Em fevereiro de 2026, visitamos a cidade de Corupá — a antiga Colônia Humboldt — e fomos recebidos por lideranças locais que desenvolvem trabalhos relacionados à memória e ao patrimônio do município por meio de diversas frentes de pesquisa e catalogação. Efetuamos esses registros para a história, cujos conteúdos estão disponíveis nos links a seguir:
Nesta visita de fevereiro, conhecemos pessoalmente Ingelore Werner Eipper, esposa de Eddy Edgard Eipper, prefeito de Corupá. Na oportunidade, conhecemos alguns dos trabalhos que Ingelore desenvolve com foco na preservação da memória de Corupá e região.
Um pouco sobre a história de Corupá
- Casas enxaimel de Corupá - Projeto de Paulo Henrique Siegel
- Seminário de Corupá/SC - Seminário Sagrado Coração de Jesus - Arquitetura Backstein
| Ingelore Werner Eipper. |
No dia 15 de junho, recebemos uma mensagem de Fernanda Siegel informando que ela, Anita Siegel e Ingelore Werner Eipper, primeira-dama de Corupá, estão trabalhando no Arquivo Histórico da cidade. Neste momento, elas estão organizando o acervo que reúne registros das primeiras construções e das primeiras famílias. Para ilustrar esse precioso trabalho, Fernanda encaminhou a fotografia de um pioneiro e sua família: Otto August Herbert Hillbrecht.
A seguir, vamos conhecer um pouco sobre a história de Corupá (antiga Colônia Humboldt) e a trajetória desta família, além de enaltecer esse trabalho tão importante para a cidade e, principalmente, para as futuras gerações.
| Ingelore Werner Eipper com registros histórico de pioneiro de Corupá nas mãos. Trabalham no acervo. Na foto o pioneiro Otto August Herbert Hillbrecht e parte da família. |
| Localização e entorno de Corupá. |
| Região abrangente do Caminho do Peabiru - até o território Incas e dentro desta estava "Curupá". |
| Caminho de Peabiru - caminho das pedras. |
Corupá possui uma importância histórica que remonta a muito antes do surgimento da Colônia Humboldt, no final do século XIX. O território que hoje compreende o município já fez parte de uma rota estratégica de trânsito transcontinental de pessoas, estando inserido no traçado do Caminho do Peabiru. A região, caracterizada por uma transição abrupta entre a planície costeira e a Serra do Mar, era habitada e percorrida por povos indígenas das etnias Guarani e Xokleng.
O principal traço dessa ocupação primordial era a rede de trilhas transcontinentais que interligava o Oceano Atlântico (partindo do litoral de Santa Catarina e do Paraná) até as terras altas dos Andes, no Império Inca. Os indígenas utilizavam esses caminhos para comércio, migrações místicas e comunicação. A geografia acidentada da região, repleta de rios encachoeirados e leitos rochosos, fez com que os nativos adotassem o termo tupi-guarani Curupá (posteriormente aportuguesado para Corupá), que significa "lugar de muitas pedras" ou "caminho de pedras", dando origem ao nome atual da cidade.
O nome "Curupá" já existia antes da chegada dos pioneiros alemães à região.
Hansa Humboldt (1897–1907)
| Seminário de Corupá - Seminário Sagrado Coração de Jesus. |
Os imigrantes alemães trouxeram técnicas tradicionais de carpintaria, a arquitetura enxaimel (Fachwerk), a alvenaria autoportante em tijolos aparentes (Backstein) e a fé luterana. A pluralidade religiosa e cultural da região também se faz notar pela forte presença católica, ilustrada pela posterior instalação do Seminário Sagrado Coração de Jesus, conduzido pelos padres e irmãos franciscanos da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos).
| Alexander von Humboldt. Fonte: Wikipédia. |
Em 1907, o núcleo colonial de "Curupá" havia crescido o suficiente para ser elevado à categoria de distrito, administrativamente vinculado ao município de Joinville. O local recebeu o nome de Hansa Humboldt, uma homenagem conjunta à Companhia Hanseática (Hansa) e ao célebre geógrafo e explorador alemão de Berlim Alexander von Humboldt. Naquele período de consolidação, Josef Maximilian Deeke atuava como diretor da Companhia Hanseática na região.
A Ferrovia e a Transformação Econômica
| Estação ferroviária de Hansa Humboldt. Arquitetura com a técnica do Backstein. |
A construção da ferrovia pela base da Serra do Mar foi um desafio de engenharia para a época, exigindo a abertura de túneis, viadutos e cortes profundos na rocha.
A inauguração da estação ferroviária de Hansa Humboldt transformou a logística e a economia locais:
- Escoamento de produção: A madeira extraída da Mata Atlântica e os produtos agrícolas ganharam acesso rápido e seguro aos portos e mercados de outras regiões.
- Comércio interno: O distrito passou a funcionar como um ponto de parada obrigatório para viajantes e mercadorias que subiam ou desciam a serra.
A Segunda Guerra Mundial e a Perseguição Cultural (1943)
Nas décadas de 1920 e 1930, Hansa Humboldt mantinha preservada a identidade cultural de seus pioneiros e descendentes. Os jornais, os cultos religiosos, as aulas escolares e o cotidiano das famílias eram integralmente conduzidos no idioma alemão.
Essa realidade começou a mudar drasticamente com a ascensão do Nacionalismo no Brasil, um processo que teve início muito antes da Segunda Guerra Mundial — conflito que, posteriormente, intensificou e agravou ainda mais as restrições culturais e a Campanha de Nacionalização na região.
- Ficou expressamente proibido falar o idioma alemão, tanto em público quanto em ambientes privados audíveis.
- Sociedades recreativas, escolas e jornais de matriz germânica foram fechados ou confiscados. Os moradores locais sofreram com uma forte vigilância policial, detenções arbitrárias e episódios de hostilidade por parte de autoridades e de grupos nacionalistas.
Dentro dessa ação nacionalista do governo de Getúlio Vargas e do interventor Nereu Ramos em Santa Catarina — que visava apagar a herança e as práticas culturais dos antepassados, forçando o esquecimento de suas origens —, o governo alterou os topônimos de matriz germânica em todo o país.
Em 1943, o distrito (que a essa altura já pertencia ao município de Jaraguá do Sul) teve seu nome alterado definitiva e oficialmente para o histórico nome Corupá, resgatando o antigo termo tupi-guarani que descrevia a natureza pedregosa daquela região.
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O Diretor das nucleações urbanas privadas pertencentes à firma Sociedade Colonizadora Hanseática, era nascido no Stadplatz da Colônia Blumenau. Dirigia algumas das nucleações da Sociedade Colonizadora em território externo à grande Colônia Blumenau, bem como, também a colônia pertencente ao seu território - como, a Hammonia - atual Ibirama e que foi muito importante para a construção ferroviária na região - sendo a única construída com tecnologia e capital alemão em território brasileiro - as demais eram inglesas. |
O Ciclo da Banana e a Emancipação Política (1958)
Com o declínio da extração madeireira devido ao esgotamento das florestas nativas, os colonos de Corupá buscaram alternativas de cultivo de longo prazo. O microclima da região, protegido pela Serra do Mar, com alta umidade e temperaturas estáveis, provou-se ideal para a horticultura, especialmente para a bananicultura.
A produção expandiu-se rapidamente pelas encostas dos vales. A dedicação técnica dos agricultores locais elevou a qualidade da fruta, conferindo-lhe um sabor mais doce e menos adstringente — características que, décadas mais tarde, renderiam à região a Indicação Geográfica de Procedência (IG). Com isso, Corupá consolidou-se economicamente como a Capital Catarinense da Banana.
O fortalecimento econômico gerado pela agricultura e pela ferrovia alimentou o desejo de autonomia política. A comunidade local organizou movimentos pró-emancipação para se desvincular do controle de Jaraguá do Sul, o que se concretizou em 25 de julho de 1958, data em que a lei estadual oficializou a criação do município autônomo de Corupá, instalando sua própria prefeitura e câmara de vereadores.
Junto da mensagem, recebemos a fotografia que estava sendo trabalhada no momento, retratando Otto August Herbert Hillbrecht, que na verdade é Otto August Ernst Hillbrecht.
Quem foi esse pioneiro de Corupá?
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| Registro fotográfico feito na Prussia, que em 1871, passou a fazer parte do território da Alemanha. |
Otto August Ernst Hillbrecht (1851 - 1941)foi uma das primeiras e principais lideranças de Corupá. Ele liderou a primeira família de imigrantes a se estabelecer oficialmente na localidade, marcando o início da colonização promovida pela Companhia Colonizadora Hanseática. Ele e sua família — compostas pela esposa Johanne Magdalene e pelo filho, Otto Carl Wilhelm Hillbrecht (1883 - 1947), que também nasceu no território da atual Alemanha e ciente da presença de uma menina na foto acima — migraram para o Brasil em 1897.
A data oficial de fundação de Corupá é celebrada, neste mesmo ano, em 7 de julho de 1897, devido às ações diretas de Otto Hillbrecht. Nesse dia, ele e seu filho, Otto Carl Wilhelm Hillbrecht (1883 - 1947), que contava com somente 14 anos, efetuaram a compra dos primeiros lotes coloniais registrados em cartório na antiga colônia de Hansa Humboldt (os lotes de números 06 e 07). Outro pioneiro, Wilhelm Ehrhardt, adquiriu o lote número 01 na mesma data.
Otto August Ernst Hillbrecht (1851 - 1941)e sua família desembarcaram no porto de São Francisco do Sul. Para alcançar o território que viria a ser Corupá, subiram o Rio Itapocu em barcos e canoas, o único meio de transporte disponível na época. Ao desembarcarem no encontro dos rios Humboldt e Novo, abriram caminho a machado por uma picada na mata densa — trajeto que hoje corresponde à Avenida Getúlio Vargas, no centro de Corupá. Na localidade, foram recepcionados pelo agrimensor Eduard Krisch em um galpão temporário feito de troncos e folhas de palmito, que servia de abrigo para os recém-chegados.
Como aconteceu em outras regiões que receberam imigrantes alemães, os pioneiros abriam uma clareira na floresta dentro de seu lote colonial, construíam uma moradia temporária, iniciavam os primeiros cultivos de subsistência e formavam pastos para os animais.
A família consolidou sua presença na comunidade. Em 1899, participou ativamente da fundação da primeira escola e da criação do primeiro Turnverein (sociedade de ginástica e cultura).
Mais tarde, em 1907, o filho Otto Carl Wilhelm Hillbrecht (1883–1947) expandiu os negócios familiares ao abrir uma das primeiras casas comerciais da colônia.
O patriarca, Otto August Ernst Hillbrecht (1851–1941), foi casado com Johanne Magdalene (Buchholz) Hillbrecht (1858–1909). Ele nasceu em Zehdenick, Kreis Templin, no Eleitorado de Brandenburgo (Prússia), época em que a nação unificada da Alemanha (fundada apenas em 1871) ainda não existia. É curioso notar que sua esposa faleceu com apenas 51 anos na Alemanha, na cidade onde havia nascido, Quedlinburg, Saxônia.
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| Registro de nascimento de Otto August Ernst Hillbrecht (1851 - 1941). |
| Trabalho do Arquivo Histórico de Corupá SC. |
| Trabalho do Arquivo Histórico de Corupá SC. |
Um registro para a História.
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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