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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Carnaval é uma festa brasileira?

Carnaval  europeu - Século XIX.

Batuque dos povos africanos no Brasil - Século XIX.
Sempre que chega esta época do ano, surge a pergunta: "Tem Carnaval em Blumenau?". Muitos acreditam que o Carnaval seja uma festa exclusivamente brasileira, mas ele é uma celebração muito mais antiga do que a própria história oficial do Brasil.
O Carnaval é uma festa europeia que chegou ao país com os imigrantes de diferentes nacionalidades, inclusive alemães e italianos — vale lembrar que o Carnaval permanece vivo na Alemanha e na Itália até hoje. Portanto, o Carnaval em Blumenau existe e não é uma festa popular apenas brasileira, mas sim uma herança cultural integrada à nossa história.
Baile de máscaras no Teatro Lírico do Rio de janeiro, em desenho de Guerave (1883). A prática iniciada pela cantora italiana Delmastro.
No Vale do Itajaí, o Carnaval chegou com os imigrantes alemães e italianos. Em cada região brasileira onde os imigrantes se fixaram, a festa adquiriu características próprias, explicadas pela interferência da cultura local preexistente ou pela miscigenação étnica ocorrida em cada território.
Carnaval de rua de Blumenau - década de 1920.

Blocos de carnaval de rua de Blumenau.

Baile de Carnaval - Blumenau.
Muitos têm a ideia formada de que o Carnaval do Brasil é apenas aquele que possui forte influência dos povos africanos que foram escravizados no país. De fato, a maior concentração de africanos ocorreu nas duas primeiras capitais, Salvador e Rio de Janeiro, por mais de dois séculos. Essa influência também se expandiu para outros locais onde havia interesses econômicos da elite brasileira que vivia na capital — uma elite altamente extrativista, como se observou com a mineração em Minas Gerais.
Quitandeiras em rua do Rio de Janeiro, 1875 (Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles)
Fonte: http://www.historiailustrada.com.br

























Lavagem do ouro, Minas Gerais, 1880. (Foto: Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).
Fonte: http://www.historiailustrada.com.br

Escravos africanos na colheita de café, Vale do Paraíba, 1882 (Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).
Fonte: http://www.historiailustrada.com.br
Mulher africana com o filho, Salvador, em 1884 (Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).
Fonte: http://www.historiailustrada.com.br
Senhora na liteira (uma espécie de "cadeira portátil") com dois escravos, Bahia, 1860 (Acervo Instituto Moreira Salles). Geralmente a figura da "Porta bandeiras" das Escolas de samba reportam a estas senhoras e seu "Glamour" e seus Mestre Salas - Croqui abaixo.
Fonte: http://www.historiailustrada.com.br

Foto da Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865. (Georges Leuzinger/Acervo Instituto Moreira Salles). Fonte: http://www.historiailustrada.com.br
No Brasil, a população de origem africana quase superou a dos povos europeus que os escravizavam. Estes eram formados predominantemente por povos latinos, que culturalmente percebiam o trabalho braçal como algo inferior e menos nobre que o trabalho intelectual — uma herança cultural da Grécia Clássica (que, contraditoriamente, cultuava a democracia) e do Império Romano. Historicamente, os romanos dominaram a Grécia e, posteriormente, boa parte da Europa por séculos. No entanto, essa percepção sobre o trabalho não é compartilhada da mesma maneira por todos os povos europeus.
Escravos gregos e seu Senhor.

Escravos romanos no transporte público.










Escravos em Salvador, em uma roda de Capoeira - Bahia - Século XIX .























Sugestão de Leitura  - Clicar sobreRefletindo...Cultura e o idioma alemão

É compreensível que o Carnaval nas cidades que concentravam o poder no Brasil, à época, apresentasse características moldadas pela forte influência dos povos de origem africana. Contudo, isso não significa que o Carnaval de outras regiões do Brasil continental compartilhasse as mesmas particularidades das capitais Salvador e Rio de Janeiro — quase sempre embaladas pelo samba ou, na época, pela batucada.
É importante destacar que o samba não é a única música brasileira por excelência; existem regiões onde ele não é a base da identidade musical. O Carnaval brasileiro abriga diversos outros gêneros, como as marchinhas e o frevo, este último com forte presença de instrumentos de sopro, como se observa no Carnaval de Olinda, em Pernambuco. Observe o vídeo abaixo.

Carnaval em Manaus
Em Manaus, existe uma forte influência da cultura indígena no Carnaval local, enquanto no Maranhão percebe-se a influência holandesa. Há ainda locais onde a festividade preservou características originais da Europa.
O que acontece, de fato, é a existência de uma mídia comercial que 'vende' um "produto pronto" e padronizado. Nesse pacote, muitas vezes, é comercializada a imagem da "beleza da mulher brasileira", que nem sempre se dá conta de seu papel nesse modelo de negócio — percebendo essa realidade apenas quando viaja ao exterior e confronta o olhar estrangeiro.
Recordamos bem o que tentaram fazer na Oktoberfest Blumenau 2015, utilizando a propaganda de uma companhia de cerveja para forçar uma estética alheia à nossa festa. Para se ter uma ideia histórica: as principais e mais tradicionais Escolas de Samba do Rio de Janeiro foram fundadas apenas a partir da década de 1950. No entanto, há registros do Carnaval de Blumenau muito anteriores a essa data.
Mesmo no Rio de Janeiro, já existia Carnaval muito antes do surgimento das Escolas de Samba. O que ocorreu foi a construção de um "produto pronto" para exportação, gerando a falsa percepção de que o Carnaval brasileiro se resume a esse modelo único. Atualmente, vemos economias locais em todo o Brasil tentando emular esse produto, sacrificando a originalidade de suas próprias tradições.
Tenta-se, por vezes, criar desfiles de Escola de Samba em Blumenau ou impor a batucada nos salões. Pode? Poder, tecnicamente, pode — mas a que custo? Ao fazer isso, corre-se o risco de apagar a identidade histórica da nossa região, substituindo uma herança cultural autêntica por uma imitação comercial que não possui raízes no nosso solo.

Desfile Carnaval em Blumenau.
Foto: Blog do Jaime
Nossas lembranças do Carnaval de Florianópolis são muito fortes; passamos parte de nossa infância na cidade e nos divertíamos muito observando o "Bloco de Sujos". Também frequentávamos os bailes de salão, que preservavam as características do Carnaval europeu, focados na sociabilidade e na fantasia.
Fotografias antigas de carnavais passados: a elegância dos bailes de salão e a alegria dos blocos brincando na rua.
Blumenau SC - Foto - Jornal de Santa Catarina.


1885 - 1900  - JSC
São registradas as primeiras manifestações carnavalescas na cidade, como o famoso Baile de Máscaras na Sociedade dos Atiradores. As marchinhas dos grupos da época e os jornais especiais de Carnaval faziam críticas políticas e sociais. Jornal de Santa Catarina

Descrição do Carnaval que é feito até hoje na Alemanha. Começou após a colônia estar mais ou menos organizada. Antes não tinha espaço, tempo e dinheiro.


Blumenau SC - Foto - Jornal de Santa Catarina.

Blumenau SC - Foto - Jornal de Santa Catarina.
Para ler sobre a origem de Carnaval, para valer -  Clicar sobre: Carnaval na Alemanha

Vamos observar o que acontece na Alemanha neste momento de Carnaval e comprovar essa herança que reproduzimos no Brasil — em alguns casos, com adaptações e adequações locais.

Fotos do Carnaval 2016 - Alemanha 







Prefeito da cidade de Rödelsee - Unterfranken - Baviera - Alemanha.

No grupo - uma cantora de uma banda alemã que apresentou no Oktoberfest Blumenau 2015 e fotografamos muito.


























Uma amostra em vídeo de diferentes regiões do país e seus diversos carnavais.

Carnavais do Brasil
Amazonas

Ceará
Pernambuco

Bahia (Primeira Capital do Brasil)
Rio de Janeiro  (Segunda Capital do Brasil)
Carnaval de rua e Baile de Carnaval - Rio de Janeiro, 1954

Marchinhas de carnaval nas ruas do Rio de Janeiro DÉCADA DE 50
Carnaval 2015 - Blocos de Rua do Rio de Janeiro
O que é "Vendido" como Carnaval do Brasil no exterior 


Santa Catarina
Coletânea e músicas de Carnaval de Salão
Baile do Carnaval
Piauí
São Paulo
Blumenau

Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
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AngelinaWittmann  (Facebook)









sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Carnaval na Alemanha - Karneval in Deutschland


Mais um ano se passou e mais uma das datas de uma festividade muito popular em volta do globo está se aproximando - Carnaval. Muitas vezes uma pessoa, um pouco desinformada, imagina que seja uma típica festividade brasileira e com cara de "Samba" com a presença da "mulata" com samba no pé - produto "vendido" para o resto do mundo. 
Dentro do próprio Brasil, de norte a sul e leste ao oeste, há vários tipos de carnavais. Este carnaval do Brasil, "vendido"  há décadas para o resto do mundo como parte da cultura do continental do país, é somente parte de uma parte da cultura desenvolvida em solo brasileiro. O Carnaval do "Samba"  é o resultado do contato da cultura de dois povos de grande contribuição na miscigenada cultura brasileira em suas duas primeiras capitais - Rio de Janeiro e Salvador. Os portugueses que trouxeram a pratica do carnaval europeu e os africanos que trouxeram suas práticas festivas e folclóricas da África. A partir do contato destas duas culturas surgiu a cultura do carnaval praticado em Salvador e no Rio de Janeiro, que não são iguais nas demais regiões do continental Brasil.
Festas de Carnaval na Blumenau do Século XIX -  Arquivo Histórico José Ferreira
Carnaval em Blumenau -  anos 1920. Carros decorados desfilavam terça-feira à tarde pela Rua XV de Novembro.
Carnaval de Blumenau - anos de 1930 - Fantasias inspiradas naquelas que os imigrantes alemães usavam na Alemanha e o fazem até os dias atuais.

Festa em um grupo de descendente de Africanos - Alagoas -

Carnaval das rua do Rio de Janeiro - Início do século XX - aos moldes do carnaval Europeu

Embrião - após contato das etnias - do Atual Carnaval do Rio de Janeiro e Salvador - Desfiles
E no resto do mundo? Na Alemanhacarnaval? Para muitas pessoas o carnaval só existe no Brasil, seguindo os moldes do "carnaval" que é "vendido" pela mídia, com desfile, samba enredo e mulheres e homens  mais à vontade.
Esquecem-se do "carnaval de rua", do "Bloco dos sujos", do "carnaval de salão". Qual a origem destes carnavais?
Existe o carnaval  nos países de origem dos imigrantes que fundaram as muitas cidades do Vale do Itajaí e de outras tantas, no sul do Brasil? 
Existe Carnaval na Alemanha? Qual seria a ligação deste e o carnaval de rua do Brasil? Entre o Bloco de sujos? E de Salão? 
Carnaval na cidade de Olinda - Brasil
A prática do Carnaval é muito mais antiga que a própria história do Brasil.
Já tínhamos postado sobre o Carnaval na Alemanha e é impossível não retornarmos ao assunto, nesta época. Época na qual, logo mais, inicia-se as festividades do carnaval, não somente no Brasil, mas em várias partes do mundo.  Vamos relembrar um pouco sobre o assunto.

Para ler mais sobre - Clicar sobre: 
Carnaval Alemão
Carnaval na Alemanha - Karneval in Deutschland

Há Carnaval na Alemanha e suas origens são muito mais antigas que o carnaval brasileiro, dos diferentes "carnavais brasileiros". O carnaval alemão tem diferentes características ao longo de seus períodos históricos e,  diferentes em cada região do país. Por exemplo:
Há o conhecido Weiberfastnacht - Quinta feira das mulheres -  também denominado -  "quinta estação do ano".

Há o carnaval do Vale do Reno - conhecido como Karneval, o Fastnacht da Suábia e o Faschina da Baviera - Regiões com identidades bem distintas a partir de sua cultura local. Como já citamos, o mais conhecido, entre os muitos, é o conhecido "a quinta estação".  

Existe uma unanimidade entre todos os carnavais alemães em suas respectivas regiões. Todos eram e são festejados, até os dias atuais, no período que antecede a quaresma - período de jejum. Quase sempre festejado no início da páscoa com um banquete.
O termo "Carnaval" é herança cultural da mitologia dos antigos povos germânicos e está ligado aos ritos de fertilidade das antigas religiões, existentes antes da chegada do cristianismo e denominadas pelos cristãos, de pagã. Também está relacionada aos rituais para espantar os maus espíritos e tem ligações com as festas e rituais romanos, incorporados ao hábitos e costumes da região durante o domínio dos romanos e que depois foi inserida às festividades cristãs trazidas e implantadas pelos próprios romanos.
Os primeiros registros do carnaval alemão foram encontrados no Século XIII.
Os registros do Século XIII mostram festividades com grandes quantidades de carne, queijo, manteigabanha e principalmente, ovos. A intenção era consumir todo o alimento armazenado para passar o inverno – período do jejum. Isto explica os atos de organizar procissões e “guerras de ovos”. Além da distribuição de ovos cozidos decorados, depois durante a páscoa.
Ostara
Antes do Século XIII, era comum festejar o "Carnaval" no interior das casas. Depois, os festejos ocuparam as ruas e eram acompanhados por muita fartura de alimentos e foliões, com música, dança, apresentações teatrais, torneios e corridas. 
Entre os Século XIII e XIV surgiu o combate personificado do Carnaval e da Quaresma a partir dos animais e alimentos. O importante era a diversão.
A partir do Século XIV, a Igreja de Roma condenou o carnaval na Alemanha, alegando que destoava da Doutrina do Santo Agostinho e o carnaval passou a ser visto como prática pagã, como o era. Não somente como as festividades de Baco do reino de Nabucodonosor, mas como as festividades ditas “pagãs”, muito anteriores este período. Os foliões do carnaval da Idade Média, na Alemanha, passaram a ser associados a personificação do mal, de acordo com o cristianismo.
Carnaval da Idade Média

O carnaval de rua existente em algumas cidades mais antigas do Brasil, tem a mesma origem histórica do carnaval alemão e foi trazido pelos primeiros imigrantes europeusos português - para o Brasil. Estes, na época, tinham contato com as festividades cristãs da Europa (inexistia fonteiras para o cristianismo). No Brasil, em contato com as festividades do povo  africano, fez surgir um carnaval com outra identidade, conhecido carnaval do Brasil. 

Em Estados alemães mais tradicionais, até hoje, seus príncipes, arautos e parlamentos tem 11 foliões – o número.
Este número foi traduzido no número do folião, que também é um número místico da mitologia dos germânicos. Em muitas regiões do território alemão, o carnaval inicia no dia  11 de 11, às 11:11h
A interferência da Igreja cristã teve início após o Século XV, e perdura até hoje. 
Geralmente são usadas máscaras e fantasias que lembram o “diabo”. Acreditavam que o diabo anda pelas ruas, acompanhado das bruxas, demônios entre outros seres da religião pagã antiga. Dentro da Igreja de Roma a censura era maior do que na religião Protestante. Nos Séculos XV e XVI, período no qual aconteceu o apogeu do carnaval nas artes cênicas, com estas caraterística e suas máscaras, satirizando os elementos da religião pretérita e as festividades, de maneira diferente.
O folião dos primeiros tempos, entre os Séculos XV e XVII, representava a figura carnavalesca central da sátira e lembrava muito o Arlequim na Itália. Com a vinda da Reforma Protestante, que também, negava práticas do catolicismo de Roma (Os mesmos que subjugaram e converteram os antigos Prussianos a partir de Ordem Teutônica) houve uma diminuição da prática deste tipo de carnaval  - (baseado na Sátira). Após conhecer a vida dos Irmãos Grimm e outros eruditos do Século XIX, podemos afirmar que no período do Romantismo alemão, houve uma valorização e interesse pelos costumes dos antepassados - tribos germânicas e pelas suas inúmeras festividades, até então consideradas pagãs.



Carnaval 2015 - Cidade alemã de Köln









Para ler mais sobre - Clicar sobre: Irmãos Grimm

Na Alemanha, também há as festas em salões de clubes, onde grupos de amigos participam, semelhante às festas de carnaval em clubes, no Brasil. Geralmente se divertem vestidos com as mais variadas fantasias  dos mais variados personagens da  História e  mitologia locais ou clássicos internacionais. No Brasil, esta festa em clubes e salões tem origem nas práticas de carnavais trazidas pelos primeiros europeus que vieram para o país, portugueses entre outros, cuja origem é a mesma do carnaval alemão.






O que repetimos no presente, enquanto cultura e parte, no modo de nos divertir, muitas vezes são reflexos de outros tempos, outras práticas e necessidades dentro de outra sociedade composta de maneira diferente. As práticas são repassadas como herança - de pai para filho e misturam a outras tantas. Muitas vezes desconhecemos o que repetimos e porque repetimos.