quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Homenagem à cidade de Blumenau - Uma poesia a Blumenau de outro tempo - Por Laerte Tavares

Ponte ferroviária Aldo Pereira de Andrade e o Teatro Carlos Gomes - Blumenau - Início da década de 1960
Laerte Silvio Tavares
Esse Blog tem "construído pontes" de todos os tamanhos e até promovidos encontros inusitados. Também tem levado conhecimento e informações às pessoas que nasceram, ou viveram e também, conheceram Blumenau e região em outros tempos e, no momento atual, se encontram em outras cidades, regiões e até mesmo, em outros países.
Outro dia recebemos a mensagem de um poeta engenheiro - engenheiro construtor de versos, como ele mesmo se denomina - Laerte Silvio Tavares. Laerte conheceu, morou em Blumenau e tem lembranças da cidade com saudades dos tempos passados no seu Heimat.
Sou natural de Armação do Itapocoróy, vizinho do Paulo Hering, irmão do Cao que ajudou na instituição da Oktoberfest, junto com Antônio Pedro Nunes. Estudei no Pedro II e fui Diretor do Departamento de Relações Públicas da União Blumenauense de Estudantes em 1961/62, colega de Dalton dos Reis que tornou-se prefeito. Amo a tua cidade. Que legal que descobri teu espaço onde já sou mais um seguidor. Fiz homenagem a essa terra maravilhosa com um poema." Laerte
Do seu Blog um pouco dessa história em Blumenau
Fotografia mencionada por Laerte Tavares e de como é sua lembrança. Como mudou Blumenau! Como mudou a Alameda! Espaço urbano na medida certa e com bitola adequada. Também sentimos saudades desse tempo.
Laerte Silvio Tavares
"Servi o Exército em 1960 - em Blumenau e participei da guarda ao local e atendimento aos vitimados com a enchente do referido ano, moradores da Alameda Rio Branco, na foto, inundada e onde depois aluguei um quarto de uma casa residencial, como estudante do científico no Colégio Pedro II. Apaixonado ainda por esta maravilhosa cidade e pelo seu rio que encanta e oprime, as saudades fizeram-me escrever um poema narrativo em décimas do cancioneiro português para homenagear ela, os amigos de então e a mim, do então, por que não... "
Siro Lirico como é chamado em seu Blog, onde também publica suas poesias, escreveu um poema para Blumenau que, através de seus versos, narra um pouco de sua história no cenário e do cenário histórico de Blumenau, mencionado anteriormente.
Ilustramos suas palavras, com fotografias que comunicam seu texto de maneira histórica.

Rio que Remete ao Reino do Reno

Um rio reina igual o Reno
E serpeando as cidades,
Leva nas águas saudades
Produzidas como aceno
De algum europeu terreno
Deixado nos fins dos mares
Por busca de outros lugares
Para a colonização
Deste povo - o alemão
Que deu ao rio novos ares.
Colônia Blumenau - Final do Século XIX - junto ao porto fluvial
Blumenau dos meus amores
Do tempo de juventude
Onde vivi como pude,
Conhecendo novas flores,
Novos perfumes e cores,
Outros amigos e gente
Parecida ou diferente,
Mas em comunhão ao povo
Que deu a este lugar novo,
Ares do seu continente.
Lindo Bairro do Garcia:
Spitzkopf altaneiro...
No Exército Brasileiro
Foi o lugar que eu servia
E contemplava a magia
Desse bairro industrial
Que tinha o belo caudal
De um riacho ou ribeirão,
Onde eu pescava, com a mão,
Peixe cascudo pro caldo.
Ah Rio Garcia! Teu saldo
É a grande recordação. 

Num quarto, na Alameda
Fui morar; arborizada
Como se fosse uma estrada
Em formato de vereda.
Eu peço que Deus conceda
Sua permanência assim,
Feita a rua de um jardim
Com flores no seu contorno,
Lindas casas no entorno,
De uma beleza sem fim.
(Infelizmente não permaneceu assim)

Rua Quinze dos meus dias...
Da Alameda em diante:
Casa Meyer do elegante
Bordado feito por vias
Manuais, pelas porfias
Das ditas prendas do lar
De cultura milenar.
Era a vitrine primeira
Disposta de uma maneira
Para se visualizar.

Do outro lado se via
O Bar Socher, singular
Por ser mesclado, o lugar:
Bar junto à confeitaria,
Com a grande primazia
Da stammtisch, famosa
Mesa de encontro e da prosa
Dos alemães mais antigos,
Fregueses velhos e amigos
À conversa prazerosa. 

 A juventude presente
No bar ou confeitaria
Alternava a freguesia,
Quer de produto ou de gente,
Desde o strudel à aguardente,
Chope, chá às senhorinhas,
Às moças belas sozinhas...
Rapazes buscando alguém
À conversa ou ir além
Nas coisas das entrelinhas...

Casa Peiter, em seguida
Vinha e a Probst, à frente
Com ferragens. De presente
Havia a Casa Husadel, tida
Típica alemã a dar vida
E mais beleza à cidade,
Pela notoriedade
Dos detalhes em madeira
Em uma varanda altaneira
De certa sobriedade.

Era limpíssima a rua
Com vitrines elegantes
Em que os seus habitantes,
Onde o prédio em si recua,
Limpavam cada um a sua
Frente, e o leito da via
A Prefeitura varria
O pouco resto de lixo,
Com o esmerado capricho
Que na cidade existia. 

O quanto ali passeei
Com o meu amor pela mão...
Por nossa religião
A ter no ápice a lei
De Deus do céu, Pai e Rei,
Nós dois íamos a missa
Das oito e pela preguiça,
Caminhávamos devagar
Nesta rua de se amar
Por mérito e por justiça.

A apoteose seria,
Da missa dominical,
Ao fim dela, o ritual
De ir à Confeitaria
Tönjes que tinha a magia
Da beleza e requintada,
Servia desde empada
À apfelstrudel. Assim,
Viena, Berna ou Berlim
Era ali representada.

 Ela estava situada,
Feita linda flor-de-lis,
Em frete à Igreja Matriz,
Do lado oposto à entrada,
Acessível e hasteada
Qual bandeira da finesse.
Depois de humilde prece
Íamos ao extravagante:
A mim, humilde estudante,
À mais suprema benesse. 

Linda a casa! E diferente
Como ambiente exemplar
Desde o seu ponto, um lugar
Às margens do rio corrente,
Esse Reno com nascente
No Vale do Itajaí,
Talvegue que diz por si
O nome do belo rio,
Onde defronte, um desvio
Deixava a sua marca ali.

A ponte da Ponta Aguda,
Vista da Tönjes, também
Via o rio seguir além
Nessa curva em que ele muda
De percurso e faz sisuda
Sua margem esquerda à frente,
Por banco de areia rente
À verde vegetação
E a água em estagnação
Feita um lago transparente.
A edificação tinha
Dois níveis – um ao da rua
E outro abaixo, com sua
Adega e uma varandinha
Ao nível do rio, na linha
De um externo patamar
Com um jardim a reinar
Repleto de lírio e rosas
E era das mais suntuosas,
A vista, deste lugar. 
 Nós sentávamos à mesa
E vinha o proprietário,
Sendo o dono e um operário
Da magnífica empresa.
De uma extrema gentileza,
Ele anotava o pedido,
Por fim, seria servido,
Com guloseimas, o chá.
Depois de fartados já,
Púnhamos ao rio, o sentido.

Lembro de um dia de estio,
Mas visual não precário,
Chegou o proprietário,
A fazer-me um desafio:
Compor uns versos ao rio,
Por saber que eu escrevia.
Eu aceitei com alegria
Aquela incumbência a mim,
Compus meus versos assim
Como quem narra, não cria...

Rio Itajaí Açu

Oh rio, vais em desalinho
Como serpente sem fim,
E tu desaguas em mim
Lembranças do teu caminho

Como este aqui pertinho
Desta varanda, e assim,
Do mar tu não és afim,
A fim de seres sozinho.

Tua solidão, respeito,
A ser eterno em teu leito,
Beijando uma e a outra banda

E foges delas, sem jeito,
Mas na verdade, a efeito
És o rio desta varanda. 

O Tönjes pegou os versos,
Anexou a um jornal
Preso às réguas de metal
Na lombada, com diversos
Folhetos juntos, dispersos
Com notícias diferentes
Nos idiomas vigentes:
Português e alemão
E dispôs sobre o balcão
À leitura dos clientes.

Mil, novecentos, sessenta.
Faz muito tempo, mas lembro
Ser de Blumenau um membro
Qual vetor que representa,
Em trajetória mais lenta,
Número que é irreal
E sempre muda ao final.
A minha suposta nau
Navega por Blumenau
Com a saudade ancestral.
Resultado de imagem para tonjes angelina wittmann

Postado por SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras às 11:06 - 8 de março de 2016

Leitura Complementar - Clicar sobre:
História - Prússia e Alemanha - Com Ecos no Vale do Itajaí




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