sábado, 25 de julho de 2026

Imigrantes Alemães do Século XX — A História de Rodolfo Wittmann: de Baden-Württemberg para Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Santa Catarina (25 de julho a data dedicada ao imigrante alemão)

No dia em que se comemora a imigração alemã no Sul do Brasil, 25 de julho, iniciamos este trabalho, neste ano de 2026. Ele tornou-se maior do que imaginávamos, pois o tema era extremamente denso, marcado por árduo trabalho e desafios contínuos — exigências que, contudo, jamais fizeram essas pessoas desistir. Rodolfo Wittmann foi meu primeiro professor de alemão e um pai amoroso. Seu filho, Roberto, é fruto direto dessa história e desse legado.
Rodolfo Wittmann, filho de Christian Wittmann apreciava a
cultura, leitura, música e ficava feliz com nossas atividades.
Conhecemos Rodolfo Wittmann em 1982. Mudamos de Florianópolis para Blumenau em 20 de julho de 1981, para efetuarmos os estágio técnico profissionalizante na Waltec S/A
Era o pai de Roberto Wittmann e não sabíamos que seríamos amigos e que com ele aprenderíamos muitas coisas, inclusive as primeiras palavras em alemão. Ele foi meu primeiro professor do idioma. Como bom descendente de suábio, era de poucas palavras e observador, o que nos instigava a perguntar muito sobre sua própria história. Ele, uma pessoa dotada de uma inteligência imensurável, respondia com entusiasmo, ainda mais se o assunto abordava geografia e história mundial. Falava e escrevia fluentemente em alemão e também no dialeto suábio. Por anos, correspondeu-se com seus familiares na Alemanha, sem nunca ter tido a oportunidade de conhecê-los pessoalmente. Também lia e traduzia o alemão gótico. Morou em quatro estados, mas foi em Santa Catarina que constituiu sua família. 
Rodolfo Wittmann com o filho Roberto Wittmann, sua esposa, Johanna (Goll) Wittmann, e sua cunhada, Gerda Goll — no período aproximado em que o conhecemos. Ele contava com 58 anos de idade.

Nascida em Winterbach im Remstal.
Mãe de Rodolfo Wittmann.
Rodolfo Wittmann lia, lia e lia muito. Lia títulos e revistas em alemão que traziam notícias das cabeças coroadas da Europa — assuntos que as revistas brasileiras sequer cogitavam. Eu o questionava sobre essas notícias. Ele tinha um pequeno escritório localizado na entrada dos fundos de sua residência, onde antes ficava o quarto de solteiro de Roberto Wittmann, seu filho e meu marido.
E assim, na rotina do dia a dia, fui conhecendo Rodolfo Wittmann e sua incrível história. Aproveitamos esta data de homenagens aos pioneiros — 25 de julho, Dia do Imigrante, que celebra quem deixou pátria e família para trás em busca de uma vida nova — para contar mais uma história de um imigrante alemão que se mudou para o Brasil.
Os dados e informações aqui apresentados eu ouvi do próprio Rodolfo Wittmann. Como ocorre com muitos nomes de famílias alemãs, seu nome consta em documentos como Rodolph, Rodolpho e Rodolfo, este último é forma que adotaremos ao longo do texto.
Seu nome como estava na identidade.


Na certidão de casamento com Johanna Goll, em Blumenau, ele foi registrado como Rodolpho, nome que também constava em sua carteira de identidade. Quanto ao seu ofício, após o casamento, Rodolfo Wittmann trabalhou até sua aposentadoria na Electro Aço Altona. Embora a ocupação tradicional de sua família fosse a agricultura — com a propriedade familiar existindo até os dias atuais no interior do Paraná —, Rodolfo aprimorou sua qualificação profissional por meio de cursos técnicos realizados, em geral, no período noturno. Atuava diretamente na área de manutenção de máquinas.
Como Rodolfo Wittmann chegou ao Brasil? 
Rodolfo Wittmann veio três meses antes de nascer, junto de seus pais, Emma Louise (Müller) Wittmann (1894 - 1981) e Christian Wittmann (1891–1974). Quando seus pais migraram para o Brasil, sua mãe estava no sexto mês de gestação de seu filho primogênito. 
Vamos conhecer um pouco de sua história.

Alemanha - Final do Século XIX e nascimento de Christian Wittmann (1891–1974) (pai de Rodolfo Wittmann)
Chanceler Otto von Bismarck.
A Alemanha do final do século XIX, cenário onde nasceu Christian Wittmann, passava por uma metamorfose radical que a transformou de um conjunto de estados independentes na maior potência econômica e militar da Europa continental.
O ponto de partida dessa era foi a sua unificação em 1871, consolidada após a vitória na Guerra Franco-Prussiana sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck e do Kaiser Wilhelm I. O recém-criado Império Alemão nasceu com uma forte identidade militarista e centralizada na Prússia, mas também com a necessidade urgente de integrar internamente suas diferentes regiões, dotadas de culturas e dialetos próprios — literalmente uma "colcha de retalhos" cultural. Para isso, Bismarck utilizou o lema erroneamente interpretado mais tarde, "Deutschland, Deutschland über alles", que significava não ter mais bandeiras e dialetos regionais se sobrepondo à união, mas sim uma só bandeira e o alemão formal, conhecido como Hochdeutsch (Alto-Alemão Padrão).

No campo político, Bismarck dominou o cenário até 1890 com uma diplomacia pragmática e astuta. Teceu uma complexa rede de alianças secretas na Europa com o objetivo principal de isolar a França e evitar uma guerra em duas frentes. Internamente, o chanceler enfrentou a ascensão do movimento operário e do partido socialista. Para enfraquecer a força dos sindicatos, implementou as primeiras leis de previdência social do mundo, incluindo seguro-doença, seguro contra acidentes de trabalho e aposentadoria por invalidez e velhice. Essa dualidade entre repressão política e
Chegada dos primeiros 17 pioneiros oficiais da Colônia Blumenau
pioneirismo social
marcou a estabilidade do império. 
Com isso, a unificação da Alemanha em torno de um Estado burguês promoveu o intenso desenvolvimento que se processou no país entre 1850 — ano da chegada dos primeiros imigrantes ao Vale do Itajaí e da fundação da Colônia Blumenau — e 1873, consolidando a nação como uma potência capitalista industrial.
A economia alemã nesse período avançou em um ritmo assustador, fenômeno conhecido como a Segunda Revolução Industrial alemã, que preocupou potências como a Inglaterra. O país deixou de ser majoritariamente rural para liderar setores de alta tecnologia da época, superando a produção industrial britânica em áreas estratégicas, isso foi um detalhe importante para o estopim que desencadeou a 1ª Guerra Mundial. Os conglomerados alemães tornaram-se gigantes globais na produção de aço, na indústria química (de corantes e medicamentos) e no setor de eletrotécnica. Esse boom econômico impulsionou uma urbanização acelerada, atraindo milhões de trabalhadores do campo para metrópoles em expansão como Berlin, Hamburg e a região do Vale do Ruhr.
Efervescência de Berlin - Ano de 1900. Fonte Wikipédia.
Essa riqueza e infraestrutura, aliadas à rígida disciplina de conduta prussiana idealizada por Bismarck, também alimentaram um sistema educacional de excelência. As universidades alemãs transformaram-se em referências globais de pesquisa científica, atraindo estudantes e cientistas do mundo inteiro, o que preparou o terreno para o domínio alemão nos primeiros Prêmios Nobel do século seguinte. A população crescia rapidamente, gerando uma classe média e uma vibrante vida cultural urbana.
Francisco Ferdinando de Habsburgo.
A virada de década trouxe uma ruptura crucial em 1890, quando o jovem Kaiser Wilhelm II assumiu o trono e demitiu Bismarck, o grande arquiteto das primeiras décadas da Alemanha unificada. Wilhelm II abandonou a diplomacia cautelosa do antigo chanceler e adotou a Weltpolitik (política mundial), uma postura externa agressiva voltada para a expansão colonial e para a construção de uma marinha de guerra formidável, capaz de desafiar a hegemonia britânica, que já tinha ressalvas mediante o célere desenvolvimento alemã no continente.
Para o estopim da 1ª Guerra Mundial, faltava pouco — quase um pretexto para conter o avanço alemão. Ele veio com o assassinato do Francisco Ferdinando de Habsburgo – Arquiduque do império Austro-húngaro, em 28 de junho de 1914, herdeiro do Império Austro-Húngaro, um dos tronos mais poderosos da Europa na época. Com o agravamento da crise diplomática, a Alemanha posicionou-se ao lado da Áustria-Hungria e envolveu-se diretamente no início do conflito mundial, sem dimensionar totalmente a proporção do que estava em jogo.
Família Wittmann de Kirchheim unter Teck,  Kirchheim, Württemberg, Alemanha. Na casa de  Wilhelmine encontramos fotografia de Christian nas paredes, onde viviam seus dois filhos que nos receberam em 2016. Ofereceram ao Roberto Wittmann o hinário de Christian. De acordo com depoimento dos irmãos, Wilhelmine tinha carinho especial pelo irmão que migrou para o Brasil.



Dentro deste recorte de tempo histórico, o pai de Rodolfo Wittmann, Christian Wittmann, nasceu em 22 de setembro de 1891 em Kirchheim unter Teck, Kirchheim, Württemberg, já na Alemanha unificada. Seus pais foram Franziskus Wittmann (1851–1931) e Marie Christine (Dürr) Wittmann (1849–1914).
Christian teve quatro irmãos. Dentre eles, um emigrou para os Estados Unidos, não se tendo mais notícias dele ou de sua família, ao contrário dos demais, que permaneceram na Alemanha. Seu pai, Franziskus Wittmann (1851–1931) — ou Franz, no seio familiar —, era sapateiro e proprietário de uma pequena loja de sapatos em Kirchheim unter Teck, Baden-Württemberg.
Em 1912, com 20 anos incompletos, Christian Wittmann foi para Stuttgart, trabalhar como estafeta em um jornal da cidade e quando atingiu a idade de entrar no exército (20 anos), ingresso no exército (1913), onde serviu por dois anos. Em julho de 1914 iniciou a 1ª Guerra Mundial. Em 2016, estivemos no local onde Christian serviu, na cidade de Sttutgart.
Caserna em Stuttgart - Christian Wittmann serviu - à direita, seu neto Roberto Wittmann.

Quando saiu do exército, Christian voltou a trabalhar no jornal, até ser convocado para combater na 1ª Guerra Mundial, iniciada em 28 de julho de 1914, com a declaração de guerra da Áustria-Hungria contra a Sérvia. A Alemanha entrou no conflito em 1º de agosto de 1914, ao declarar guerra à Rússia. No dia 3 de agosto, declarou guerra à França e invadiu a Bélgica; em 4 de agosto, o Reino Unido (que, de certa forma, aguardava essa oportunidade) declarou guerra à Alemanha por violar a neutralidade belga. Como combatente, Christian Wittmann esteve nos campos de batalha durante os quatro anos de duração da guerra. Essa vivência deixou sequelas e o marcou para o resto de sua vida.
Com a guerra, a situação socioeconômica da Alemanha mudou drasticamente. Grã-Bretanha, conseguiu êxito.
Em  Winterbach im Remstal  - primavera de 2025. Anna Maria Müller - avó de Ursula Worns; Albert Friedrich Müller - avô de Hans Peter Gerst; Emma Luise Müller - avó de Roberto Wittmann.
A Alemanha parou de lutar na 1ª Guerra Mundial em 11 de novembro de 1918, após assinar o Armistício de Compiègne com as potências aliadas. O país foi forçado a ceder devido ao isolamento militar, já que seus aliados haviam se rendido, e à grave crise interna marcada pela fome, greves e revoltas populares. 
Dois dias antes do cessar-fogo, o imperador Wilhelm II abdicou do trono, transformando a Alemanha em uma república que, sem condições de manter os combates, aceitou a derrota militar — cenário em que a situação para as famílias ficou extremamente difícil.
Christian Wittmann voltou a trabalhar no jornal de Stuttgart. Encontrou um quarto para alugar por meio de um anúncio que seria publicado no próprio jornal em que trabalhava. Alugou o quarto exatamente na casa da família onde trabalhava Emma Louise Müller, sua futura esposa e mãe de Rodolfo Wittmann.

Casamento de Christian Wittmann e Emma Louise Müller - pais de Rodolfo Wittmann
Três primos, netos de três irmãos, um de
Emma Louise, junto  à Michaelkirche - 2025.
Mas por que Emma Louise Müller (1894–1981) estava trabalhando na casa de uma família em Stuttgart?
Emma Louise nasceu em Winterbach im Remstal no seio de uma família luterana, cuja igreja milenar — a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) — era sempre lembrada nas conversas que tínhamos com Rodolfo Wittmann. Emma nasceu em 9 de novembro de 1894 e tinha 24 anos quando conheceu Christian Wittmann. Seus pais foram Karl Michael Müller (1850–1935) e Christine Katharine (Bässler) Müller (1858–1914), luteranos convictos. 






Emma Louise teve 12 irmãos, e seu pai, Karl Michael, foi pastor de ovelhas  itinerante entre Winterbach e Alsácia. Atividade ancestral desde que o Homem fez a revolução agrícola, que deixou de ser coletor e caçador e passou a ser pastor e agricultor. Ele também exercia a atividade de ferreiro.
Mas por que Emma Louise não morava com os pais?
Ela não residia mais com a família porque foi "colocada para fora de casa" ao optar por outra fé. Até então, vivia em Winterbach im Remstal com seus familiares. Certo dia, assistiu a uma palestra de outra denominação e ficou tão impressionada que se converteu à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seu pai não aceitou a escolha e pediu que ela deixasse a sua casa.

Avós de Rodolfo Wittmann maternos e sua mãe. Seu avô era pastor de ovelhas itinerante entre Winterbach e Alsácia. Atividade ancestral desde que o Homem fez a revolução agrícola, que deixou de ser coletor e caçador e passou a ser pastor e agricultor.


Emma Louise em festa de família - casamento (noiva de preto) de seu irmão Albert Friedrich - em Winterbach im Remstal, contando com a presença de três irmãos, um deles que migrou para o Brasil antes dela e seus pais Karl Michael e Katharina Christine Müller.

Sttutgart - 1922.
Emma, então, mudou-se para Stuttgart, onde começou a trabalhar na residência que também alugava quartos. Foi lá que passaram a morar dois ex-combatentes da 1ª Guerra Mundial, sendo um deles Christian Wittmann.
Enquanto trabalhavam, Emma Louise e sua colega cantavam uma antiga marcha que falava sobre um soldado chamado Christian. Ficaram surpresas ao descobrir que um daqueles ex-combatentes tinha justamente esse nome — o mesmo homem que viria a ser seu marido.
Christian Wittmann e Emma Louise Müller casaram-se em Stuttgart, em 13 de maio de 1922.
Certidão de Casamento de Christian e Emma Louise.
Um pouco contrariado, mas como condição para que o casamento ocorresse, Christian, que também era luterano, teve que se converter à religião da noiva. Ao longo da vida, ele nunca aceitou totalmente essa imposição, o que levou seu filho, Rodolfo Wittmann, a encarar com certas reservas os assuntos religiosos — de qualquer igreja —, visto que o tema era uma das principais fontes de discórdia em sua casa. No entanto, Rodolfo jamais as questionava, respeitando e aceitando as práticas de qualquer religião. Poucos conheciam essa história.

A Família Wittmann migra para o Brasil - 1923
Casados, enfrentavam tempos difíceis na Alemanha pós-guerra. Christian continuava a trabalhar no jornal de Stuttgart, enquanto Emma Louise cuidava da casa.
Emma Louise tinha um irmão no Brasil, um ano mais velho que ela, Ernst Wilhelm Müller (1893–1982). Ele estava fixado na capital do país, o Rio de Janeiro. Ela recebeu uma correspondência do irmão contando sobre o país e sobre as leis do governo brasileiro de incentivo à imigração (voltadas ao povoamento do Sul). Ernst Wilhelm Müller era proprietário de uma fábrica de escovas e incentivou a vinda da irmã e do cunhado para o Brasil. A situação na Alemanha era muito difícil e a família estava prestes a aumentar, pois Emma Louise aguardava o seu primogênito — Rodolfo Wittmann — e não havia perspectiva para o futuro. Nesse momento, surgia no Brasil a esperança de um novo horizonte para a família — um caminho que viabilizou, no futuro, a própria existência de Roberto Wittmann.
Decididos e focados no novo horizonte, os Wittmann venderam o pouco que possuíam na Alemanha, aceitaram as passagens do governo brasileiro e migraram para o Brasil na primavera de 1923 (no Hemisfério Norte). Emma Louise estava no sexto mês de gestação. A família Wittmann e outras famílias de imigrantes desembarcaram na Ilha das Flores, Rio de Janeiro — como há muito tempo acontecia — para cumprir a conhecida quarentena.
Primeiro contato com o Brasil aconteceu neste local - a Ilha das Flores.A Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, localizada no Rio de Janeiro (atual município de São Gonçalo), foi a primeira hospedaria do gênero no Brasil, criada em 1883. Ela funcionou até 1966 como a principal porta de entrada e triagem de estrangeiros que chegavam pelo Porto do Rio de Janeiro, incluindo as famílias da Alemanha  e de Sttutgart, como os Wittmann.
Irmão de Emma Louise.
Assim que os Wittmann's se desvincularam dos trâmites burocráticos da imigração, procuraram Ernst Wilhelm Müller — no Brasil chamado de Guilherme Müller —, irmão de Emma Louise, na comunidade de Santa Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro. Ela estava prestes a dar à luz. Ao longo desta pesquisa, verificamos que outro irmão Müller, o caçula, migrou para o Brasil: Karl Wilhelm Müller (1901–1942).

Mudança da família para Afonso Claudio - Espirito Santo
Irmão de Christian Wittmann.

Christian Wittmann começou a trabalhar na fábrica de Ernst Wilhelm Müller, seu cunhado e irmão de Emma Louise, no Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano, em 13 de agosto, nasceu seu filho, Rodolfo Wittmann, que foi registrado com a data de 15 de agosto de 1923 — como um legítimo carioca, brasileiro, no Rio de Janeiro. 
Encontramos um postal de Christian Wittmann, datado de 1924 e enviado a Stuttgart para seu irmão Heinrich Wilhelm Wittmann. Este seu irmão posteriormente migrou para os Estados Unidos da América.
Nesse ínterim, os Wittmann conheceram um dentista capixaba, que os convidou para trabalhar em sua residência em Afonso Cláudio, no interior do Espírito Santo, próximo à divisa com Minas Gerais.
Afonso Claudio em 1918.

Christian não se adaptou à rigidez do trabalho na fábrica de escovas, o que acabou gerando conflitos, que não desejavam. Diante disto, aceitou a proposta e a família mudou-se para a cidade capixaba, 1924, localizada na Serra Pelada, condição geográfica muita vezes mencionada por Rodolfo Wittmann. Como não havia meios de transporte nem estradas que ligassem o Rio de Janeiro (atual São Gonçalo) a Afonso Cláudio — apenas picadas abertas para tropas —, fizeram o trajeto a pé ao longo de três dias, pernoitando em hospedarias à beira do caminho. A mudança da família chegou posteriormente, transportada no lombo de burros. Atualmente se fosse fazer o trajeto a pé, o Google Maps acusa 4 dias de caminhada.
Emma Louise, vinda de Winterbach im Remstal, gostou do local. 
Inicialmente, ela cuidava das tarefas domésticas enquanto Christian trabalhava na propriedade também na uma firma de confecção de selas e arreios para montaria que ficava junto à propriedade. Na época dessa mudança, Rodolfo Wittmann tinha cerca de nove meses de idade.
Espírito Santo - Serra Pelada - Segundo Lar dos Wittmann no Brasil. Musaram-se para o local em 1924. A propriedade apresentava as características da propriedade de um imigrante alemão, desde a arquitetura e a ocupação do solo.
Propriedade de Pomeranos.
Os primeiros pomeranos e alemães chegaram ao Espírito Santo a partir de 1859, estabelecendo-se inicialmente nas colônias de Santa Isabel (atual Domingos Martins) e Santa Maria de Jetibá. Assim, quando os Wittmann chegaram ao local, encontraram outras famílias de origem germânica.
Mesmo vivendo um novo momento, os Wittmann sentiam muitas saudades da Alemanha — sentimento alimentado sobretudo por Christian Wittmann. Além disso, a comunidade local era formada majoritariamente por pomeranos, imigrantes com uma cultura e tradições bastante distintas daquela de Baden-Württemberg, sua terra natal, somadas a uma geografia totalmente diversa da que conheciam. Nesse mesmo período, receberam boas notícias vindas da Alemanha e concluíram que era hora de retornar.

Winterbach im Remstal, onde nasceu
Henrique Wittmann.
Volta para a Alemanha - 1925

Christian Wittmann vendeu tudo o que possuíam — que era muito pouco — e comprou as passagens de volta para Emma Louise e o pequeno Rodolfo Wittmann, que estava com cerca de um ano e meio de idade, no ano de 1925. Coincidentemente, Emma Louise estava grávida do segundo filho do casal e, mais uma vez, viajou nessas condições, no quinto mês de gestação. A viagem de retorno para a Alemanha iniciou no Rio de Janeiro, a bordo de um transatlântico, sem Christian Wittmann.
Christian planejou continuar trabalhando no Brasil até juntar o montante necessário para comprar sua própria passagem e reencontrar a família. Emma Louise e o pequeno Rodolfo chegaram a Winterbach im Remstal e instalaram-se na residência dos pais dela. O segundo filho do casal — Henrique Wittmann, como ficou conhecido no Brasil (provavelmente registrado como Heinrich na Alemanha) — nasceu em 23 de maio de 1925, sem a presença do pai, que ainda não havia conseguido os meios para retornar.
No Brasil, Christian não conseguiu juntar o valor necessário para comprar a passagem de volta e reencontrar a família na Alemanha. Para viabilizar o retorno, tomou emprestado de um conhecido a quantia que faltava.
Marcando a chegada de Christian  na Alemanha existe um postal de seu irmão Heinrich Wilhelm Wittmann, datado de 7 de março de 1926.
Já reunidos na Alemanha, Christian, Emma Louise, Rodolfo e Henrique partiram para Kirchheim unter Teck, onde residiam os pais de Christian, Franziskus e Marie Christine, além de sua irmã Wilhelmine, casada com um membro da família Luttenberger, e os dois filhos do casal, Rudi e Willi. A família Wittmann instalou-se no sótão habitável (mansarda) da casa.
Wilhelmine e seu marido Herr Luttenberger.
Essa convivência explica a proximidade preservada na visita que fizemos aos Luttenberger em 2016, oportunidade em que conhecemos os filhos da irmã de Christian. Na ocasião, Rudi e Willi confirmaram que Christian era o irmão preferido de sua mãe. 


A casa visitada pode ter sido a mesma onde Christian morou com a família, visto que possuía um amplo sótão habitável — onde também residia um dos irmãos — e guardava a história familiar preservada no mobiliário e nas paredes, repleta de memórias, como mostram as fotografias a seguir, feitas por nós durante a visita de 2016.


Notícia do falecimento e informações do sepultamento da mãe de Christian ficado na fotografia da família na parede da residência de Rudi e Willi Luttenberger - 2016.
Fotografia na parede de Christian com a farta do exercito.

Foto da família de Christian Wittmann e de Heinrich Wilhelm Wittmann, o irmão que migrou para os Estados Unidos da América. Na foto está com 16 anos.

Fotografia de toda a família antes da guerra, na parede da casa que foi da irmã de Christian e confirmado que sua família morava com o pais de ambos.
Wilhelmine com o marido e filhos na mesma casa.
Alusão à família Wittmann dividida, entre Estados Unidos da América (Heinrich Wilhelm Wittmann) Alemanha e Brasil (Christian Wittmann). Este local está em um canto do jardim dos Luttenberger.

Roberto Wittmann, neto de Christian Wittmann com os filhos de Wilhelmine, Rudi e Willi, no suposto sótão, que a família residiu quando retornou para a Alemanha.
Roberto Wittmann, neto de Christian Wittmann com os filhos de Wilhelmine, Rudi e Willi na casa que família de Christian Wittmann residiu quando retornou para a Alemanha. Muita memória nos ambientes da casa de Kirchheim unter Teck.

Nossa assinatura na parede de visitas da casa onde Christian Wittmann morou e também, seu filho Rodolfo Wittmann. Na época não sabíamos disto.
Roberto Wittmann recebeu das mãos dos filhos de Wilhelmine, irmã de Christian Wittmann o livro de canto luterano que pertenceu a ele.


Prosseguindo a História... Retorno da família para o Brasil - desemprego e sem perspectivas.

Kirchheim Unter teck - período de recessão.
Em Kirchheim unter Teck, Christian Wittmann tentou conseguir emprego, mas enfrentou grandes dificuldades e não obteve êxito. A situação na Alemanha não havia melhorado desde que migrara para o Brasil em 1923; o desemprego e a inflação permaneciam elevados. Sem alternativas no mercado formal, passou a trabalhar como vendedor ambulante de sabonetes, mas as pessoas não tinham recursos para adquirir itens não essenciais, e os negócios não prosperaram.
O inverno de 1925 foi rigoroso, e os pequenos Henrique e Rodolfo ficaram doentes. Henrique sofria com a subnutrição decorrente da escassez de alimentos, enquanto Rodolfo adquiriu uma pneumonia dupla e complicações decorrentes de um sarampo, as quais deixaram sequelas graves em sua visão. Diante desse quadro, o médico aconselhou Christian a retornar com a família para o Brasil a fim de salvar a vida dos filhos. Para custear as passagens de volta de todos, Emma Louise vendeu a sua parte da herança paterna.
Assim, Christian e sua família regressaram ao Brasil em 10 de março de 1926, estabelecendo-se novamente no estado do Espírito Santo, no município de Afonso Cláudio (na localidade de Serra Pelada). Ali, Christian voltou a trabalhar na oficina de selas e arreios, onde permaneceu até 1928.
A razão para o fim desse trabalho ocorreu em 1928, com a inauguração da primeira estrada de rodagem de acesso a Afonso Cláudio como obra de infraestrutura básica. O avanço viário reduziu drasticamente o transporte realizado por tropas no lombo de burros pelas antigas picadas e, consequentemente, enfraqueceu o mercado de arreios e selas. Com o declínio do negócio, Christian foi demitido e tentou, sem sucesso, encontrar novo emprego na região. Nesse período, em 22 de setembro de 1927, havia nascido o terceiro filho do casal: Guilherme Wittmann (cujo nome de registro provavelmente tenha sido Wilhelm).
Paralelamente, Emma Louise mantinha correspondência com famílias de imigrantes alemães residentes no interior de São Paulo, na localidade de Presidente Venceslau.
Em 1930, em meio ao contexto da Revolução de 1930, a família partiu para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, instalaram-se em uma das casas pertencentes ao irmão de Emma Louise, Ernst Wilhelm Müller (Guilherme Müller). Para prover o sustento da casa, Christian voltou a trabalhar na fábrica de escovas do cunhado.
Vimos esta foto na casa de parentes da família Wittmann em Kirchheim Unter Teck e também na casa dos parentes  Müller, em  Winterbach im Remstal.
Permaneceram no Rio de Janeiro por dois anos, até 1932, período marcado pelos desdobramentos políticos do governo de Getúlio Vargas e pela Revolução Constitucionalista. Em 1932, organizaram a mudança da família — resumida a apenas três caixas e um baú — e embarcaram no trem rumo a São Paulo. Da capital paulista, em 23 de dezembro de 1932, às vésperas do Natal, partiram sem grandes perspectivas com os três filhos pequenos rumo a Presidente Venceslau, em uma jornada de trem que durou 24 horas. Na ocasião, Rodolfo Wittmann tinha nove anos de idade.
Quando chegaram em Presidente Venceslau, procuraram a casa dos conhecidos correspondentes de Emma Louise.
Com o auxílio financeiro do irmão de Emma LouiseErnst Wilhelm Müller, um empréstimo que jamais foi cobrado e também, não foi pago, os Wittmann adquiriram uma pequena propriedade rural, com casa e espaço para plantação e criação, onde o casal e os filhos começaram a trabalhar. Rodolfo Wittmann trabalhou na terra com o pais e os irmãos em Presidente Venceslau, durante 13 anos. A terra já estava enfraquecida e a produção na lavoura estava minguando.









Nesse período, em 1939 iniciou a 2º Guerra Mundial. Christian Wittmann e Emma Louise acompanharam as notícias com preocupação e tristeza. Christian tinha memórias de guerra que marcaram sua vida. Residia em um lugar tranquilo, com sua família. 

Rodolfo Wittmann sai da casa paterna e conhece o Paraná
A doença nos olhos ocorreu na Alemanha, decorrente das complicações de um sarampo mal resolvido. Além dos óculos, quando ficou mais velho, ele utilizava uma lupa e um "vidro" de ampliação para ler — hábito que jamais abandonou. Lia constantemente livros e revistas no idioma alemão. Suas duas lupas e os óculos são guardados por nós como relíquias de sua trajetória.
Ferramentas que lhe viabilizava a leitura.


Ao término da 2ª Guerra Mundial, em 1945, quando Rodolfo Wittmann contava 22 anos de idade, saiu da casa paterna para trabalhar em uma marcenaria em Rolândia, no Paraná. Após um longo período de chuvas e com a crescente escassez de madeira seca para beneficiar, acabou sendo demitido. No entanto, ficou entusiasmado com a fertilidade da terra roxa da região. Escreveu, então, para a família, incentivando todos a se mudarem para lá, pois o solo era excelente para o cultivo.
Seu irmão Guilherme foi ao seu encontro e, juntos, passaram a procurar um sítio para comprar.
Na época, a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP) — originalmente fundada em 1925 como Companhia de Terras Norte do Paraná, com capital britânico liderado pela Paraná Plantations — promovia o loteamento da região. A colonizadora havia adquirido do governo paranaense mais de 500 mil alqueires cobertos por terra roxa, uma área altamente fértil situada entre os rios Tibagi, Ivaí e Paranapanema. A estratégia do grupo consistia em abrir estradas, construir ferrovias e planejar minuciosamente a divisão do território, projetando núcleos urbanos e rurais a cada 10 ou 15 quilômetros para facilitar o transporte e o escoamento da produção agrícola.
A venda dos lotes atraiu uma enorme massa de migrantes de diversas partes do Brasil e imigrantes de diferentes nacionalidades, impulsionando o ciclo do café na região e atraindo também os irmãos Wittmann.
Durante a 2ª Guerra Mundial, em 1944, o controle acionário da empresa foi nacionalizado, passando para as mãos de investidores brasileiros — período em que os Wittmann adquiriram o seu lote. Para a escolha da terra, os irmãos embarcaram em um avião da própria empresa, que sobrevoava a região enquanto os passageiros acompanhavam o mapa para escolher a propriedade do alto.
Escolheram uma área de 4,5 alqueires coberta por mata nativa, no local conhecido como Rochedo. Em seguida, contrataram um trabalhador para fazer a derrubada da vegetação em 2,5 alqueires, preparando a terra para o plantio.
Com a compra efetuada, Rodolfo e Guilherme retornaram a Presidente Venceslau, onde os pais residiam, e venderam o pequeno sítio da família. Em 10 de outubro de 1946, ao meio-dia, carregaram a mudança em um caminhão e partiram rumo ao Norte do Paraná. 
O que os aguardava?
Naquela época, todas as estradas eram de chão batido — em meio à densa terra roxa —, tornando-se praticamente intransitáveis nos dias de chuva. Seguiram em direção ao sítio, mas perderam dois dias no trajeto, pois o caminhão da mudança atolou na lama. Na segunda noite de viagem, pernoitaram em um rancho à beira da estrada, onde um sitiante guardava milho.
No dia 11 de outubro de 1946, uma terça-feira, a apenas 6 km do destino final e sob intensa chuva, a estrada perdeu totalmente as condições de tráfego. Sem conseguir prosseguir, o motorista desembarcou toda a mudança no mesmo rancho de milho e iniciou a viagem de volta para São Paulo.
Rodolfo e seu irmão mais novo, construíram uma barragem
existente ainda hoje, no rio Rochedo.
No dia seguinte, Rodolfo e Guilherme percorreram a pé os 6 km até a nova propriedade e pediram um carro de bois emprestado a um vizinho para transportar os pertences da família. Levaram um dia inteiro para mover apenas um terço da mudança, e a transferência total foi concluída ao longo dos dois dias subsequentes.
A partir das árvores derrubadas no lote, Rodolfo e Guilherme beneficiaram a madeira para construir a primeira casa dos Wittmann no Paraná — uma edificação simples, com piso de chão batido, habitada por uma família cujas origens remontavam a Kirchheim unter Teck e Winterbach im Remstal.
Serraria improvisada por Rodolfo Wittmann e os irmãos para beneficiar um terço da madeira derrubada para a construção de benfeitorias na propriedade. Sua cobertura foi feita com Holtzschindel (telha de madeira - sendo que Schindel, expressão original para telha recebeu o sufixo pelo surgimento de telhas feitas com outros materiais).



Um comentário: Como aconteceu na região alemã de onde veio a família Wittmann, no período Neolítico — durante a Revolução Agrícola —, quando o homem deixou de ser caçador e coletor e, ao fixar-se no solo, tornou-se pastor e agricultor, limparem-se os terrenos para criar pastagens para os animais e, com a madeira retirada, ergueram-se as primeiras habitações, embrião da construção em enxaimel naquela região. Essa mesma prática repetiu-se inúmeras vezes ao longo dos séculos de história subsequentes. 

Limpeza do terreno uma prática milenar desde o neolítico. Imagens do surgimento e evolução do embrião do enxaimel na região de onde veio os pioneiros da família Wittmann, na Alemanha. Do livro "Fachwerk - A Técnica Construtiva Enxaimel".

Rodolfo Wittmann e seu irmão Guilherme também construíram um poço (existente até os dias atuais) e outras benfeitorias, como ranchos, casa de banho e curral — estruturas que ainda se fazem presentes na paisagem (fotografias ao final).
Curiosamente, Rodolfo possuía a ferramenta para fabricar Schindel — as tabuinhas ou telhas de madeira (a denominação original de telha em alemão). Confeccionavam as peças com essa ferramenta especial e uma marreta, e a cobertura da casa era feita com as tabuinhas sobrepostas. O termo original acabou virando sinônimo geral para telha, objeto que passou a ser fabricado ao longo da história com outros materiais, como barro e pedra; por essa razão, a telha de madeira é conhecida atualmente na Alemanha pelo termo específico Holzschindeln.
Arquitetura da Casa Provisória dos Wittmann no Parana - Década de 1947
Casa provisória dos Wittmann no Paraná. Construção  vernacular com volumetria da casa alemã.
A casa provisória construída pelos Wittmann no Sítio do Rochedo, no Norte do Paraná, localizado no atual município de Mandaguari, apresentava características — ao menos em sua volumetria — da típica casa do imigrante alemão: planta retangular, telhado de duas águas (dois panos) e anexos frontal e posterior. O material empregado foi aquele beneficiado pela própria família a partir da madeira retirada da propriedade para abrir espaço para o cultivo e a criação de animais. Praticamente toda a matéria-prima utilizada foi extraída do próprio local, onde no entorno ainda é possível perceber marcas da vegetação nativa original. Estrutura de telha de madeira, aberturas de madeira, estrutura de madeira e fechamento, também de madeira.
Vale ressaltar, a título de comentário, que os irmãos Rodolfo e Guilherme, de forma autodidata, estudaram a Mata Atlântica nativa dessa parte do território, conhecendo suas principais espécies. A partir desse conhecimento, iniciaram um projeto de reflorestamento — processo conhecido em Santa Catarina como "restauro da mata" —, que posteriormente teve continuidade com Guilherme Wittmann, que permaneceu na propriedade, onde permanecem seus descendentes, até os dias atuais.

Novo período - estabilidade e turismo nos momentos de férias
O alimento já não faltava mais. Nos primeiros tempos, a propriedade produzia arroz (no primeiro ano foram colhidas 60 sacas, todas colhidas manualmente), milho, feijão, alfafa, soja e mamona, além de contar com criação de abelhas e produção de leite para consumo próprio.
Os irmãos Rodolfo e Guilherme construíram suas próprias máquinas e estruturas para auxiliar no trabalho diário: produziram máquinas de descascar arroz, silos e uma roda d'água aprimorada, entre muitas outras benfeitorias, como mais ranchos — a maioria ainda presente na propriedade.

Algumas imagens da propriedade Wittmann - onde Rodolfo Wittmann trabalhou até 1960 - exceto o ano de 1954.





























































Na propriedade, havia um espaço reservado exclusivamente para os rapazes. Eles construíram uma casa onde guardavam suas coleções, pertences pessoais e revistas.
Emma Louise era muito rigorosa e rígida, seguindo com risca os dogmas de sua religião. Os meninos, no entanto, não acompanhavam de maneira disciplinada as exigências impostas, assim como seu pai Christian. Entre eles, apenas Henrique era mais disciplinado e convertido à religião da mãe — adventistas do sétimo dia (evangélicos do sábado).
A vida na propriedade era muito solitária para os rapazes Wittmann, que acabaram criando o hábito de viajar. Havia uma estação ferroviária em Mandaguari, conectada às redes de São Paulo e Santa Catarina.
Henrique costumava viajar para São Paulo; Guilherme deslocava-se de trem e a cavalo; e Rodolfo também viajava, embora com menor frequência. Rodolfo Wittmann visitou diversos destinos — como São Paulo, Rio de Janeiro e Santos —, deixando todos esses trajetos devidamente registrados. Segue uma amostra de suas excursões




















Rodolfo Wittmann tinha grande admiração por este edifício, cuja construção foi vanguarda em sua época. comentou até tenra idade sobre ele. chamou nossa atenção pelo aspecto arquitetônico e atualmente quando o vemos em São Paulo não tem como não lembrar do Seu Rodolfo.
Rodolfo Wittmann e o casamento - Blumenau

Os Wittmann não perderam o contato com os amigos e vizinhos que fizeram em Presidente Venceslau SP e os visitavam com frequência. Em uma dessas visitas à cidade, em 1951, quando Rodolfo Wittmann tinha 28 anos, ele foi questionado por um conhecido sobre já ter idade para arrumar uma esposa. Rodolfo Wittmann ficou pensativo e voltou para casa preocupado; até então, nunca havia refletido sobre o assunto ou se preocupado em casar. O assunto não saiu de sua mente e teve uma ideia.
Em uma viagem de passeio a São Paulo, em julho de 1952, resolveu anunciar sua intenção de encontrar uma esposa em um jornal. O anúncio foi publicado no Brasil-Post, jornal de língua alemã de grande circulação entre as comunidades alemãs no Brasil. O jornal foi fundado em 1950 e administrado por décadas pela família Dormien, de São Paulo. A título de curiosidade, o Brasil-Post encerrou definitivamente suas atividades impressas e de circulação em 2011, após mais de seis décadas de história dedicadas à imprensa de língua alemã no país.
O anuncio de Rodolfo Wittmann teve respostas?
Enchente de 1983 - na residência de Rodolfo Wittmann - Vila Nova.
Recebeu algumas cartas em resposta ao seu anúncio e separou três para visitar pessoalmente. Essa história ficou guardada até a grande enchente de Blumenau em 1983, quando estávamos em sua casa, na Vila Nova — acolhidos como flagelados, pois nosso apartamento térreo, no bairro Victor Konder, havia sido inundado — e, posteriormente, a própria família de Rodolfo Wittmann também precisou ser acolhida, quando o nível da água atingiu a propriedade deles.
No abrigo improvisado onde nos encontrávamos — a garagem de um vizinho em uma localização mais alta —, as horas demoravam a passar. Como sempre fomos curiosos, começamos a fazer perguntas sobre o casamento de Rodolfo Wittmann e, para nossa surpresa, ele foi contando tudo em detalhes, para o rubor de sua esposa, que estava presente.
É óbvio que uma das três cartas fora enviada por uma moça de Blumenau. Os acontecimentos desdobraram-se muito rápido: Rodolfo publicou o anúncio no jornal Brasil-Post em julho de 1952 e, já em abril de 1953, casava-se com Johanna Goll (que se tornaria Johanna Wittmann), vinda de uma família do bairro Garcia, em Blumenau. A mãe de Johanna era Anna Frieda Lorenz (1896–1988), nascida em Dresden, na Alemanha, e seu pai, Erwin Goll (1892–1963), era descendente de pomeranos.
Candidata de Blumenau a ser esposa de Rodolfo Wittmann. Funcionária da Cia. Cremer.
Mala que Rodolfo Wittmann viajou para Blumenau
para conhecer Johanna Goll.  Ela se encontrava
 dentro de um saco. 
Johanna trabalhava na Cia. Cremer e não havia contado a ninguém que respondera ao anúncio do Brasil-Post. Rodolfo Wittmann também não avisara que viajaria a Blumenau para conhecê-la pessoalmente.
Johanna era uma jovem que gostava de acompanhar as sessões de cinema ao ar livre, comuns na época, e de passear pela cidade. Tinha estudado na Escola Alemã de Altona e foi surpreendida ao encontrar o agricultor, descendente de alemães e vindo do interior do Paraná, aguardando-a na porta da fábrica. Rodolfo trazia a mala literalmente dentro de um saco — costume da época para evitar que o objeto se danificasse —, mala esta que guardamos conosco até hoje.
Sem saber ao certo o que fazer, Johanna refletiu um pouco e decidiu levar o rapaz para a casa de sua família, que desconhecia completamente toda a história.
Após o encontro, Rodolfo retornou para sua casa no Paraná e regressou a Blumenau em abril para o casamento com Johanna — que viria a ser a mãe de Roberto Wittmann.
A título de comentário, nenhum irmão Wittmann se fez presente no casamento do outro. Da mesma forma, Christian e Emma Louise não estiveram em Blumenau para o casamento de seu filho primogênito.
O casal permaneceu em Blumenau por um ano. Sua filha mais velha, Sônia Maria nasceu na cidade em 13 de julho de 1954. Nesse mesmo ano, a família mudou-se para a propriedade dos Wittmann no Norte do Paraná. Lá, tiveram mais uma filha, Silvia Alzira nascida em 15 de janeiro de 1956, e o caçula, Roberto Osny, nascido em 16 de novembro de 1958.
Quando o caçula tinha pouco mais de um ano, Rodolfo Wittmann resolveu retornar com a família para Blumenau. Seus irmãos, Guilherme e Henrique, haviam se casado; Guilherme permanecia na propriedade e também tivera filhos. Mesmo gostando do local, Rodolfo buscava uma rotina mais tranquila e ponderou que a convivência de muitas crianças no mesmo espaço poderia gerar conflitos.


Assim, regressaram a Blumenau em outubro de 1959. Tanto Rodolfo quanto Johanna contavam que viajaram de trem, do trecho de Mandaguari até Mafra e de Mafra até Jaraguá do Sul. Roberto Wittmann, com cerca de um ano de idade, viajou acomodado em uma caixa sob o banco da mãe. A mudança também fez esse mesmo trajeto de trem até Jaraguá do Sul e seguiu de lá até Blumenau de caminhão. Nos primeiros tempos na cidade, residiram em uma casa no bairro Vila Nova por 13 anos.
Rodolfo sempre destacava uma coincidência numérica curiosa: a família Wittmann morara 13 anos em Presidente Venceslau; quando completou 13 anos de residência no Paraná — agora com esposa e filhos —, decidiu mudar-se para Santa Catarina, estabelecendo-se em Blumenau, local que nasceu e morava sua esposa Johanna, e onde ele viveu por 13 anos na primeira residência.
Em Blumenau, durante o primeiro ano, Rodolfo enfrentou dificuldades para conseguir um emprego formal. Valendo-se de suas habilidades com a madeira, realizava pequenos trabalhos como auxiliar de carpintaria. Em 1960, foi contratado para a limpeza de esmerilhadeira de prensa na Eletro Aço Altona — um trabalho braçal e insalubre. Como o salário era insuficiente para o sustento do lar, fazia constantes horas extras. Saía de casa ainda no escuro, com as crianças dormindo, e regressava à noite, quando já haviam adormecido.
Manteve essa rotina por sete anos até decidir que precisava mudar. Continuou trabalhando durante o dia e, à noite, fez o curso de Eletricista de Manutenção no SENAI, complementando os estudos com um curso por correspondência sobre Enrolamento de Motores Elétricos. Reconhecido pelo esforço, foi promovido para o setor de manutenção da Eletro Aço Altona, onde atuou por 13 anos. Em 1980, aposentou-se por invalidez em decorrência do agravamento de seus problemas de visão. O período de duas décadas dedicado à lavoura desde a juventude não pôde ser computado para a aposentadoria; assim, seu tempo de contribuição oficial restringiu-se aos 20 anos de trabalho na fábrica.
Homem culto, inteligente e afável, Rodolfo foi um grande exemplo para os filhos e para os quatro netos.
A propriedade dos Wittmann em Mandaguari, no Paraná, permanece praticamente original, preservando o trabalho deixado por ele, seus irmãos e seus pais, tendo hoje como guardiões o filho mais velho de Guilherme, Lauro Wittmann e família, e a filha caçula, Alice Wittmann.
Christian Wittmann faleceu em Mandaguari em 28 de novembro de 1974, onde foi sepultado. Emma Louise faleceu em São Paulo em 5 de abril de 1981 e está sepultada na capital paulista.
Rodolfo Wittmann, filho do casal e pai de Roberto Wittmann, faleceu em Blumenau em 1º de setembro de 2008. Sua esposa, Johanna Wittmann, faleceu em Blumenau em 11 de setembro de 2020. Ambos estão sepultados no Cemitério da Rua Bahia, em Blumenau.

Digitalizamos o registro em vídeo feito em VHS de uma visita à propriedade de Christian e Emma Louise, em julho de 1993. Segue as imagens:
Encontros inéditos entre família da Alemanha e família do Brasil.
Em 2003, Rodolfo Wittmann conheceu pessoalmente os primos da Alemanha de  Winterbach im Remstal, com os quais se correspondera ao longo de décadas. Sua prima Ursula decidiu promover um encontro de família por ocasião das comemorações de seus 60 anos — um momento histórico e profundamente feliz para Rodolfo. Conheceu sua prima Erika Gerst, com quem trocava correspondência por anos. 

Em 2 de maio de 2025, estivemos na cidade de Christian Wittmann, Kirchheim Unter Teck.
Em 2 de maio de 2025, ao visitarmos a cidade natal de Christian Wittmann — avô paterno de Roberto Wittmann —, Kirchheim unter Teck, deparamo-nos com um monumento histórico e arquitetônico religioso incrível: a igreja que Christian frequentava. Ela estava fechada, até que Roberto encontrou uma porta aberta. Obviamente, lembramo-nos de Christian e até conversamos com ele, fato registrado em vídeo.
Adentramos o ambiente e, em menos de cinco minutos, um senhor entrou no local e dirigiu-se ao fundo do templo. Ele assumiu seu posto ao órgão e iniciou imediatamente a execução da mesma canção, Alten Kameraden, no mesmo tom, que Roberto Wittmann canta com seus amigos no início do espetáculo "Show dos Velhos Camaradas", com o Coro Masculino Liederkranz. As imagens comunicam. Assistam — vale a pena.
Rodolfo Wittmann ia às lágrimas quando ouvia essa canção; ele se emocionava profundamente. Seu filho, Roberto Wittmann — que aprecia rock progressivo —, apresentou-lhe a música em uma manhã de domingo sem programar ou combinar. Presenciamos sua emoção enquanto o disco de vinil tocava, em mais de uma ocasião.
Rodolfo Wittmann nos confiou a missão de guardiã de seu relógio de bolso, peça de enorme valor afetivo para ele. Em um determinado dia, entregou-nos uma pequena caixa amarela e pediu que a abríssemos somente em casa. Naquele momento, conseguiu nos emocionar profundamente, pois sabíamos o verdadeiro significado e a importância que aquele objeto tinha em sua vida. Desde então, mantemo-lo sempre funcionando, cuidando de seu mecanismo como se guardássemos uma vida.





Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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Em construção....










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