arquitetônicas, referência social e cultural da família do proprietário são os critérios para que os imóveis passem a integrar o cadastro de imóveis de valor cultural, histórico e arquitetônico. (JSC, 1995)

A Igreja de Itoupava Rega Central construída em 1911, localizada no distrito da Vila Itoupava.  Foi restaurada e tombada pelo Estado de Santa Catarina como Patrimônio Cultural Edificado em 1996. Na mesma época. Participamos da equipe deste restauro da igreja que foi coordenada pelo Arquiteto Egon Belz, dentro do IPPUB.
Igreja de Itoupava Rega Central, foi restaurada com capital
 do Fundo. A igreja corria risco de ser demolida na  década
 de 1990. Trabalhos nessa equipe, como  estagiária  do IPPUB.
Interessante o depoimento da professora e profissional da área técnica, arquiteta, urbanista e doutora Claudia Siebert, sobre esse momento, no qual o processo do entendimento sobre o patrimônio histórico arquitetônico, na cidade de Blumenau e região, acontecia e cita a lei de 1981, sendo que a lei foi reformulada, abrangendo o entendimento do que é patrimônio e ampliando a esfera do incentivo, que existiu e existe até os dias atuais.
 
"Angelina, quando eu me formei na UFPR em 1983 e vim para Blumenau trabalhar na Secretaria de Planejamento da Prefeitura, havia isenção de IPTU para "casas típicas" ou "enxaimosos", como apelidávamos à época (LEI Nº 2.262/77), e para edificações em enxaimel (LEI Nº 2.762/1981). Mas não havia isenção de IPTU para edificações que fossem consideradas patrimônio histórico sem ser enxaimel. Então, foi encaminhada à Câmara de Vereadores o projeto de lei que concedia isenção de IPTU para o patrimônio histórico, que foi aprovado como LEI Nº 3.142/84. Arquiteta Urbanista, professora Dra. Claudia Siebert, 18 de julho de 2024.


A Lei Complementar de incentivo ao proprietário ainda existe

Atualmente é a Lei N° 794, que existe para legitimar o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau - COPE e o Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau - FUMPACE, amplamente divulgada e de conhecimento de parte da sociedade interessada, no século XX. Naquele tempo, os proprietários eram organizados em uma Associação de Moradores de Imóveis Antigos e possuíam uma cadeira cativa nos Conselhos da Prefeitura Municipal de Blumenau, principalmente no COPE. 

Lei Complementar N° 794 - Fundo

O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau - COPE, órgão de caráter permanente, de natureza deliberativa e consultiva, integrante da estrutura administrativa municipal, vinculado à Secretaria Municipal de Planejamento Urbano, é responsável pela Política de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau, e será composto de forma paritária, com representantes do Poder Executivo e da Sociedade Civil. (Redação dada pela Lei Complementar 1257/2019)
 Compete ao COPE:

I - fixar critérios, definir diretrizes e estratégias para a implementação da Política de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau, observada a legislação que rege a matéria;
II - decidir sobre o tombamento de imóveis considerados como Patrimônio Cultural;
III - sugerir ao Chefe do Executivo a formalização de convênios, contratos e acordos em nome do FUMPACE, observadas as formalidades legais;
IV - deliberar sobre a proposta orçamentária, as metas anuais e plurianuais e sobre os planos de aplicação de recursos do FUMPACE, bem como controlar sua aplicação e execução, em consonância com a legislação pertinente;
V - deliberar, acompanhar e fiscalizar a aplicação dos recursos do FUMPACE, solicitando, caso necessário, o auxílio da Secretaria Municipal da Fazenda;
VI - analisar e deliberar sobre os projetos para edificação dos bens imóveis classificados como P3;
VII - cumprir e fazer cumprir, no âmbito municipal, a Política de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado do Município, bem como toda a legislação pertinente;
VIII - convocar, através da maioria de seus membros, justificando por escrito ao Presidente do COPE, reunião extraordinária;
IX - promover e articular, quando necessário, reuniões com os demais Conselhos existentes no Município;
X - emitir resoluções de suas decisões;
XI - aprovar o Regimento Interno e promover suas alterações, quando necessário, que será homologado por ato do Poder Executivo;

CAPÍTULO III

Do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau - FUMPACE

Seção I
Da Natureza, Gestão e Competência

O Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural Edificado de Blumenau - FUMPACE, órgão de natureza contábil, tem como objetivo centralizar e gerenciar os recursos orçamentários para a restauração, preservação e utilização dos bens de interesse cultural, vinculado à Secretaria Municipal de Planejamento Urbano, que lhe dará estrutura de execução e controle contábeis, sendo o Secretário Municipal de Planejamento Urbano, o ordenador de despesas.

Parágrafo único. A movimentação bancária dos recursos do FUMPACE será realizada em conjunto pelo Secretário Municipal de Planejamento Urbano e pelo Diretor de Planejamento Urbano. (Redação dada pela Lei Complementar nº 1257/2019)

Os recursos do FUMPACE, em consonância com as diretrizes e normas do COPE e demais legislações que regem a matéria, serão aplicados, obrigatoriamente, na proteção, conservação e restauração dos bens de Patrimônio Cultural Edificados, tombados pelo Município, especialmente em:
I - ajuda financeira aos proprietários de imóveis tombados que, comprovadamente não tenham condições para fazê-lo, para preservação do Patrimônio Cultural Edificado - PCE tombado, na forma do regulamento.
II - campanhas, palestras, cursos e material de divulgação e valorização sobre a importância dos bens culturais constantes do acervo da cidade;
III - estudos, levantamentos, projetos e execução de obras de proteção, conservação e restauração do Patrimônio Cultural Edificado - PCE tombado, de propriedade do Município de Blumenau, na forma de regulamento. (Redação acrescida pela Lei Complementar nº 1443/2022)
No âmbito dessa movimentação institucional e debates no município e na região, a administração pública municipal do governo de Renato de Mello Viana, erroneamente, e não tendo dado ouvidos à sua equipe técnica, com foco somente na economia ofereceu incentivos às pessoas que tornassem sua edificação, sendo comercial, industrial ou residencial, dotada do fachadismo “enxaimel”. A reação dos técnicos, arquitetos e pesquisadores locais foi inevitável, e fez-se uso de expressões como o pseudoenxaimel e enxaimeloide, comum nas falas técnicas, em congressos, palestras e seminários sobre o tema. 
As práticas de inovações da área do turismo surgiram quando, na década de 1980, assumiu como secretário de Turismo de Blumenau, na administração do prefeito Dalto dos Reis, Antônio Pedro Nunes, proprietário da primeira agência de turismo do Estado de Santa Catarina e que fazia excursões periódicas de turistas para a Alemanha. Foi o idealizador e o coordenador das primeiras edições da Oktoberfest Blumenau, acreditando que o potencial turístico da cidade estava além das tipologias pertencentes somente ao patrimônio histórico-arquitetônico presente na paisagem da cidade e região, mas também, presente em outras práticas culturais e na gastronomia. De suas viagens de trabalho turístico à Alemanha trouxe planos e ideias.
Nas administrações seguintes, e sem a contribuição do arquiteto Vilmar Vidor, surgiram instituições que se apropriaram da narrativa patrimonial, mas não das ações práticas e, de certa maneira, houve momentos de constrangimento derivados do embate de interesses dentro do espaço da cidade.    Restou o levantamento do Memorvale, com cópias deixadas na Prefeitura Municipal, no Arquivo Histórico de Blumenau e na FURB, sem muita divulgação de sua existência. Antes de seu falecimento, em entrevista a um programa televisivo de Blumenau, o Arquiteto Vilmar Vidor mencionou que, do montante das edificações levantadas restava, aproximadamente, 1/3 na paisagem e 2/3 já haviam sido demolidas. 
Ficha do Cadastro do Projeto Memorvale, coordenado pelo arquiteto e professor Vilmar Vidor, proponente do projeto, via CNPq.
 Matéria do jornal Diário Catarinense de 2005 – Construção enxaimel perde espaço.
Neoenxaimel

Expressão que reporta à presença do fazer um “novo enxaimel” e de algo que não tem relação com a técnica construtiva enxaimel. Como poderá ser considerado “Novo”?
No estudo e análise do trabalho de Veiga (2013), há enganos de cronologia e também de ações públicas, culturais e sociais em torno do tema pesquisado. O trabalho menciona que o neoenxaimel passou a existir a partir da década de 1970, motivado pelo setor turístico e comercial, gerando transformações na paisagem edificada da cidade de Blumenau e região. Historicamente, este processo de fato existiu, porém, a partir da década seguinte, quando o secretário de Turismo de Blumenau, proprietário da primeira agência de turismo do Estado de Santa Catarina e idealizador da Oktoberfest Blumenau, Antônio Pedro Nunes, assumiu a secretaria. Foi na década de 1970 que Blumenau recebeu o trabalho de arquitetos e outros técnicos - a “equipe técnica” que se iniciou a pesquisa sobre a técnica construtiva enxaimel na região e se alardeou sua importância para a manutenção da memória local. Este processo fez surgir o debate no âmbito de diferentes esferas da sociedade, fazendo surgir a expressão pseudoenxaimel e enxaimelóide, usada de maneira pejorativa e se opondo a qualquer coisa que não fosse original, diferentemente do significado da expressão analisada por Veiga (2013) em suas conclusões – reportando a algo “novo” para fins comerciais e somente essa conhecida.
De costas,  à esquerda, está o arquiteto Osvaldo Segundo, professor e arquiteto  Vilmar Vidor na escada, arquiteta Patrícia Schwanke no solo, fotógrafo e jornalista do Jornal de Santa Catarina JSC. Restauro no curso do pesquisador alemão Manfred Gerner, Casa Franz - Vila Itoupava Blumenau, 1996. Na época ele, o pesquisador alemão afirmou com segurança que era o local do maior conjunto de edificações enxaimel fora da Alemanha.
Em poucos anos, o neo-enxaimel, construído de forma a remeter a uma paisagem alpina, europeia, aos contos de fadas, ou para reforçar a ideia de cidade germânica, se alastrou pelo centro de Blumenau e também por outras cidades da região, como Joinville, Pomerode, Brusque, entre outras. A estética urbana do centro destas cidades foi, então, modificada com a implantação de uma arquitetura que não mais condizia com a realidade do presente, pois o enxaimel já se encontrava em desuso há muitas décadas. Muitos exemplares da centralidade de Blumenau ainda estão por ali, escondidos, ou rebocados, por vários motivos.
O neo-enxaimel, por ser uma cópia com objetivos comerciais e por ser algo implantado totalmente fora de seu contexto original, pode, então, ser considerado um típico fenômeno Kitsch dentro dos estudos de estética, uma vez que ele é inautêntico e se utiliza de sua estética unicamente como elemento para provocar emoções naquele que o vê; VEIGA (2013)


Parte dos ecos deste tempo de reflexão esteve no artigo publicado na revista alemã Weltruf, em 2016, com a imagem do “enxaimelóide” mais conhecido da cidade de Blumenau e mais fotografado, atual castelinho da Havan e a edificação à frente. Destacamos no artigo publicado que a edificação foi uma das poucas construídas no final da década de 1970, e também mencionada por Veiga (2016).
Apresentação da Capa da publicação da revista alemã Weltruf, publicada em 2016.


Ao longo dos mais de 30 anos de pesquisa que destinamos à técnica construtiva enxaimel, constatamos que há muita confusão, também, por parte dos pesquisadores, ao adotar termos como “estilo” e, neste momento, o uso de neoenxaimel. Quem usa essa expressão desconhece a técnica construtiva enxaimel, parte estrutural de uma edificação feita de madeira. Se não for assim, não é enxaimel. 
Estrutura de madeira.
Quanto ao assunto – realmente “novo” (atual), que faz parte da evolução desta técnica construtiva na Alemanha atual, onde o setor da construção civil alemã desenvolveu um sentimento unânime no que tange às questões envolvendo a importância da sustentabilidade dentro de um entendimento amplamente uniforme e geralmente aceito nos últimos anos. 
De acordo com o Pesquisador Dr. Thomas Lützkendorf, a importância do planejamento, construção e gerenciamento de edifícios, bem como o desenvolvimento do estoque de edifícios para o desenvolvimento sustentável, deriva de determinadas considerações. O ambiente construído é o espaço vital, o ambiente de trabalho e a força produtiva, e vincula o capital. As estruturas e as estruturas urbanas têm um impacto significativo na qualidade de vida da sociedade, bem como na saúde, segurança, satisfação e desempenho das pessoas. Edifícios e estruturas de assentamentos também representam um valor cultural. Há alguns anos o neoenxaimel alemão segue as mais rígidas normas de sustentabilidade e a técnica construtiva enxaimel é uma das opções mais aceitas pela sociedade atual, no momento de escolher uma técnica construtiva alinhada aos tempos da sustentabilidade, pois possui versatilidade mediante a disponibilidade de diversos materiais alternativos para seu fechamento, sob o aspecto ecológico e seu uso relacionado à sustentabilidade do bem morar. 
A madeira é o único material que pode atingir a sustentabilidade. 
Concreto, vidro, cerâmicas, plásticos só emitem carbono em seus processos produtivos, enquanto que a madeira acumula carbono. Na desconstrução, também não gera lixo, com isso não demanda energia. Todo material pode ser reaproveitado. 
Esta tipologia construída na Alemanha atual é contemporânea e nova; no entanto, não é “neo”, e sim, o resultado evolutivo de um processo que teve início no período neolítico, lá na revolução agrícola.
A ponta do processo evolutivo da técnica construtiva enxaimel, contemporânea, segue diretrizes rígidas para estar alinhada à sustentabilidade  com que a técnica construtiva permite, alinhada  à tecnologia atual. É uma das opções mais procuradas para construir, sendo que a empresa que a faz, busca, com seu trabalho os selos de qualidade disponíveis no mercado, sob o aspecto do meio ambiente e sustentabilidade.Fonte: Huf Haus 2020.


Casa enxaimel com tecnologia atual, sequência da evolução que teve início do período neolítico. Fonte: Huf Haus 2020.

Artigo apresentado no 27° Congresso Mundial de Arquitetos - UIA 2021 RIO: 27th World Congress of Architects

A evolução da técnica construtiva enxaimel não parou e continua no século XXI.

Enxaimel e Sustentabilidade
Enxaimel contemporâneo prima pela sustentabilidade e com isso é uma das técnicas construtivas considerada mais sustentável no tempo presente. Fonte: Huf Haus 2020.

Para acessar o artigo apresentado no congresso - clicar sobre:





Um Registro para a História.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (Twitter)

Leituras Complementares - Clicar sobre o título escolhido
  1. Pesquisador alemão de Fachwerk - Manfred Gerner em Blumenau após 23 anos - Um pouco desta História.
  2. Arquitetura/Projeto Memorvale
  3. Enxaimel - Conversando - Vila Itoupava - 2 tipologias históricas
  4. Conversando sobre Enxaimel - Fachwerk 
  5. "Restauro" de um Enxaimel - Museu Kinderzeche Dinkelsbühl - "Kinderzeche" - Zeughaus
  6. Técnica do Enxaimel
  7. Uma tipologia em enxaimel a menos - Bairro Vila Nova - Blumenau
  8. Restauro Enxaimel - Fachwerk - Iphofen - Unterfrankem Baviera
  9. Fachwerk, a técnica construtiva enxaimel
  10. 7ª Caminhada Noturna de Pomerode - Rota do Enxaimel - Turismo sustentável
  11. Uma Volta em Pomerode - Domingo a tarde
  12. Mansarddach - Uma tipologia de telhado trazida pelo imigrante
  13. Fachwerkbau in Südbrasilien - A Técnica Construtiva Enxaimel - Revista Weltruf
  14. Conversando sobre Enxaimel - Fachwerk 1
  15. Arquitetura Enxaimel - Palestra do XIII Encontro das Comunidades de Língua Alemã da América Latina
  16. Tradição de mais de 800 anos na Festa Pomerada - com Ivan Blumenschein
  17. Restauro Enxaimel - Fachwerk - Iphofen - Unterfrankem Baviera 
  18. Análise de uma tipologia enxaimel do século XIV
  19. "Restauro" de um Enxaimel - Museu Kinderzeche Dinkelsbühl - "Kinderzeche"
  20. Blumenau - do Stadtplatz ao Enxaimel
  21. Fachwerk, a técnica construtiva enxaimel
  22. Fachwerkbau in Südbrasilien - A Técnica Construtiva Enxaimel - Revista Weltruf
  23. Enxaimel e História em Dinkelsbühl - Roteiro Alemanha 2016
  24. A Rota do Enxaimel - à bordo do Bruttus - Pomerode

Referências

  • BEDAL, Konrad. Häuser und Landschaft – Fränkisches Freilandmuseum. Ansbach – Alemanha: Editora Schmidt Druck GmbH, 1999.
  • Blog Lumi Polar. Fachwerk and Chalet: a Modern Interpretation of History. Disponível em: https://lumipolar.com/blog-article/fachwerk-and-chalet-a-modern-interpretation-of-history. Acesso em: 3h56.
  • COELHO, Nilson. Construção Enxaimel Perde Espaço. Diário Catarinense, 20 de fevereiro de 2005. Blumenau.
  • ECHNER, Bernd und Hilla. Fachwerkhauser des siegener industriegebietes. Munchen: Schirmer/Mosel, 1977.
  • GERLACH, Gilberto S.; KADLETZ, Bruno K.; MARCHETTI, Marcondes. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. 1. ed. São José: Clube de cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019.
  • GERNER, Manfred. Fachwerk Entwicklung, Instandsetzung, Neubau. 1. ed. München, Druck und Bindung: Printer Trento, Printed in Italy, 2007.
  • HANSEN, Wilhelm; KREFT, Herbert. Fachwerk im Weserraum. Hameln, Alemanha: CW Niemeyer, 1980.
  • HUF HAUS. Disponível https://www.huf-haus.com/de-de/hausideen/ Acesso em: em 28 de junho de 2020 – 22:24h
  • Lumipolar. Fachwerk and Chalet: a Modern Interpretation ih History. Disponível em: https://lumipolar.com/house/dandy-287 . Acesso: 16h54.
  • VEIGA, Maurício Biscaia. Arquitetura neo-enxaimel em Santa Catarina: a invenção de uma tradição estética. 174 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte, USP, 2013.
  • VEIGA, Maurício Biscaia. Arquitetura neoenxaimel em Santa Catarina: a invenção de uma arquitetura típica. Revista Confluências Culturais. V3. N°1. ISSN 2316-395X.  Joinville. Março de 2014.
  • VIDOR, Vilmar. Arquitetura, cultura, identidade local. Revista de Divulgação Cultural. v. 17, n. 58, maio 1995 / abr. 1996, p. 47-50.
  • VIDOR, Vilmar. Arquitetura urbana em Blumenau. Vitruvius – Arquitextos, agosto de 2003 – Ano 4, n. 39-04. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/ 04.039/660> Acesso em: 17 de dezembro de 2018 – 22h00.
  • VIDOR, Vilmar. Arquitetura, cultura e identidade local: 2007. Artigo não publicado.
  • VIDOR, Vilmar. Caso de Amor a Blumenau. Jornal de Santa Catarina. Página 3ª. 2 de agosto, 2000.
  • VIDOR, Vilmar. Indústria e urbanização no nordeste de Santa Catarina. Blumenau: Edifurb, 1995. 248p, il.
  • VIDOR, Vilmar. O Enxaimel Blumenauense Atual. Blumenau: 1983. Artigo não publicado.
  • WETZEL, GÜNTER. Jungsteinzeit (Neolithikum). Disponível em: <http://www.brandenburg ikon.net/index.php/de/sachlexikon/jungsteinzeit> Acesso em: 16 de julho de 2019 – 14h46.
  • WEIMER, Günter. Arquitetura popular da imigração alemã. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2005.
  • WETTSTEIN, Phil. Brasilien und die Deutsch-brasilieniche Kolonie Blumenau. Leipzig: Verlag von Friedrich Engelmann, 1907.
  • WITTMANN, Angelina. Arquiteto Vilmar Vidor - Sua trajetória - Idealizador do Curso de Arquitetura e Urbanismo - FURB e do IPPUB. Disponível em: https://angelinawittmann.blogspot.com/2016/11/arquiteto-vilmar-vidor-sua-trajetoria.html. Acesso em: 30 de dezembro de 2020.
  • WITTMANN, Angelina. De onde viemos – Arquitetura – Do Neolítico ao Românico.  Publicado em: 22 de abril de 2015. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2015/ 04/arquitetura-do-neolitico-ao-romanico.html> Acesso em: 6 de setembro de 2019 – 18h22.
  • WITTMANN, Angelina.      Fachwerk: A Técnica Construtiva Enxaimel. 1.ed. - Blumenau, SC : AmoLer, 2019. - 405 p. : il.    ??
  • WITTMANN, Angelina. Fachwerkbau in Südbrasilien - Zeitschrift für Kultur, Wirtschaft und Geschichte Deutscher im Ausland. Weltruf. 1-2016 /2.Jg. / www.weltruf.eu, ISSN 2366-5467. Neuendettelsau, 2016.
  • WITTMANN, Angelina. Pesquisador alemão de Fachwerk – Manfred Gerner em Blumenau após 23 anos – Um pouco desta História.  Publicado em: 20 de janeiro de 2019. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2019/05/pesquisador-alemao-de-fachwerk-manfr ed.html> Acesso em: 29 de julho de 2019 – 13h59.
  • _______________. Legislação Municipal dá Benefício as Tributos. Jornal de Santa Catarina JSC. Blumenau.  ___, 1995.
  • WITTMANN, Angelina. Enxaimel e Sustentabilidade. UIA 2021 RIO: 27th World Congress of Architects. Paper Procedings - Paper Proceedings - Volumes I - III - ISBN 978-1-944214-31-9. Rio de Janeiro. 2021. Páginas 1568/1571. Disponível em: https://www.acsa-arch.org/chapter/enxaimel-e-sustentabilidade/. Acesso em 26 de agosto de 2021 - 00:45h.
  • WITTMANN, Angelina C.R. Fachwerk - A Técnica Construtiva Enxaimel. Blumenau: AmoLer, 2019. 408pp.:Il.: