sábado, 12 de setembro de 2026

A esposa do Dr. Fritz Müller: Johanna Friederike Caroline Töllner — Karoline (Töllner) Müller, uma mulher à frente de seu tempo (do contrário, não seria a Frau Müller)

Com elegância, Karoline (Töllner) Müller conduz seu carro tracionado a animal. Àquela altura, já não residia no Garcia, mas sim no Vorstadt, após o regresso da família de Nossa Senhora do Desterro, ocorrido em 1867. Em seu trajeto, passava em frente à residência e à firma da família Hering, na Rua XV de Novembro.
No decorrer da semana, ouvimos um comentário pouco feliz que usou a expressão "tadinha" ao se referir à esposa do Dr. Fritz Müller (Dr. Johann Friedrich Theodor Müller). Ficamos surpresos pois, conhecendo o mínimo do perfil e da personalidade dele, sabemos que a última coisa que deveríamos usar como adjetivo para sintetizar sua esposa seria "tadinha"
Karoline (Töllner) Müller e o Dr. Fritz Müller foram parceiros por 46 anos, e só isso já nos faz pensar que não se tratava de uma pessoa qualquer, pois Müller era um intelectual de temperamento forte e a escolheu como sua companheira.
Publicação do Dr. Fritz Müller.
Data de publicação: 1864.
Assunto: Evolução biológica.
Editor: Leipzig: Wilhelm Engelmann.
Coleção: Wellcome Library; UKMHL.
Analisando o perfil de Karoline (Töllner) Müller, registrado em cartas e registros biográficos, e compreendendo o contexto histórico da época, é perfeitamente possível entender a ligação do casal e o amor do Dr. Fritz Müller. Foi uma escolha baseada na afinidade de valores, temperamento e complementariedade prática. Para um homem que rejeitava a hipocrisia social e buscava a verdade acima de tudo, o perfil de Karoline oferecia exatamente o que ele precisava.
A história de Karoline (Töllner) Müller (1826–1894) é a trajetória de uma mulher que desafiou as convenções da Europa do século XIX. Embora historicamente sua figura apareça ligada ao Dr. Fritz Müller, ela desempenhou um papel crucial como a base prática, emocional e familiar que permitiu ao "Príncipe dos Observadores" revolucionar a ciência a partir da Mata Atlântica, no Brasil.
A partir de jornais e portais de história e botânica da Alemanha (como o arquivo do jornal Süddeutsche Zeitung e as publicações científicas da Universidade de Frankfurt), a figura de Karoline ganha uma descrição de personalidade diferente daquela vista e propagada no Brasil sob uma perspectiva machista, revelando sua verdadeira estatura sob o olhar europeu.
Karoline nasceu em Loitz, em 24 de março de 1826, no território da Pomerânia, na Prússia — a Alemanha, como nação, ainda não existia.
Imagens de época da cidade natal de Karoline (Töllner) Müller.

Seus pais foram Louise e Friedrich Töllner, agricultores, tal como era a maioria das famílias nesse recorte histórico na região onde Karoline nasceu e o perfil de muitos imigrantes oriundos dessa área que migraram para o Vale do Itajaí.
Bancos de dados e árvores genealógicas alemãs (como o FamilySearch da Alemanha e o MyHeritage) trazem dados precisos sobre sua documentação na Europa. A grafia de seu nome varia: nos cartórios e registros prussianos antigos, seu nome é frequentemente listado como Caroline Thöllner (com "C" e "th") ou Johanna Friederike Caroline Thöllner, que deve ser a forma completa, pois os nomes alemães raramente se resumiam a um único prenome. Denominamo-la, neste trabalho, Karoline Töllner, como ficou conhecida em Blumenau e região.

Como Dr. Fritz Müller (26 anos) conheceu Karoline Töllner (22 anos)

Documento de próprio punho, onde Dr. Fritz Müller não faria
 o juramento em nome de Deus. Personalidade forte.
Fontes e registros em língua alemã, na Alemanha, trazem uma perspectiva muito mais complexa e rebelde sobre a vida de Karoline Töllner. Ela e Dr. Fritz Müller não formavam apenas um casal tradicional. Foram protagonistas de uma negação às convenções morais e religiosas da Europa do século XIX. Analisando a historiografia e os arquivos biográficos alemães (como os ensaios publicados na Universidade de Frankfurt e no jornal Süddeutsche Zeitung), a história dela revela atos profundos de coragem e convicção política.
O Dr. Fritz Müller era um jovem acadêmico curioso, inquieto e promissor que pouco apreciava a rigidez da Prússia. Viajava com frequência para realizar estudos de campo sobre a flora e a fauna locais, buscando na observação direta da natureza as respostas para suas inquietações científicas. Karoline, por sua vez, vivia no campo, onde sua família trabalhava na agricultura — uma realidade distante do cotidiano universitário de Dr. Fritz. Importante lembrar que as regiões que hoje compõem a Alemanha apresentavam diferenças culturais, históricas e geográficas; a nação alemã, ainda não existia.
O encontro de ambos foi casual, em meio à paisagem rural — ambiente que, ironicamente, anteciparia o cenário de vida do casal na Mata Atlântica brasileira. Registros históricos locais indicam que Dr. Fritz Müller a conheceu em Rolofshagen, vila vizinha a Greifswald, onde se refugiara devido ao seu engajamento político radical durante a Revolução de 1848. O primeiro contato ocorreu por volta daquele ano, no decorrer de suas excursões científicas pela região de Greifswald — cidade que viria a se tornar co irmã de Pomerode em 2005 e do qual partiram diversas famílias emigrantes rumo ao Vale do Itajaí.
Alemanha - a Revolução de 1848 nos estados alemães, conhecida como a Revolução de Março (Märzrevolution), integrou a onda de insurreições populares da Primavera dos Povos na Europa. O movimento buscava o fim do absolutismo, a garantia das liberdades civis e a unificação dos 39 estados independentes que compunham a Confederação Germânica. Dr. Fritz Müller e Karoline Töllner comungavam destes ideais e de outros tantos.






A atração mútua rompeu barreiras sociais profundas, consolidando uma união pautada por uma identificação ideológica e humana.
De acordo com os portais de biografia alemã (como o repositório da Universidade de Greifswald), Karoline e Dr. Fritz Müller decidiram viver em uma Freie Ehe (casamento livre de contratos clericais ou estatais). Para a sociedade da época, Karoline não era vista como "esposa", mas sim marginalizada como "concubina". Isso foi considerado um escândalo absoluto e uma subversão moral na conservadora sociedade prussiana. Karoline e Dr. Fritz defendiam de maneira vanguarda, o conceito de amor livre (Freie Liebe), rejeitando as imposições e os rituais da Igreja. 

Publicações acadêmicas alemãs revisitam o relacionamento do casal para corrigir injustiças históricas da época. O jornal científico Der Palmengarten, da Universidade de Frankfurt, detalha explicitamente o peso social que Karoline carregou. 
Na Alemanha, críticos conservadores atacavam veementemente a união do casal, espalhando uma "propaganda maliciosa" de que Dr. Fritz Müller estava apenas "desfrutando do amor livre" transitório com uma moça de classe baixa. 

A 1ª e 2ª filhas e a união informal não aceita pela família e sociedade

Desafiando os dogmas da época, Karoline e o Dr. Fritz Müller tiveram a primeira filha do casal, Louise, que nasceu em 14 de maio de 1849, na cidade natal de Karoline, em Loitz, Mecklenburg-Strelitz
O preconceito contra ambos escalou dramaticamente, já que, perante a sociedade, Karoline era mãe solteira. Em vez de ceder à pressão social para se enquadrar ou esconder a situação, ela manteve sua união com o pai de sua filha de forma firme e independente. A família do Dr. Fritz Müller cortou relações com ele, isolando-o. Cartas preservadas mostram que a família luterana do Dr. Müller ficou horrorizada — ele era filho e neto de pastores. Dr. Fritz Müller chegou a escrever aos irmãos defendendo Karoline e atacando o preconceito social da época, afirmando que a moral cristã tradicional era "desnaturada".
Karoline Töllner manteve-se ao lado do Dr. Fritz Müller mesmo enfrentando a rejeição e o isolamento. Registros apontam que essa opressão social foi o gatilho definitivo para que ela apoiasse a ideia dele, de migrar para o Brasil, após o convite feito por Hermann Blumenau — antigo funcionário do tio do Dr. Fritz Müller, que atuou como fiscal da Sociedade de Proteção aos Emigrantes Alemães (Verein zum Schutze Deutscher Auswanderer / Sociedade Colonizadora de Hamburgo) entre 1845 e 1846 e tornou-se empreendedor fundiário em Santa Catarina, onde fundou uma  colônia privada agrícola alemã, no sul do país - Blumenau.
Matérias especiais do Süddeutsche Zeitung comprovam que o nascimento da primeira filha do casal foi o estopim para que o Dr. Fritz decidisse romper definitivamente com a Europa e aceitasse o convite de Hermann Blumenau. Isolado por viver com Karoline Töllner sem um casamento formal, o Dr. Fritz escreveu que, na Alemanha, as mentes brilhantes se perdiam "lutando contra velhas relações profundamente enraizadas".
Karoline foi sua grande aliada na decisão de buscar a colônia fundada por Hermann Blumenau, trocando a opressão social alemã pela promessa de uma natureza rica e livre.
Mulheres do interior da Prússia - século XIX.
Com isso, Karoline Töllner rompeu com os dogmas religiosos rígidos que eram impostos às mulheres de sua classe. A decisão de viver em união livre (Freie Liebe), rejeitando o casamento religioso prussiano, exigia uma sólida convicção política e independência de pensamento. O casal lia e debatia as ideias científicas e filosóficas revolucionárias que fervilhavam na Europa da época, e Karoline acompanhava o nível intelectual do companheiro a partir de suas próprias perspectivas.
Precisou ser forte, diante das adversidades e decisões.
Um detalhe frequentemente corrigido por historiadores alemães (como nos estudos de pesquisadores da Sociedade Fritz Müller na Alemanha) diz respeito à filha mais velha, Louise, nascida em 1849. Enquanto no Brasil algumas biografias mais antigas confundiam a contagem de filhos, registros históricos alemães confirmam que a primeira filha, Louise, faleceu ainda na Alemanha, em 1852, aos três anos de idade, pouco antes ou durante os preparativos finais para a viagem. Karoline, portanto, embarcou para o Brasil lidando com o luto recente de sua primeira filha e carregando no colo a bebê Anna (Johanna (Anna) Friederike Karoline Müller).
Pesquisas alemãs recentes jogam luz sobre a imensa carga emocional que Karoline carregava ao subir no navio rumo ao Brasil em maio de 1852: Os registros de óbito da Pomerânia confirmam que a primeira filha do casal, Louise, nascida em 1849, faleceu exatamente em 1852, aos 3 anos de idade.
Karoline teve que lidar com a dor de enterrar sua primogênita no território da atual Alemanha ao mesmo tempo em que preparava a bagagem para a mudança definitiva para o outro lado do mundo com uma bebê recém-nascida nos braços — Anna, que nascera em março de 1852.

O casamento para migrar para o Brasil e o primeiro contato com a selva

Embora ambos fossem livres-pensadores e ateus convictos, a decisão de imigrar para o Brasil em 1852 os colocou diante das rígidas exigências da burocracia colonial e das leis alemãs de emigração, que demandavam a comprovação de matrimônio legal para evitar que Karoline viajasse sob a condição de "concubina".
Biógrafos alemães apontam que Karoline Töllner não abriu mão dessa garantia e insistiu na oficialização da união antes de partirem. Ela tinha plena ciência de que cruzar o oceano para desbravar uma colônia isolada no Sul do Brasil exigiria respaldo e proteção jurídica para si e para as crianças que viriam. Sensível a essa necessidade, o Dr. Fritz Müller cedeu e essa foi a única concessão que aceitou fazer às instâncias formais e religiosas em toda a sua vida.
Mühlberg, no antigo Grão-Ducado de Saxônia-Weimar-Eisenach.
Já isolados socialmente na Alemanha — e sem o diploma de medicina, que o cientista se recusara a receber por não aceitar prestar o juramento a Deus —, o casamento formalizado no papel tornou-se o passaporte definitivo para que pudessem, juntos, embarcar rumo ao Novo Mundo.
Muitos historiadores acreditavam que o casal se casara às pressas no porto de Hamburgo. No entanto, registros paroquiais e civis alemães revelam a rota exata: a oficialização do matrimônio ocorreu em 27 de abril de 1852, em Mühlberg, no antigo Grão-Ducado de Saxônia-Weimar-Eisenach.
Essa jornada pelo interior da Alemanha teve caráter estritamente burocrático. Sem a documentação emitida nas províncias centrais, o casal seria fatalmente barrado pela fiscalização portuária ao tentar embarcar com a pequena Anna.
Não é possível compreender, porque Dr. Fritz e Karoline  se casaram em Mühlberg, aparentemente tão fora de rota e distante do porto de onde partiram para o Brasil - Hamburgo.
Resolvido o trâmite, no dia 19 de maio de 1852 a família subiu a bordo do Veleiro Florentin, em Hamburgo. O Capitão era Herr Löfgren. 
A travessia atlântica reuniu o núcleo familiar e ideológico dos Müller: além de Dr. Fritz e Karoline, seguiam a bebê Anna — Johanna Friederike, de apenas nove meses, batizada sob rígidos registros eclesiásticos em Loitz em 14 de março daquele ano — e o irmão de Dr. Fritz, August Müller, acompanhado da esposa, Emilie. A embarcação aportou na ilha de São Francisco do Sul dois meses depois, em 19 de julho de 1852. Estavam assim designados na lista de passageiros da embarcação:
  • MÜLLER, Friedrich: médico, Erfurt, Prússia, c/ mulher. (B)
  • MÜLLER, August: jardineiro paisagista, Erfurt, Prússia, c/ mulher. (B)
  • MÜLLER, Anna: 6 meses, Loitz, Prússia. (B)
Quando a família chegou no Garcia, em Blumenau, em 22 de agosto de 1852, a realidade foi chocante, para Karoline
Hermann Blumenau, proprietário da colônia  privada agrícola conhecido de Dr. Fritz Müller, vendeu aos dois irmãos Müller, os lotes com valores mais altos, pelo menos 10 vezes, do que aqueles vendidos aos demais colonos, na época. Os irmãos adquiriram os primeiros lotes coloniais no Vale do Garciapagaram por eles, um valor muito mais alto. Hermann Blumenau conhecia a família Müller, pois fora funcionário do avô materno de  Dr. Fritz Müller e de seu irmão August Müller.
Argumento embasado em narrativas. Os Müllers foram convidados por Hermann Blumenau para migrar para sua colônia. Do livro - História de Blumenau de José Ferreira da Silva - 2°ed. Blumenau: Fundação Casa Dr. Blumenau - 1988. - 299p.
Mapa Colônia Blumenau 1864, com o local marcado dos lotes 1 e 2 vendidos aos irmãos Müller.

Localização aproximada, dos lotes coloniais 1 e 2, pertencentes aos irmãos Müller, os primeiros a serem comercializados por Hermann Blumenau na Colônia Blumenau. Isso foi possível, estudando-se o mapa da Colônia Blumenau - Ano 1865.
Após a instalação da família na Colônia Blumenau, o Dr. Fritz Müller registrou suas primeiras impressões em uma carta direcionada à sua irmã, documento este que viria a ser publicado na revista Blumenau em Cadernos (Tomo XXXVIII, Nº 5, maio de 1997). A correspondência pouco menciona Karoline, reflexo, talvez, do sentimento de desaprovação que a família de Dr. Fritz ainda nutria por ela — um ressentimento vivenciado de maneira intensa menos de um ano antes.
Colônia Blumenau, Província de Santa Catharina, Brasil, 6.1.1853.
Minha querida Rosine!
Tu, certamente, ficarás alegre em saber que eu estou inteiramente satisfeito com a escolha que fiz do país que me servirá de segunda pátria e que me sinto feliz e alegre com a vida que escolhi.
O começo foi difícil. Sentimos, na própria carne, tudo quanto de mal há por aqui; houve momentos em que sentimos vontade de amaldiçoar o Brasil. Desde a nossa chegada no mato, em fins de agosto, até meados de novembro, só tivemos aborrecimentos e tempo chuvoso; por semanas inteiras não podíamos sair do nosso ranchinho; o mofo e a ferrugem estragavam as roupas e as ferramentas; o que fora semeado apodrecia; o mato derrubado não secava e o tempo das plantações começava a passar sem que pudéssemos preparar o terreno. Teremos que deixar para fevereiro a maior parte das grandes plantações.
Alemães, que estão aqui no país há mais de 20 anos, não tinham ideia de terem passado uma temporada tão má. Nos últimos dias de outubro acresceu, a esse tempo chuvoso, uma enchente tão grande, como há muitos anos não acontecia.
O nosso Garcia subiu além de 20 pés acima do nível normal. Na minha Colônia, que começa a se elevar já da margem do ribeirão, não houve danos maiores. No lote do August, uma grande parte do mato derrubado, que aqui se chama roça, ficou debaixo d’água. Esta, ao baixar, deixou tudo coberto de lama, de sorte que as folhas e galhos não podiam mais ser requeimados e, consequentemente, foi preciso limpar todo o trecho com dispêndio de tempo e trabalho.
Muito pior, porém, sucedeu a outros colonos, que moram para diante dos nossos lotes e que haviam construído os seus ranchos em lugares baixos. Alguns desses ranchos ficaram completamente debaixo d’água, muitos objetos se perderam e, além disso, os caminhos inundados não deram mais passagem e nem se podia descer o ribeirão de canoa, devido à forte correnteza, o que obrigou muita gente a passar fome.
Depois desse tempo chuvoso veio um calor medonho; pelos fins de novembro, muitas vezes o termômetro alcançou 29 graus à sombra. E, em dias tão quentes, nós tínhamos que derrubar mato. Suamos como nunca na vida havíamos suado. Quando, certo dia, eu e S. derrubávamos uma grossa magnólia, o suor corria-nos, como rio pelo corpo abaixo. Esse calor desanimava-nos mais que o tempo chuvoso, e temíamos nem poder mais trabalhar quando chegassem os meses de janeiro e fevereiro, que são muito mais quentes. Felizmente, isso não aconteceu.
O tempo refrescou. Nessa época de calor, tivemos também algumas tempestades que, para muitos de nós, europeus, eram de medonha violência. Relâmpagos sobre relâmpagos, raios sobre raios e um verdadeiro dilúvio de chuva; as palmeiras próximas dobravam-se ao vendaval, como caniços e os galhos quebrados estalavam na mataria.
Além das chuvas e do grande calor, tivemos ainda outra praga que, também no dizer dos antigos moradores, foi coisa que nunca se vira antes, a dos insetos. Quando, após o tempo  chuvoso, veio o calor, surgiram verdadeiros enxames de pernilongos, parecidos com os da Alemanha. É só entrar-se no mato e cai sobre a gente uma nuvem negra de insetos. Se se ficar por um momento quieto o rosto, braços, mãos e pernas ficam cobertas de picadas.
Mais de uma vez, eles correram conosco do trabalho para casa. A coitadinha da nossa Anna estava tão cheia de pintas vermelhas, que parecia estar com sarampo. Agora, esses pernilongos começaram a desaparecer.
Em virtude disso tudo houve também uma grande alta no custo dos gêneros de primeira qualidade, como na farinha, que aqui substitui o pão, e na carne seca. Esta última havia muito que estava em falta e afinal tivemos que nos contentar com uma mercadoria ordinária, mal cheirosa, mais pele e nervos do que carne, por 6 vinténs o quilo. Um saco de batatas – que nem sempre se encontrava – custava 2 mil réis (1 thaler e 20 silbergroschen). O saco de farinha custa agora 11 patacas (2 thaleres e 28 silbergroschen), o saco de feijão 8 a 10 mil réis.
Os perigos que aqui nos ameaçam, de quando em quando, nos fornecem exemplos que nos tornam mais prudentes e cuidadosos.
Um dos nossos colonos, um amável rapaz de 20 anos, geralmente muito estimado, afogou-se a 29 de dezembro, no Itajaí. Com o sogro e dois outros alemães, ele foi de canoa até o morador próximo e, dali, seguiu sozinho para ir buscar uma carta que chegara da Alemanha. Depois de longa e inútil espera pela volta, viram os seus companheiros a canoa que boiava vazia: ele tinha caído e se afogara. Entretanto, fora um dos melhores canoeiros entre os alemães. Uma embarcação, tão leve como as nossas canoas de pouco mais de 2 palmos de boca, vira facilmente e ainda mais facilmente pode-se perder o equilíbrio quando se rema de pé. Por isso, aqui, o nadar é uma arte necessária. Minha mulher terá ainda que aprendê-la.
Pouco depois fomos surpreendidos por  outro acontecimento. Os bugres (como aqui os indígenas são chamados) assaltaram o acampamento do Dr. Blumenau, na Velha, distante de nós nem meia hora. Eles, naturalmente, notaram que, por duas vezes pela manhã, uma canoa, com homens, havia saído (rio abaixo, navegava-se no meio do rio para aproveitar a correnteza), mas não os viram quando regressaram, bem junto à margem. Ao meio dia, também não viram ninguém, estando, justamente, os dois arrendatários do terreno limpando e pondo em ordem as suas espingardas. Pensaram, assim, que a casa estivesse vazia. Quando, por volta das 3 horas o arrendatário Schramm saiu de casa, viu 5 vultos bronzeados, nus, armados de arcos e flechas, que vinham em direção à casa, saindo de uma roça de mandioca dum morro próximo. Um sexto permaneceu mais atrás, neste morro. O arrendatário deu alguns passos em direção a eles e depois depositou a arma no chão e acenou-lhes com um ramo verde, para que eles pudessem chegar pacificamente e sem armas. Pareceu que eles conferenciavam entre si, mas, a uma ordem do cacique, soltaram um medonho brado de guerra e partiram em direção ao arrendatário, batendo com as mãos nas coxas. O outro arrendatário, Toepsel, atraído pelo barulho e pelos chamados de Schramm, deu um tiro para o ar para assustá-los; eles hesitaram um momento, para em seguida continuarem em direção a casa. Schramm e Toepsel entraram em casa e mandaram a mulher do primeiro, com um acompanhante, ao Garcia, não só para deixar a mulher em segurança, como para buscar socorro. Os dois arrendatários esconderam-se em outro rancho próximo. Os bugres aproximaram-se com gritos ameaçadores. 
Atiraram flechas, entraram nos quartos e começaram a pilhagem. Juntaram no pátio uns sacos que por ali havia e alguns bugres entraram no quarto do Dr. Blumenau (que estava em viagem, no Desterro) e Schramm ouviu quando eles estavam arrombando o armário. Um bugre, que também se dispunha a entrar no quarto, notou a presença de Schramm na janela do sótão do rancho próximo, mas nesse exato momento recebeu um tiro no lado. Soltando um grande grito, ele jogou fora a sua arma e fugiu; os outros, também abandonando as armas, foram lhe atrás. E ao correrem, davam pulos da esquerda para a direita, e desta para aquela, com medo dos tiros, mas, apesar disso, parece que um foi, ainda, gravemente atingido nas costas. Ainda ouviam-se os seus gritos, vindos de dentro da mata. No outro dia foi encontrado o que recebera o primeiro tiro. Vi a cabeça. Não era feio; ainda que o nariz e os lábios fossem bem grossos, era mais bonito do que muitos caboclos e muito mais ainda do que os negros. Os cabelos pretos e lisos eram rapados no alto da cabeça e aparados ao redor desta. Os olhos eram castanhos e quase não tinha barba. No lábio ele trazia um bodoque, isto é, uma cavilha de pinho. As flechas eram meio mal feitas, de taquara, com ponta de madeira, com 6 ou 10 reentrâncias, em forma de dentes e com algumas penas de jacu na outra extremidade. Entre as 8 flechas encontradas, uma tinha ponta de ferro.
Naturalmente, após o assalto dos bugres, as armas passaram por uma revisão e foram postas à mão, devidamente carregadas e, nos primeiros dias não caía, nem mesmo uma folha de palmeira no mato sem que se ficasse na expectativa de ver surgir um bugre de trás de alguma moita. (Naturalmente, uma folha de palmeira, de 10 pés de comprimento, faz mais barulho ao cair do que uma folha de tília alemã). De noite, os bugres não fazem os seus assaltos e, durante o dia, um homem só com uma arma de fogo não precisava temer número maior de bugres.
Assim, se muitos de nós tivemos que passar por duras provas, nos primeiros tempos e ver nisso o motivo para amaldiçoar esta bela terra, basta uma visita aos alemães estabelecidos rio abaixo, para se ganhar novo ânimo. Se uma família, há 4 anos começou com nada, uma família, naturalmente, bastante disposta ao trabalho, e se essa família, agora, em um só ano, fez açúcar para mais ou menos 1.000 thaleres e, além disso, tem fartura em gado e verduras e quando a gente vê como crescem os cafeeiros e as árvores frutíferas, e se admira as maravilhosas plantações de bananas e laranjas, então a gente tem que se render à evidência e convencer-se de que, com saúde e constante atividade, chega-se a uma vida satisfeita e alegre e a transformar o caos e troncos e galhos, meio queimados, que agora rodeiam o nosso rancho, num pequeno paraíso.
Tu, naturalmente, te perguntarás a ti mesma como é que se pode, numa casa tão miserável e num trabalho tão desagradável e pesado, sentir-se feliz. Mas, conhecesses tu este pedacinho de terra que agora se pode alcançar com a vista, no seu atual estado, comparado com o que era, a poucos meses atrás, onde eu, em meio ao mato fechado, escolhi um local para construir o rancho e através cerrada capoeira, por caminhos quase intransitáveis ia buscar a água, pudesse tu fazer uma ideia disso aqui, como era e agora é, e ainda dizer-te a ti mesma: “Agradece tudo isso ao teu próprio trabalho! Com as tuas próprias mãos limpastes o chão da casa das árvores que nele cresciam; preparastes os caibros e sarrafos, colhestes as folhas para a cobertura e as ligastes em esteiras; construístes a rampa para chegar à água; derramastes suor ao derrubar esta ou aquela árvore; pudesses tu, minha irmã, à tardinha, contemplar de cima de um tronco caído, as roças, o terreno limpo, um pouco distante da confusão de troncos e ramos; naturalmente tu criarias, também, amor a esta choupana e a este terreno e, com igual disposição tu te porias ao trabalho, como eu o faço.
Eu me sinto tão bem aqui, que até mesmo nos domingos, só mesmo por motivos poderosos o abandono. Esses motivos são, por exemplo, comprar nossas provisões, que teremos que carregar às costas por uma meia hora, pois, infelizmente, o nosso Garcia, em seu nível normal, não é navegável por canoa.
Uma vez eu fiz juntamente com Schramm uma viagem, por água, rio abaixo, para comprar um leitão; adquirimos um pequeno, meio gordo, com mais ou menos 60 libras, por 6 mil réis. Tivemos, naturalmente, que carregá-lo aos ombros, por mais de meia hora, pelo mato. Várias vezes vieram me buscar para visitar doentes, rio abaixo, pois em todo o Itajaí não há um Médico. No ano novo, nós, assim como o August e sua mulher, estivemos no acampamento do Dr. Blumenau, na Velha, onde fomos tomar uma xícara de chocolate.
Devo contar-te, ainda, que eu, uma vez ao fazer derrubada, quase que perdi a vida. Foi a 26 de novembro; nós tínhamos derrubado um pedaço de mato, na propriedade do August, e estávamos ocupados em cortar e juntar os galhos das árvores caídas para que estas, depois de secas, queimassem melhor. Assim estava eu com o machado entre os galhos de uma laranjeira, quando ouvi os gritos de: “Fritz, Fritz!”. Olhei e vi que uma palmiteira que August estava derrubando, na beira do mato, ia caindo mesmo em cima de mim; ela tinha sido desviada, na sua queda, do rumo que August lhe imprimira, por uma planta trepadeira; eu não podia saltar do ponto movediço em que me encontrava e antes que eu me desse conta, o tronco de palmito veio direto à minha cabeça e eu fui atirado ao chão, sangrando. Muita gente já havia sido acidentada por palmitos ao serem derrubados, pois os compridos caules, sem galhos, adquirem na queda medonho impulso. Saí-me bem do acontecido; em pouco voltei ao sentido e depois de ter, à tarde e à noite, colocado compressas frias sobre os ferimentos, a dor quase cessou completamente. Ainda por alguns dias minha cabeça ficou ressentida e, mesmo por bastante tempo depois, ficou sensível ao sol. Nunca se é precavido demais ao derrubar mato, pois, é muito comum o desvio de direção dos troncos na sua queda. Dr. Fritz Müller
Karoline Töllner aprendeu a viver no isolamento. Enquanto o Dr. Fritz Müller passava dias embrenhado na floresta coletando plantas e insetos ou limpando o lote a golpe de enxada, cabia a ela gerenciar a própria sobrevivência. Karoline Töllner precisava cozinhar com o que a terra oferecia, proteger as crianças de animais peçonhentos e lidar com a ausência de qualquer estrutura urbana básica — infraestrutura que conhecia até mesmo na área rural onde vivia sua família paterna, na Prússia. Como seu marido frequentemente recusava cargos burocráticos ou remunerações elevadas para manter sua independência científica (algo que compreendemos muito bem), a família viveu em condições bastante modestas. Era a habilidade prática de Karoline em gerir os escassos recursos que garantia a estabilidade da casa.
Ao todo, o casal teve dez filhos — nove mulheres e um homem —, uma numerosa prole que exigiu de Karoline dedicação incansável na criação e na manutenção do lar em meio às adversidades da colônia.
Os filhos do casal:
  1. Louise Müller (1849–1852);
  2. Johanna Friederike Caroline Müller (1852–1940);
  3. Rosa Müller (1854–1879);
  4. Agnes Müller (1856–1933);
  5. Emma Müller (1859–1865);
  6. Thusnelda Müller (1860–1937);
  7. Müller (menino) (1862–1862);
  8. Selma Müller (1863–1948);
  9. Martha Müller (1865–1865);
  10. Linda Müller (1869–1950);
Como já mencionado, Louise nasceu, na cidade de Loitz, território da atual Alemanha e faleceu em 1852, antes da família migrar para o Brasil, aos 3 anos. Johanna (Anna) viajou bebê para o Brasil e também nasceu em Loitz. Ajudava seu pai organizando suas coleções botânicas e Rosa, blumenauense, talentosa pintora que ilustrava as descobertas Dr. Fritz, cometeu suicídio em Berlim, em 1878, marcando muito da família, principalmente sua mãe Karoline (Töllner) Müller.
Martha faleceu antes de completar um ano de idade, em 1865.
Os primeiros tempos no Vale do Garcia, Colônia Blumenau, Karoline enfrentou a dura realidade da floresta tropical selvagem. Enquanto Dr. Fritz desbravava a mata com machado e enxada para garantir o sustento, Karoline cuidava da casa temporária de palmito e gerenciava a família que aumentou.
Uma fotografia publicada no Jornal Blumenauer Zeitung, no final do século XIX, de uma casa provisória construída com palmitos em um terreno recém "limpo", semelhante àquela construída pelos Müllers no seu lote colonial localizada no Garcia.

A 19 de maio de 1852, o jovem doutor Fritz Müller, em companhia de sua esposa Karoline Töllner Müller e da filha Louise [(sic); recte: Anna], de apenas nove meses, partiram de Hamburgo. Chegaram em 19 de julho à costa brasileira, alcançando Blumenau em 22 de agosto do mesmo ano. No Garcia, o recém-chegado abriu uma roça, construiu uma choupana de palmito e viveu durante quatro anos em absoluta reclusão — período ao qual, anos mais tarde, referia-se com simpatia e resignação, classificando-o como o mais feliz de sua vida (GERLACH, 2019, p. 340).
A professora Karoline Töllner e a organização da casa dos Müller

O maior testemunho da inteligência e capacidade de aprendizado de Karoline Töllner foi a sua mudança para o Brasil em 1852. Na Colônia Blumenau, ela e o Dr. Fritz Müller decidiram não enviar as filhas para as escolas religiosas locais para evitar o dogmatismo e o preconceito.
O irmão de Dr. Fritz Müller,  Friedrich Wilhelm August Müller, era professor de uma das escolas da Colônia Blumenau da época. Esta escola estava localizada na povoação de Indaial/Ascurra, na comunidade de Ilse.
Ao chegarem a Santa Catarina, o modelo de educação que Karoline Töllner sustentou dentro de casa estava longe de ser o tradicional prussiano. Karoline garantiu que suas filhas crescessem em um ambiente altamente intelectualizado e sem amarras religiosas, o que permitiu que as meninas fossem alfabetizadas pelo pai, aprendessem múltiplos idiomas e fizessem ilustrações científicas de alto nível para os estudos enviados diretamente a Charles Darwin.
Karoline Töllner não foi apenas uma esposa que acompanhou o marido; foi sua parceira ideológica, coautora de uma ruptura social drástica e uma mulher de vanguarda que escolheu o exílio nos trópicos para poder viver o amor e a liberdade que a Europa lhe negava.
O casal criou um centro de excelência pedagógica. Enquanto o Dr. Fritz Müller ensinava matemática, línguas e biologia às filhas, Karoline (Töllner) Müller gerenciava e estruturava a logística desse aprendizado prático doméstico. Ela garantiu que a falta de recursos e o isolamento na Mata Atlântica não impedissem as filhas de se tornarem mulheres cultas, tradutoras e ilustradoras de alto nível, amplamente respeitadas na sociedade blumenauense que se consolidava, a exemplo da filha Thusnelda Müller, casada com Richard Paul e Robert Lorenz, nomes da história pioneira de Blumenau. ela foi mãe, por exemplo, de Johannes Friedrich Lorenz (1881 - 1937) e de  Fritz Carl Lorenz (1882–1959).
Para os pesquisadores alemães, a relevância de Karoline Töllner não está em um diploma escolar que a Prússia jamais permitiria que uma mulher de sua classe tivesse, mas sim na sua formação autodidata e libertária, que a transformou na base de apoio para um dos maiores laboratórios científicos familiares do século XIX.
Karoline Töllner garantiu que a casa dos Müller fosse um ambiente de extrema efervescência intelectual. Apoiava o marido enquanto ele trocava cartas com Charles Darwin e mantinha as filhas engajadas nos estudos. 
Dr. Fritz educava as meninas em casa, criando poemas ilustrados sobre gambás, formigas e orquídeas para ensiná-las. As filhas cresceram sabendo falar alemão e português perfeitamente, atuando frequentemente como assistentes de campo do pai. A mesa da cozinha da casa dos Müller servia tanto para as refeições quanto para o exame de espécimes sob o microscópio, onde eram incentivadas a desenhar a natureza com precisão.
Com o intuito de educar suas filhas, ao lado de Karoline, Dr. Fritz Müller também era poeta.
Cresceram e integraram-se profundamente à sociedade de Santa Catarina. Elas se casaram com membros de famílias pioneiras locais (como os Paul, Brockes, Lorenz e Schmidt), deixando uma vasta descendência que reverencia a memória de Karoline (Töllner) Müller até os dias atuais. Tratamos como puro desconhecimento as referências à sua figura acompanhadas da expressão "Tadinha".

Karoline Töllner - na Alemanha - reconhecimento e falecimento

Biógrafos alemães atuais defendem Karoline (Töllner) Müller destacando que ela provou o contrário: o casal permaneceu firmemente unido por 46 anos e gerou 10 filhos. O casamento na igreja e no papel pouco antes de embarcarem em 1852 foi também, uma exigência de Karoline, sendo a única e última concessão que Dr. Fritz Müller aceitou fazer à Igreja em toda a sua vida.
O momento mais doloroso da vida de Karoline foi o suicídio de sua filha Rosa em Berlim, no ano de 1878. Rosa era uma jovem brilhante que viajou à Alemanha para estudar e desenhar. O luto profundo abalou a saúde física e mental de Karoline
Dr. Fritz Müller relatou em cartas para a Europa, que a esposa jamais se recuperou totalmente do impacto dessa perda, carregando uma melancolia pelo resto de seus dias. 
Nas plataformas científicas que preservam as cartas originais em alemão da rede de correspondentes de Charles Darwin (como o Darwin Correspondence Project), o nome de Karoline (Töllner) Müller surge indiretamente: Dr. Fritz Müller frequentemente desabafava sobre as enfermidades de Karoline causadas pelo clima tropical e pelo desgaste físico do trabalho braçal e da maternidade contínua no Brasil. O sofrimento dela e a subsequente morte de sua filha Rosa em Berlim são descritos nas cartas como os golpes mais duros que desestruturaram a saúde mental de toda a família, no final do século XIX.
Onde a família está sepultada, Karoline não recebeu um
 local l onde está seus dados históricos. Até mesmo neste
quesito é pouco reconhecida na sociedade em que viveu.
Em artigos comemorativos da imprensa alemã (como os publicados no Süddeutsche Zeitung e em boletins da Sociedade Max Planck), o papel de Karoline é frequentemente revisitado. 
Os historiadores alemães apontam que a produção científica de Fritz Müller (que gerou o famoso livro Für Darwin e centenas de descobertas enviadas à Europa) teria sido materialmente impossível sem a infraestrutura doméstica que ela criou.
Em uma colônia sem estradas e sem serviços, ela transformou o lar em um espaço autossustentável (com horta, produção de roupas e criação de animais), permitindo que o marido dedicasse horas diárias à observação microscópica e à troca de cartas internacionais. 
Karoline (Töllner) Müller faleceu em Blumenau no dia de seu 68º aniversário, em 24 de março de 1894. Sua morte abalou profundamente Dr. Fritz Müller, que passou seus últimos anos de vida de forma muito modesta até falecer em 1897. O casal deixou mais de 40 netos.
Registro de óbito de Karoline (Töllner) Müller.
"Müller recebeu o título de Doutor Honoris pela Universidade de Bonn (1868) e pela Universidade de Tübingen (1874), na Alemanha, e foi Membro Honorário da Entomological Society de Londres (1884). Considerado um revolucionário em política, religião e filosofia, ficou conhecido no Brasil como um estudioso do meio ambiente." IBGE
Conclusão

A afirmação "Tadinha!" dita em público e que motivou esta pesquisa ao mencionar Karoline (Töllner) Müller, denota ausência de conhecimento sobre como vivia a maioria das famílias na Prússia e sobre a origem do grande grupo de imigrantes que veio desenvolver a colônia agrícola privada de Hermann Blumenau, na metade do século XIX. Demonstra também, o desconhecimento sobre a personalidade do homem que a escolheu, Dr. Fritz Müller, que lutou por ela perante a sociedade e a sua própria família. O mesmo homem que perdeu o seu Norte quando Karoline (Töllner) Müller faleceu em 1894.
O que os atraiu foi a afinidade de ideais. O fim da década de 1840 na Alemanha foi marcada pelo fervilhar da Revolução de 1848 e pelo crescimento do movimento dos "Livres-Pensadores" (Freidenker). Dr. Fritz Müller era um crítico irredutível no âmbito político e religioso que se recusava a jurar a Deus ou a submeter-se aos dogmas do Estado prussiano. Karoline possuía um espírito corajoso e independente que se alinhava perfeitamente a essa mentalidade anticlerical e questionadora.
Para uma mulher de classe baixa, dentro da pirâmide social da época - século XIX, na Prússia, desafiar as normas sociais e a Igreja significava o isolamento total. 
Dr. Fritz Müller encontrou nela uma parceira com a firmeza de caráter necessária para viver o amor livre (Freie Liebe), sem se importar com o escândalo e o preconceito da sociedade conservadora da região, mesmo sendo cenário da Märzrevolution. Ele se encantou por uma mulher que não buscava o padrão de casamento burguês por interesse de ascensão ou convenção. 
Karoline (Tröllner) Müller, por sua vez, foi atraída pela integridade do Dr. Fritz, um homem que preferiu abrir mão de diplomas e do status acadêmico na Europa, a trair suas próprias convicções biológicas e filosóficas.
Ambos compartilhavam o esgotamento diante do sufocamento social europeu. 
A atração mútua consolidou-se no desejo de construir um refúgio utópico e livre. Quando decidiram migrar para o Brasil, não foi uma viagem de imigração por necessidade econômica, mas a fuga planejada de dois parceiros ideológicos em busca de um lugar onde pudessem viver sua liberdade de maneira plena.
Blumenau - Final do Século XIX - Rua XV de Novembro.

Blumenau - Final do Século XIX - Rua XV de Novembro.



Referências
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Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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