domingo, 7 de setembro de 2014

Comentário - Capa da Revista de História - Biblioteca Nacional - Capa - Alemães - Como os germânicos viraram brasileiros

Recebemos um periódico de presente, de uma pessoa muito especial que reside em Manaus. Estamos lendo com muita atenção. Não só leremos, como compartilharemos aqui neste espaço, com as pessoas que nos acompanham, com comentários e estudos. 
O título do periódico é a  revista  "Revista de História da Biblioteca Nacional", publicada na cidade do Rio de Janeiro. É uma revista mensal editada pela Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional. O exemplar que nos foi enviado é o N° 9 - Ano 9 - Março de 2014.
A capa do periódico ilustra um dos inúmeros navios que trouxeram  grupos imigrante alemães para o país. 
A capa desta revista, em especial, foi apresentada pela pesquisadora iconográfica da Revista de História da Biblioteca Nacional e Professora da Rede pública de Ensina - Nataraj Trinta.

Sua apresentação da capa da edição de março de 2014.
Eles chegaram aos poucos e, após sucessivas ondas de imigração, conseguiram transformar um quadro de ausência alemã no Brasil, no início do século XIX, no quarto maior grupo de imigrantes do país. No início de de 1824, o Argus ancorou no porto do Rio de Janeiro com pouco menos de 300 pessoas. Era o primeiro navio com "alemães" a serviço do Império brasileiro.

Alguns registros fotográficos foram feios de viagens posteriores. A imagem estampada na capa desta edição não tem autoria, mas compõe um registro raro de uma embarcação a vapor que partiu de Hamburgo, cidade do império alemão, há pouco integrado (1871), a caminho do Rio de Janeiro no ano de 1887.

A travessia para o Brasil durava pouco menos de um mês. No dia 17 de março os tripulantes cruzaram as ilhas Tenerife em busca de uma realidade mais promissora. Estima-se que aproximadamente 200 mil imigrantes desembarcaram em portos brasileiros entre os séculos XIX e a primeira metade do século XX. Trabalhadores provenientes das mais diferentes regiões - alemães, austríacos, suíços ou originários de áreas germânicas, tanto da república Tcheca como da Rússia, assim como de territórios atualmente pertencentes à Itália e à França - eles foram considerados alemães em terras brasileiras.

Na cena, o convés do navio. Homens, mulheres e crianças se amontoam em diminuto espaço. Os personagens que olham para a câmara não seriam facilmente identificados como os "alemães" que temos hoje em mente, e expressam cansaço, desânimo e até angústia.

O projeto do governo brasileiro para os recém chegados incluía uma modernização capitalista no país, entendida em termos sociais e raciais - tratava-se de formar no Brasil uma categoria social composta por pequenos proprietários, atenuando a herança do latifúndio escravagista. Do mesmo modo, na virada do século XX, as elites políticas e intelectuais deste lado do Atlântico eram seduzidas pela ideia de que o processo civilizatório deveria ser parceiro do embranquecimento da população. Entretanto , o cotidiano que esses novos membros da comunidade nacional tiveram que vivenciar não foi tão simples. Precisaram se adequar a uma estrutura em tudo diversa daquela de um mundo moderno, com dificuldade de toda ordem, desde as estruturas do Estado à realidade econômica e social. além disso, tinham que enfrentar, além da falta do apoio técnico, os imperativos da natureza: Desconhecimento do território, imprevisibilidade dos ciclos produtivos.

Na foto de 1887 congela-se um momento. Famílias? Aventureiros? todos ali esperavam encontrar, do outro lado, o Eldorado, a Terra Prometida. Depravam-se com muito trabalho, barreiras culturais, chão desconhecido. Talvez pensassem que não conseguiriam vencer. Mas não foi o que aconteceu. Os "alemães" ajudaram a fazer o país e forma incorporados à comunidade nacional. O Brasil de hoje, tão africano, português e indígena, árabe, italiano, também é, de algum modo, um povo germânico.     Nataraj Trinta 
Texto muito bem escrito, com algumas ressalvas, as quais comentaremos na sequencia. Para esclarecer - a presença étnica de origem germânica, no país, sempre esteve presente. Desde a chegada dos primeiros portugueses, na esquadra de Cabral, fizeram parte de sua tripulação. Há publicações da capital imperial - Rio de Janeiro - acusando a presença de alemães, como também em inúmeras publicações da mesma época, feitas na Alemanha. O primeiro grupo organizado de imigrantes alemães de fato, aportou no Brasil, no ano de 1824.
Quanto ao número de imigrantes alemães, acreditamos que não possa existir um número estimado concreto.  José Ferreira da Silva, em seu livro - História de Blumenau - a partir de dados levantados por Hugo Gensch - afirma que entre 1850 e 1897, chegaram à colônia - 18.978 imigrantes alemães.
Quanto à descrição das pessoas na fotografia da capa, também discordamos das conclusões.pessoas sorrindo na foto. Os alemães, da segunda metade do século XIX, viviam de fato em uma sociedade com os quadros tecnológico e social um pouco melhores resolvidos que algumas regiões do Brasil. Mas, sem qualquer dúvida, eram habituados às dificuldades e ao trabalho, em função dos inúmeros conflitos armados, presentes na Europa e em territórios germânicos - constantemente, cenário destas guerras. Estas pessoas estavam habituados às vicissitudes deste cenário bélico e suas mais duras consequências. Realidade presente deste os primórdios, época do Império Romano. A escassez do alimento e a reconstrução das cidades, eram parte de sua realidade. As afirmativas estão um pouco romanceadas e são colocadas a partir de um ponto de vista sem fundamentação histórica.
Quanto ao "embranquecimento" da população, temos outra versão a partir de narrativas em diários e publicações feitas no Brasil e na Alemanha. Um dos títulos alemães foi traduzido para o português pelo Senado Brasileiro, devido ao grande valor Histórico para o Brasil - livro de autoria de  Schlichthorst.

Já escrevemos sobre este assunto neste Blog - Alemães
Segue...

No início do Século XIX, a região sul era um problema de segurança e infra estrutura para o governo central brasileiro recém liberto de Portugal. A região fazia parte de constantes disputas de terras entre, principalmente, portugueses e espanhóis (embates antigos), era pouco desenvolvida e povoada, comparada às regiões sudeste e nordeste do país, onde viva a elite brasileira, neste período - local das duas primeiras capitais do pais - Salvador e Rio de Janeiro. 
Em 1822, quando o Brasil colônia se libertou de Portugal, o governo brasileiro investiu em propaganda para promover a imigração de outras etnias (que não a portuguesa) para o Brasil, principalmente a alemã e italiana. A Europa, neste período, estava passando por uma série de conflitos e revoluções -  final do Século XVIII e  início do Século XIX. 
Brasil não dispunha de um exército para manter sua segurança nacional a partir de seu continental território, principalmente na região sul, que estava sob constantes ameaças em suas fronteiras - investidas das tropas espanholas. Por questões de segurança, não podia confiar nos portugueses que vivam na região.  O governo brasileiro (formado por portugueses e filhos de portugueses - com um rei português), encontrou uma saída. Através de propaganda de convencimento na Europa, propagava as vantagens do novo país, entre estes: o direito à terra, paz e alimento em abundância. Ofereceu vantagens (Nem sempre cumpridas) às famílias interessadas a residir no sul do Brasil, como: passagens, direito à cidadania, isenção de impostos e direito a posse de uma ou duas colônias de terras (24 a 48 ha) - o que não aconteceu em Blumenau, pois Hermann Blumenau vendias estes lotes coloniais e fez disto seu negócio onde planejava o mesmo - na segunda metade do Século XIX - diferenciando esta região das demais ocupadas poe estes imigrantes
O objetivo do governo brasileiro, era que estas famílias, principalmente alemãs e italianas, ocupassem a terra e os homens servissem no exército de reserva para manter a segurança da região sul, principalmente contra o avanço dos espanhóis.
Passagem de uma família que imigrou no início do Século XX -
Prática que durou por décadas até às grandes guerras
Nesta época, início do Século XIX, a Alemanha e a Itália não existiam como países unificados e passavam por intensas transformações sociais em seus territórios com a industrialização tardia e movimentação de pessoas do campo para as cidades. Como já postamos no Blog, a unificação alemã somente ocorreu em 1871. Na mesma época, ocorreu a unificação da Itália, consolidada somente em 1929, com o Tratado de Latrão, entre Mussolini e o Papa Pio XI.
Tratado de Frankfurt - 10 de maio de 1871  - Versalhes  - 
Guilherme I (Rei Prussiano) é aclamado imperador 
da Monarquia Federal Germânica
Já existiam famílias alemãs no Brasil, soldados alemães nos quartéis do Rio de Janeiro, empresas alemãs nas regiões litorâneas do Brasil, mas foi somente no dia 25 de julho de 1824, que chegou ao país um grupo organizado e orientado pelo Estado brasileiro, de imigrantes alemães. Um grupo de 39 imigrantes alemães que chegou no Porto de Tebas na Real Feitoria da Linha Cânhamo, na atual cidade gaúcha de São Leopoldo.
Porto da cidade de São Leopoldo RS - Ano de 1900












Uma narrativa de 1824 de  Schlichthorst  com relação aos primeiros alemães que desembarcavam no Brasil e eram obrigados diretamente a se alistarem no exército brasileiro.  Schlichthorst, imigrante alemão,   foi um ex-oficial do Imperial Exército Brasileiro. Desembarcou no Rio de Janeiro em 14 de abril de 1824, servindo no período de 1824 a 1826, quando retornou a sua terra natal. Em sua memória lamentou ter sido iludido por falsas promessas no Brasil. Schlichthorst era jovem e gostava de passear pelas ruas do Rio de Janeiro durante as suas folgas apreciando a natureza. A seguir, parte de sua narrativa, rico registro histórico de uma época, do quem vivenciou  - Regimento de Estrangeiros nos quartéis do Rio de Janeiro, no Primeiro Reinado Brasileiro.
“...Apesar de alistados em Hamburgo como colonos, no Rio de Janeiro eram imediatamente forçados a assentar praça. Só tinham liberdade para ir para onde quisessem os que haviam pago suas passagens; mas estes mesmos às vezes abandonavam suas colônias e voluntariamente se engajavam, sendo, nesse caso, reembolsados pelo Governo [pela passagem] (...) Os oficiais vindos nesses navios de transporte, em parte se viam colocados na graduação que o Cavalheiro Schäffer lhes garantia em Hamburgo. Alguns, no entanto, ficaram decepcionados, [foi o caso de Schlichthorst que desejava servir na Marinha e não no Exército] o que se deve atribuir mais a desordem reinante no Ministério da Guerra do que a um engano proposital daquele Cavalheiro. (...) Sim, eu próprio que, mais tarde, pude me enfronhar no modo de vida do país e conhecer o sistema de suborno nele reinante, sabendo como sei que no Brasil tudo se arranja com dinheiro (...) bastando-lhe aparência decente e alguns milhares de táleres [dinheiro alemão] para pagamento da patente (...) Para alimento dum soldado, o Governo escritura por dia meia libra de carne e meia de pão; mas (...) recebem tão pouco[carne] que suas refeições quase se limitam a arroz e feijão. Além disso, a carne que lhes dão é da pior qualidade, isto numa terra como o Rio de Janeiro, onde a carne já é ruim. O pão é feito na maior parte de farinha de milho, apesar de pago como de puro trigo. A maioria dos soldados o vende, para beber mais cachaça. Cozinham-se alternadamente duas vezes por dia, arroz e feijão. Não se varia o alimento. Serve-se o rancho sem o menor asseio. O oficial-de-dia tem obrigação de provar a sopa, sendo realmente preciso grande força de vontade para engolir esse caldo nojento. O mais pobre escravo vive melhor, sem dúvida, do que o soldado estrangeiro no Brasil. (...) O que, no entanto, torna ainda mais intolerável a situação do soldado é a falta absoluta de qualquer comodidade nos quartéis. Em parte, não há sequer tarimbas e os homens dormem pelo chão em esteiras, com um cobertor.  Atormentados por incontáveis insetos, procuram na cachaça alívio ao seu martírio e curto esquecimento de sua desgraça. (...) Não é difícil imaginar os excessos a que diariamente se entregam. A conseqüência é uma pancadaria bárbara, sendo raro o dia em que se não apliquem castigos de 50, 100 e até 200 chibatadas, nas costas nuas dos infelizes (...) Os de natureza mais forte sentem uma espécie de orgulho em dizer que suportaram durante seu tempo de serviço alguns milheiros de vergastadas. Diante de um tratamento desses, não é de admirar que as deserções sejam freqüentes. Os que procuram o interior do país são logo agarrados [como os soldados presos em Nova Friburgo], porém, os que tentam escapulir por mar, raramente são descobertos (...) Castiga-se a deserção com 200 chibatadas nas costas nuas, dadas com finas vergastas de junco. Muitos as têm agüentado até quatro vezes, sem desistir de novas tentativas.....” 
Portanto, a busca dos imigrantes alemães para povoar o sul, era, em primeiro lugar, questão de segurança nacional na região sul, a qual corria o risco de ser tomado pelos espanhóis - os Hermanos. 
Alemanha tinha soldados "prontos" que lutaram nas últimas batalhas contra a França e que buscavam um pouco de tranquilidade e paz. Questões propagadas pelo governo brasileiro na Europa. Também afirmamos, que naquela época da foto da capa da revista citada acima, a Alemanha tinha muito mais dados publicados sobre o Brasil do que, aqui no Brasil, onde o índice de analfabetismo era muito grande e poucos tinham acesso a leitura educação.
Propaganda do Governo Brasileiro para atrair imigrante alemães para o Brasil.
Observem a primeira carta do funcionário do Governo Alemão para averiguar as condições de imigração de seus compatriotas em solo brasileiro e que depois fundou uma Colônia que deu origem a mais de 32 municípios catarinenses no Vale do Itajaí, capitaneadas pela cidade de Blumenau.

Carta do Dr. Blumenau - 1846
Publicada no Blumenau em Cadernos de 1964 - Tomo VI - N° 3

A Carta de Hermann Blumenau de 1846  que ilustra este primeiro contato do fundador de Blumenau com o Brasil, enviado para seus pais, na Alemanha.

Segue...
Sr. Hermann Otto Blumenau
"Depois de ter me referido a assuntos em geral, quero agora fazer-vos destes mais detalhadamente, mesmo que eu, de novo, não possa escrever como desejaria, por ter muito o que fazer e estar com a vista bastante afetada.
Preciso adiar ainda um relatório extenso, para quando tiver mais tempo e estiver melhor ambientado. Agora, portanto, só assuntos,  esparsos da minha vida e atividades, desde a minha chegada ao Rio Grande, de onde só lhes mandei duas cartas mensagens, por não me ter sobrado tempo para comunicações mais demoradas e ainda pela razão de ter sabido, tardiamente, da partida dos respectivos navios.
Viajei de vaporzinho do Rio Grande a Pelotas, situada a noroeste, no rio São Gonçalo, que liga a lagoa Mirim com a dos Patos. a passagem levou  cinco horas e foi agradável. As ribanceiras do rio são baixas e pouco pitorescas, mas de longe, no noroeste, aparece uma linda cordilheira azul, a Serra dos Tapes. Nas margens do Rio São Gonçalo, vi, pela primeira vez, uma capivara entre os juncos, uma espécia de animal que se assemelha ao hipopótamo em dimensões menores, vivendo quase sempre dentro  dágua, tem o tamanho de um porco pequeno. Avistei também algumas espécies de pássaros esquisitos.
O comendante do vapor, amável conterrâneo, permitiu-me pernoitar a bordo, onde eu, sob o meu casacão, dormi regularmente bem. No dia seguinte, mandamos chamar um outro alemão, bem conhecedor da região - uma espécie de tropeiro - para conversar com ele sobre uma incursão ao interior, que eu pretendia fazer, indaguei sobre tudo que me interessava, tirando informações valiosas. depois andamos pelos arredores, onde cheguei a conhecer muita coisa que me era novidade e que observei com grande interesse.
A vegetação, particularmente, era para mim estranha novidade, as palmeiras, os arbustos de mamona, cactáceas da grossura de uma perna e com 12 a 6 pés da altura, ficus-índica, uma outra qualidade de cactus aproveitada para sebes, enfim não sendo muito fértil a região, muita novidade apresentava para mim.
Bem do lado, onde atracava o vapor, encontrava-se uma charqueada, onde é preparada a carne-seca salgada, e onde estavam sendo secados os couros e procedido o aproveitamento da gordura. Tais charqueadas se estendem ao longo do rio, no percurso de duas horas, sendo que as maiores aproveitam, diariamente, 300, 400 e até 600 cabeças de gado. a vista e o cheiro dessas charqueadas são horríveis - sangue, ossos, carne apodrecida e peles, estômagos e intestinos em decomposição em toda parte, pesteando o ar. Os chifres, ligados ainda a uma parte dos ossos da testa são aproveitados para cercados, dentro dos quais são mantidos porcos e outros animais que, parcialmente se alimentam de sobras de carne. Onde quer que se pise, para onde quer que se vá, sempre o mesmo aspecto de sangue, estômagos apodrecidos e mau cheiro. fiquei deveras contente quando de lá saímos, por mais interessante que o assunto fosse. Os proprietários dessas charqueadas, os "charqueadores", são geralmente gente bruta, principalmente enriquecidos nos últimos tempos. Se a paz for restabelecida no país vizinho, para o que as expectativas atualmente são boas, o lucro torna-se-á menor, mas sempre ainda bastante compensador.
Mais tarde visitei ainda um negociante alemão, que me acolheu muito bem, tendo me oferecido pouso e um cavalo, dispondo-se a fazer uma excursão comigo. andei depois por ali assim, tendo visto pela primeira vez, um lindo pomar de laranjeiras, que apresentava um esplendido aspecto., as árvores de ramagem escura e copa arrendondadas, onde apontavam as maravilhosas frutas que estavam justamente amadurecendo. É um belo espetáculo observar-se os pomos dourados, um perto do outro, às centenas! Os pés já produzem no seu quinto ano e consta que,  já no décimo ano dão 4 a 6 mil frutas anualmente (Propaganda para os conterrâneos!). No interior me afirmaram que há laranjeiras de 8 polegadas de diâmetro de renderiam seus 4 a milhares de frutas por ano e teriam apenas 8 anos. 
À noite, encontrei em casa do Sr. Claussen ainda alguns brasileiros, todos já um tanto alcoolizados, com os quais palestrei a respeito de minha excursão, sobre a qual, depois de muita discussão, finalmente nos entendemos. Mais tarde, ainda apareceu um grupo de jovens, fantasiados de polacos e poloneses, dançando a polca ao compasso de uma esquisita, ms bonita modalidade de música, que era novidade para mim:  uma pequena flauta com acompanhamento de pandeiro. após os outros terem ainda "champanhado" vastamente e eu meditado sobre os meus planos para o dia seguinte, fomos dormir. Subi a minha cama de campanha e cobri-me com um cobertor e o meu casacão, dormindo bem até o raiar do dia, quando o meu comandante veio do vapor buscar-me para o início da jornada à Serra dos Tapes.
começou então a balburdia. O gerente da casa de hospedagem Claussen e alguns fazendeiros ali hospedados, todos ainda sob o domínio das consequências da champanha, não encontravam meios de se acordarem. verifiquei também que havia cavalo para mim, mas que não havia arreios. Tive que andar para lá e para cá e isso com os negros na sua insuportável moleza. Era de enlouquecer, Finalmente , passadas quatro horas, estávamos prontos para partir, isto é, o comandante e eu, pois todos os demais estavam de ressaca, o que não mais me desapontou, convicto, como fiquei, de que eles só estorvariam os meus propósitos.
Através de uma região de terras baixas, por vezes pantanosas, dirigimo-nos, montados nos nossos cavalos, em direção noroeste, ao encontro da montanha.
Três horas distantes da cidade, na propriedade de um amigo do comandante, pretendíamos trocar de cavalos. Não o encontrando, entretanto, em casa tivemos que continuar nos mesmos animais, que não eram lá muito bons. Um pouco adiante paramos em um estância para nos refrescarmos. O proprietário também não estava em casa, mas sim  a patroa e uma irmã dela, ambas chinas, ou índias, com olhos um tanto oblíquos, pele amarelada e cabelos pretos muito compridos. Como fosse domingo, estavam elas bem arrumadas, com vestidinhos bonitos e modernos, os cabelos penteados e bem trançados.  Interessante era o contraste destes requisitos da civilização com a absoluta ausência de bons modos. uma delas puxou as pernas, com a maior naturalidade, para cima do banco, encostando o queixo nos joelhos, enquanto a outra, penteando uma criança, falava com o meu companheiro ao mesmo tempo que, com o pente, palitava os dentes.
Lá tomei pela primeira vez o chá mate (erva mate) a folha de um arbusto em forma de árvore, a qual é torrada e socada. Sobre certa porção desta erva, se põe água fervendo (e açúcar quem quiser), sugando-se o líquido através de um canutilho de folha de Flandes, ou ouro, que termina em uma pequena bola perfurada, que se coloca dentro do chá. De início é fácil queimar-se a boca, como a mim aconteceu, mas depois saboreia-se com gosto esse chá e também sem açúcar, o qual, segundo se diz, muito mais saudável. É preparado sempre na casca de uma pequena abobora garrafa, do tamanho de uma mão fechada, às vezes enfeitadas com lindas decorações de prata.. Suga-se enquanto tiver chá. Depois, vem uma negra, pega a cuia, e despeja nela novamente água fervente e assim a cuia continua a rodar, não se devendo limpar, de maneira nenhuma, a bombilha, mesmo tendo saído, talvez, da boca de um vizinho bastante sujo, porque isto seria interpretado como ofensa. Quando o mate perde o gosto, é jogado fora e coloca-se nova porção de erva.
De lá partimos, após agradecimentos pelo gentil acolhimento, efusivos mas formais, tendo alcançado, após várias horas, na colina anteposta à serra outro amigo hospitaleiro, numa propriedade maravilhosamente bem situada, fazendo jus ao nome: "Muito Bonito".
Fomos acolhidos com muita gentileza e dignidade, tendo eu experimentado  aí, pela primeira vez, uma refeição à maneira nacional: carne de vaca, bem picadinha, com toucinho. O prato é acrescido de farinha de mandioca )produto conseguido pela raspagem, prensagem  e torração da raiz de mandioca) que se mistura à carne, e de que eu gostei muito, jantando-se ainda laranja à vontade.
A permanência ali foi muito interessante. A propriedade é muito bonita, um quarto de légua quadrada, totalmente cercada de laranjas e outras frutas. Mandei pedir informações pelo valor aproximado da mesma, obtendo a resposta que, ao preço de 12.000 dólares (18.000 Thalers) estaria certamente à venda. Seria uma propriedade para um agricultor abastado (Interesse nos negócios de terras)Fica à seis horas de viagem da cidade e do porto de Pelotas, margeada de boa estrada. Lá encontrei, por primeiro, as variedades de laranjas (ou da nossa "Apfelsine", de casca alaranjada), das quais existem diversas espécies de tamanhos e gostos diferentes, assim como acontece com nossas maçãs.
Tem aqui, uma laranja lima, de casca amarelo-claro, cor de limão,  doce, mas um tanto insonsa, a lima de umbigo e a bergamota (da qual se obtém o óleo de bergamota) que também é doce mas nada de gosto especial. As limas são inferiores às laranjas no gosto, mas tem a vantagem da produção durante todo o ano, enquanto a laranja é apenas de seis meses. Depois há  o limão, do qual também existem várias qualidades, alguns bem maiores e bastante mais ácidos do que o nosso limão, e por fim as qualidades azedas (cidras) que na Alemanha, chamamos de  "Pommeranza" ou laranja azeda.
Havia ainda outras árvores frutíferas, como figos,  pêssegos, pinheiros,  (que dão uma qualidade de nozes) como ainda cana de açúcar, batatas, etc. (Vegetais que vi ali pela primeira vez). além disso havia uma porção de arbustos floridos, mesmo sendo inverno na época, principalmente uma espécie de acácia de flor grande purpúrea quase escarlate.
Foi uma pousada agradável, aumentada ainda pela gentileza simples e agradável, mas de grande dignidade, daquela gente.
Depois de termos consumido farto almoço, chupado laranjas e tomado café para finalizar, partimos ao encontro de outro amigo ainda, o qual mora a várias léguas de distância, na montanha.
Anoiteceu entretanto, e nos vimos obrigados a pernoitar a uma milha de distância do nosso destino, em outra fazenda localizada mais esplendidamente ainda do que a "Muito Bonito". Fomos bem recebidos e nos serviram, a pedido de meu companheiro, ainda um pouco de linguiça e farinha, pois eu estava com bastante fome. O leito era duro e a noite gélida, e como tivéssemos apenas nossos casacos para nos cobrir, senti um pouco de frio, mas, mesmo assim, dormi muito bem. Durante a noite, os moradores daquela fazenda começaram a tarefa  de descascar raízes de mandioca para o preparo da farinha, ao clarão de enormes tochas. Não havendo mais sossego, nos levantamos e observamos, por algum tempo, a faina. Depois pegamos as nossas montarias, o que levou bastante tempo e partimos, após os merecidos agradecimentos.
No alto dos morros havia geado fracamente,mas nos vales, a camada era mais grossa, e havia gelo da  grossura de um dedo nas poças dágua que, entretanto, derreteu muito depressa.
Foi uma magnífica manhã fria e eu mesmo, com região glútea bastante prejudicada, me encontrava em rósea disposição. Depois de duas horas, chegamos à fazenda do Senhor Serafim Barcelos, onde o meu companheiro, lutando entre um grupo de revolucionários, se encontrara aquartelado por diversas vezes.
Fomos recebidos com a mais gentil cordialidade, e fizemos passeios de reconhecimento pela região e pela fazenda, tendo eu recebido muitas informações sobre produtos agrícolas, agricultura, valor das propriedades, etc., sobre o que escreverei em outra ocasião.
Depois de um sólido almoço, com muita e boa carne, mas sem pão que era substituído por farinha de mandioca, entramos na mata e dirigimo-nos a diversos ribeirões onde, segundo consta, teriam sido encontrado minérios (de ferro), os quais eu queria examinar. Não encontramos nada do gênero, mas vi diversas flores lindas e árvores e outras coisas interessantes, de maneira que o tempo passou depressa demais. Os curso dágua naquela região contem todos eles ouro, e,  em vários pontos tanto que um homem pode ganhar de um a três ducados diários.  (Propaganda!) Isto é muito, mas essa faina estraga a gente como um jogo de azar - muito empobrecem, outros enriquecem consideravelmente, mas todos se tornam, pela tarefa fácil de obter lucro, preguiçosos e desordeiros, ao passo que a labuta naquele solo bom e fértil alimenta o homem, garantidamente.
Foi lá que vi, também pela primeira vez, abelhas nativas que fazem os ninhos nas selvas, onde são apanhadas. Não tem ferrão, são menores que as nossas abelhas e, nem de longe, tão agressivas. Fazem os ninhos em partes ocas de troncos de árvores:as células são grandes, como avelãs e a cera é escura e um tanto mole, sendo o mel fino, mas saboroso. Para obter-se o enxame, derruba-se a respectiva árvore, serrando-se depois o tronco dos dois lados da cavidade, rachando-se em seguida o bloco para tirar o mel e a cera.
Depois, junta-se e amarra-se  novamente as duas partes, e tapa-se tudo com barro, deixando-se apenas uma pequena abertura. Nestes blocos pendurados, as abelhas voltam aos ninhos antigos, onde produzem novamente. O processo é muito primitivo.. a apicultura metódica, na forma que se faz com abelhas europeias, deveria dar bons resultados.
A tardinha, após despedida cordial, com abraços e repetidos convites para outra visita, partimos para alcançarmos ainda "Muito bonito", onde nos haviam convidado para pernoitar.
Desorientamo-nos, entretanto, e cavalgamos pela região até às nove horas da noite, sem avistar casa alguma. Quando por fim encontramos uma estância no mato, onde se encontravam alguns negros e a proprietária, uma mulata. Mesmo que as aparências não fossem muito boas, vimo-nos obrigados a permanecer ali. ainda nos serviram algumas costelas assadas ao fogo, além de farinha. a fome temperou a refeição simples, que não foi de grande asseio, tendo os dedos de fazer as funções de garfos. Depois nos serviram mate e fumados ainda alguns cigarros, e tendo eu rememorado os acontecimentos do dia, deitamo-nos para descansar dentro de uma cabana inacabada, sem paredes ainda, mas com coberta. O leito improvisado sobre um porta, era duro, porem o cansaço nos fez dormir bem.
Partimos ao raiar do dia em direção a "Muito Bonito", onde fomos novamente recebidos com muita amabilidade.
Depois de bem alimentados, tendo passada mais uma revista na bela propriedade, partimos, tendo chegado ao cair da noite em Pelotas, com a região glútea bastante maltratada, mas absolutamente satisfeitos com o resultado da excursão.
No dia seguinte, visitei uma fábrica de sebo nas proximidades, por cujo proprietário, um francês, fui muito bem recebido e que me mostrou as instalações, tendo conversado com ele sobre tudo que se pode ali empreender, ainda. O  homem havia iniciado, fazia cinco anos, com pouco recursos e, através de muito trabalho e empenho, possui agora, uma grande fábrica com 25 escravos. ele deu-me esperanças para um empreendimento químico, convidando-me, também, para fazer o necessário estágio no seu estabelecimento, para o caso de eu resolver voltar a Pelotas para estabelecer-me ali.
No dia seguinte voltei ao Rio Grande, onde precisei embarcar imediatamente no vapor que zarparia no dia seguinte, com destino ao Rio. Sobre esta viagem, comunicarei na carta seguinte.
Desde que pisei em terra firme, como meus queridos pais podem verificar, quase não tive tempo pra dedicar-me a mim mesmo. Já vi que, aqui, o empenho para a fixação em algum empreendimento é maior do que na Alemanha, mas também são as possibilidades em relação aos lucros.
Aqui, no Rio de Janeiro, a hospitalidade anda danadamente escassa; Todas as minhas recomendações serviram-me de quase nada. Tendo de gastar, assim, muito dinheiro, pretendo afastar-me, o mais depressa possível. em convites para a mesa, sem se fala, o que mesmo não é possível, porque quase todas as famílias (estrangeiras) moram longe, por vezes duas horas de distância do centro, e só aqui chegam para cuidar dos negócios, voltando logo depois.
O Sr. H. Fröhlich, para cujos filhos eu trazia cartas, sem procurei, porque ele, segundo consta, parece ser um homem bastante original. Simples jornaleiro antigamente em Brehmen, estaria ele aqui hoje muito rico, pelos próprios esforços, mas de maneiras bruscas e insultuosas, muitas vezes, tendo eu sido advertido de não procurá-lo, para pupar-me de aborrecimentos.
A filha (no endereço ainda "Fräulein" é agora Madame Emília, recebeu-me muito bem em companhia de seu marido e de um primo, morando eles também uma meia hora de viagem distante da cidade.
As cartas de recomendação, desta maneira, com exceção de alguns bons conselhos, que de fato me valeram, nada de positivo resolveram para mim. Travei, entretanto, outros conhecimentos com pessoas que se empenharam bastante por mim, apoiando-me no desempenho de meus objetivos.
Encontrei aqui, aliás, uma família com a qual pretendo estreitar relações, onde fui muito bem recebido, se ter sido recomendado. O chefe desta família é um comerciante hamburguês, Sr. Bahre, homem muito inteligente, se bem que excêntrico, que veio para cá com os mesmo objetivos que eu, isto é colonização.
A amabilidade calma da esposa é o equilíbrio para as adversidades criadas pelo caráter do marido. Esta família pretende estabelecer-se em Pelotas ou Montevideo e, possivelmente, eu os acompanharei, tanto mais quanto o Sr. Bahre me fez  propostas para um empreendimento em comum, caso não sejam realizáveis os nossos objetivos de colonização.
Na província do Rio Grande, a hospitalidade é muito grande, podendo-se viajar durante meses sem fazer gastos, além de alguns talers em milho para os cavalos. É tido como ofensa oferecer-se pagamento em uma propriedade onde se comeu, bebeu e pernoitou. quem é dedicado às crianças, pode contar com o mais sincero acolhimento, mesmo para uma permanência mais prolongada. Se eu, portanto, me decidir a fazer viagens de sondagem ao Rio Grande, as despesas serão mínimas.
O que se conta aí de animais selvagens e cobras também não é tão assustador. quem quiser ver uma onça, ou um tigre, vivos nas selvas, deverá mesmo caça-los, pois evitam timidamente o homem, atacando mesmo só quando muito famintos, ou então quado feridos. É interessante que não é atacado o branco, quando este se encontra em companhia de um negro, que então será cobiçado. 
Com as cobras o caso, igualmente, não é tão grave como supõe. consta que há muitas, segundo alguns dizem, mas as mordidas são relativamente raras, porque as cobras são medrosas e fogem, se tiverem alguma oportunidade.
(Seguem considerações sobre o assunto, como também da calamidade dos mosquitos, etc. Anotação na cópia da carta da qual foi feita esta tradução.)
No Rio Grande estas calamidades são menores, e no inverno, em que estamos pouco se percebe das mesmas. Mas mesmo que fossem um pouco mais graves, a terra e o clima pelo menos no Rio Grande, ao qual sempre se voltam os meus pensamentos, são tão excelentes que se pode suportar também algumas adversidades. Um céu ameno, não demasiadamente quente, nem frio demais, seco e saudável, solo ubertoso e fértil, frutas maravilhosas, todas as qualidades de frutas e hortaliças europeias, que mais poderia almejar? Além disso, há minérios e carvão, ouro, comércio e bons salários. Poderia existir terra melhor para os alemães? Só talvez, um pouco mais de fé e boa vontade da parte do governo.
Em Montevideo, o clima é mais frio, mas saudável da mesma maneira.. com a paz restabelecida, consta que muitos alemães pretendem transferir-se para lá., onde há mais justiça que aqui. O trigo da ali muito bem, que antigamente se cultivou com muito sucesso no Rio Grande, onde, desde uns 20 anos passado, é atacado pela "ferrugem", não dando mais lucro, foi substituído pelo plantio de outros cereais além do milho, batatas, mandiocas, etc. Caso eu não consiga nada no Rio Grande, irei, provavelmente com o meu projeto de colonização a Montevideo, para onde já tenho propostas da parte de um espanhol rico, mas cujas bases ainda não estudei bastante. De qualquer maneira, contanto que a minha vista permaneça boa, poderei eu arrumar aqui o meu futuro, podendo afirmar desde já, que jamais arrepender-me-ei de ter vindo para cá, contanto que eu possa preservar a saúde.

(Segunda a cópia de onde foi feita esta tradução, à carta seguiam conselhos para os sobrinhos Gaetner e Kegel, caso quisessem emigrar para o Brasil).
Hermann Blumenau
Terminada em 5 de agosto de 1846
(Digitada por Angelina Wittmann)

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Rua das Palmeiras - Stadtplatz Blumenau - Ano 1900
Foto: Arquivo Histórico de Blumenau
























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