domingo, 19 de abril de 2026

Um parecer sobre a imigração alemã (1852), com destaque para Hermann Blumenau e os migrantes alemães nas Fazendas de Café do sudeste Brasileiro e a família de Carl F. Hering - Por Prof. Dr. Herbert Koch de Jena

Para esta postagem - encontramos uma matéria de grande relevância histórica, que foi publicada no jornal alemão Blätter von der Saale, da cidade alemã de Jena, em 1852 (periódico que circulava três vezes por semana: às terças, quintas e sábados). Neste tempo a Colônia Blumenau tinha 2 anos de fundação. Já escrevemos sobre uma personalidade que nasceu em Jena.
Universidade de Jena - 1848. Fonte: Wikipedia.
Para recordar, Jena é a cidade onde residia Karl Ferdinand Hering, pai do pioneiro da família Hering, Carl Ferdinand Hering
Karl fazia parte do Conselho Judicial, órgão que supervisionava os juízes e procuradores daquela cidade, e também escrevia para o jornal local sobre a Colônia Blumenau. Seu filho, Carl Ferdinand Hering, foi um dos pioneiros que desbravou a mata para estabelecer roças, pomares e pastagens no que viria a ser o município de Blumenau. Também concluímos que ele é o "jovem Hering" mencionado no texto de Koch aqui apresentado.
Abaixo, a página do jornal em que consta Karl Ferdinand Hering como Justizrat (Conselheiro de Justiça) da cidade. Ele escreveu sobre a colônia onde vivia seu filho nos primeiros cinco anos de sua existência.

Parte da página do jornal Weimarichen Zeitung - número 171, de 25 de julho de 1855 - Dados da Família Hering.
Parte da página do jornal Weimarichen Zeitung - número 171, de 25 de julho de 1855.
Imigrantes alemães trabalhando na fazenda de café.
Fonte: Diário de Rio Claro SP
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Esse registro ocorreu três anos após a matéria que apresentamos aqui, na qual expomos o papel do fundador Hermann Blumenau sob outra perspectiva — diante de uma realidade nem sempre nobre e pautada por ações que nem sempre foram trazidas à luz dos fatos históricos.
Hermann Bruno Otto Blumenau veio para o Brasil como fiscal da "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães", com sede em Hamburgo. Esse fato nunca foi devidamente esclarecido na história formal, por ser uma faceta regional considerada pouco digna de registro nos livros didáticos. Nós mesmos não compreendíamos com clareza o fato de o fundador de Blumenau ter sido um "fiscal", pois nunca se especificava a qual instituição ele servia. Isso mudou quando pesquisamos sobre os imigrantes alemães nas fazendas de café do eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, onde encontramos indícios pouco nobres de suas intenções iniciais.
Este jornal de 1852, mesmo sem intenção — visto que muitos desconheciam a verdadeira ocupação do fundador da Colônia Blumenau —, destacou a matéria para enaltecer a colônia agrícola privada fundada por Hermann Blumenau.
Stadtplatz da Colônia Blumenau, colônia agrícola privada de Hermann Bruno Otto Blumenau -ex-fiscal da "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães", em 1869 - Palmenalle Strassen, Rua das Palmeiras.
O texto publicado na Revista Blumenau em Cadernos  - Tomo V - março de 1962 - Nº 3 de Herbert Koch

Na edição de março de 1961, publicou "Blumenau em Cadernos" um artigo meu sob o título "Um documento ignorado sobre o começo de Blumenau".  (Não encontramos esta publicação)
Apraz-me, agora, poder apresentar uma referência, especialmente significativa, sobre a colônia de Blumenau, datada de 1852, escrita, portanto, três anos antes da mencionada carta do jovem Hering, de 1855. 
Esta publicação, encontrei-a no jornal de Jena que, sob o título "Folhas do Saale" (Blätter von der Saale") circulava, naquela época, três vezes por semana - às terças, quintas e sábados - com quatro a oito páginas, formato 21 x 88, senão que a respectiva publicação se encontra às páginas 77/78 do número 19, edição de 14 de fevereiro de 1852.
Esse jornal não contava, apenas, leitores entre os então quatro mil habitantes daquela cidade, mas também entre os das numerosas aldeias circunvizinhas. Jena orgulhava-se de possuir, desde 1558, a única universidade da Turíngia, sendo, assim, o jornal lido, naturalmente, também pelos 450 estudantes universitários. 
A importância cultural que, por esta circunstância, lhe coube, foi razão suficiente para que o jornal tivesse leitores ainda, se bem que em número restrito, por toda a Turíngia e mesmo no "exterior", denominação que, na época, não subentendia apenas os pequenos países da Turíngia e o reino da Saxônia, mas também a província prussiana da Saxônia. 
Existia, assim, para a sociedade berlinense, que fez a respectiva publicação, a garantia de levar o assunto ao conhecimento de um vasto público, o que foi, certamente, o principal objetivo.
Que me sejam permitidas algumas palavras de introdução, esclarecedoras da situação geral da Europa e, principalmente, da Alemanha para que se compreenda a razão do crescimento irreprimível do número de emigrantes naquela época:
 
374.654 emigrantes embarcaram, somente nas duas décadas de 1831 a 1851, em Bremen, com destino à América do Norte. O aumento, de ano para ano, verifica-se do seguinte quadro: 

Revista Blumenau em Cadernos - março de 1962, Nº 3.

Impotentes, enfrentaram os governos essa situação. Em parte, apontaram como razão, o crescimento vertiginoso da população europeia, fato mesmo incontestável, segundo esta demonstração: Número de habitantes em milhões.  
Revista Blumenau em Cadernos - março de 1962, Nº 3.
Enquanto os aumentos ocorridos na França e Inglaterra se contrabalançavam, mais ou menos, o verificado na Áustria, em relação a esses países, era o três-dôbro e meio, tendo sido o aumento, na Rússia, de quase dez vezes e, de doze vezes até o ocorrido na Prússia.
O deslocamento da população rural para centros industriais, mesmo em pequena escala, resultou na diminuição da produção agrícola e consequente alta dos preços dos gêneros, tornando-se compreensível, em vista dessa situação, a atração que se representou a suposta. melhoria de vida nas plagas americanas, com riquezas descritas como incalculáveis. 
Outra agravante da situação econômica foi a verdadeira febre armamentista que ocorria nos países europeus, realizável pelos respectivos governos, apenas através de continuas majorações da receita tributária; e, finalmente, favoreceu a tendência emigratória a situação política em geral. Após o malogro da revolução de 1848, verificou-se acentuada reação da autoridade governamental, que, em parte, descambou para a insuportável opressão da opinião pública. Os parlamentares foram mantidos, mas, infelizmente, não era pilhéria quando se afirmava "On nous permet d'y dormir mais on ne nous permet d'y ronfler" e muito menos se permitia a enunciação de palavras de crítica. 
Em 1852, repetiu-se com dez catedráticos de Kiel, o que em 1339 tiveram de suportar os "Sete de Götttingen"; em junho, proibiu-se a exibição da obra "Wilhelm Tell'", de Schiller, em Trieste; - em julho foi condenado a vários anos de prisão o diretor da escola de Graefe, Kassel, homem tão destemido e corajoso, quanto convicto livre pensador - para mencionar apenas uns, entre muitos casos com gêneres. 
Principalmente nos círculos acadêmicos, verificou-se uma atitude corajosa em favor de ideias liberais, fazendo questão a maior parte dos professores catedráticos que os seus títulos derivassem do vocábulo latino "profiteri" (confessar com brio a própria opinião) e nunca do outro vocábulo "profit" (proveito), negando-se, assim, a considerar o ordenado como fator que os obrigasse a ficar calados. 
É lógico que contagiaram, com as suas opiniões e aspirações, a juventude que lhes gravitava em torno. 
Vez por outra, titulares de altos cargos governamentais, externaram opinião favorável à conveniência de interditar a travessia das fronteiras. Não encontraram, porém, apenas resistência ardorosa na opinião pública, mas também bem pouca receptividade nos meios governamentais. 
Nas constituições constava, quase sempre, a cláusula: "É garantido o direito de estabelecer-se em qualquer lugar" e não havia governo que ousasse contrariar tal dispositivo, como não havia parlamento disposto a pô-lo fora de vigor, com a necessária maioria de dois terços. Nem havia ainda parlamento, como o "Reichtag" do tempo do Hitler, com a ambição de merecer o título de "melhor e mais bem remunerada sociedade de cantores", que, reunindo-se, apenas, uma vez por mês, cantavam o hino da Alemanha a uma só voz e aprovavam todos os projetos que fossem apresentados, embolsando, para tanto, altos honorários. Naquela época, não haviam ainda sido degradados os parlamentos para tal farsa. 
Naturalmente que havia bastantes conhecedores da situação, que se empenhavam em fazer compreender aos governantes que só se poderia evitar o êxodo, eliminando as causas com medidas como: restrição das verbas para armamento, criação de novos campos de atividade, melhoria salarial e assistência social, possibilitando aos necessitados a aquisição, pelo menos, ao mais indispensável. 
Infelizmente, eles pregavam a um auditório de surdos. 
Assim os governos se limitaram a baixar decretos, para evitar as consequências malignas deste êxodo; ninguém teria o direito de emigrar, sem participar a decisão às autoridades, que fariam a devida publicação por editais, possibilitando a prováveis credores, a cobrança legal das dívidas, etc., como os sujeitos ao serviço Militar, so após desses decretos, como queixas sobre a inobservância dos mesmos, demonstram com nitidez, que não deram resultado. Quem possuía salvo-conduto ou caderneta de profissional ambulante, tinha a garantia nas mãos, de encontrar meios e caminhos para emigrar. 
O que adiantava a publicação de comerciantes alemães de Lima, advertindo contra toda e qualquer emigração ao Peru? Quem tomou conhecimento do fato do naufrágio do navio "Union", com centenas de emigrantes alemães no Canal (Da Mancha)? 
Família Schmidt- Baumann - Burglahr - imigrantes alemães de Peru (1857)Palestra Wilfredo Contreras no XIII CAAL - Joinville.
Os jornais traziam notícias como por exemplo: "Em fevereiro apresentaram-se em Frankfurt 900 cidadãos intencionados à imigração, contra apenas 200 no ano anterior";
"600 habitantes de Schwarzburg - Rudolstadt pretendem emigrar, igualmente 2.000 de Schleswig Holstein, 25.000 de Hesse. - 40 somente da pequena cidade de Rechla, na Turíngia.
"481 adultos e 445 crianças do 1º e 2º distrito administrativo do Grão-ducado de Saxe, no primeiro semestre de 1852; - em julho embarcaram 2.391 em Hamburgo, a maioria com destino à América do Norte". Em Nova Iorque haviam chegado em 1850: 212.796 emigrantes; em 1851: 289.601 emigrantes, só destes, 69.885 eram da Alemanha. Tais cifras encorajavam até aos mais tímidos; se tantos milhares se decidiram a dar este passo, porque então eles não haveriam de ir? Está certo que "a maioria deles" seguiu para a América do Norte. Quantos foram os que se dirigiram à América do Sul, as relações, infelizmente, não deixam transparecer. Devem ter sido muitos, entretanto. E que se viram frustrados nas suas esperanças, esta certeza nos dá de maneira incontestável uma publicação Que a entidade berlinense "Sociedade para a Centralização da Emigração e Colonização Alemã" (Verein zur Centralisation deutscher Auswanderung und Koloniesation) a 17 de janeiro de 1852 fez em todos os jornais mais importantes da Alemanha, cujo teor segue. 
É, entretanto, aconselhável observar-se com imparcialidade, tomando-se em conta as respectivas circunstâncias, as violentas acusações nela contidas contra cinco brasileiros. Já os cinquenta mineiros da Saxônia que, no Século XV, se dirigiram à Venezuela, viram-se amargamente desiludidos nas suas esperanças, ficando, entretanto, a pergunta sem resposta, se as suas esperanças não haviam sido exageradas e, normalmente, irrealizáveis. Até que ponto isso se aplica, também, às mencionadas fazendas brasileiras, em 1852, da mesma maneira não se pode averiguar mais. 

Em junho de 2021, efetuamos uma pesquisa sobre a presença de imigrantes alemães, nas décadas de 1840 e 1850, nas fazendas de café do sudeste brasileiro — ocupando, literalmente, o lugar dos escravizados africanos. Para nós, foi uma grande surpresa descobrir qual era exatamente a ocupação de Hermann Bruno Otto Blumenau quando veio pela primeira vez ao Brasil. Em Blumenau, sempre se publicou que ele fora fiscal, mas nunca se esclarecia do quê. Em síntese, essa personalidade usou seu cargo em benefício próprio para alavancar negócios privados no Brasil, fato que jamais foi devidamente esclarecido no seio de sua colônia agrícola particular, citada neste texto de 1852. 
A Técnica Construtiva Enxaimel - Fazenda de Café Minas Gerais, construída com mão de obra do imigrante alemão que ocupou o lugar da mão de obra dos escravizados africanos - Fazenda Fortaleza De Sant'Anna - Goianá, localizada na região de Juiz de Fora.


 Abaixo, uma charge que circulava na Alemanha na época, ilustrando a dura realidade vivida pelos imigrantes nas fazendas de café.
Fiscal da
"Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães".
Relembramos que os imigrantes foram atraídos ao Brasil por propagandas enganosas para substituir a mão de obra escravizada nas fazendas de café. O Sul do país, considerado despovoado e economicamente atrasado, também corria o risco de ser invadido pelos espanhóis. Muito do que era divulgado na Europa não se cumpria, e as notícias sobre a real situação dos imigrantes no Brasil começaram a chegar ao continente europeu. Diante disso, organizou-se a "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães".
Hermann Bruno Otto Blumenau foi um dos fiscais da "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães", com sede em Hamburgo, enviado ao Brasil para averiguar a situação dos imigrantes alemães nas fazendas de café do Sudeste. Nesses locais, os imigrantes ocupavam o lugar dos escravizados africanos e de lá partiam denúncias de maus-tratos, escravidão e fraudes em contratos pautados por mentiras. Escrevemos sobre sua personalidade e de como chegou ao cargo: Hermann Bruno Otto Blumenau - Primeiro Negociante de Terras no Vale do Itajaí.
Johann Jacob Sturz - 1878.
Em maio de 1846 — quatro anos antes da fundação formal de sua colônia agrícola particular —, Hermann Blumenau viajou ao Brasil como representante dessa sociedade, tendo, portanto, os custos da viagem subsidiados. O contato pode ter ocorrido por intermédio de Johann Eduard Wappäus. Blumenau foi o autor da publicação intitulada "Emigração e Colonização Alemã", a qual Wappäus, na condição de professor de geografia, anotou e publicou em 1846 sem citar o nome do autor original, escondendo os interesses do fundador.
Para a obra, Hermann Blumenau utilizou relatórios e avaliações de Johann Jakob Sturz (1800-1877), cuja reputação ele tentaria destruir entre os colonos de sua própria colônia anos mais tarde. Em 1843, Sturz tornara-se Cônsul-Geral do Brasil na Prússia e, no final daquele ano, Blumenau conheceu o cônsul durante uma viagem de trabalho à Inglaterra. Naquela época, Hermann Blumenau trabalhava para Johann Bartholomaeus Trommsdorff, avô materno de Dr. Fritz Müller. Na ocasião, Blumenau e Sturz trocaram impressões sobre o Brasil.
Ao chegar ao Brasil como fiscal da "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães", Hermann Blumenau estava há pouco tempo a serviço desta sociedade. Em 1848, ele retornou à Alemanha para recrutar imigrantes e, em 1850, fundou sua própria colônia agrícola privada: a Colônia Blumenau, deliberadamente omitindo a realidade de seus conterrâneos nas fazendas de café e propagando as maravilhas de migrar para o Brasil, ou para sua própria colônia onde negociava as terras, desprovidas de toda infraestrutura e para onde chegou o imigrante da família Hering de Jena, local desta publicação que aqui apresentamos. Um exemplo de todo este processo: a Colônia Blumenau recebeu famílias que viveram nas Fazendas de Café, como, por exemplo, a família de Johann Karsten.
Stadtplatz da Colônia Blumenau em 1869 - Palmenalle Strassen, Rua das Palmeiras.
Por que relembramos essa passagem histórica? Para um estudo mais aprofundado, basta clicar sobre os títulos grifados.
Relembramos esse fato porque Herbert Koch encontrou, no jornal de Jena, a descrição do que realmente acontecia com os imigrantes alemães nas fazendas de café. Esse cenário, definitiva e propositalmente, não foi relatado na Europa pelo fiscal da "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães", Hermann Bruno Otto Blumenau. Naquele período, Blumenau já iniciava o seu próprio negócio e, ingenuamente, é citado nessa mesma matéria como o idealizador de uma iniciativa de sucesso de colonização alemã no Brasil, demonstrando o desconhecimento sobre a verdadeira história.
Segue o texto do jornal de Jena:

Que os imigrados no Brasil não encontrassem um leito feito de rosas, e que pombos assados não viessem voando em direção de suas bocas, possivelmente aborreceu e desiludiu a muitos. Mas vamos dar a palavra à referida publicação: 

"Nos órgãos de imprensa pública é feita a proposta a emigrantes alemães, para contratá-los como operários das fazendas de cinco grandes latifundiários no Brasil, Nicolau Antônio Nogueira Valle da Gama, Bráz Carneiro Bellens, Dona Francisca Maria Valle da Gama, José da Silva Carvalho e Visconde de Baependy. 
O dinheiro para a passagem seria adiantado, moradia posta à disposição na fazenda, como fornecido, para ser pago a prestações, tudo de que os emigrantes necessitarem durante o primeiro ano, como gêneros alimentícios, roupas etc. Isto soa muito bem, mas o diabo vem depois.
Plantações de café, no interior de São Paulo - imigrantes
alemães - Foto: Frank and Frances Carpenter Collection
Tudo que os imigrados desta maneira receberem, logicamente terão que pagar, não podendo, enquanto a dívida não for liquidada, deixar o serviço, devendo pagar juros sobre o restante após 4 anos. Terra não receberão como propriedade, tampouco salário fixo, mas ser-lhes-á entregue o cuidado sobre alguns milhares de cafeeiros. O café aí colhido, será vendido pelo proprietário da fazenda, e o lucro líquido, obtido após desconto de despesas de transporte, comissão de venda e desconto pelo uso das máquinas (para descascar os bagos de café), seria repartido entre o fazendeiro e o respectivo colono. 
Seria emprestada, ainda, ao colono, tanta terra quanta este, no tempo vago, puder cultivar para o seu sustento. Mas também do fruto deste esforço, não poderá o colono vender o que for além daquilo que ele necessitar para uso doméstico, e a venda dos produto será feita pelo fazendeiro, na mesma base da do café. Os colonos devem aceitar o compromisso de abster-se de negócios, sem permissão do fazendeiro. 
É assim que se pretende explorar a inexperiência e crendice dos imigrantes alemães, não tendo vergonha de oferecer-lhes condições contratuais, que os tornarão simplesmente escravos. Pois o lucro dos colonos será mínimo, sendo que até os fazendeiros brasileiros ganham pouco com a venda da colheita do café, tendo a experiência demonstrado que o lucro maior é dos intermediários. Sendo o fazendeiro o encarregado do transporte, apresentará uma relação de despesas elevadas, e, com o desconto do uso das máquinas, pouco lucro líquido restará, a ser repartido com o pobre colono.
O mesmo acontece com a compra de gêneros, que fica ao cargo do fazendeiro. Em relação à produção nas horas vagas, são oferecidas ao colono condições piores do que aos escravos, aos quais estes produtos, em todo mundo, pertencem integralmente, sendo-lhes permitido negociar com os mesmos, como bem entendem. Ao imigrante alemão nem esta vantagem se pretende dar nas propriedades dos "cinco grandes latifundiários do Brasil". 
É fácil fazer-se o cálculo, que, nestas condições, será, na maior parte dos casos, impossível ao imigrante liquidar as suas dívidas dentro de quatro anos. A passagem do porto alemão ao Brasil é, no mínimo, de 45 táler e, incluídas as despesas inevitáveis de bordo (colchão, louça, etc.), sairá a 50 télers por pessoa. As despesas de estabelecimento e gastos em gêneros alimentícios, até a primeira colheita, roupas e outras necessidades, será bom não contar com menos de 100 tálers. Pois muitas destas coisas, já por si, são caras no Brasil, e o fazendeiro, sem dúvida não há de deixar de marcar os preços mais altos por tudo, pois é de seu interesse levantar a soma dos gastos. Assim teria uma família de quatro pessoas, uma dívida de no mínimo, 600 tálers. Na melhor das circunstâncias poderia o colono liquidar nos primeiros quatro anos 100 a 200 tálers, restando a dívida de 400 tálers. Inicia-se, então, a fase dos Juros, sendo a percentagem habitual aí de 18 a 25 por cento . A família deveria descontar, assim, 72 a 100 tálers só pelos juros da dívida, sendo fácil de se calcular como a dívida aumentará, se não conseguir pagar o previsto. Está, assim, absolutamente, na mão do fazendeiro manter essa gente nos seus serviços, conforme lhe convém, e os imigrantes, desta maneira, vão de encontro a uma situação que durará para toda a vida, e que hão se pode classificar de outra maneira, senão de escravidão. Mas é justamente esta a intenção dos srs. Fazendeiros que agora procuram atrair os emigrantes alemães. Os escravos estão se tornando caros, porque a importação da África cessou por completo, tendo se constatado, ainda, que a população negra do Brasil não aumenta por si mesmo, sem o esforço contínuo de novas levas. Procura-se, assim, um substituto nos imigrantes alemães. 
Que os fazendeiros brasileiros experimentem tais meios é compreensível, mas que alemães deem a mão a estas negociações com elemento humano, como infelizmente está acontecendo, é verdadeiramente repelente. 
A emigração, já por si, é um passo difícil, seguida, na maioria das vezes, de pesados remorsos. Mas já que está sendo realizada, convém abrir os olhos do pobre emigrante que, muitas vezes, é bastante ingênuo para dar fé a tais "vantajosas e brilhantes" propostas, preservando-o do infortúnio certo.
Se o emigrante, decididamente está intencionado de abandonar a sua terra, escolhendo para nova pátria o Brasil, que se dirija, pelo menos, a empreendimentos de colonização, onde ele não será degradado à categoria de escravo mas onde encontre condições de poder adquirir, com relativa facilidade, uma propriedade rural, c onde se oferecem perspectivas de um futuro garantido. 
Como tais se pode mencionar a Colônia Dona Francisca, (fundada pela Sociedade de Colonização Hamburguesa, em 1849); Colônia São Leopoldo, na Província do Rio Grande do Sul; e Colônia de Blumenau, na Província de Santa Catarina. Encontrará aí conterrâneos da Alemanha, bom acolhimento e independência irrestrita. 
Contra todos os empreendimentos, onde, como nos cinco latifundiários da província do Rio de Janeiro, os imigrantes alemães seriam considerados apenas como substitutos dos escravos vem advertir decididamente à Sociedade para Centralização da Emigração Alemã. 
Berlim, 17 de janeiro de 1852". 
 
Ate aqui o aviso. O que a nós mormente nos interessa é a referência elogiosa às Colônias catarinenses e riograndenses, de Da. Francisca, Blumenau e São Leopoldo, que, contrariamente às cinco fazendas, estão sendo apontadas como empreendimentos de exemplo e modelo . É o documento, assim, comprovante do relatório do jovem Hering, que já tivemos oportunidade de publicar. Datado do ano de 1855, podia se objetar que, naquela época, possíveis anormalidades já tivessem sido amainadas. A referência presente, de 1852, entretanto, demonstra, com clareza, que a Colônia Blumenau, desde o seu início, ao contrário de outros empreendimentos, concedeu "acolhida amiga" aos colonos, proporcionando-lhes "um futuro garantido". Este reconhecimento, partindo de pena tão consciente da sua responsabilidade, merece seja devidamente anotada.

Uma conclusão:

O "jovem Hering" mencionado no texto (acima) de Koch é Carl Ferdinand Hering, da família Hering de Jena. Sobre ele, registramos na postagem de 27 de agosto de 2025 que possui descendentes em várias regiões do estado, estando presente em cidades como Florianópolis, Brusque, Itajaí, Blumenau, Indaial, Timbó, Ibirama, Presidente Getúlio, Rio do Sul e Lages, além de outras cidades regionais, em outros estados e, também, fora do país. A família Hering é uma amostra da história pioneira de Blumenau.
A pioneira família Hering está presente nas cidades de Florianópolis, Brusque, Itajaí, Blumenau, Indaial, Timbó, Ibirama, Presidente Getúlio, Rio do Sul, Lages e em outras cidades regionais, em outros estados e também, fora do país. A família Hering é uma amostra da História pioneira de Blumenau.
O texto original:
Leituras Complementares - sobre Hermann Blumenau
  1. Residência da Família Blumenau - Texto da Filha de Hermann Blumenau
  2. Hermann Bruno Otto Blumenau - De 1819 até 1846
  3. Blumenau - do Stadtplatz ao Enxaimel
  4. Fundação de Blumenau e sua formação a partir
  5. Loja Maçônica na Colônia Blumenau - Zur Friendenspalme
  6. Heinrich Albert Friedrich Gustav Stutzer - Rápida passagem na Colônia Blumenau - Trabalho Social na Alemanha
  7. Hermann Bruno Otto Blumenau - Primeiro Negociante de Terras no Vale do Itajaí
  8. Fritz e Hermann - Dois Personagens da História de Santa Catarina - Com atualizações
  9. Gustavo Hackländer - Biografia
  10. Imigrantes alemães nas Fazendas de Café do Rio de Janeiro - São Paulo e depois - Santa Catarina - Século XIX - Kaffeepfklücker
  11. A história da família pioneira Hering lembra uma amostra da História de Blumenau - 175 Anos
  12. A Técnica Construtiva Enxaimel - na centenária Fazenda de Café De Sant'Anna - Minas Gerais
  13. A Casa Enxaimel - Blumenau/Vale do Itajaí - Origem e Evolução
  14. Uma História que iniciou muito antes da chegada de Hermann Blumenau - Johann Peter Wagner / Pedro Wagner - O pioneiro
Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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