No século XIX, a região do Vale do Itajaí, território de Blumenau, tinha grande carinho pela família imperial brasileira, ao ponto de existir em uma programação anual, em agenda oficial, o "Baile de aniversário do Imperador". Na agenda oficial havia um dia, 2 de dezembro, para esse evento - Baile do Imperador, no qual os súditos de D. Pedro II, que falavam alemão como sua mãe Dona Leopoldina (austríaca de nascimento), festivamente emitiam um "Viva o Imperador!".
Imaginem, pois, Blumenau na década de 1880, recebendo o marido da princesa herdeira do trono brasileiro, e genro de D. Pedro II. Que providências, no seio dessa sociedade blumenauense, foram tomadas para receber um membro da família imperial brasileira?
A família, com a presença da filha de D. Pedro II, Isabel, e seu marido, encontrava-se em visita às províncias do sul do Brasil. Por motivos de saúde, a Princesa Isabel não se deslocou até Blumenau. Viajou de São Francisco de Sul, diretamente para Nossa Senhora do Desterro, para onde foi seu marido depois que deixou o Vale do Itajaí, para seguir a viagem.
Fotografia feita no ano em que o Conde D'Eu esteve em Blumenau. Na fotografia ele está com a Princesa Isabel e os filhos D. Pedro de Alcântara, príncipe do Grão-Pará, D. Luís Maria e D. Antônio Gastão, 1884. Acervo: Instituto Moreira Salles.
O pesquisador Frederico Kilian descobriu, durante suas pesquisas no jornal blumenauense Blumenauer Zeitung, edição Nº 51 de 20 de dezembro de 1884, o interessante relato da visita do Joaquim Insley Pacheco, Gastão de Orleans, o Conde D'Eu, marido da Princesa Isabel, durante sua estada em Blumenau, após a data comemorativa do aniversário de D. Pedro II, mais especificamente nos dias 15 e 16 de dezembro de 1884.
Foi amplamente noticiado no jornal mencionado:
[...]o Conde d 'Eu resolvera fazer
uma visita ao recém-criado município de Blumenau, tendo chegado no
dia 15 de Dezembro entre 3 e 4 horas da tarde. Já desde cedo a vila
engalanara-se para receber condignamente Sua Alteza e se preparava
para proporcionar sua curta estada da mais aprazível forma possível. Tão
logo que o vapor "Progresso" anunciava com longos apitos a sua aproximação à cidade, uma incalculável multidão se dirigiu ao porto local e
às margens do Rio Itajaí-açu para assistir a chegada do ilustre visitante
e dar-lhe as boas vindas, aportando Sua Alteza ao som do hino nacional
executado pela banda musical local e sob os brados de "Vivas" da população aglomerada no porto de desembarque. "Blumenauer Zeitung", edição Nº 51 de 20 de Dezembro de 1884 - Traduzido por Frederico Kilian em 1977
Igreja Matriz de Blumenau, onde houve solenidade solene em homenagem ao Conde D'Eu.
A Família Imperial Brasileira era católica e isso explica por que Hermann Blumenau investisse seus esforços e fundos na construção da nova Matriz, projetada por Heinrich Krohberger. Ambicionava que o Império encampasse sua colônia particular. Naturalmente o Conde D'Eu foi conduzido, primeiramente para nova matriz católica, onde foi realizado um solene Te Deum. Trata-se de um ato em que é tradicionalmente cantado um hino cristão antigo, geralmente em momentos de gratidão e celebrações especiais. Do latim, significa "A Vós, ó Deus, louvamos". A letra final deste hino é do ano 387 d.C. por ocasião do batismo de Santo Agostinho por Santo Ambrósio, mas de origem anterior ainda, com autoria rastreada ao Papa Santo Aniceto, em 160 d.C. Portanto este hino, também foi cantado na Matriz de Blumenau, em homenagem ao Príncipe Conde D'Eu, em 1884.
Te Deum
Após o solenidade religiosa na Matriz de Blumenau, o Conde D'Eu foi conduzido ao Stadtplatz de Blumenau e visitou a Câmara Municipal, onde lhe foram apresentados também os
arquivos da colônia e da Câmara. Em seguida foram todos para o Hotel Schreep. O hotel possuía, entre outros ambientes - um salão de baile - o qual era alugado para eventos festivos privados e públicos. Em suas dependências hospedavam-se visitantes importantes como nesse caso, o marido da Princesa Isabel do Brasil e genro do Imperador do Brasil, e D. Pedro II - o Conde D'Eu.
O ilustre visitante ficou hospedado no Hotel Schreep, junto com sua comitiva. Foi oferecido a ele e à sua comitiva um
banquete.
A cidade de Blumenau, mais especificamente a Palmenallee (a rua das Palmeiras) ou, o Boulevard Hermann Wendeburg, foi festivamente iluminada com
lampiões multicolores e também o casario que compunha a paisagem do Stadtplatz.
Schützengesellshaft Blumenau - Sociedade de Atiradores de Blumenau.
O Conde D'Eu, acompanhado de algumas pessoas, deu um pequeno passeio em algumas ruas do Stadtplatz. À noite foi realizada uma reunião dançante no Schützengesellshaft Blumenau. - Sociedade de Atiradores de Blumenau. Esta sociedade foi fundada em 2 de dezembro de 1859, no aniversário do Imperador do Brasil - D. Pedro II, sogro do visitante. Lembramos que a homenagem feita pela sociedade blumenauense ao Imperador do Brasil é algo cultural e inerente aos imigrantes alemães, que vinham de um sistema, cuja origem aconteceu no Feudalismo e naturalmente, nutriam respeito ao líder máximo dentro do sistema, o Imperador.
Antes de se iniciar o baile, que contava com o genro do Imperador do Brasil, nessa noite de dezembro de 1884, houve apresentações das sociedades de cantores Germânia e Urania, que executaram várias peças de seus repertórios. O baile foi noite adentro.
Residência de Clasen próxima a Casa Salinger - Altona.
Na manhã do dia seguinte foi organizado um passeio de carro de mola, do Hotel Schreep até a residência da família Clasen, localizada próxima à Casa Salinger, no bairro Altona. Na entrada de Altona, o
príncipe foi recebido por uma delegação de jovens a cavalo, moças e moços e recebeu flores do grupo. Este encontro deve ter acontecido próximo à cervejaria de Karl Rischbieter, que tinha se casado com uma moça da família Clasen.
Cervejaria e residência de Karl Rischbieter, bairro de Altona. Próximo ao local onde o cortejo foi abordado pelo grupo de jovens.
Na residência dos Clasen foram oferecidos bebidas lanches à comitiva. De acordo com o artigo do jornal, traduzido por Frederico Kilian e publicado na Revista Blumenau em Cadernos Tomo XVIII, janeiro de 1977, Nº1, o marido da Princesa Isabel do Brasil partiu contente de Altona. Ele e sua comitiva pretendiam viajar ainda nessa mesma tarde. Antes de seguir, o grupo visitou propriedade do primeiro cervejeiro de Blumenau, Heinrich Hosang, que aparentemente muito encantou ao príncipe.
Cervejaria e Residência Hosang, na Rua São Paulo - ou estrada dos pioneiros rumo ao oeste do território do município.
Igreja do Espírito Santo, Stadtplatz.
Família Hering em 1893.
Retornando ao Stadtplatz, o Conde D'Eu visitou a Igreja do Espírito Santo, cujo edifício ainda se encontra na paisagem do Centro Histórico de Blumenau e a pouco tempo, foi lindamente restaurada. Visitou, ainda, as escolas, a Câmara e Cadeia e o Hospital Santo Antônio. Também havia visitado a propriedade dos Hering, ainda na parte da manhã, localizada na XV de Novembro. A Cia. Hering contava com 4 anos de existência. Mudou-se para o Bom Retiro em 1896. O nobre olhou todo o ambiente da fábrica familiar com muito interesse, cujos detalhes e história foram devidamente explicados por Hermann Hering. O visitante observou todas as instalações e máquinas com curiosidade, elogiando o espírito pioneiro de seu interlocutor.
Residência e Fábrica dos Irmãos Hering. Em frente, Karoline (Töllner) Müller na boleia da charrete. Nas janelas, Minna e Hermann Hering.
Primeira máquina adquirida pelos Hering. Atualmente acervo do Museu Hering. Provavelmente esta máquina foi observado pelo Conde D'Eu em 1884.
Hospital Santo Antônio.
Após o almoço, Joaquim Insley Pacheco, Gastão de Orleans - o Conde D'Eu retornou para a cidade portuária de Itajaí a bordo do Vapor Progresso, descendo as águas do rio Itajaí Açu.
Sua Alteza deixou em todos que com ele tiveram contato
durante a sua visita aqui uma ótima impressão, conquistando desde logo
o afeto e o respeito de todos eles. O príncipe mostrou-se de uma forma
tão cordial e amável conseguindo de imediato captar os corações e a
simpatia dos blumenauenses, e o fato de ter usado, em suas palestras
com os alemães a língua materna destes despertou nos mesmos imensa
alegria. "Blumenauer Zeitung", edição Nº 51 de 20 de Dezembro de 1884 - Traduzido por Frederico Kilian em 1977
Alguns blumenauenses acompanharam a visita ilustre até Itajaí. Antes de partir, Conde D'Eu entregou ainda à Câmara
Municipal uma quantia de 100$000 Rs. para fins sociais.
Um acidente durante o trajeto da volta do conde à cidade de Itajaí.
As primeiras décadas de história entre Itajaí e Blumenau foram marcadas por grande intercâmbio e colaboração mutua. Famílias residiam em Itajaí e em Blumenau. Pessoas de Blumenau trabalhavam no comércio de Itajaí e pessoas de Itajaí consultavam-se com médicos de Blumenau. O rio Itajaí Açu encurtava caminhos por meio do transporte fluvial.
Vapor Blumenau I no Porto de Itajaí.
Também no jornal Blumenauer Zeitung, edição Nº 51 de 20 de Dezembro de 1884 , além da notícia da visita do Conde D'Eu, havia a notícia de uma morte, indiretamente causada pelo evento.
Os responsáveis pela organização do Conde D'Eu em Itajaí, contrataram a banda de Blumenau de Herr Schneider, para na recepção do nobre. Três músicos da banda embarcaram em uma canoa e também rumaram para Itajaí, com um atraso. Perderam a saída do vapor para chegar à cidade portuária. Quando a embarcação se aproximou da Barra, o Vapor
"Progresso" já vinha subindo com o príncipe a bordo e as ondas produzidas pelo vapor provocaram a virada da canoa onde estavam os três músicos. Um músico de 17 anos, filho do mestre pedreiro Gauche, de Blumenau faleceu afogado. O fato foi testemunhado pelo Conde D'Eu, que segundo testemunhas disse ter sido esse fato o único ponto
negro de toda sua viagem até então. Lamentou.
Um Registro para a História
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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Referências
Brasiliana Fotográfica. Conde D'Eu. Acervo IMS. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=conde-deu . Acesso em: 23 de junho de 2025, 17h35.
GERLACH, Gilberto Schmidt. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz, Marcondes Marchetti, pesquisa; Gilberto Schmidt-Gerlach, organização; tradução Pedro Jungmann. – São José : Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019. 2 t. (400 p.) : il., retrs.
SANTIAGO, Nelson Marcelo; PETRY, Sueli Maria Vanzuita; FERREIRA, Cristina. ACIB: 100 anos construindo Blumenau. Florianópolis: Expressão, 2001. 205 p, il.
SILVA, José. História de Blumenau. 2. ed. Blumenau: Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988. 299 p.
Hoje vamos conhecer um personagem quase anônimo que fez parte da História de Blumenau e participou, de maneira ativa, dos primeiros anos daColônia Blumenau- Gustav Hackländer - filho do casal de imigrantes alemães:Wilhelm e Amalie Hackländer. Gustav Hackländer, nasceu em 5 de fevereiro de 1870na Colônia Blumenau, quando esta completava 2 décadas de existência.
Stadtplatz de Blumenau um ano antes do nascimento de Hackländer.
Vamos conhecer um personagem quase anônimo que fez parte da História da Colônia Blumenau e participou de maneira ativa de seus primórdios: Ernst Friedrich Albert Gustav Hackländer ou, como foi conhecido, Gustav Hackländer – filho do casal de imigrantes alemães que se casaram em Blumenau, em 26 de dezembro de 1867: Wilhelm Hackländer (nascido em 19 de setembro de 1846, em Gelabach, Prússia, atual Alemanha) e Amalie Henriette Hackländer (nascida em 12 de julho de 1842 em Kirchhasel, Hünfeld, Hessen-Nassau, Prússia, atual Alemanha). Seu avô Gottlieb Hackländer, nascido na Prússia (casado com Anna Elisabeth em 23 de fevereiro de 1847 em Hilden, Kreis Düsseldorf-Mettmann, Rheinprovinz, Prússia, atual Alemanha), também migrou para a Colônia Blumenau.
Ernst Friedrich Albert Gustav Hackländer ou Gustav Hackländer, conforme o chamaremos doravante, nasceu em 5 de fevereiro de 1871 na Colônia Blumenau, quando esta completava duas décadas de existência.
Xoklengs - nativos da região do Vale do Itajaí.
Xoklengs - nativos da região do Vale do Itajaí.
Xoklengs - nativos da região do Vale do Itajaí.
Os imigrantes que chegaram à colônia foram direcionados às terras e muitos desconheciam que elas já estavam ocupadas. Houve conflitos e falta de entendimento nas relações sociais, entre representantes da etnia local e daquela que chegava. Há vários depoimentos históricos apontando estas questões sociais no Vale do Itajaí, na época, grande território da Colônia Blumenau. Os Xoklengs – tribo indígena nativa que estava presente na região do Vale do Itajaí – eram seminômades e não se fixavam na terra. Viviam da coleta e permaneciam em uma região até terminar o alimento, e também onde o clima fosse ameno. Com as ocupações do homem branco a partir das colônias fomentadas pelo governo brasileiro, a fim de povoar o Sul do País, foram inevitáveis os conflitos. Existem inúmeros estudos, nos vários períodos da História, desde o início do século XX, sobre este contato étnico ocorrido no mesmo espaço, a partir da antropologia social e de outras áreas da ciência.
Em 1872, em meio a vários conflitos entre famílias de imigrantes e nativos, houve um confronto entre os pais do pequeno Gustav Hackländer e integrantes do grupo Xokleng e Wilhelm Hackländer e Amalie Henriette Hackländer morreram. Gustav Hackländer tinha um ano de idade quando ficou órfão.
HACKLÄNDER, Wilhelm: * 19.09.1846 de Gelabach, filho de Gottlieb Hackländer e Elisabeth n. Olars, casou aos 26.12.1867 com Amalie Henriette Preilipper * 12.07.1842 de Kirchhasel, filha de Heinrich Preilipper e Wilhelmine n. Heimberger. Testemunhas: Albert Krämer e Louise Georg.
Filho: Ernst Friedrich Albert Gustav Hackländer * 05.02.1871 de Encano/Blumenau, casou aos 07.09.1895 com Wilhelmine Friedericke Marie Henriette Caroline Maass * 14.09.1870 de Blumenau, filha de Friedrich Maass e Friedericke n. Hartwig. Testemunhas: Hermann Westphal e Wilhelm Maass. Pioneiros da Colônia Blumenau – Famílias Evangélicas de confissão Lutherana da colônia Blumenau – Período: 1856 – 1940.
De acordo com o relato do documento Pioneiros da Colônia Blumenau, sua família, a princípio, tinha sua propriedade localizada no Encano – atualmente parte do território de Indaial. Após o incidente, o pequeno Hackländer passou a viver na centralidade da Colônia Blumenau. Durante mais de 10 anos, Gustav Hackländer viveu de uma casa a outra, no Stadtplatz da colônia, nas quais, recebia um pouco de comida e roupas.
(…)Gustav Hackländer seria mais tarde, marcado a fogo, na longa história da navegação fluvial blumenauense, que foi o verdadeiro esteio no crescimento e prosperidade da colônia, durante alguns decênios, enquanto não havia a estrada de escoamento para a zona portuária, Itajaí. Gustav Konder
Colônia Blumenau.
Após 11 anos passados, ao completar 12 anos de idade, em 1882, os residentes do Stadtplatz da Colônia incumbiram o pequeno Gustav de levar os malotes de correspondência até Itajaí.Gustav Hackländer percorria uma picada rudimentar existente, margeando o rio Itajaí-Açu, montado em uma pequena mula, sozinho.
As lideranças da Colônia Blumenau tomaram esta decisão – de incumbir o menino para esse trabalho, porque acreditavam que os nativos não atacavam crianças – e de fato, não as atacavam.
Decidiram, então, enviar o órfão, sem perguntar a ele se tinha medo do mato e do caminho desconhecido. Também sem considerar o fato de que seus pais Wilhelm Hackländer e Amalie Henriette Hackländer haviam sido mortos durante conflitos com os nativos. Muniram-no de uma pequena mula e assim seguiu ele, entre o caminho Stadtplatz de Blumenau e Itajaí e vice-versa, por alguns anos, na picada da margem direita, embrião que, tempos depois, se transformaria em uma estrada, atual SC-412. Seria interessante saber o que esse menino sentiu e passou durante essas incursões entre Blumenau e Itajaí, na ida e na volta. Nunca foi “atacado” pelos nativos nesses mais de 55 quilômetros percorridos sobre o lombo de uma mula, e que cobriam a distância entre o Stadtplatz da Colônia Blumenau e Itajaí. Lembramos que esse caminho não era o usual dos nativos, e também não estava próximo de onde acampavam para coletar e caçar.
Itajaí - neste período.
Os agrimensores da época que faziam os levantamentos dos cursos de água na região, durante as primeiras décadas da Colônia faziam também seus trajetos pelos rios e picadas. Deslocavam-se sempre em grupos, e nunca sozinhos, como no caso de Hackländer. Emil Odebrecht, por exemplo, não teve problemas com as tribos indígenas nativas.
A foto abaixo, de 1863, ilustra o momento em que o engenheiro Emil Odebrecht e mais oito homens fizeram sua primeira expedição, com o objetivo de estudar a bacia do Itajaí-Açu e encontrar melhor traçado para construir uma estrada que ligasse a Colônia Blumenau ao Oeste de Santa Catarina e ao Planalto Serrano.
Acampamento de Emil Odebrecht e sua equipe em uma das expedições.
Em 1891, com 21 anos, Gustav Hackländer foi convidado a trabalhar como embarco no Vapor Progresso.
Vapor Progresso
Louis Sachtleben (Quedlinburg, 1835 – Blankenburg, 1895) chegou a Blumenau em 1852, trabalhou em serraria com o Cel. Flores, depois com Otto Stutzer, casando-se em 1857 com Emilie Hess-Haertel. Criou em 1869 a Konsum-Verein Kolonie Blumenau (Sociedade de Consumo). Em 1878, fundou a Cia. de Navegação Fluvial a Vapor Blumenau-Itajaí, adquirindo nesta época o vapor Progresso, e, em 1893, o vapor Blumenau. (GERLACH, 2019, p.166.)
O governo provincial liberou uma quantia de 5 contos para desobstruir o rio Itajaí-Açu nas corredeiras de Belchior, e em 10 de agosto de 1878 foram aprovados os estatutos da “Companhia de Navegação Fluvial a Vapor Itajahy-Blumenau”.
Mesmo com as dificuldades encontradas pela companhia, ocasionadas pela desconfiança quanto ao sucesso do empreendimento, foi encomendado um navio a vapor, de rodas, construído nos estaleiros de Schlicksche Flussdampfwerke, em Dresden, Alemanha. O navio, adquirido com capital inicial de 30 contos de réis, dividido em títulos de 100 mil réis, atravessou o Atlântico a reboque de outro barco e transportaria passageiros, pequenas cargas, bem como rebocaria grandes lanchas, destinadas unicamente para carga pesada, entre o porto fluvial da sede da Colônia Blumenaue o Porto de Itajaí.
O vapor, a que foi dado o nome de “Progresso”, construído em Dresden, chegou, efetivamente, a Blumenau em meados de 1879, tendo-o a população recebido com música, foguetes e júbilo geral. Era um barco de rodas laterais, de 22 e meio metros de comprimento por 3,34 m de largura, calado de 70 centímetros. (SILVA, 1972, p. 103).
Tendo chegado o navio – chamado na região, de forma mais íntima, de vapor – foi batizado de Progresso. O nome escolhido refletia toda a expectativa das lideranças locais no cumprimento de seu papel, e a certeza da melhoria no transporte da produção local. O transporte efetuado entre o porto fluvial e o último núcleo do Vale acima permanecia rudimentar e precário, utilizando veículos a tração animal, ou somente animal ou a pé. Isto inquietava essa mesma liderança, provocando-a a buscar uma alternativa para suprir e efetivar o escoamento da produção com maior agilidade e segurança nesse trajeto, como o transporte ferroviário, que desde o princípio da colonização fazia parte dos planos locais.
Muito festejada, a chegada do barco ocorreu juntamente com a abertura dos primeiros trechos das estradas entre Blumenau e Lages, por onde começou a chegar o gado e a sair produtos agrícolas e manufaturados. A colônia passou a ser um entreposto comercial entre o litoral e o planalto. (SANTIAGO, 2001, p. 24).
A imagem anterior é do Vapor Progresso, e conforme o livreiroEugen Christian Currlin, autor desse postal vendido em sua Livraria Progresso da Rua XV de Novembro, Gustav Hackländer está na foto.
Nesse período, coincidindo com a chegada do Progresso, a região passava também a ser entreposto comercial entre o litoral e o planalto, graças à abertura da estrada que ligava a região ao Planalto Serrano – estrada Blumenau–Lages.
Emil Odebrecht mostrou sua impressão aos companheiros Fritz Müller, Wilhelm Friedenreich, Carl e Teodoro Kleine:“[…] Blumenau é tão somente um elo importante na imensa cadeia, por ficar junto ao porto marítimo natural de todas aquelas regiões […] as distâncias deixarão de ser entrave e no que concerne às despesas de transporte, serão ínfimas, possibilitando relativa prosperidade ao colono”. Com o crescimento da produção colonial e industrial, reforçou-se a busca deste canal de escoamento da produção. Em 1881, colonos, comerciantes e industriais comemoraram a chegada a Trombudo Central da estrada que ligaria Blumenau a Curitibanos. Faltavam apenas 41 quilômetros do total de 170 quilômetros previstos. Enquanto isso, a ligação por terra com Itajaí continuava precária e não era uma prioridade, pois a utilização do rio parecia ser muito mais fácil, rápida e barata.Meio de chegada do fundador e dos primeiros colonos, o rio Itajaí-Açu continuou sendo a porta de entrada e saída de Blumenau por muitas décadas. A ida e vinda de pessoas e mercadorias era feita entre a cidade e o porto de Itajaí em canoas ou pequenos barcos até 1879, quando passou a operar o vapor Progresso. (SANTIAGO, 2001, p. 35).
Após 1895, data de inauguração do novo Vapor Blumenau, Gustav Hackländer foi transferido para ele.
Vapor Blumenau
Com o desenvolvimento ocorrido na região, consequência do aumento das transações comerciais e também com o surgimento da indústria, o Progresso não atendia mais à demanda de transportes de cargas e passageiros.
Em 1893, a Companhia de Navegação Gustav Ferdinand encomendou um navio maior, na mesma fábrica alemã construtora do Vapor Progresso. Sua construção foi concluída em 1894, e tinha 28 metros de comprimento, 4,40 metros de largura e 2,10 de altura. Foi batizado de Vapor Blumenau. Navegou pela primeira vez em 1895, tendo a bordo, na viagem inaugural, o governador de Santa Catarina, Hercílio Pedro da Luz.
Em 6 de setembro de 1895, Gustav Hachländer se casou comWilhelmine Friederike Marie Henriette Caroline Maas, nascida em 14 de setembro de 1870, em Blumenau, filha do casal de imigrantes alemães Friedrich Maas, nascido em 1835 na Prússia– atual Alemanha) e deFriederike Ernestine [Geb.]Hartwig Maas, nascida em 28 de outubro de 1837 em Breitenfelde, Kreis Naugard, Pomerânia, Prússia, atual Alemanha.
O casalGustav e Marie Henrietteteve quatro filhos: Rudolfo Hackländer (1896–1945), Helene Hackländer (1899–1977), Julius Hellmuth Hackländer (1902–1959) e Else Hackländer (1904–1965). Rudolfo Hackländer se casou comWilhelmine Jensen e foram pais de Jutta e Silvia. Jutta juntamente com Carlos João Nicolau Oster,foram os pais de Edgar Rui que conversou conosco, da Alemanha, bisneto de Gustav Hackländer.
No Vapor Blumenau ocupou o posto de contramestre, por sua experiência conquistada nos anos de trabalho no Vapor Progresso.
Até 1909, o Vapor Progresso e o Vapor Blumenau pertenciam à Companhia de Navegação Fluvial, ocasião em que passaram para a Empresa Santa Catarina Eisenbahn Gesellschaft, a mesma que construiu a Estrada de Ferro Santa Catarina EFSC e era sua proprietária. Quando eclodiu a 1ª Guerra Mundial, e o Brasil nela ingressou contra a Alemanha, a Empresa e todo o seu patrimônio foram confiscados pelo governo brasileiro e incorporados ao patrimônio nacional. Isto aconteceu no ano de 1918.
Gustav Hachländer, por ser brasileiro, talvez não tenha sofrido tanto bullying oficial aplicado na época da guerra e após ela, como sofreram os imigrantes alemães, ou mesmo ele, na condição de filho de um casal de imigrantes. Muitos filhos de imigrantes sofreram perseguições durante esse tempo de guerra e até fora do período das guerras que envolveram a Alemanha – no Governo Getúlio Vargas – período de nacionalização. Gustav Hachländercontinuou no quadro de funcionários da ferrovia EFSC, agora pertencendo ao governo brasileiro.
Durante a administração do ex-prefeito Paulo Zimmermann – 1915/1923, Gustav Hackländer, comandante do Vapor Blumenau, durante seu Jubileu de Prata no cargo, recebeu homenagens de autoridades e lideranças de Blumenau. Seu tio, Victor Konder, estava presente. Sim, Gustav Hachländer foi sobrinho do importante homem da sociedade de Blumenau de sua época, Victor Konder, e ainda assim passou por muitas dificuldades. Victor era irmão de Gustav Konder, que escreveu um pequeno artigo sobreHackländer; ambos, filhos de Marcos Konder, prefeito de Itajaí.
Em fevereiro de 1916 foram comemorados os 25 anos deGustav Hackländer à frente do Vapor Blumenau, com a presença de autoridades e comunidade, evento devidamente registrado.
Na ocasião, as homenagens constaram de queima de fogos, banda de música e discursos, terminando com um almoço festivo.Gustav Hackländerfoi presenteado com uma âncora de madeira adornada de flores.
Em 19 de abril de 1920, pela Portaria do Inspetor Federal das Estradas, foi nomeado para o cargo de Superintendente de Navegação da Seção Fluvial da Ferrovia.
Em 24 de julho de 1920, recebeu outra homenagem, conforme a Portaria n° 81. Foi reconhecido pelo esforço e inteligência empregados na construção de um salão de 1ª Classe no interior de Vapor Blumenau.
Hackländ se aposentou em 1° de abril de 1928, terminando um período de 46 anos de trabalho – desde seus 12 anos. Oficialmente, só lhe concederam 37 anos trabalhados – o que não é verdadeiro. Durante as comemorações do Centenário de Blumenau, em 2 de setembro de 1950, Hackländer participou dos momentos que apresentavam a miniatura do Vapor Blumenau.
” Foi muito ovacionado pelos milhares de assistentes, que, na maior parte, choravam de comoção. eu também fiquei bastante emocionado, quando vi passar o velho comandante, acenando com seu surrado boné.” Gustav Konder
Gustav Hackländer, um personagem da história local que ajudou a construir a cidade de Blumenau de maneira anônima, mediante as diversidades e a partir da superação. Partiu em 14 de novembro de 1952, às 10h30 em sua residência na Alameda Rio Branco, N° 865, com 81 anos de idade.
Gustav Hackländer foi sepultado no Cemitério Luterano Centro, Blumenau, como também sua família. Em 2022, Edgar, seu bisneto da Alemanha, esteve visitando o cemitério e não encontrou o local do sepultamento de seu bisavô. Somente o local onde estavam sepultado os descendentes de Gustav, igualmente seus parentes.
Entramos em contato com a secretaria da igreja e do cemitério e gentilmente nos foi informado que: “Sr. Gustav Hackländer consta que está sepultado no jazigo A/04/09. Segundo informações do zelador, após a reforma do jazigo, não foi colocado o nome dele na lápide. Está em nome de Paulo Oste. “
Providências devem ser tomadas imediatamente para constar o registro de Gustav Hackländer na história cemiterial, também. Gustav não teve infância muito fácil na colônia e é razoável que possua um local para sua memória no “jardim da paz” da comunidade luterana centro, local histórico de Blumenau.
Uma narrativa sobre Gustav Hackländer e o Vapor Blumenau
Gustav Konder
“Em 1913, eu, com 8 risonhos anos, e a minha saudosa mãe embarcamos em Itajaí no vaporzinho, afim de consultar um especialista em Blumenau, por causa do meu defeito (por infelicidade ou felicidade nasci surdo e mudo). Acomodamo-nos na confortável popa, onde havia uma grande mesa redonda. Sentado ao lado de mamãe, estava o velho e gordo João Kracick de chapéu de côco, sempre risonho e com uma grossa corrente de ouro, pendente do colete. Era proprietário de uma afreguezada sapataria na rua Hercílio Luz, em Itajaí. Havia também outros passageiros, a maior parte imigrantes louros e espadaúdos, recém-chegados de um paquete alemão. Quando deixamos para trás a alta chaminé da fábrica de papel, a Barra do Rio, minha mãe, sempre perseverante e paciente, tirou de sua grande bolsa, um belo livro, cheio de bonitas figuras. Vendo-o, protestei, mas mamãe ponderou-me com aquele olhar cheio de candura: Olha meu filho, vamos aprender somente por alguns minutos…Resignei-me logo e a mamãe, pousando o livro em cima da mesa, começou apontando com o dedo um desenho qualquer para eu silabar, embora com voz horrivelmente estropiada, quando mostrou uma figura que representava uma porta, eu pronunciava “P-O-L-T-A”; um cachorro “A-S-O-L-O”; uma maçã “P-A-S-S-A” e assim por diante. Aparecendo uma figura que mostrava um sapato, gritei “S-A-P-A-T-O-O” e ao mesmo tempo olhei de soslaio, para o velho Kracick, que tremelicava de tanto rir! Em pouco tempo todos os passageiros presentes estavam atentos, admirados com o grande “milagre”, perpetrado por minha mãe. Justamente neste momento apareceu o comandante Gustav Hackländer, com seu rosto sempre fechado e um comprido cachimbo no canto da boca, para nos espiar e a mamãe, aproveitando a ocasião, perguntou-me, indicando-o prontamente respondi em voz alta – ” O-P-A-T-A-N-T-E, (o comandante)!
Pela primeira vez vi o rosto severo do velho marujo expandir-se num bonito sorriso, juntando as suas grandes mãos, em sinal de aprovação. Em seguida sentou-se ao meu lado, afagando-me a cabeça, sorridente e com olhos úmidos. Esta cena jamais saiu de minha memória!” Gustavo Adolpho Konder
Vapor Blumenau
Lembre-se que, nesse período, coincidindo com a chegada do Progresso, a região passava também a ser entreposto comercial entre o litoral e o planalto, graças à abertura da estrada que ligava a região aoPlanalto Serrano– estrada Blumenau–Lages.
Emil Odebrecht mostrou sua impressão aos companheiros Fritz Mueller, Wilhelm Friedenreich, Carl e Teodoro Kleine:“[...] Blumenau é tão somente um elo importante na imensa cadeia, por ficar junto ao porto marítimo natural de todas aquelas regiões [...] as distâncias deixarão de ser entrave e no que concerne às despesas de transporte, serão ínfimas, possibilitando relativa prosperidade ao colono”.Com o crescimento da produção colonial e industrial, reforçou-se a busca deste canal de escoamento da produção. Em 1881, colonos, comerciantes e industriais comemoraram a chegada a Trombudo Central da estrada que ligaria Blumenau a Curitibanos. Faltavam apenas 41 quilômetros do total de 170 quilômetros previstos. Enquanto isso, a ligação por terra com Itajaí continuava precária e não era uma prioridade, pois a utilização do rio parecia ser muito mais fácil, rápida e barata.Meio de chegada do fundador e dos primeiros colonos, o rio Itajaí-Açu continuou sendo a porta de entrada e saída de Blumenau por muitas décadas. A ida e vinda de pessoas e mercadorias era feita entre a cidade e o porto de Itajaí em canoas ou pequenos barcos até 1879, quando passou a operar o vapor Progresso. (SANTIAGO, 2001, p. 35).
Vapor Blumenau sem proteção e cobertura em estado de deterioração a mercê das intempéries. Junho de 2014.
Edgar Rui, bisneto de Gustav, nascido em 1947, em Blumenau e que atualmente reside na Alemanha.
Agradeço de coração sua reportagem sobre meu bisavô Gustav Hacklaender. Sou Blumenauense atualmente em Freiburg Munzingern Alemanha. Abraços de saúde - Edgar Rui
Referências
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