Já residimos em Florianópolis e somos testemunhas do quanto a cidade se descaracterizou e das mudanças em sua paisagem e nas práticas nesta ao longo das últimas décadas.
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| Cascaes com a idade que o conhecíamos. |
Sua pesquisa deteve-se no imaginário fantástico regional, catalogando narrativas sobre bruxas, lobisomens, boitatás e seres encantados que consolidaram o epíteto de "Ilha da Magia". O pesquisador documentou a linguagem popular com seus termos característicos, assim como o modo de vida tradicional associado à pesca artesanal e à agricultura de subsistência.
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| Boi de Mamão. Fonte: Arquivo Público de Santa Catarina. |
Cascaes registrou essas manifestações em manuscritos, desenhos a nanquim e esculturas em argila que retratam o cotidiano do homem do mar e os rituais do imaginário local — uma salvaguarda fundamental, considerando que a cidade daquele período passou por intensas transformações.
Esse legado preserva a identidade cultural da qual ainda vivenciamos trechos na infância, tempo em que o Boi de Mamão e a Bernunça despertavam o medo infantil e o nosso mesmo, ficando lembranças deste período. A brincadeira do Boi de Mamão acontecia na rua vizinha a nossa.
Nessa época, era comum ver pais de colegas nossos, da Escola Básica Rosinha Campos, vendendo o pescado do dia em carrinhos de mão, anunciados pelo som cadenciado do apito feito de guampa. As casas mantinham portas e janelas abertas, ornadas por cortinas de algodão colorido. Os meninos e também nossos irmãos "soltavam pipas" de papel de seda, quando tinha vento. Os terrenos que ainda tinham pés de laranjas crioulas eram varrido com vassoura de galhos. O quintal mais bonito e caprichado era aquele limpinho de qualquer folha, quase sempre limpo após ao vento sul.
No trecho final da Rua Rosinha Campos, nosso endereço residencial, antes da instalação da rede de água encanada de eletricidade, fazia com que a comunidade local — incluindo nossa mãe — lavasse roupas no pequeno ribeirão situado ao pé da pedreira, localizado no entorno. O trabalho era ritmado pelo canto de hinos religiosos, e as roupas eram dispostas sobre as pedras do entorno para secar. As mulheres, na maioria de etnia africana, usavam lenços na cabeça, sobre os quais equilibravam as cestas de roupa.
Não há registros fotográficos dessa cena, pois não imaginávamos que um dia teríamos telefones capazes de fotografar — como este que registrou as imagens a seguir, de "uma outra Florianópolis".
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| Local de nossas lembranças de uma Florianópolis, parte do bairro do Abrãao, que não existe mais, local da casa paterna. |
Atualmente, o sotaque mudou e o peixe já não é mais vendido dessa forma; o pescador artesanal desapareceu daquele cenário. As transformações foram profundas.
Ao passarmos rapidamente pelo centro de Florianópolis, percorremos os mesmos caminhos onde antes gostávamos de observar o conjunto arquitetônico contínuo e a vida que se desenhava por trás das cortinas das casas, quando diariamente íamos para a Escola Técnica Federal de Santa Catarina, localizada na Rua Mauro Ramos.
Por meio dessas fotografias de agosto de 2026, buscamos resgatar uma pequena memória de um espaço que hoje preserva pouco da alma de outros tempos — configurando-se como um registro para a História.
As Imagens Comunicam
Rua Conselheiro Mafra - um dos eixos históricos e comerciais mais antigos e tradicionais do Centro de Florianópolis - que existe ainda como espaço, mas o uso está um pouco diferente. Originalmente chamada de Rua do Comércio, e posteriormente de Rua do Príncipe. Estende-se por quase um quilômetro, ligando as proximidades da Praça XV de Novembro à região do Parque da Luz, aos pés da Ponte Hercílio Luz.
Seu nome atual é uma homenagem ao advogado e político Manuel da Silva Mafra.
No local existia um conjunto de casarões, que por muito tempo foram preservados, do século XIX, caracterizados por fachadas coladas umas às outras, sacadas de ferro forjado e elementos do estilo neoclássico. Atualmente precisamos procurar os locais para lembrar desta herança histórico cultural, mesmo que muitos dos patrimônios existentes estivessem tombados.
| Centro Comercial ARS. |
| Centro Comercial ARS. |
| Centro Comercial ARS. |
Igreja da Ordem Terceira São Francisco das Chagas - Igreja São Francisco da Penitência - Nossa Senhora do Desterro (trocaram o nome) .
Por que trocaram o nome?
Escrevemos sobre a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, quando ainda era conhecida como Igreja São Francisco da Penitência - Nossa Senhora do Desterro, quando esta foi entregue após um procedimento de restauro, em 2018, quando este não foi feito de acordo com sua originalidade. Neste momento levantamos sua história. Na época ela se chamava de Igreja São Francisco da Penitência - Nossa Senhora do Desterro.
A igreja histórica é um dos templos religiosos mais importantes de Florianópolis, localizada na Rua Deodoro, no Centro da cidade.
No ano de 1754, o imigrante português Domingos Francisco de Araújo, doou o terreno para a Ordem construir sua própria igreja. No ano de 1802, foi solicitado a permissão para a construção do templo religioso ao Rei português D. José, que o deu.
A pedra fundamental foi lançada no dia 25 de maio de 1803, quando iniciou a construção de fato, do templo. A região onde foi construída a igreja era conhecido como o bairro da Figueira, que estava ligado aos bairros Tronqueira e Toca - não muito bem visto na vila.
A igreja foi construída em etapas. No ano de 1804 foram adquiridos suas aberturas de madeira e no ano de 1819, seus sinos. A Igreja foi inaugurada mais de um século depois do início de sua construção. Foi inaugurada no ano de 1915.
A Igreja, ficou conhecida como a "Igreja do galo" - pois possui um catavento na forma de galo em cada uma de suas torres - adorno muito comum, nas construções europeias, de outros tempos, mesmo que o catavento tenha sido criado na China, cujo registro reporta a 139 AC.
O catavento quase sempre tem a forma tradicional do galo com letras indicando os pontos da bússola. Quando o vento é suficientemente forte, a cabeça do galo indicará a direção a partir da qual o vento está soprando - Próximo à Igreja de São Francisco da Penitência deve ter indicado muito o característico "Vento Sul" da Ilha de Santa Catarina.
De acordo com a pesquisadora Gondim, passou por algumas reformas, sendo que nós presenciamos a última iniciada no ano de 2012.
Os trabalhos de restauro foram findados no mês de dezembro de 2018 e no dia 13 de dezembro foi apresentada à comunidade através de uma missa rezada pelo arcebispo metropolitano Dom Wilson Tadeu Jönkis.
| Nosso registro fotográfico do interior da igreja antes do "restauro". |
| Antes e após o restauro - Descaracterização. |
A Igreja foi reinaugurada em 2019.
Um dos responsáveis pelo restauro da Igreja foi o Frei Gunther Max Walzer que disse em entrevista, ao jornal Notícias do Dia - 12 de dezembro de 2019 - que o investimento para a restauração da igreja foi custeado pelo Estado de Santa Catarina, através da Secretaria do Estado Esporte Cultura e Lazer.
Comentário
As construções açorianas coloniais tem como uma de suas características o uso da cor branca - conseguida a partir de paredes caiadas, feitas com cal obtida de mariscos, de pedra ou tubatinga.
As aberturas e detalhes eram coloridos a partir de uma mistura que resultavam nas cores anil ou índigo (No caso a igreja São Francisco da Penitência), o "sangue"- vermelho - (adquirida do urucu), a "açafroa" - amarelo - , a "braúna" - o preto, o "ipê e a cochonilha - cor de rosa.
Não existia a cor "bege" colocada na Igreja São Francisco da Penitência, no seu último "restauro".
Também percebemos a descaracterização do decorativismo - rococó, presente nos pedestais originais - em tons branco e dourado - estilo característico - originário no início do século XVIII.
A cor usada, após o restauro, foi a cor da tendência da decoração atual - no período que foi efetuado o "restauro" 2012/2017- Tons pastéis e bege.
| A igreja teve seu nome alterado. Por que? |
Rua Felipe Schmidt
Seu nome original primeiro era Rua da Fonte dos Ramos e Rua dos Moinhos de Vento devido aos engenhos de arroz operados por imigrantes açorianos na região. No século XIX, ela passou a se chamar Rua Bela do Senado e, posteriormente, Rua da República, até receber a denominação definitiva na década de 1920 em homenagem ao ex-governador de Santa Catarina. Até essa época, a rua ainda mantinha um traçado colonial muito estreito, o qual passou por um grande processo de alargamento e modernização de fachadas entre os anos de 1928 e 1930. A sua maior transformação ocorreu entre 1976 e 1977, quando o trecho inicial foi fechado para automóveis e transformada em "calçadão". Atualmente, a rua começa ao lado da Praça XV de Novembro e se estende até as proximidades do Parque da Luz, perto dos acessos à Ponte Hercílio Luz. Um dos pontos focais da rua é a Esquina Democrática, no cruzamento com a Rua Trajano, local que historicamente abriga o "Senadinho" e serve como o principal ponto de debates políticos, manifestações e encontros populares da cidade.
| Senadinho. |
Palácio do Governo do Estado de Santa Catarina/Museu
O antigo Palácio do Governo do Estado de Santa Catarina, situado à direita da Rua Felipe Schmidt e em frente à Praça XV de Novembro, chama-se Palácio Cruz e Sousa e abriga o Museu Histórico de Santa Catarina desde 1986. Edificado originalmente no século XVIII pelo brigadeiro José da Silva Paes, o prédio de coloração rosa-avermelhada serviu como sede do Poder Executivo estadual e residência oficial dos governadores por quase três séculos. É de se questionar a razão de não manter essa função administrativa original, o que preservaria o respeito à história local frente aos visitantes, a exemplo do que ocorre em centros urbanos que valorizam a tradição.
Ao longo de sua existência, o Palácio recebeu figuras históricas como os imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II. Em 1979, o edifício foi rebatizado em homenagem ao poeta João da Cruz e Sousa.
No final do século XIX, o imóvel passou por uma ampla reformulação arquitetônica em estilo eclético, quando adquiriu vitrais coloridos, escadaria em mármore de Carrara, tetos decorados com trabalhos em estuque e dez estátuas alegóricas na fachada superior.
Catedral Metropolitana de Florianópolis
Igreja dedicada a Nossa Senhora do Desterro, é o marco zero da capital da cidade e está localizada no topo da Praça XV de Novembro. Sua construção iniciou sua construção entre 1753 e 1773, substituindo a antiga capela de alvenaria do fundador da vila, Francisco Dias Velho. O projeto original foi idealizado pelo brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Capitania de Santa Catarina. Recebeu o status de catedral em 1908, com a criação da arquidiocese local.
Ao longo dos séculos, o edifício passou por profundas modificações arquitetônicas, sendo a mais marcante a reforma concluída em 1922 para o centenário da Independência do Brasil. Essa intervenção ampliou a estrutura e adicionou elementos do estilo neoclássico, além de duas torres imponentes e um conjunto de sinos alemães, cujo principal exemplar pesa mais de uma tonelada. Internamente, o patrimônio histórico e artístico se destaca por uma imensa escultura em madeira que retrata a Fuga para o Egito, entalhada pelo mestre austríaco Ferdinand Demetz, e por vitrais coloridos que iluminam a nave principal.
Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a catedral funciona diariamente como um espaço ativo de fé, oferecendo missas regulares e acolhendo turistas que buscam conhecer a identidade cultural e a fundação da cidade.
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| Local, na catedral, onde está a obra de Ferdinand Demetz, a "Fuga para o Egito", tamanho natural. |
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| Escultura em madeira, a "Fuga para o Egito", tamanho natural, locada no saguão da Catedral Metropolitana de Florianópolis. Obra do renomado escultor tirolês Ferdinand Demetz. |
Praça XV de Novembro
Foi fundada no século XVII, em 1662 pelo bandeirante Francisco Dias Velho, fundador de Nossa Senhora do Desterro, nome original da cidade.
Seu elemento mais conhecida e a imponente a Figueira Centenária, uma árvore plantada originalmente em 1871 que domina o cenário com seus galhos gigantescos, onde muitos são sustentados por hastes metálicas.
O piso da praça é decorado com mosaicos de pedras portuguesas desenhados pelo artista plástico Hassis, que retratam cenas do folclore ilhéu, bois de mamão e o cotidiano açoriano. A grande figueira inspirou poetas e compositores locais.
De um dos lados da praça, no ponto mais alto, ergue-se a Catedral Metropolitana; do outro, destaca-se o Palácio Cruz e Sousa. O local também abriga o Monumento aos Mortos na Guerra do Paraguai e diversos bustos de figuras ilustres do estado, como o poeta Cruz e Sousa e o pintor Victor Meirelles.
Mercado Público de Florianópolis
A história do Mercado Público de Florianópolis começou muito antes da inauguração do prédio atual, quando o comércio da antiga Vila de Nossa Senhora do Desterro acontecia de forma dispersa na região portuária. Inicialmente, os pescadores e agricultores locais vendiam as suas mercadorias na praia, em frente à atual Praça XV de Novembro, até onde chegava o mar, utilizando tendas improvisadas e pequenas barracas de praia. Para organizar essa atividade, o governo da província construiu o primeiro mercado em 1851, quando a Colônia Blumenau tinha um anos de existência. Neste local vinham comerciantes de toda a região e também do interior da região.
Em 1896 o local foi demolido e desmontado, devido às precárias condições de higiene.
Foi construído o atual Mercado Público foi inaugurado em 5 de fevereiro de 1899, projetado pelo arquiteto alemão Gilberto Wagner no estilo eclético, com forte influência da arquitetura neoclássica alemã. Naquela época, o mar batia nas portas do mercado, facilitando o desembarque direto dos pescados que vinham das colônias de pescadores da Ilha de Santa Catarina.
Inicialmente, o mercado possuía apenas uma ala (a atual Ala Norte). Em 1931 foi construída a Ala Sul, para abrigar a área de comércio de peixes, dando ao complexo a configuração de duas alas paralelas.
Ao longo das décadas, o Mercado Público sobreviveu a grandes transformações urbanas e a dois graves incêndios, um em 1953 e outro mais recente em 2005, que destruiu o telhado da Ala Norte e exigiu uma profunda restauração.
O aterro da Baía Sul na década de 1970 afastou o mar do edifício, mas o mercado manteve a sua centralidade econômica, cultural e histórica na cidade. Tombado como Patrimônio Histórico Municipal, o local passou por uma revitalização completa entre 2014 e 2015, quando ganhou a cobertura retrátil do vão central. É um lugar que também não possui a mesma ambiência e alma da época do "manézinho", que foi "expulso" de seu espaço. O sotaque é outro.
| Fotografia do interior de um ônibus intermunicipal da empresa Santo Amaro da Imperatriz, rumo ao continente. Ponte Hercílio Luz, nome daquele que residia em Blumenau, e mandou assassinar seu parente Elesbão Pinto da Luz - Comissário de Polícia de Blumenau, por conta do golpe "Proclamação da República". |
Um registro para a História.
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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- Cidade - Um pouco de História e uma volta - Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis)
- Obra "A Fuga para o Egito" e seu escultor - Catedral Metropolitana de Florianópolis SC
- Um símbolo - A ligação entre dois extremos no Estado de Santa Catarina - a Figueira
- Elesbão Pinto da Luz - Comissário de Polícia de Blumenau - fuzilado pelos Republicanos, na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim.










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