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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A Grande Cheia de 1880: O Relato Oficial de João Rodrigues Chaves - Presidente da Província de Santa Catarina

Stadtplatz após a enchente de 1880 - Ruas das Palmeiras - Palmenalle.
Blumenau foi fundada em 1850 e seu território inicial abrangia quase toda a extensão do Vale do Itajaí. Após a fundação da colônia e antes da maior inundação daquele período — a grande enchente de 1880 —, a região foi acometida por sete enchentes consideráveis, conforme especificado no quadro abaixo:

Contudo, nenhuma foi tão expressiva quanto a de 1880, na qual as águas atingiram a marca de 17,10 metros acima do nível normal. Até hoje, nenhum evento superou essa cota, consolidando-a como a maior enchente da história de Blumenau — ultrapassando, inclusive, as cheias da década de 1980, que contextualizaram a criação da primeira Oktoberfest.
A Marca de 1880: Para dimensionar tal magnitude, o nível de 17,10 m submergiu praticamente todo o Stadtplatz da Colônia Blumenau em um período no qual não havia barragens de contenção ou sistemas de monitoramento.
Encontramos este registro em uma de nossas fontes primárias, a revista Blumenau em Cadernos, que traz o depoimento do Presidente da Província de Santa Catarina, João Rodrigues Chaves, descrevendo os impactos da tragédia na região. Complementando esse material, compartilhamos também os relatos de Gertrud Hering Gross e de August Müller, professor e irmão do Dr. Fritz Müller.
João Rodrigues Chaves
Foi Presidente da Província de Santa Catarina entre 7 de julho de 1880 e 9 de março de 1882, período em que governou por nomeação imperial, sendo um magistrado que presidiu a legislatura e teve papel importante na criação de Brusque através da Lei Provincial nº 920, que abrangia diversas localidades atuais.
Passou a administração para Joaquim Augusto do Livramento, seu interino, em 1882. 
Publicação da Revista Blumenau em Cadernos Tomo II - Fevereiro de 1959 - Nº2.
Como é sabido, em 1880, de 21 a 27 de setembro, houve grandes enchentes em toda a província de S. Catarina. No vale do Itajaí, principalmente, os prejuízos foram incalculáveis. Na "Fala" que o então presidente da província, João Rodrigues Chaves dirigiu, no ano seguinte, à Assembleia Legislativa assim se refere à lutuosa catástrofe:
"Em consequência de chuvas torrenciais e abundantes, que caíram durante seis dias consecutivos, elevaram-se as águas do rio Itajaí e seus afluentes a um nível, que excedeu a todas as previsões e inundaram rápida e impetuosamente todo o grande vale, em se demoram as florescentes cidades e colônia do mesmo nome, a de Blumenau, o núcleo colonial de Luiz Alves, e o povoado e freguesia de São Pedro Apóstolo do Gaspar, causando graves danos e muitas perdas de vidas. Estradas, pontes de grande valor, habitações, engenhos, todas as plantações, fundadas nesses férteis municípios e nos de Tijucas e Tubarão, onde também se fez sentir essa calamidade, pela aluvião de outros rios, tudo foi destruído, sendo ainda desconhecido e incalculável o prejuízo.Logo que chegaram ao meu conhecimento as primeiras notícias desses desastres, tomei todas as providências ao meu alcance para minorar os seus deploráveis Afeitos e suavizar os sofrimentos dos infelizes habitantes daqueles lugares, enviando-lhes os socorros de alimentação, que eram mais urgentes, e nomeando comissões de pessoas honestas, para distribuí-los, exigindo, que prontamente me informassem do que mais fosse necessário, para que nada lhes faltasse. Poucos dias depois, dolorosamente impressionado pelo infortúnio de tantas vítimas, fui pessoalmente à cidade de Itajaí e em seguida à colônia Blumenau únicos pontos a que me foi possível chegar, examinar a extensão desses males, e prover por mim mesmo a todas as necessidades de ocasião, levando ainda novos auxílios em dinheiro e gêneros alimentícios, que fiz distribuir, por aqueles que o mereciam. Era contristador o espetáculo. Por toda parte habitações em ruínas, lavouras devastadas, a fome, a nudez, a miséria e as queixas dos pobres e mesmo daqueles, que pouco antes eram relativamente abastados e felizes, comoveram-me profundamente e fiz eram me compreender quão nobre, providente e benéfica deve ser a missão do governo ante essas grandes calamidades públicas. Na sede da colônia Blumenau somente as duas igrejas que ficaram justamente nos pontos extremos e mais elevados não foram atingidos pelas águas, que subiram mais de doze metros acima do nível ordinário do rio e inundaram com incrível rapidez as habitações, inutilizando móveis e gêneros e fazendas, existentes nas casas comerciais, de que quase na- da se salvou. Os habitantes eram obrigados a sair pelo teto das casas, salvando-se em um pequeno vapor e algumas canoas, que ali os iam receber. Sem esse auxílio, teriam perecido muitas pessoas. Nas colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro não foram menores os estragos nem menos aflitivo o terror dos habitantes. Em frente à cidade de Itajaí o embate das ondas durante o temporal rompeu e fez desaparecer um pontal de areia que, alongando-se para o sul, defendia a cidade da invasão do mar, ao mesmo tempo que um rio, que lhe corre próximo, saindo do seu leito, despejava suas águas sobre a cidade, cavando em muitas das suas grandes valas, pelas quais se lançava ao mar, ficando destruídas cerca de 50 casas e muitas famílias sem abrigo.
Ordenei que fossem prontamente iniciadas obras de arte, indispensáveis para evitar a continuação dos desmoronamentos das casas e destruição da cidade mandando aterrar essas valas e opor estacas de madeira à invasão das águas do mar. Desse importante serviço encarreguei o distinto e probo engenheiro Dr. Pedro Luiz Taulois, auxiliado pelo agrimensor Carlos Moreira de Abreu. Esses trabalhos feitos por conta dos cofres gerais têm tido o conveniente andamento, estando mesmo a concluir-se. São porém obras apenas provisórias e urgentes para acautelar maiores estragos naquela cidade. Para sua inteira segurança são precisos trabalhos que custarão somas avultadas e para cuja realização aguardo autorização, que solicitei do governo imperial.
Vou abrir a vossos olhos o quadro triste dessas desgraças. Na colônia Itajaí, pereceram, nessa inundação, 3 adultos; em Blumenau, 11pessoas, adultos e crianças; em Luiz Alves, 25 pessoas, maiores e crianças; em Tubarão 2 adultos e em Tijucas um. Como vedes, foi no núcleo colonial de Luiz Alves,
recentemente extinto, e cujas habitantes acham-se como que segregados de todas as relações sociais, sem recursos, sem estradas, para se comunicarem com os outros povoados, que sucumbiu maior número de vítimas. Enviei logo para esse lugar o inteligente e ativo 2.° escriturário da alfândega Júlio Augusto Silveira de Souza e o prestimoso alferes Artur Cavalcanti do Livramento, com alguns praças, levando a missão de distribuir socorros e dar asilo e amparo, que era urgente, àqueles que tendo perdido seus pais, sofriam todas as privações da extrema miséria. São notáveis e dignos de louvor os serviços prestados então por esses dois funcionários. Vencendo os maiores embaraços e perigos, subiram eles o rio- Luiz Alves, em que não havia ainda baixado de todo o aluvião, em pequenas canoas carregadas, tendo em quase todo o trajeto de quatro léguas, de abrir, com seus próprios esforços, caminho entre os destroços e troncos de árvores que obstruíam o rio.
Cumpriram bem a sua incumbência, distribuindo caridosamente e com escrupulosa regularidade os socorros, que lhes foram confiados e abrindo uma estrada do povoado ao porto do salto, aproveitando o trabalho dos colonos e dando-lhes somente os recursos de alimentação dos dias em que trabalhavam.
As comissões de socorros, que nomeei, compunham-se dos seguintes nomes: Na cidade de Itajaí: Tenente-coronel Antônio Pereira Liberato, Vigário João Rodrigues de Almeida, Presidente da Câmara municipal, Guilherme Asseburg, Delegado de polícia, José Pereira Liberato, Administrador das Mesas de Rendas, Joaquim Domingos da Natividade, Subdelegado de polícia, Gregório Joaquim Coelho. O cidadão Nicolau Malburg não aceitou a nomeação para membro dessa comissão. Colônia Blumenau: Dr. Frederico Mueller, Dr. Hermann Blumenau, Júlio Baumgarten. Nas colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro a distribuição de socorros esteve exclusivamente confiada ao seu digno diretor, Dr. Benjamin Franklin de Albuquerque. Freguesia de São Pedro Apóstolo de Gaspar: Subdelegado José Joaquim Gomes, Jacó Luiz Zimmermann, Luiz Altenburg. Vila de Tijucas: Francisco José dos Prazeres, João de Castro Gandra, João Silvério de Amorim, José Joaquim Gomes, Felipe Schmidt. Freguesia de São João Batista: Tenente-coronel Henrique Carlos Boiteux, Eliseu Faustino do Nascimento, Manoel Santiago de Oliveira. Vila do Tubarão: Dr . Juiz de Direito José Ferreira de Melo; Dr. Juiz Municipal Matias Joaquim da Gama e Silva, Jacinto Duarte de Oliveira, Antônio Antunes de Souza, Simeão Joaquim Veloso. Todas essas comissões corresponderam à minha confiança, satisfazendo a sua caridosa missão com zelo e solicitude e são dignas da minha e da vossa gratidão. Convenço-me de que são defectivos os dados que vou enumerar com relação aos prejuízos causados por essa imprevista calamidade .Se quanto a alguns pontos vos parecer que há exageração nas indicações recebidas, deveis lembrar-vos de que em outros, nem todos os prejuízos são indicados, nem os que o foram corresponderão a toda exatidão.
Consta das informações, existentes na secretaria do Governo, o seguinte algarismo:
Prejuízos:
Cidade de Itajaí e circunvizinhanças: 105:910S000;
  • Colônia Blumenau: 237:940$000;
  • Colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro: 26: 372S170;
  • Luiz Alves: 21 :300$000;
  • Gaspar: 59:463$500;
  • Tijucas: 22:980$000;
  • Tubarão:14:360S000.
Tive o mais sincero e vivo empenho, em que fossem eficazmente socorridas as vítimas desse triste e lamentável acidente, que em grande parte da província derramou a consternação, e a miséria e em evitar abusos e desperdícios dos dinheiros públicos. Pela verba competente do orçamento geral abre créditos na importância de ...... . 35:280$703, dos quais foram dispendidos com socorros propriamente ditos: Na cidade de Itajaí: ..... . 6: 724$927; Blumenau: 1: 637$200; Itajaí e Príncipe D. Pedro: 1: 023$036; Vila de Tijucas: 374S000; S. João Batista: 277$560; Gaspar: 356$700.
A diferença de 23: 556$130 foi gasta com as obras urgentes na cidade de Itajaí. Apraz-me informar-vos que essas desgraças dos habitantes da província de Santa Catarina, tem excitado por toda a parte os mais louváveis impulsos da caridade particular, o que revela que essa virtude é nobremente compreendida pelos brasileiros.
Por ofício da mordomia da Casa Imperial, com data de 12 de outubro, último, me foram enviados, como donativo às vítimas da inundação: 5:000$000, sendo 4:000$000 da parte de S.M. o Imperador e 1:000$000 da parte de S.M. a Imperatriz. A munificência imperial devem esses infelizes o primeiro e importante auxílio, que veio oportunamente suavizar os seus sofrimentos. Uma comissão de caridosas senhoras desta capital agenciou com abnegação e penosos esforços, em auxílio aos flagelados pela inundação, a quantia de 1: 743$000. Outra igual comissão da cidade de Pelotas, na província do Rio Grande do Sul, com o mesmo destino, 2: 230$000. Outra da cidade de Rio Grande do Sul, da mesma província, auxiliada pela oficialidade do Batalhão 17º de Infantaria, 1 :289$000. Aos habitantes da nobre província do Paraná, por iniciativa do seu digno e ilustrado presidente, Dr. João José Pedrosa, devemos também o auxílio de 3: 067$000. Ao filantrópico barão de Guarapuava devemos ainda a quantia que ofereceu de . .. . 2: 000$000. O Exmo. sr. conselheiro João Silveira de Souza, deputado geral por esta província enviou também 100$000. Uma outra comissão da cidade de Lajes agenciou também a quantia de 609$780. Total: 16:038$780. Aguardo as últimas informações que pedi sobre as necessidades de reconstruções de casas abatidas pelas águas, para dar destino a este importante auxílio. Por mim, em nome desses infelizes, e interpretando os vossos sentimentos, dou público testemunho da mais profunda gratidão, de que me acho possuído, pela generosidade daqueles que assim concorreram espontaneamente para suavizar o seu infortúnio".

Depoimento de Gertrudes Hering Gross
  
 O Padre José Maria Jacobs
Por Gertrudes Hering Gross - Filha de Hermann Hering
Foi o primeiro vigário da paróquia de São Paulo Apóstolo de Blumenau.
Foi, também, o fundador do Colégio São Paulo, atual Santo Antônio e do respectivo internato. 
Sua batina negra assentava bem na sua alta figura; seu rosto denotava profunda seriedade.
Lembro-me dele ainda muito bem. Meus pais chegaram a conhecê-lo durante a enchente de 1880 e, desde então, vez por outra, fazia uma visita à nossa casa. O fato deu-se assim: Quando, em julho de 1880, o tio Bruno Hering e minha mãe, em companhia de cinco filhos (os dois mais velhos tinham vindo com papai, no ano anterior), chegaram a Blumenau, vindos da Alemanha, aqui chovia muito e, dentro em pouco, o Itajaí ultrapassava as suas margens. 
Papai não acreditava que houvesse uma grande enchente e procurava tranquilizar minha mãe. Até que uma manhã, a água estava em nosso quintal e continuava a subir. Só então, papai, com o auxílio de seu irmão Bruno, começou a transferir móveis e utensílios para o sótão. Mas o novo tear, que foi o começo do desenvolvimento da nossa indústria, não pôde mais ser desmontado. Teve que ser deixado aos azares da sorte. 
Enquanto as águas continuavam subindo sempre, mamãe, com as crianças (eu era levada ao colo) foi rua acima, ainda não tomada pelas águas, a procura de um asilo mais seguro. É fácil imaginar o desespero de mamãe, diante da maneira com que os céus haviam preparado a nossa recepção numa terra estranha. E foi, com voz quase desesperada, que exclamou para o vigário, de pé, ao alto da escada que levava ao adro da igreja: - Senhor padre, nós morreremos todos afogados! 
- Nem tanto, senhora Hering. Suba com as suas crianças. Na nossa igreja ainda há muito lugar! 
Ele nos acompanhou até ao alto. Já muitos moradores haviam procurado abrigo na igreja e o seu número ia aumentando de instante em instante. Como um pai, o padre Jacobs cuidava de todos. Ele mandou cozinhar um panelão de feijão preto e assar pão de milho. Ninguém precisou passar fome e as suas palavras de confiança contribuíram para levantar o ânimo de todos. Somente as noites, sobre os duros bancos e sobre o chão de pedras, deveriam ter sido medonhas, agravadas com a lembrança de como estariam correndo as coisas em casa. 
Apesar de tudo, não faltou o lado cômico. Assim numa noite em que eu, deitada num banco, sob o qual o dentista Hertel se acomodara, de tanto rolar-me, caí-lhe sobre a cabeça e ele, assustado, gritou: - Céus, agora é que as gotas engrossaram! Tais momentos de humor concorreram para desanuviar  o ambiente.  
Aqueles dias de desgraça, criaram laços de amizade entre os refugiados e o padre Jacobs.
Assim é que, ainda anos depois, ele visitava meus pais, entretendo-se, com estes, sobre literatura e a situação mundial, assuntos de sua preferência. Ele tomava-me, então, sabre os joelhos, ocasião em que eu lhe observava atentamente as suas feições. Seus traços deixaram-me impressão tão profunda que eu poderia, ainda hoje, pintar o seu rosto grande e amorenado, os seus olhos escuros e a sua boca pequena. E porque duas das minhas irmãs frequentassem a "Escola do padre Jacobs" os contatos tornaram-se mais respeitosos, sem perder a franqueza alegre. Nós, com as crianças maiores, ficamos conhecendo as salas de aula, quando eram representadas pequenas peças teatrais, em que as nossas manas tomavam parte. Também conhecemos o professor Pies e o professor Hermann e, igualmente, a madama Murphy, a caseira do padre Jacobs e, ao mesmo tempo, prefeita do internato. Ela morava em companhia da cega Regina, uma órfã, na antiga capela de madeira. Essa Regina, que apesar da sua cegueira, sabia bordar e costurar, tinha um ouvido muito afinado. E graças a ele, pôde, certa vez, evitar um roubo na igreja. Seu ouvido sentira o fraco ruído e, dado o alarma, o ladrão fugiu. 
Madama Murphy era viúva de um inglês que, à beira do mato, nas proximidades de Blumenau, foi atacado por um tigre, à noite, morrendo em consequência dos ferimentos recebidos. O rancho que ele, a mulher e o único filho habitavam, fora construído com muitas frestas e o tigre (certamente idoso, que dificilmente, encontrava presas no mato) meteu a pata pelas frestas, através das quais farejara a vítima, e apanhou o homem, que dormia sossegadamente e com tanta infelicidade que o mesmo veio a falecer pouco depois.
"Madama", como a viúva era conhecida pelos alunos e pelos maiores também, encontrou acolhida, com o filho, na casa paroquial, e passou a exercer os encargos que lhe foram atribuídos, sempre taciturna, em completa misantropia. Nunca a gente a viu sorrir. O susto que tomou, quando o marido foi apanhado, dormindo ao seu lado, ficou-lhe para sempre estampado no rosto.
Como, naquele tempo, o morro da igreja, com a escola, o internato e as demais construções, não estivesse ainda murado, podia-se ver a grande e severa figura da viúva, movimentando-se da igreja para a capela e desta para a casa paroquial, sempre daqui para ali.
A pequena casa paroquial não ficava muito distante da rua, num jardim algo agreste. junto ao qual estava o apiário. Padre Jacobs era também apicultor. Certa vez, queixou-se ele de que os seus católicos eram cantores medíocres e como aproximava-se uma grande festividade religiosa, perguntou ele a meu pai se alguns dos membros do "Saengerchor" não poderiam também comparecer na sua igreja.
Papai foi ao encontro dos seus desejos e uma parte da Sociedade de Cantores (entre os quais ele mesmo e o tio Bruno) apresentou-se no domingo, na igreja, cantando, com os demais, no coro, os versos latinos do Te Deum e o "Ora pro nobis" que, uma semana mais tarde, foi repetido na sua igreja evangélica também, em louvor de Deus, como faziam frequentemente. Tais relações de cordialidade entre fiéis de crenças diferentes, não detiveram, entretanto, o padre Jacobs de, no domingo seguinte, trovejar, do púlpito, contra Lutero. Isso, entretanto; os protestantes não lhe levavam a mal, certos de que ele estava cumprindo o seu dever, sem faltar-lhes com a lealdade com que sempre os tratara.
Esqueci-me de mencionar, ainda, que o Padre Jacobs, pouco depois da enchente de 1880, encomendou ao meu irmão Paulo Hering, um trabalho importante: pintar a crucificação de Cristo para a igreja.
Paulo desincumbiu-se do encargo, tão a contento do padre Jacobs que, além de lhe pagar o preço convencionado, deu-lhe uma expressiva carta de recomendação para Roma, ao monsenhor de VaI, no Vaticano, a fim de que o portador pudesse prosseguir, nas igrejas dali, os seus estudos de arte religiosa, como pretendia.
O que meu irmão, como rapaz de 20 anos, passou em Roma, foi, mais tarde, registrado nas suas memórias.
Quando veio a lei, proibindo a realização de casamentos religiosos, antes do ato civil, o padre Jacobs a ela se opôs tenazmente. As advertências de nada valeram e a autoridade policial (de cujo nome não me lembro mais) viu-se obrigada a agir. O hoteleiro W. Gross, que era, então, suplente do delegado, foi encarregado de prender o  padre. Este, porém, escapara-se para Rodeio, homiziando-se entre os seus leais italianos.
Muito a contra gosto, Gross empreendeu a viagem até lá, acompanhado de policiais. Como se deu a prisão, eu não sei; W. Gross nada contou a respeito. Sei, apenas que, num dia, quando brincávamos diante de uma casa vizinha de W. Gross, vimos passar dois carros de mola e, num deles, estava sentado o padre Jacobs com os olhos parados. Não houve alvoroço popular, nem rostos curiosos. Dos olhos de mamãe, vi que as lágrimas corriam. Todos lamentavam o que acontecera.
O padre Jacobs agiu sempre lealmente pela sua religião. Embora, às vezes, violento, mostrou sempre força de caráter e pode ser tido como mártir.
Nós nunca o pudemos esquecer. Gertrud Hering Gross

Partes do Diário de August Müller.

1880 - Relato sobre a enchente. (Ocorrências em Salto Weissbach e Blumenau)
Depois de ter chovido constantemente nos dias 20 e 21 de setembro, a chuva intensificou-se no dia 22 de setembro, de forma que foi necessário abrir uma comporta do dique da represa do moinho (no lote de August Müller, em Salto Weissbach - Nota do Tradutor). A tarde choveu mais forte. Pelas 9 1/2 horas da noite abrir a segunda comporta. As 11 1/2, o  Sr. Weise pediu socorro, para ajudar a levantar o seu açúcar, visto que a água já penetrava na varanda. quando eu fui então ao moinho, a água já transbordava pelo dique e já havia atingido os caixões de farinha dentro do moinho. Nós colocamos os barris de fubá e o milho em posição mais alta e recolhemos as ferramentas. Chovia a cântaros e as águas subiam tão de pressa que fomos obrigados de retirar as galinhas e porcos do estábulo e galinheiro. Pelas 3 horas a água abaixou um pouco, já que o vão debaixo da ponte dava vasão, mas pela manhã subiu novamente.
23 de setembro de 1880
As águas atingiram a estrebaria das vacas e as colmeias das abelhas, debaixo das laranjeiras ficaram na água.  Nós buscamos as mesmas, transportando-as numa porta velha, na qual havíamos amarrado um cipó. Depois do lanche fomos buscar Cana ubá do terreno da escola, tendo que passar na água  até acima dos joelhos, estando águas já até ao portão no nosso jardim. - Johannes (filho de August Müller) está ajudando a Lange a elevar o sal, pois as águas já atingiram a soleira da porta. Quase que ininterruptos aguaceiros. Pelo meio dia as águas pararam de subir e baixam lentamente - novos aguaceiros e as águas retornam a subir.
24 de setembro de 1880
As águas baixam lentamente, porém continua chover quase sem cessar.. À tarde levamos o gado outra vez ao pasto. As águas baixam muito devagar. Aos pouco chegam notícias sobre o nível das águas e os estragos na sede ( Stadtplatz).
Fotografia de Bernhard Scheidemantel - Stadtplatz da Colônia Blumenau após enchente de 1880.
25 de setembro de 1880
H. Lange e Alberto Stutzer enfrentam os obstáculos para chegarem à sede. A totalidade da sede está debaixo d'água que atinge o balcão (sacada) da Casa da Direção (Atual Prédio da Prefeitura). Os moradores da cidade se refugiaram, com auxílio do vapor, nas igrejas católica e evangélica. as casas de Carl Rudger e Ludwig Weise tombaram. As de Grewsmuehl e Rabe, como as de Assenburg, ameaça, ruir. Do Peneder e sapateiro Grasser várias cabeças de gado, cavalos e porcos morreram afogados. Todas as casas, com exceção das de Alfredo Beims, Hosang e Baucke também de Grassmann estão debaixo d'água. A olaria de Bugmann está demolida. - Limpeza do moinho.
Registro após a enchente 1880 - Do Acervo da Família Odebrecht, encontro com familiares na Alemanha.
26 de setembro de 1880
Visita a Lange: Notícias do Rio do Testo: O moinho de Fritz Karsten foi levado pelas águas; os animais do capataz Hoffmann (cca. 11 a 12 cabeças) morreram afogados; 18 pessoas morreram afogadas entre elas o jovem da família Grützfeld, composta de 6 pessoas, no Vale do Selke, soterrados dentro de casa, por desabamento de terras.
26 de setembro de 1880
Salinger teve que se refugiar para o morro. A casa de Waldow foi levantada e deslocada; a serraria de Rowller foi levada pelas águas, com todas as tábuas; da mesma forma a de Friede Kögler. Franz Klein perdeu todos os seus animais e mal pode salvar sua vida. Johannes, Johann e Carl Krieck quiseram ir até à sede mas conseguiram chegar somente até Hermann Ruediger, cuja casa está repleta de refugiados. Estes H. Ruediger conseguiu salvar com auxílio de uma balsa feita às pressas de tábuas.
27 de setembro de 1880
Limpeza do moinho e instalações. Reabertura das aulas com 6 alunos (Nota do tradutor. - August Müller, exerceu o cargo de professor Salto Weissbach durante mais de 25 anos) - Johann e Gustav (filhos de August Müller) ajudam a reparam o caminho para o Salto, da mesma forma os colonos dos Fundos - Gustav Krieck e Jahn. Essig - Schulze (o vinagreiro) cai de bateira e é levado pelas águas até Badenfurt, onde foi salvo. Notícias de cima: As pontes sobre os ribeirões Warnow, Ilse, etc foram todas arrastadas. No morro da Subida o caminho desbarrancou até as pedras nuas.
Referências

Um Registro para a História.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Friedrich Wilhelm August Müller e seu Diário - August Müller - irmão de Fritz Müller - Por Frederico Kilian

Stadtplaz  da Colônia Blumenau, com destaque para o galpão do imigrante, cujo material, após sua demolição foi utilizado na Casa São José, idealizada pelo padre Jacobs. O migrante e pioneiro Friedrich Wilhelm August Müller, irmão do Dr.Johann Friedrich Theodor Müller, Fritz Müller. Fonte: BINDER, 1950 e parte do acervo de Bruno Kadletz.


Região junto à foz do Ribeirão Garcia. Fonte: BINDER, 1950.
Durante nossas pesquisas históricas na região conseguimos compreender a existência dos dois irmãos: Hermann Müller e August Müller, ambos mais novos, de Dr. Johann Friedrich Theodor Müller,  conhecido Fritz Müller. 
Encontramos uma publicação que transcreve partes do diário do irmão de Fritz Müller, que migrou junto com ele para a Colônia Blumenau, na segunda metade do século XIX, Friedrich Wilhelm August Müller - ou somente August Müller, como era conhecido.
Primeira centralidade de Blumenau em  1859. Fonte: GERLACH, 2019 e Google Earth.









Friedrich Wilhelm August Müller
ou, August Müller,
nasceu em 24 de novembro de 1826, em Windischholzhausen, Erfurt, Thüringen, território da atual Alemanha, e faleceu em Blumenau, em 21 de maio de 1904. 
Ele e sua esposa Friedrike Christiane Marthilde Hofmann (1831-1917) vieram para o Brasil junto com o irmão mais velho, conforme mencionado. Chegaram na recém fundada Colônia Blumenau, no Vale do Itajaí, 2 anos após a sua fundação, em 1852. Teria muito a contar. Deixou alguns registros em um pequeno caderno, com anotações diárias - um diário. Antes de apresentar alguns trechos desse diário, vamos relembrar um pouco de seus feitos em sua comunidade brasileira.

Região em que nasceram os Müller. Fonte: Google Earth.
Local onde nasceu August Müller.
Colonos que viviam na colônias da Colônia Blumenau, com ou sem
 estudo. Fonte: Arquivo Público Histórico de Rio do Sul.
August Müller trabalhou com a enxada e com o machado, apesar de seus estudos e formação no território que seria a futura Alemanha, onde estudou teologia. Lá também, trabalhou na agricultura. Migrando para a Colônia Blumenau, junto com o irmão mais velho, integrou uma das famílias que adquiriu os primeiros lotes coloniais vendidos por Hermann Blumenau, no Garcia. Isto reforça a ideia de que todos que chegaram à Colônia Blumenau - com estudo ou não - de fato eram colonos, pois tinham que criar seus animais e trabalhar em sua lavoura - na colônia. Observar o conteúdo de parte do diário de Müller, também.
Mapa Colônia Blumenau em 1864, com o local marcado dos lotes 1 e 2 vendidos aos irmãos Müller.
Localização aproximada, dos lotes coloniais 1 e 2, pertencentes aos irmãos Müller, os primeiros a serem comercializados por Hermann Blumenau na Colônia Blumenau. Isso foi possível, estudando-se o mapa da Colônia Blumenau - Ano 1865.
Junto com Louis Sachtlebem, fundou a cooperativa de consumo, dissolvida posteriormente porque não atendia mais ao objetivo para o qual a qual foi fundada. 
Junto com Louis Sachtlebem, fundou a cooperativa de consumo, dissolvida posteriormente porque não mais atendia o objetivo para o qual fora fundada.
Fotografia de 2013 - Casarão de Louis Sachtleben - amigo de August Müller.
August Müller foi cofundador do Kulturverein - Sociedade da Cultura e também da Companhia de Navegação Fluvial S.A. Durante mais de 25 anos foi professor da escola particular, em Salto Weissbach - junto à Igreja - até que se aposentou, devido a sua avançada idade.
Igreja luterana de Salto Weissbach - em 1992.
Localização da Igreja Luterana. Fonte: Google Earth.
Müller também foi tradutor de
Leis brasileiras para o idioma alemão, para que os imigrantes alemães pudessem se inteirar de seu conteúdo, como por exemplo: Constituição do Brasil, o Código penal e o Código civil.
Quem traduziu e destacou as importantes passagens do diário de August Müller foi o pesquisador e tradutor - Frederico  Emílio Kilian, cujo trabalho foi publicado na Revista Blumenau em Cadernos - Ano de 1976. O objetivo de Kilian foi de deixar informações históricas importantes da região, a partir do recorte de um determinado período - primeiras décadas de fundação da Colônias Blumenau - pela ótica de uma figura ilustre e possuidora de uma determinada formação e consciência - August Müller.
Frederico Kilian, o mentor desse material histórico, foi casado com a neta de Friedrich Wilhelm August Müller, Gertrud Müller (1895-1980).
Fonte: Family Search.


Sentados à direita, avô do noivo - Otto Stutzer, Ex prefeito de Blumenau e a direita, avó Therese (Bichels) Stutzer. Estes eram pais de  Adele Stutzer (1866-1944) que se casou com Fritz Müller (Filho de August Müller)em 1886. Estes eram os pais da esposa de Frederico Kilian, Gertrud Müller que se casaram por volta de 1920. Fonte: pesquisa on-line Pioneiros, Arquivo Histórico de Blumenau.






Otto Stutzer, ex- Prefeito de Blumenau Mandato
16 de abril de 1895 até novembro de 1898.
Frederico Kilian traduziu trechos e apontou o data precisa de fatos históricos ocorridos na segunda metade do século XIX - Colônia Blumenau.
"O diário do August estava sob a guarda da sua neta, Emma Probst (1908 - 1977), filha de Rosa Müller (1873-1942), filha mais nova de August e Frederike) casada com Wilhelm Probst 1869-1948). Emma Probst Fey e August Theodor Fey, seu marido, gerente das Lojas Paul em Altona/Itoupava Seca moravam em casa e terras adquiridas de Luiz Boetger. (É a casa que aparece na foto de 1932, e que está atrás do avião do Aerolloyd Iguaçu no aeroporto da cel Feddersen).Frederico Kilian fez uma cópia e traduziu os tópicos relativos aos acontecimentos do município. Os outros escritos são de interesse familiar. Esta cópia guardo comigo. (já devidamente escaneada e repassada para o AHJFS e IHB). Do original não tenho notícias."
Bruno Kadletz

Partes do Diário de  August Müller.
Prelúdio da Grande enchente de 1880.
Stadtplatz de Blumenau na década de 1860. Fonte: BINDER, 1950.
25 de julho de 1877

Fortes trovoadas, a noite inteira, relâmpagos, trovões e chuvas torrenciais, até a noitinha do dia 26.

29 e 30 de julho de 1877
Continuam fortes chuvas com trovoadas, que continuam até 2 de agosto, inclusive, Enchente - O engenheiro Corcoroca, genro do Sr. Wendeburg morreu afogado na noite de 31 de julho quando pretendia, vindo de cima, passar a cavalo pelas águas nas proximidades de Hermann Rüedger. Dia 8 de agosto, novas trovoadas e chuvas, de forma que a ponte do Garcia estava novamente embaixo d'água. (Nota do tradutor - Trata-se da ponte de madeira, que ficava em nível inferior à atual.)
Centralidade da Colônia Blumenau em 1869.
28 de agosto de 1877
Desfile semelhante - Este em 1912.
Jubileu de Prata (25 anos) da Colônia Blumenau:
De manhã: toque de alvorada por uma bandinha: congratulações do Juiz de Paz e sub-delegado; uma delegação do Kulturverein entrega um memorial, no qual é ressaltado o desenvolvimento da colônia e um álbum, com fotografias (Vista total do centro colonial (Stadtplatz), edifícios públicos, casa de Hermann Blumenau. A tarde: Desfile das sociedades pelo centro da cidade. Fotografias, canções, banquete. A noite, bailes e teatro.
Irmão Fritz voltou de Dona Francisca e estava aborrecido por causa do tempo chuvoso.

8 de setembro de 1877
Alguns colonos se negaram a pagar os emolumentos para o registro das crianças - Prisão e Processo, mais de 100 mil réis de despesas. Dia 10 de setembro cerca de 40 Pomeranos do Rio do Testo chegaram devido este assunto; foram apaziguados por L. Sachtleben, - dia seguinte cerca de 60 colonos do Alto Rio do Testo vieram por causa de questões de caminho - 6 dias de trabalho por ano a realizar no caminho - novamente acalmados.
Rio do Testo - Atual Pomerode.
23 de setembro de 1877
Inauguração da igreja Evangélica. - tempo horrível; rio bem alto.
Igreja do Espírito Santo por volta de 1900, está localizada no final do Boulevar Hermann  Wenderburg - Rua das Palmeiras - Palmenallee. Fonte: Pedro Corrêa do Lago. Custódia: Instituto Moreira Salles.


26 de setembro de 1877
No Rio Morto um brasileiro, Marcelino, de 22 anos assassinou sua mulher de 20 anos, por ciúmes, com um tiro atrás da orelha - foi preso pela polícia.

14 de dezembro de 1877
Bugres assaltaram a casa de Zotz, em Encano.
Fonte: www.inf.furb.br.
31 de dezembro de 1877
Apresentação da peça "Preciosa" no teatro  (esposa  e filha Luiza de August Müller foram a cavalo de Salto Weissbach onde moravam, à sede para assistirem a apresentação).

Comentário
Entre os primeiros colonos alemães vindos com Hermann Blumenau, já formavam-se, aos domingos, pequenos grupos dedicados à arte dramática e ao canto como expressão cultural de seu país de origem. Estas reuniões, que também incluíam o esporte (como o tiro-ao-alvo), resultaram na organização da primeira sociedade recreativa da colônia. Em 21 de dezembro de 1859 criou-se a Sociedade dos Atiradores de Blumenau, com 47 sócios. 
Mais tarde os grupos de teatro e canto se desmembraram desta Sociedade para formar a Sociedade Teatral de Blumenau e a Sociedade dos Cantores da Colônia de Blumenau. Ambas, porém, continuaram funcionando anexas à Sociedade dos Atiradores que, nas instalações de sua sede construiu, em 1870, um prédio dotado com palco para as encenações e apresentações musicais. A Sociedade Teatral de Blumenau foi instituída em 24 de junho de 1860 e só passou a configurar-se como sociedade em 18 de abril de 1895, quando adotou o nome de Sociedade Teatral Froshsinn. Lembramos também que havia apresentações de teatro na Casa São José e na Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau - o Ginástico.
Casa São José - Blumenau. Rua XV de Novembro, na Altura do Castelinho da antiga Moellmann. fonte: GERLACH, 2019.

Palco da Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau - o Ginástico. 
24  de fevereiro de 1878
Os bugres assaltaram o distrito dos italianos e mataram um homem, uma mulher e uma moça.

14 de  junho de 1878
O Presidente da Província visita a Colônia - fala alemão - Apresentação de "Preciosa" no Teatro.

12 de Outubro de 1878
Vento terral muito forte. Em alguns locais, frios, geadas. Em Setembro 1878 - nevou no Salto Pilão.

17 de outubro de 1878
Fui buscar uma máquina de cortar rações na Garcia.
O preço de fábrica da máquina importou em Rs 62$400, frete e despesas de Rs $ 69$400, somando um valor de Rs 131$800.

3 de novembro de 1878
Assembleia dos acionistas da Companhia de Navegação a Vapor. Roloff encarrega-se de fornecer, por 20 contos de réis, um vapor de estrutura de ferro até Itajaí e de pô-lo em movimento.

23 de março de 1879
Um terreno na sede, em frente a farmácia, foi arrematado, em hasta pública pelo Sr. **Grewsmuehl, pelo preço de Rs 1:655$000.

** Hermann Nicolaus Heinrich Grewsmühl (1848-1899), casado, 2 de outubro de 1874,  com Agne Bichels (1849-1878) e depois, em 8 de julho de 1886, com Elisabeth Holler (1854-1937).
28 de setembro de 1879
Um tigre atacou um italiano em seu rancho; a caminho para Garcia o colono morreu.

13 de novembro de 1879
Numa picada nova, na Itoupava, um tigre atacou um inglês que dormia em sua casa de palmitos, através da parede de palmitos e procurando arrancá-lo para fora, que o colono morreu no dia seguinte em consequência dos ferimentos recebidos. Depois o tigre matou um cavalo e carregou-o cerca de 50 braças até uma cerca onde largou. Ferido por um tiro de arma de disparo automático, o tigre foi perseguido por caçadores e cães e morto. Sem a cauda, ele mediu 13  1/2 palmos (3 metros).
Será que é por isso que existe o Ribeirão do Tigre em Blumenau?

13 de dezembro de 1879
Um filho do Sr. Schroeder entra em briga com um italiano e o apunhala.

23 de janeiro de 1880
Um tigre mata e leva um porco do colono Withoeft. Reinhold Kaestner (1864–1941) e Hians Withoeft vão a seu encalço no mato, com cães. O tigre mata ambos os cães; o porco foi encontrado no Morro dos Coqueiros e armaram uma espingarda de disparo automático. Dia seguinte Wilh. Weise, A. Bradatz e Robert Hinsching (1851-1941) foram averiguar. Robert Hinsching sofre a perda de seu cachorro e a espingarda falha novamente. **Cristiano Spernau arma então 4 espingardas. O tigre não apareceu mais.

**Christian Heinrich Conrad Spernau- nascido em 1828, em Saale, Kreis Schönebeck, Sachsen-Anhalt, atual Alemanha.
Família do imigrante alemão Christian Heinrich Conrad Spernau.
27, 28, 29 de janeiro de 1880
Forte revoadas com chuvas. A lagoa está cheia. A Colônia está prestes a ser emancipada.

Meados de fevereiro
O tigre busca porcos e galinhas em vários lugares em Baixo Encano; também no Paupitz cerca de 20 galinhas de cima de algumas árvores de laranjas. São armadas espingardas e armadilhas. o tigre é ferido por um tiro automático e perde muito sangue, mas não foi encontrado. Roubos de galinhas no R. Roedel e M. Mark.

1880 - Relato sobre a enchente. (Ocorrências em Salto Weissbach e Blumenau)
Depois de ter chovido constantemente nos dias 20 e 21 de setembro, a chuva intensificou-se no dia 22 de setembro, de forma que foi necessário abrir uma comporta do dique da represa do moinho (no lote de August Müller, em Salto Weissbach - Nota do Tradutor). A tarde choveu mais forte. Pelas 9 1/2 horas da noite abrir a segunda comporta. As 11 1/2, o  Sr. Weise pediu socorro, para ajudar a levantar o seu açúcar, visto que a água já penetrava na varanda. quando eu fui então ao moinho, a água já transbordava pelo dique e já havia atingido os caixões de farinha dentro do moinho. Nós colocamos os barris de fubá e o milho em posição mais alta e recolhemos as ferramentas. Chovia a cântaros e as águas subiam tão de pressa que fomos obrigados de retirar as galinhas e porcos do estábulo e galinheiro. Pelas 3 horas a água abaixou um pouco, já que o vão debaixo da ponte dava vasão, mas pela manhã subiu novamente.

23 de setembro de 1880
As águas atingiram a estrebaria das vacas e as colmeias das abelhas, debaixo das laranjeiras ficaram na água.  Nós buscamos as mesmas, transportando-as numa porta velha, na qual havíamos amarrado um cipó. Depois do lanche fomos buscar Cana ubá do terreno da escola, tendo que passar na água  até acima dos joelhos, estando águas já até ao portão no nosso jardim. - Johannes (filho de August Müller) está ajudando a Lange a elevar o sal, pois as águas já atingiram a soleira da porta. Quase que ininterruptos aguaceiros. Pelo meio dia as águas pararam de subir e baixam lentamente - novos aguaceiros e as águas retornam a subir.

24 de setembro de 1880
As águas baixam lentamente, porém continua chover quase sem cessar.. À tarde levamos o gado outra vez ao pasto. As águas baixam muito devagar. Aos pouco chegam notícias sobre o nível das águas e os estragos na sede ( Stadtplatz).
Fotografia de Bernhard Scheidemantel - Stadtplatz da Colônia Blumenau após enchente de 1880.
25 de setembro de 1880
H. Lange e Alberto Stutzer enfrentam os obstáculos para chegarem à sede. A totalidade da sede está debaixo d'água que atinge o balcão (sacada) da Casa da Direção (Atual Prédio da Prefeitura). Os moradores da cidade se refugiaram, com auxílio do vapor, nas igrejas católica e evangélica. as casas de Carl Rudger e Ludwig Weise tombaram. As de Grewsmuehl e Rabe, como as de Assenburg, ameaça, ruir. Do Peneder e sapateiro Grasser várias cabeças de gado, cavalos e porcos morreram afogados. Todas as casas, com exceção das de Alfredo Beims, Hosang e Baucke também de Grassmann estão debaixo d'água. A olaria de Bugmann está demolida. - Limpeza do moinho.
Registro após a enchente 1880 - Do Acervo da Família Odebrecht, encontro com familiares na Alemanha.
26 de setembro de 1880
Visita a Lange: Notícias do Rio do Testo: O moinho de Fritz Karsten foi levado pelas águas; os animais do capataz Hoffmann (cca. 11 a 12 cabeças) morreram afogados; 18 pessoas morreram afogadas entre elas o jovem da família Grützfeld, composta de 6 pessoas, no Vale do Selke, soterrados dentro de casa, por desabamento de terras.

26 de setembro de 1880
Salinger teve que se refugiar para o morro. A casa de Waldow foi levantada e deslocada; a serraria de Rowller foi levada pelas águas, com todas as tábuas; da mesma forma a de Friede Kögler. Franz Klein perdeu todos os seus animais e mal pode salvar sua vida. Johannes, Johann e Carl Krieck quiseram ir até à sede mas conseguiram chegar somente até Hermann Ruediger, cuja casa está repleta de refugiados. Estes H. Ruediger conseguiu salvar com auxílio de uma balsa feita às pressas de tábuas.

27 de setembro de 1880
Limpeza do moinho e instalações. Reabertura das aulas com 6 alunos (Nota do tradutor. - August Müller, exerceu o cargo de professor Salto Weissbach durante mais de 25 anos) - Johann e Gustav (filhos de August Müller) ajudam a reparam o caminho para o Salto, da mesma forma os colonos dos Fundos - Gustav Krieck e Jahn. Essig - Schulze (o vinagreiro) cai de bateira e é levado pelas águas até Badenfurt, onde foi salvo. Notícias de cima: As pontes sobre os ribeirões Warnow, Ilse, etc foram todas arrastadas. No morro da Subida o caminho desbarrancou até as pedras nuas.

17 de outubro de 1880
Johann Friedrich Hennings e Luise (genro e filha de August Müller) festejam seu casamento.

11 de novembro de 1880
Hermann (filho de August Müller) parte para a província de São Paulo.

13 de janeiro de 1881
Hermann Wendeburg falece inesperadamente de ataque cardíaco. Solene enterro.

1883 - Falência de Meyer & Spirling. Sessão do Júri na Câmara Municipal. o " Immigrant". - Festa de aniversário da fundação do "Liederkranz".

Oficialmente há um grupo de canto que foi fundado em 1909. Curiosa informação se já havia um grupo Liederkranz antes desta data.
Stadtplatz de Blumenau - Palmenallee.
24 de março de 1894
Minha cunhada (esposa do Dr. Fritz  Müller) falece após 4 meses de acamada de um mal intestinal no dia de seu 68° aniversário.

25 de março de 1894
(Domingo de Páscoa) Enterro de minha cunhada.

21 de maio de 1897
Ás 3 horas da tarde falece meu irmão Fritz. 

22 de maio de 1897
À 4 horas da tarde, enterro: Paulo Schwartzer discursou ao túmulo.

Dr. Johann Friedrich Theodor Müller faleceu aos 75 anos - em 1897, na cidade que escolhera para morar com sua família -  Blumenau. 
No seu leito de morte, Dr. Fritz Müller contou com o apoio de seu amigo, o advogado Paulo Schwartzer, a mesma pessoa que adquiriu a casa de Hermann Wendeburg, avô de Renate Louise Rohkohl, sogro de Johann Otto Rohkohl. Renate doou a casa de sua família à municipalidade de Blumenau, atualmente faz parte parte do Complexo do Museu da Família Colonial - Fundação Cultural de Blumenau, localizada na Rua das Palmeiras. O avô de Renate foi grande amigo de Dr. Fritz Müller, que viveu seus últimos quatro anos de vida, viúvo. Dr. Müller costumava trocar plantas com Schwartzer, que também o auxiliava na coleta de exemplares para suas pesquisas. Foi Paulo Schwartzer quem discursou à beira da sepultura de Dr. Fritz Müller. Quando Dr. Fritz Müller, se encontrava há vários dias acamado e muito doente, solicitou  que chamassem o amigo e pediu a ele, que proferisse algumas palavras na ocasião de seu sepultamento, pois, fazia questão de que o pastor protestante não estivesse presente e rezasse na sua sepultura. Dr. Johann Friedrich Theodor Müller está sepultado, junto a outros membros de sua família, no Cemitério Luterano do Centro, onde vem recebendo Homenagens, na atualidade.
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Aqui terminou o caderninho, no qual se achavam estes apontamentos e outros meramente de interesse pessoal ou familiar.
Colaboração de Frederico Kilian, neto, por afinidade de August Müller.


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Um registro para a História.

Sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
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@AngelWittmann (Twiter)
 
Referências
  • BINDER, Frei João Capistrano. Centenário de Blumenau - 1850 2 de setembro 1950. Edição da Comissão de Festejos 100 Anos, 1950. Tipografia e Livraria Blumenauense S.A. Blumenau - Santa Catarina.
  • BRASILIANA FOTOGRÁFICA. Instituto Moreira Salles. Álbum de Blumenau – Vista Parcial da Cidade – Acervo Pedro Corrêa do Lago. Disponível em: <http://brasilianafotografica. bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/2621> Acesso em: 30 de setembro de 2019 – 21:27h.
  • CAVALCANTI, Carlos. História das Artes: curso elementar. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
  • GERLACH, Gilberto S.; KADLETZ, Bruno K.; MARCHETTI, Marcondes. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. 1. ed. São José: Clube de cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019.
  • IPatrimônio. Blumenau – Igreja Luterana do Espírito Santo. Disponível em: http://www.ipatrimonio.org/blumenau-igreja-luterana-do-espirito-santo/#!/map=38329&loc=-26.920223648376602,-49.04817223548889,14 Acesso: 27 de setembro de 2022 – 22h32h.
  • KILIAN, Frederico. Subsídios à Crônica da Colônia de Blumenau. Revista Blumenau em Cadernos. Tomo XVII. Abril de 1976. Nº 4. Blumenau.
  • WETTSTEIN, Phil. Brasilien und die Deutsch-brasilieniche Kolonie Blumenau. Leipzig: Verlag von Friedrich Engelmann, 1907.
  • WITTMANN, Angelina. C.R.: Fachwerk – A técnica Construtiva Enxaimel. – 1.ed. – Blumenau, SC: AmoLer, 2019. – 405 p.: il.