terça-feira, 15 de setembro de 2015

Desde quando existe a tradição do Bandoneon/ Harmônicas/Gaitas?

Muito imigrantes chegavam no Brasil com seu instrumentos musical, entre eles, vários tipos de Harmonicas
Foto: Fundação Cultural de Rio do Sul
Já escrevemos um pouco sobre a história da Harmônica/Gaita/Bandonion e hoje retornamos ao assunto movidos pela curiosidade, e o desejo de esclarecer. 
Recebemos um link de uma matéria do G1 (na integra - abaixo), onde colocam a história de um descendente de alemães de Domingos Martins - ES, apresentando um instrumento de família, supostamente com a idade de 250 anos
Domingos Martins - Foto: www.belezafm.com.br
Alguem, veio falar conosco e não concordou com a história, afirmando que este instrumento pode ter no máximo, 150 anos
Raciocinou nosso interlocutor - se este instrumento pertenceu ao bisavô do atual proprietário, a diferença, em anos, entre bisavô e o atual guardião da relíquia, não poderia ultrapassar 150 anos, considerando nascimentos com uma idade já um pouco avançada, no momento do nascimento do membro da nova geração.
"Exagero! Este instrumento tem não mais que 150 anos e não vale nem 10 por cento do que consta da reportagem. Característico da Globo que publica sem conferir nem ouvir a quem entende do ramo! Maurício Milbartz"
Clicar sobre - Reportagem mencionada
Instrumentos de 250 anos de existência?

Reportagem

Agricultor guarda instrumento que está na família há 250 anos, no ES
Gorl guarda, com orgulho, um instrumento que está na família há quatro gerações. O nome, ao certo, não é conhecido pelo morador de Domingos Martins, mas por ser parecido com um acordeon, ele arrisca algumas notas. O instrumento foi trazido para o Brasil pelo bisavô do agricultor, uma alemão, há cerca de 250 anos, e agora está exposto na Casa de Cultura de Campinho, durante o Festival Internacional de Inverno de Música Erudita e Popular de Domingos Martins, que começou nesta sexta-feira (18). 
"Infelizmente meu pai não sabia tocar, ele só guardou e passou para mim. Ela estava toda estragada, demorou muito tempo para conseguir consertar. Ninguém sabia tocar, comecei a aprender sozinho há uns quatro, cinco meses", contou Nelson.
O instrumento é raro e o agricultor já recebeu ofertas de compra, mas contou que não vende por nenhuma quantia. "O primeiro me ofereceu R$ 60 mil e eu falei que não vendia. O segundo perguntou se eu venderia se ele me desse R$ 100 mil. Eu falei não. Eu não vendo porque fica difícil encontrar uma dessa de novo. Já procuraram na internet e não encontraram", disse. Nelson pretende deixar o instrumento para o filho.
O instrumento do agricultor está exposto na Casa de Cultura, assim como vários objetos raros. A exposição fica aberta para visitação das 8h às 17h, de segunda à sexta-feira, e das 10h às 16h, nos fins de semana.
O Festival de Inverno se entende por dez dias, com mais de 60 atrações musicais, entre elas, estão as cantoras Zizi Possi e Zélia Duncan.
Nelson toca o instrumento que lembra um acordeon (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)
Fonte: Do G1 ES, com informações da TV Gazeta

Com isto, vamos tentar conhecer um pouco sobre a história dos bandoneons/Hamônicos.
Koch Harmonica - Fonte: forum.melodeon.net
Para ler um pouco sobre o assunto já pesquisado neste Blog - Clicar sobre:
Harmônica/Gaita/Bandoneon
Este "bandoneon" da imagem abaixo, tem semelhança com o "bandoneon" do Sr. Nelson da reportagem e na verdade é conhecido como Harmonico alemão ou um acordeon alemão. Este é o tipo Handharmonika, trespassado  foi fabricado em 1890. Atualmente é fabricado deste tipo somente em Quebec e Lousiana - Canadá e Estados Unidos.

O mais antigo harmônico alemão foi construído pelo Sr. Heinrich Wagner, que estudou em Viena com o irmão, Sr. Joseph Resch, onde teve contato contato com harmônicas de boca e de mão, existente não por mais tempo - cuja origem é chinesa (Órgão portátil). Em 1936, o Sr. Wagner foi vendedor destes instrumentos musicais, feitos por seu irmão - em Viena. Após algum tempo ele começou a construir os instrumentos musicais na Alemanha. Não demorou muito, pessoas de Viena vieram trabalhar na sua fabrica, que tinha aprendizes e funcionários, somando, em 1852, cerca de 100 funcionários e em 1867, 380 funcionários. Em 1890 a empresa foi dissolvida e a marca foi encampada pela Buttstädt.
Origem dos bandoneons - eram brinquedos
O Bandoneon é uma harmônica que foi inventado  pelo Sr. Wagner. Este tipo de harmônica, que é uma melhoria dos brinquedos sextavados feitos para as crianças brincarem. 
Baseando-se nestas informações, a harmônica alemã, chamada de "bandoneon" na cidade de  Domingos Martins, não poderia ter 250 anos. Está correto o Sr. Maurício Milbartz

Histórias de outras fábricas de Harmônicas/Bandoneons

Foto: www.ebay.com
Há, também a história de outras fábricas como a Magdeburg, fundada pelo Sr. Friedrich Gessner em 1845. A fábrica desta harmônica, sediada na cidade de Magdeburg, tinha 150 funcionários em 1855.
Em 1858, surgiu a Traugott e em 1909, Gessner foi vendida para a Hohner. Nos tempos seguintes, surgiram muitas outras fábricas, após a Primeira Guerra Mundial. Depois da Segunda Guerra Mundial, só restaram três fábricas de Harmônicas/Gaita/Bandoneon. São elas: A. Pitschler e Sohn, H. Butttädt, F.Tösfl.
Semelhante a Harmônica do Sr. Nelson -
Friederich Gessner
Foto: www.lauritz.com
Magdenburg


Em 1860, surgiu em Berlim duas novas fábricas: Pietschmann e Kalbe. Em 1910, a Kalbe foi vendida para Hohner e Pietschmann foi fechada.

Klirngenthal

Um carpinteiro da empresa do Sr. Gessner de Magdeburg, Sr. Adolph Harold, trouxe um instrumento para a cidade de Kligenthal e construiu outro instrumento na oficina de seu pai. Isto fez surgir outras pessoas que também construíram harmônicas/bandoneon e gaitas. Isto fez surgir na cidade, cerca de aproximadamente 20 fábricas que empregavam 334 trabalhadores diretos, que produziam anualmente cerca de 214.500  instrumentos. Número jamais alcançados, nem pela empresa Hohner, referência na Alemanha e que teve filial até mesmo na cidade de Blumenau.
Blumenau - Mais tarde Hohner
Início da Rua Coronel Feddersen - Bairro Itoupava Seca
No Brasil, Alfred Hering, fundou a empresa Gaitas Alfred Hering - em 1923, Blumenau– Santa Catarina, e começou a produzir as Harmônicas Hering. Após a morte do Sr. Hering, em meados de 1960, a empresa foi vendida para M. Hohner Company, de Trossing - Alemanha. 
Afinador de acordeon da Fábrica Gaitas Hering - Sr. Erwim Knaesel
Foto: Acervo família - Filha Sra. Leocadia Auffinger
Gaitas Hering

Hohner
Altenburg e Siegburg

Em 1937, Sr. Walter Neuerburg fundou novamente a ex empresa Kahnte Uhlmann - Cantulia -  que fabricava desde 1880. A nova fábrica foi fundada  na cidade de Siegburg. Durante a Segunda Guerra Mundial a fábrica foi fechada. Apesar da recuperação da produção pós guerra, a empresa fechou no ano de 1957 - dia 31 de dezembro.
Fonte: www.general-anzeiger-bonn.de
Triptis - Oberpöllnitz

O carpinteiro, Sr. Friedrich August Topel fundou a fábrica Friedrich Topel Harmonica em agosto de 1872, na  propriedade de seus pais - na cidade de Wittchen. Em 1877, construiu a fábrica em seu próprio espaço na cidade de Oberpöllnitz. Em 1907, após um grande incêndio, a fábrica foi ampliada. Em 1911, mudou o nome para Friedrich Topel Harmonica Fabrik AG. Em 1915, trabalhanvam na fábrica , cerca de 100 pessoas - tornou-se a maior fábrica de acordeon da Turingia. Foi incorporada pela fábrica Solo.

Trossingen
Fonte: www.ebay.com

Em 1903 começou a produção da marca M. Hohner. Antes da primeira Guerra Mundial, existia em Trossingen quatro grandes fábricas de harmônicas: Matthias Hohner, ands.Koch, Ch. Weiss, Chr.Messner &Co. A Hohner foi a maior fábrica de harmônicas e gaitas do mundo. No seu pico de máxima produção, empregava aproximadamente 4000 funcionários.
A Hohner produziu especialmente, os modelos da série solista Morino e gola e também o modelo Atlantic.
No final de 1990,  a Hohner foi vendida ao um grupo asiático, de modo que muitos dos compotenentes, no tempo atual, não são mais produzidos na Alemanha, mas na China.
Na cidade de  Trossingen permaneceu somente poucos funcionários.
Fonte: www.harmonika-museum.de
Fonte: www.schule-bw.de
























Fonte: www.plz-suche.org
Concluímos, juntamente com o Sr. Milbartz, que a matéria do G1 (Exposta no início desta postagem) está equivocada quanto as datas e idades. A harmônica, bandoneons e gaitas, mais antigos, contruídos na Alemanha e Áustria, não poderiam ter idade de fabricação, antes do século 19, portanto, não poderiam ter mais de 250 anos.

Parabéns ao Sr. Nelson Gorl de Domingos Martins por guardar instrumento, pertencente aos seus antepassados e manter a tradição na sua famíli e na sua cidade.

Recebido via Rede  social do Sr. Mauríco Milbartz - dia 16 de setembro de 2015
"Parabéns Angelina pelo excelente e esclarecedor artigo sobre a história dessas antigas harmônicas alemãs! Muito rico em detalhes o que você escreveu. Deste modelo antigo evoluíram todos os outros modelos de acordeons, diatónicos, cromáticos e de teclas. O bandoneon surge mais tarde que os acordeons como evolução da concertina alemã. Ambos instrumentos, porém, seguiam sendo produzidos. E é justamente entre os descendentes dos pomeranos do Espírito Santo que a concertina segue preservada até os dias de hoje. De aparência externa muito parecida ao bandoneon, a concertina alemã possui layout totalmente diferente de teclado. No sul, entre nós, preservou-se o bandoneon em diferentes variantes de marcas, modelos, tamanhos e afinações. O que deve ficar claro é que o acordeon e o bandoneon são instrumentos diferentes, que tiveram evoluções diferentes, são de timbres diferentes e em comum têm basicamente o foles." Mauríco Milbartz - Músico - Pesquisador - Afinador e Artesão/conserto dos instrumentos
Ein Prosit!


Eu conserto e afino bandoneon. Gosto tanto de bandoneon como de acordeons. Sei tocar, mas devido ao muito trabalho não tenho mais tido tempo para a música...






5 comentários:

  1. Impossível ter 250 anos no ES se a 1ª leva de imigrantes se seu em janeiro de 1847. Eu conheço bem o Sr. Nelson Goerl e deve ter havido algum engano. Realmente os jornais, televisão e outros meios de comunicação publicam histórias sem ouvir as pessoas que realmente têm conhecimento. Certa vez um determinado secretário de cultura, em um município capixaba, foi questionado sobre o por quê dos pomeranos terem vindo para cá. Ele respondeu que durante a II Guerra os alemães não mais queriam esse povo lá e os expulsaram da Alemanha. Imagine que durante a II Guerra, esse povo já morava no ES há cerca de 100 anos. Minha avó materna veio na 2ª leeva, 1870 e em 1914 já tinha morrido. A TV Gazeta de Vitória publicou isto, Fiquei assutado quando vi. A pessoa que menciona que os jornais publicam histórias sem saber, tem plena razão. O mesmo conteceu com um seriado aqui no ES que se chamou Raízes. Muitas contradições.

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  2. Constantemente vejo erros gritantes sobre a colonização alemã no E.Santo, principalmente dizendo que POMERANO não é alemão. Ora , se a Pomerânia era uma provínvia ou pequeno reino da Prússia que em 1871 tornou-se a Confederação dos Estados Alemães, como os pomeranos não são alemães. Então os Hessianos, Hunsrück(Rheinland Pfalz), Westfalianos etc tbm não os são.Quem defende a cultura alemã tem que se informar mais para não dizer bobagens por aí afora.

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  3. Aqui também ocorre isso, Sr. Joel. Seria muito bom mostrar isso ao responsável pela reportagem. Também falam o nome de famílias alemãs muito errados, pronunciam em suas reportagens, sendo que existe inúmeras ferramentas na web que auxiliam. O imediatismo.
    Fazem da cultura um produto, rentável e que dá audiência, mas não estão ao lado da cultura, realmente. A postagem nasceu com o intuito de colaborar. Seria bom conversar com o Sr. Nelson para corrigir junto ao responsável da reportagem. Abraços ...

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  4. Olá bom dia, tudo bem ? um amigo tem um Bandoneon e gostaria de repará-lo/consertos, você conhece alguém aqui em SP-SP ou outro lugar ?
    Agradeço o contato meu e-mail lborghi@omegasoft.com.br
    Saudações

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    1. Boa tarde! Aqui em santa catarina tem - inclusive , em
      Blumenau. Mas em São Paulo? Não posso lhe ajudar. Seria bom se alguém lesse sua mensagem e soube, dando-lhe o retorno.
      Abraços.

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