Blumenau foi fundada em 1850 e seu território inicial abrangia quase toda a extensão do Vale do Itajaí. Após a fundação da colônia e antes da maior inundação daquele período — a grande enchente de 1880 —, a região foi acometida por sete enchentes consideráveis, conforme especificado no quadro abaixo:
Contudo, nenhuma foi tão expressiva quanto a de 1880, na qual as águas atingiram a marca de 17,10 metros acima do nível normal. Até hoje, nenhum evento superou essa cota, consolidando-a como a maior enchente da história de Blumenau — ultrapassando, inclusive, as cheias da década de 1980, que contextualizaram a criação da primeira Oktoberfest.
A Marca de 1880: Para dimensionar tal magnitude, o nível de 17,10 m submergiu praticamente todo o Stadtplatz da Colônia Blumenau em um período no qual não havia barragens de contenção ou sistemas de monitoramento.
Encontramos este registro em uma de nossas fontes primárias, a revista Blumenau em Cadernos, que traz o depoimento do Presidente da Província de Santa Catarina, João Rodrigues Chaves, descrevendo os impactos da tragédia na região. Complementando esse material, compartilhamos também os relatos de Gertrud Hering Gross e de August Müller, professor e irmão do Dr. Fritz Müller.
João Rodrigues Chaves
Foi Presidente da Província de Santa Catarina entre 7 de julho de 1880 e 9 de março de 1882, período em que governou por nomeação imperial, sendo um magistrado que presidiu a legislatura e teve papel importante na criação de Brusque através da Lei Provincial nº 920, que abrangia diversas localidades atuais.Passou a administração para Joaquim Augusto do Livramento, seu interino, em 1882.
Publicação da Revista Blumenau em Cadernos Tomo II - Fevereiro de 1959 - Nº2.
Como é sabido, em 1880, de 21 a 27 de setembro, houve grandes enchentes em toda a província de S. Catarina. No vale do Itajaí, principalmente, os prejuízos foram incalculáveis. Na "Fala" que o então presidente da província, João Rodrigues Chaves dirigiu, no ano seguinte, à Assembleia Legislativa assim se refere à lutuosa catástrofe:
"Em consequência de chuvas torrenciais e abundantes, que caíram durante seis dias consecutivos, elevaram-se as águas do rio Itajaí e seus afluentes a um nível, que excedeu a todas as previsões e inundaram rápida e impetuosamente todo o grande vale, em se demoram as florescentes cidades e colônia do mesmo nome, a de Blumenau, o núcleo colonial de Luiz Alves, e o povoado e freguesia de São Pedro Apóstolo do Gaspar, causando graves danos e muitas perdas de vidas. Estradas, pontes de grande valor, habitações, engenhos, todas as plantações, fundadas nesses férteis municípios e nos de Tijucas e Tubarão, onde também se fez sentir essa calamidade, pela aluvião de outros rios, tudo foi destruído, sendo ainda desconhecido e incalculável o prejuízo.Logo que chegaram ao meu conhecimento as primeiras notícias desses desastres, tomei todas as providências ao meu alcance para minorar os seus deploráveis Afeitos e suavizar os sofrimentos dos infelizes habitantes daqueles lugares, enviando-lhes os socorros de alimentação, que eram mais urgentes, e nomeando comissões de pessoas honestas, para distribuí-los, exigindo, que prontamente me informassem do que mais fosse necessário, para que nada lhes faltasse. Poucos dias depois, dolorosamente impressionado pelo infortúnio de tantas vítimas, fui pessoalmente à cidade de Itajaí e em seguida à colônia Blumenau únicos pontos a que me foi possível chegar, examinar a extensão desses males, e prover por mim mesmo a todas as necessidades de ocasião, levando ainda novos auxílios em dinheiro e gêneros alimentícios, que fiz distribuir, por aqueles que o mereciam. Era contristador o espetáculo. Por toda parte habitações em ruínas, lavouras devastadas, a fome, a nudez, a miséria e as queixas dos pobres e mesmo daqueles, que pouco antes eram relativamente abastados e felizes, comoveram-me profundamente e fiz eram me compreender quão nobre, providente e benéfica deve ser a missão do governo ante essas grandes calamidades públicas. Na sede da colônia Blumenau somente as duas igrejas que ficaram justamente nos pontos extremos e mais elevados não foram atingidos pelas águas, que subiram mais de doze metros acima do nível ordinário do rio e inundaram com incrível rapidez as habitações, inutilizando móveis e gêneros e fazendas, existentes nas casas comerciais, de que quase na- da se salvou. Os habitantes eram obrigados a sair pelo teto das casas, salvando-se em um pequeno vapor e algumas canoas, que ali os iam receber. Sem esse auxílio, teriam perecido muitas pessoas. Nas colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro não foram menores os estragos nem menos aflitivo o terror dos habitantes. Em frente à cidade de Itajaí o embate das ondas durante o temporal rompeu e fez desaparecer um pontal de areia que, alongando-se para o sul, defendia a cidade da invasão do mar, ao mesmo tempo que um rio, que lhe corre próximo, saindo do seu leito, despejava suas águas sobre a cidade, cavando em muitas das suas grandes valas, pelas quais se lançava ao mar, ficando destruídas cerca de 50 casas e muitas famílias sem abrigo.
Ordenei que fossem prontamente iniciadas obras de arte, indispensáveis para evitar a continuação dos desmoronamentos das casas e destruição da cidade mandando aterrar essas valas e opor estacas de madeira à invasão das águas do mar. Desse importante serviço encarreguei o distinto e probo engenheiro Dr. Pedro Luiz Taulois, auxiliado pelo agrimensor Carlos Moreira de Abreu. Esses trabalhos feitos por conta dos cofres gerais têm tido o conveniente andamento, estando mesmo a concluir-se. São porém obras apenas provisórias e urgentes para acautelar maiores estragos naquela cidade. Para sua inteira segurança são precisos trabalhos que custarão somas avultadas e para cuja realização aguardo autorização, que solicitei do governo imperial.
Vou abrir a vossos olhos o quadro triste dessas desgraças. Na colônia Itajaí, pereceram, nessa inundação, 3 adultos; em Blumenau, 11pessoas, adultos e crianças; em Luiz Alves, 25 pessoas, maiores e crianças; em Tubarão 2 adultos e em Tijucas um. Como vedes, foi no núcleo colonial de Luiz Alves,
recentemente extinto, e cujas habitantes acham-se como que segregados de todas as relações sociais, sem recursos, sem estradas, para se comunicarem com os outros povoados, que sucumbiu maior número de vítimas. Enviei logo para esse lugar o inteligente e ativo 2.° escriturário da alfândega Júlio Augusto Silveira de Souza e o prestimoso alferes Artur Cavalcanti do Livramento, com alguns praças, levando a missão de distribuir socorros e dar asilo e amparo, que era urgente, àqueles que tendo perdido seus pais, sofriam todas as privações da extrema miséria. São notáveis e dignos de louvor os serviços prestados então por esses dois funcionários. Vencendo os maiores embaraços e perigos, subiram eles o rio- Luiz Alves, em que não havia ainda baixado de todo o aluvião, em pequenas canoas carregadas, tendo em quase todo o trajeto de quatro léguas, de abrir, com seus próprios esforços, caminho entre os destroços e troncos de árvores que obstruíam o rio.
Cumpriram bem a sua incumbência, distribuindo caridosamente e com escrupulosa regularidade os socorros, que lhes foram confiados e abrindo uma estrada do povoado ao porto do salto, aproveitando o trabalho dos colonos e dando-lhes somente os recursos de alimentação dos dias em que trabalhavam.
As comissões de socorros, que nomeei, compunham-se dos seguintes nomes: Na cidade de Itajaí: Tenente-coronel Antônio Pereira Liberato, Vigário João Rodrigues de Almeida, Presidente da Câmara municipal, Guilherme Asseburg, Delegado de polícia, José Pereira Liberato, Administrador das Mesas de Rendas, Joaquim Domingos da Natividade, Subdelegado de polícia, Gregório Joaquim Coelho. O cidadão Nicolau Malburg não aceitou a nomeação para membro dessa comissão. Colônia Blumenau: Dr. Frederico Mueller, Dr. Hermann Blumenau, Júlio Baumgarten. Nas colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro a distribuição de socorros esteve exclusivamente confiada ao seu digno diretor, Dr. Benjamin Franklin de Albuquerque. Freguesia de São Pedro Apóstolo de Gaspar: Subdelegado José Joaquim Gomes, Jacó Luiz Zimmermann, Luiz Altenburg. Vila de Tijucas: Francisco José dos Prazeres, João de Castro Gandra, João Silvério de Amorim, José Joaquim Gomes, Felipe Schmidt. Freguesia de São João Batista: Tenente-coronel Henrique Carlos Boiteux, Eliseu Faustino do Nascimento, Manoel Santiago de Oliveira. Vila do Tubarão: Dr . Juiz de Direito José Ferreira de Melo; Dr. Juiz Municipal Matias Joaquim da Gama e Silva, Jacinto Duarte de Oliveira, Antônio Antunes de Souza, Simeão Joaquim Veloso. Todas essas comissões corresponderam à minha confiança, satisfazendo a sua caridosa missão com zelo e solicitude e são dignas da minha e da vossa gratidão. Convenço-me de que são defectivos os dados que vou enumerar com relação aos prejuízos causados por essa imprevista calamidade .Se quanto a alguns pontos vos parecer que há exageração nas indicações recebidas, deveis lembrar-vos de que em outros, nem todos os prejuízos são indicados, nem os que o foram corresponderão a toda exatidão.
Consta das informações, existentes na secretaria do Governo, o seguinte algarismo:
Prejuízos:
Cidade de Itajaí e circunvizinhanças: 105:910S000;
- Colônia Blumenau: 237:940$000;
- Colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro: 26: 372S170;
- Luiz Alves: 21 :300$000;
- Gaspar: 59:463$500;
- Tijucas: 22:980$000;
- Tubarão:14:360S000.
Tive o mais sincero e vivo empenho, em que fossem eficazmente socorridas as vítimas desse triste e lamentável acidente, que em grande parte da província derramou a consternação, e a miséria e em evitar abusos e desperdícios dos dinheiros públicos. Pela verba competente do orçamento geral abre créditos na importância de ...... . 35:280$703, dos quais foram dispendidos com socorros propriamente ditos: Na cidade de Itajaí: ..... . 6: 724$927; Blumenau: 1: 637$200; Itajaí e Príncipe D. Pedro: 1: 023$036; Vila de Tijucas: 374S000; S. João Batista: 277$560; Gaspar: 356$700.
A diferença de 23: 556$130 foi gasta com as obras urgentes na cidade de Itajaí. Apraz-me informar-vos que essas desgraças dos habitantes da província de Santa Catarina, tem excitado por toda a parte os mais louváveis impulsos da caridade particular, o que revela que essa virtude é nobremente compreendida pelos brasileiros.
Por ofício da mordomia da Casa Imperial, com data de 12 de outubro, último, me foram enviados, como donativo às vítimas da inundação: 5:000$000, sendo 4:000$000 da parte de S.M. o Imperador e 1:000$000 da parte de S.M. a Imperatriz. A munificência imperial devem esses infelizes o primeiro e importante auxílio, que veio oportunamente suavizar os seus sofrimentos. Uma comissão de caridosas senhoras desta capital agenciou com abnegação e penosos esforços, em auxílio aos flagelados pela inundação, a quantia de 1: 743$000. Outra igual comissão da cidade de Pelotas, na província do Rio Grande do Sul, com o mesmo destino, 2: 230$000. Outra da cidade de Rio Grande do Sul, da mesma província, auxiliada pela oficialidade do Batalhão 17º de Infantaria, 1 :289$000. Aos habitantes da nobre província do Paraná, por iniciativa do seu digno e ilustrado presidente, Dr. João José Pedrosa, devemos também o auxílio de 3: 067$000. Ao filantrópico barão de Guarapuava devemos ainda a quantia que ofereceu de . .. . 2: 000$000. O Exmo. sr. conselheiro João Silveira de Souza, deputado geral por esta província enviou também 100$000. Uma outra comissão da cidade de Lajes agenciou também a quantia de 609$780. Total: 16:038$780. Aguardo as últimas informações que pedi sobre as necessidades de reconstruções de casas abatidas pelas águas, para dar destino a este importante auxílio. Por mim, em nome desses infelizes, e interpretando os vossos sentimentos, dou público testemunho da mais profunda gratidão, de que me acho possuído, pela generosidade daqueles que assim concorreram espontaneamente para suavizar o seu infortúnio".
Depoimento de Gertrudes Hering Gross
O Padre José Maria Jacobs
Por Gertrudes Hering Gross - Filha de Hermann Hering
Foi o primeiro vigário da paróquia de São Paulo Apóstolo de Blumenau.Foi, também, o fundador do Colégio São Paulo, atual Santo Antônio e do respectivo internato.Sua batina negra assentava bem na sua alta figura; seu rosto denotava profunda seriedade.Lembro-me dele ainda muito bem. Meus pais chegaram a conhecê-lo durante a enchente de 1880 e, desde então, vez por outra, fazia uma visita à nossa casa. O fato deu-se assim: Quando, em julho de 1880, o tio Bruno Hering e minha mãe, em companhia de cinco filhos (os dois mais velhos tinham vindo com papai, no ano anterior), chegaram a Blumenau, vindos da Alemanha, aqui chovia muito e, dentro em pouco, o Itajaí ultrapassava as suas margens.Papai não acreditava que houvesse uma grande enchente e procurava tranquilizar minha mãe. Até que uma manhã, a água estava em nosso quintal e continuava a subir. Só então, papai, com o auxílio de seu irmão Bruno, começou a transferir móveis e utensílios para o sótão. Mas o novo tear, que foi o começo do desenvolvimento da nossa indústria, não pôde mais ser desmontado. Teve que ser deixado aos azares da sorte.Enquanto as águas continuavam subindo sempre, mamãe, com as crianças (eu era levada ao colo) foi rua acima, ainda não tomada pelas águas, a procura de um asilo mais seguro. É fácil imaginar o desespero de mamãe, diante da maneira com que os céus haviam preparado a nossa recepção numa terra estranha. E foi, com voz quase desesperada, que exclamou para o vigário, de pé, ao alto da escada que levava ao adro da igreja: - Senhor padre, nós morreremos todos afogados!- Nem tanto, senhora Hering. Suba com as suas crianças. Na nossa igreja ainda há muito lugar!Ele nos acompanhou até ao alto. Já muitos moradores haviam procurado abrigo na igreja e o seu número ia aumentando de instante em instante. Como um pai, o padre Jacobs cuidava de todos. Ele mandou cozinhar um panelão de feijão preto e assar pão de milho. Ninguém precisou passar fome e as suas palavras de confiança contribuíram para levantar o ânimo de todos. Somente as noites, sobre os duros bancos e sobre o chão de pedras, deveriam ter sido medonhas, agravadas com a lembrança de como estariam correndo as coisas em casa.Apesar de tudo, não faltou o lado cômico. Assim numa noite em que eu, deitada num banco, sob o qual o dentista Hertel se acomodara, de tanto rolar-me, caí-lhe sobre a cabeça e ele, assustado, gritou: - Céus, agora é que as gotas engrossaram! Tais momentos de humor concorreram para desanuviar o ambiente.Aqueles dias de desgraça, criaram laços de amizade entre os refugiados e o padre Jacobs.Assim é que, ainda anos depois, ele visitava meus pais, entretendo-se, com estes, sobre literatura e a situação mundial, assuntos de sua preferência. Ele tomava-me, então, sabre os joelhos, ocasião em que eu lhe observava atentamente as suas feições. Seus traços deixaram-me impressão tão profunda que eu poderia, ainda hoje, pintar o seu rosto grande e amorenado, os seus olhos escuros e a sua boca pequena. E porque duas das minhas irmãs frequentassem a "Escola do padre Jacobs" os contatos tornaram-se mais respeitosos, sem perder a franqueza alegre. Nós, com as crianças maiores, ficamos conhecendo as salas de aula, quando eram representadas pequenas peças teatrais, em que as nossas manas tomavam parte. Também conhecemos o professor Pies e o professor Hermann e, igualmente, a madama Murphy, a caseira do padre Jacobs e, ao mesmo tempo, prefeita do internato. Ela morava em companhia da cega Regina, uma órfã, na antiga capela de madeira. Essa Regina, que apesar da sua cegueira, sabia bordar e costurar, tinha um ouvido muito afinado. E graças a ele, pôde, certa vez, evitar um roubo na igreja. Seu ouvido sentira o fraco ruído e, dado o alarma, o ladrão fugiu.Madama Murphy era viúva de um inglês que, à beira do mato, nas proximidades de Blumenau, foi atacado por um tigre, à noite, morrendo em consequência dos ferimentos recebidos. O rancho que ele, a mulher e o único filho habitavam, fora construído com muitas frestas e o tigre (certamente idoso, que dificilmente, encontrava presas no mato) meteu a pata pelas frestas, através das quais farejara a vítima, e apanhou o homem, que dormia sossegadamente e com tanta infelicidade que o mesmo veio a falecer pouco depois."Madama", como a viúva era conhecida pelos alunos e pelos maiores também, encontrou acolhida, com o filho, na casa paroquial, e passou a exercer os encargos que lhe foram atribuídos, sempre taciturna, em completa misantropia. Nunca a gente a viu sorrir. O susto que tomou, quando o marido foi apanhado, dormindo ao seu lado, ficou-lhe para sempre estampado no rosto.Como, naquele tempo, o morro da igreja, com a escola, o internato e as demais construções, não estivesse ainda murado, podia-se ver a grande e severa figura da viúva, movimentando-se da igreja para a capela e desta para a casa paroquial, sempre daqui para ali.A pequena casa paroquial não ficava muito distante da rua, num jardim algo agreste. junto ao qual estava o apiário. Padre Jacobs era também apicultor. Certa vez, queixou-se ele de que os seus católicos eram cantores medíocres e como aproximava-se uma grande festividade religiosa, perguntou ele a meu pai se alguns dos membros do "Saengerchor" não poderiam também comparecer na sua igreja.Papai foi ao encontro dos seus desejos e uma parte da Sociedade de Cantores (entre os quais ele mesmo e o tio Bruno) apresentou-se no domingo, na igreja, cantando, com os demais, no coro, os versos latinos do Te Deum e o "Ora pro nobis" que, uma semana mais tarde, foi repetido na sua igreja evangélica também, em louvor de Deus, como faziam frequentemente. Tais relações de cordialidade entre fiéis de crenças diferentes, não detiveram, entretanto, o padre Jacobs de, no domingo seguinte, trovejar, do púlpito, contra Lutero. Isso, entretanto; os protestantes não lhe levavam a mal, certos de que ele estava cumprindo o seu dever, sem faltar-lhes com a lealdade com que sempre os tratara.Esqueci-me de mencionar, ainda, que o Padre Jacobs, pouco depois da enchente de 1880, encomendou ao meu irmão Paulo Hering, um trabalho importante: pintar a crucificação de Cristo para a igreja.Paulo desincumbiu-se do encargo, tão a contento do padre Jacobs que, além de lhe pagar o preço convencionado, deu-lhe uma expressiva carta de recomendação para Roma, ao monsenhor de VaI, no Vaticano, a fim de que o portador pudesse prosseguir, nas igrejas dali, os seus estudos de arte religiosa, como pretendia.O que meu irmão, como rapaz de 20 anos, passou em Roma, foi, mais tarde, registrado nas suas memórias.Quando veio a lei, proibindo a realização de casamentos religiosos, antes do ato civil, o padre Jacobs a ela se opôs tenazmente. As advertências de nada valeram e a autoridade policial (de cujo nome não me lembro mais) viu-se obrigada a agir. O hoteleiro W. Gross, que era, então, suplente do delegado, foi encarregado de prender o padre. Este, porém, escapara-se para Rodeio, homiziando-se entre os seus leais italianos.Muito a contra gosto, Gross empreendeu a viagem até lá, acompanhado de policiais. Como se deu a prisão, eu não sei; W. Gross nada contou a respeito. Sei, apenas que, num dia, quando brincávamos diante de uma casa vizinha de W. Gross, vimos passar dois carros de mola e, num deles, estava sentado o padre Jacobs com os olhos parados. Não houve alvoroço popular, nem rostos curiosos. Dos olhos de mamãe, vi que as lágrimas corriam. Todos lamentavam o que acontecera.O padre Jacobs agiu sempre lealmente pela sua religião. Embora, às vezes, violento, mostrou sempre força de caráter e pode ser tido como mártir.Nós nunca o pudemos esquecer. Gertrud Hering Gross
1880 - Relato sobre a enchente. (Ocorrências em Salto Weissbach e Blumenau)
Depois de ter chovido constantemente nos dias 20 e 21 de setembro, a chuva intensificou-se no dia 22 de setembro, de forma que foi necessário abrir uma comporta do dique da represa do moinho (no lote de August Müller, em Salto Weissbach - Nota do Tradutor). A tarde choveu mais forte. Pelas 9 1/2 horas da noite abrir a segunda comporta. As 11 1/2, o Sr. Weise pediu socorro, para ajudar a levantar o seu açúcar, visto que a água já penetrava na varanda. quando eu fui então ao moinho, a água já transbordava pelo dique e já havia atingido os caixões de farinha dentro do moinho. Nós colocamos os barris de fubá e o milho em posição mais alta e recolhemos as ferramentas. Chovia a cântaros e as águas subiam tão de pressa que fomos obrigados de retirar as galinhas e porcos do estábulo e galinheiro. Pelas 3 horas a água abaixou um pouco, já que o vão debaixo da ponte dava vasão, mas pela manhã subiu novamente.
23 de setembro de 1880
As águas atingiram a estrebaria das vacas e as colmeias das abelhas, debaixo das laranjeiras ficaram na água. Nós buscamos as mesmas, transportando-as numa porta velha, na qual havíamos amarrado um cipó. Depois do lanche fomos buscar Cana ubá do terreno da escola, tendo que passar na água até acima dos joelhos, estando águas já até ao portão no nosso jardim. - Johannes (filho de August Müller) está ajudando a Lange a elevar o sal, pois as águas já atingiram a soleira da porta. Quase que ininterruptos aguaceiros. Pelo meio dia as águas pararam de subir e baixam lentamente - novos aguaceiros e as águas retornam a subir.
As águas baixam lentamente, porém continua chover quase sem cessar.. À tarde levamos o gado outra vez ao pasto. As águas baixam muito devagar. Aos pouco chegam notícias sobre o nível das águas e os estragos na sede ( Stadtplatz).
25 de setembro de 1880
H. Lange e Alberto Stutzer enfrentam os obstáculos para chegarem à sede. A totalidade da sede está debaixo d'água que atinge o balcão (sacada) da Casa da Direção (Atual Prédio da Prefeitura). Os moradores da cidade se refugiaram, com auxílio do vapor, nas igrejas católica e evangélica. as casas de Carl Rudger e Ludwig Weise tombaram. As de Grewsmuehl e Rabe, como as de Assenburg, ameaça, ruir. Do Peneder e sapateiro Grasser várias cabeças de gado, cavalos e porcos morreram afogados. Todas as casas, com exceção das de Alfredo Beims, Hosang e Baucke também de Grassmann estão debaixo d'água. A olaria de Bugmann está demolida. - Limpeza do moinho.
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| Registro após a enchente 1880 - Do Acervo da Família Odebrecht, encontro com familiares na Alemanha. |
Visita a Lange: Notícias do Rio do Testo: O moinho de Fritz Karsten foi levado pelas águas; os animais do capataz Hoffmann (cca. 11 a 12 cabeças) morreram afogados; 18 pessoas morreram afogadas entre elas o jovem da família Grützfeld, composta de 6 pessoas, no Vale do Selke, soterrados dentro de casa, por desabamento de terras.
26 de setembro de 1880
Salinger teve que se refugiar para o morro. A casa de Waldow foi levantada e deslocada; a serraria de Rowller foi levada pelas águas, com todas as tábuas; da mesma forma a de Friede Kögler. Franz Klein perdeu todos os seus animais e mal pode salvar sua vida. Johannes, Johann e Carl Krieck quiseram ir até à sede mas conseguiram chegar somente até Hermann Ruediger, cuja casa está repleta de refugiados. Estes H. Ruediger conseguiu salvar com auxílio de uma balsa feita às pressas de tábuas.
27 de setembro de 1880
Limpeza do moinho e instalações. Reabertura das aulas com 6 alunos (Nota do tradutor. - August Müller, exerceu o cargo de professor Salto Weissbach durante mais de 25 anos) - Johann e Gustav (filhos de August Müller) ajudam a reparam o caminho para o Salto, da mesma forma os colonos dos Fundos - Gustav Krieck e Jahn. Essig - Schulze (o vinagreiro) cai de bateira e é levado pelas águas até Badenfurt, onde foi salvo. Notícias de cima: As pontes sobre os ribeirões Warnow, Ilse, etc foram todas arrastadas. No morro da Subida o caminho desbarrancou até as pedras nuas.
Um Registro para a História.
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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