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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Qual a origem etimológica e o significado do termo "Enxaimel" - em alemão - Fachwerk

Meyer & Spierling - Stadtplatz de Blumenau - Palmenallee.
 

Pesquisador Günter Weimar - UFSC, 2008.
A primeira vez que lemos o termo "enxaimel" foi na publicação do arquiteto gaúcho Günter Weimer, no início da década de 1980. Depois encontramos publicações regionais, no Vale do Itajaí, onde encontramos a expressão escrita diferentemente. Lemos em textos técnicos a palavra "enchaimel" e, sem saber, censuramos, achando que o autor/pesquisador estava equivocado, o que pode não ser bem assim.

Outro dia alguém nos perguntou: o que significa, especificamente, "enxaimel" e sobre sua origem sob a ótica etmonológica?
Resolvemos, então, buscar essa resposta e constatamos que o termo "enchaimel" pode ser que não esteja totalmente errado como imaginávamos.
Braço do Trombudo SC.
De acordo com Weimer, a palavra "enxaimel" não é alemã e nem árabe. O arquiteto defende que a palavra "enxaimel" já existia no vocabulário ibérico medieval muito antes da chegada dos alemães ao Brasil.
Descreve que o termo se reporta ao "mobiliário" (prateleiras). Explica que, na carpintaria luso-brasileira, o vocábulo original designava peças isoladas de madeira, caibros de suporte ou estruturas de armações horizontais e verticais — isto é, o esqueleto de marcenaria usado para erguer estantes, jiraus, estrados e prateleiras de secagem ou exposição de mercadorias. Lembramos que a estrutura de madeira encaixada não se limita somente à construção de edifícios, mas também de máquinas e mobiliário.

Estrutura sem fechamento, que lembrava a estrutura de prateleiras.
Com trama de madeiras a partir da conexão de peças de madeiras
horizontais, verticais e inclinadas.
Quando os primeiros imigrantes alemães começaram a construir o Fachwerk no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, representantes oficiais do Estado, engenheiros luso-brasileiros e vizinhos que documentavam as colônias usaram o termo técnico de marcenaria que mais se assemelhava visualmente àquela estrutura. Eles olhavam para a casa sem o fechamento (seja de tijolos, madeira ou de taipa) e viam uma grande armação vazada cheia de nichos, idêntica a uma grande estante ou estrutura de prateleiras. O termo técnico de mobiliário foi, portanto, "emprestado" para a arquitetura. Faz muito sentido.
Se for observada a tradução literal de Fachwerk, temos “construção em prateleiras", e através dela se designa uma construção onde as paredes são estruturadas por uma trama de madeira conseguida a partir da conexão de peças horizontais, verticais e inclinadas, encaixadas entre si, e cujos tramos (em alemão: Fach, pl. Fächer) são posteriormente preenchidos com fechamentos que podem ser de taipa, adobe, pedra, tijolos, madeira, paneis industrializados, vidro, etc.
Trama estrutural de madeira com fechamento de vidro e de tijolos rebocados.

De acordo com o Dicionário da Arquitetura Brasileira, de Corona e Lemos, enxaimel é: 

1) uma parede interna de taipa; 
2) um pau a prumo ou inclinado que recebe ripas; 
3) o mesmo que taipal;
4) sinônimo de esteio, nos mocambos de taipa nordestinos. 
Nesses conceitos, a palavra "enxaimel" sempre tem relação com uma peça de madeira e não, como no alemão, com uma estrutura composta de muitas peças de madeira encaixadas e conectadas estruturalmente. A palavra enxaimel, em toda a nossa pesquisa, sempre deve ser entendida como no alemão: elementos estruturais de madeira conectados entre si.

Outras fontes definem que a palavra "enxaimel" é derivada do termo antigo "enchaimel", que significa "enchimento". Com isso, não está errado o termo "enchaimel" que encontramos na década de 1990, em textos antigos, na região, relacionados às primeiras pesquisas sobre o conceito. O pioneiro na pesquisa nesta região foi o Dr. Vilmar Vidor, arquiteto e professor, doutor pela Sorbonne e fundador do segundo curso de Arquitetura e Urbanismo de Santa Catarina — na FURB, Blumenau.
Uma das fotografias que o Professor Vilmar Vidor mais gostava. Curso de restauro de estrutura enxaimel ministrado por Manfred Gerner - um dos maiores nomes da pesquisa do Fachwerk - Enxaimel, na Alemanha - 12 a 16 de agosto de 1996. O encontro e o curso foi idealizado e promovido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Blumenau - IPPUB - neste tempo Vilmar Vidor foi seu Presidente.
Concluímos, portanto, que a origem da palavra "enxaimel" é, de certa maneira, incerta e divide linguistas e historiadores, pois o termo já existia na língua portuguesa muito antes da chegada dos imigrantes alemães ao Brasil. A principal linha etimológica aponta para o termo antigo "enchaimel", tal como encontramos em textos antigos da década de 1990, na região do Vale do Itajaí, que significa "enchimento"

Além desta reflexão ainda há mais duas reflexões para a evolução dessa palavra que devem ser consideradas. 
A origem do "enxaimel" na língua portuguesa:

  • Origem Latina: Estudiosos apontam que a palavra evoluiu a partir do latim vulgar. O termo descrevia o ato de preencher os vãos de uma estrutura. Originalmente em Portugal, o termo "enchaimel" descrevia cada uma das estacas ou tabuões de madeira que sustentavam o barro amassado nas construções tradicionais de taipa. Quando os portugueses viram uma das técnicas das construções alemãs (com estrutura independente de madeira preenchida), o termo passou, então e denominar essa técnica construtiva, em solo brasileiro.
Casa enxaimel onde viveu a professora da E.B.M Machado de Assis - Professora Norma Dignart Huber, cujos alunos ainda andam por aí. A Professora Norma lecionou na E.B.M Machado de Assis - Antiga Escola Alemã Altona, na décadas de 1960 e 1970. Foi demolida para dar lugar para um edifício. O desenho da rua, foi modificado em projeto do IPPUB - em respeito ao patrimônio, não considerado posteriormente.
  • Origem Germânica Antiga: Outros pesquisadores, sugerem uma raiz no alto-alemão antigo (Mittelhochdeutsch, do período entre 1050 e 1350). A palavra derivaria de Vach (que significa "pau" ou "painel de madeira"), a mesma raiz que gerou a palavra alemã moderna para a técnica: Fachwerk.

Embora a técnica construtiva que conhecemos no Sul do Brasil tenha sua origem no enxaimel originário na Alemanha, a palavra enxaimel é um termo da própria língua portuguesa adaptado para descrever esse método de "encher" paredes estruturadas em madeira, que  Günter Weimar denominou "prateleiras".







Respondido...
Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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Referências
  • CORONA, Eduardo; LEMOS, Carlos A. C.. Dicionário da Arquitetura Brasileira. -2. ed. fac-similada. - São Paulo: Companhia das Artes, 1998. - 472p. :il.
  • WEIMAR, Günter. A arquitetura da imigração alemã; um estudo sobre a adaptação da arquitetura centro-europeia no meio rural do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Ed. da Universidade, UFRGS, São Paulo, Nobel, 1983. 296p. ilust.
  • WITTMANN, Angelina. Fachwerk: a técnica construtiva enxaimel. - 1. ed. - Blumenau, SC :AmoLer, 2019. - 405 p. : il.







sábado, 21 de março de 2026

Casas enxaimel de Corupá - Projeto de Paulo Henrique Siegel

Corupá/SC

Em 26 de fevereiro de 2026, o pesquisador e agrimensor de Corupá, Paulo Henrique Siegel, nos recebeu e apresentou parte de seu projeto, que está em desenvolvimento como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do curso de Geografia, no qual é graduando. O projeto consiste no levantamento de tipologias construídas com a técnica construtiva enxaimel (Fachwerk), localizadas no território da cidade que foi a antiga Colônia Hansa Humboldt, fundada por imigrantes alemães.
Parte do mapeamento do patrimônio levantado por Paulo Henrique, na cidade de Corupá.

Antes de prosseguir - um pouco de História...
Aparentemente, a Colônia Dona Francisca (atual Joinville) e a Colônia Blumenau historicamente sempre competiram entre si. A Colônia Dona Francisca estava, e está, localizada junto a uma das "portas' da Europa na região: o Porto de São Francisco do Sul.
Entretanto, em suas histórias, houve um "elo" que promoveu a ligação entre ambas mais do que muitos imaginam, indo além do acesso marítimo: a Sociedade Colonizadora Hanseática.
A Sociedade nomeou como Diretor de quatro de suas colônias, por mais de 20 anos, seu então Engenheiro-Chefe, nascido no Stadtplatz da Colônia Blumenau (1875), José Deeke. As colônias sob sua direção foram: Hansa Hammonia (atual Ibirama, cujo território pertencia à Colônia Blumenau), Hansa Humboldt (atual Corupá), Hansa Itapocu (atual Jaraguá do Sul) e Hansa São Bento.
Abaixo, o mapa desenhado pelo então Engenheiro-Chefe da Sociedade Colonizadora Hanseática, José Deeke — nascido na Colônia Blumenau e aprendiz do engenheiro agrimensor Heinrich Krohberger.
O mapa ilustra muito bem os caminhos de outros tempos — muito diferentes dos que conhecemos atualmente. Os acessos para a região eram feitos a partir dos portos marítimos de São Francisco do Sul e de Itajaí.
A nucleação urbana de Pomerode, na época denominada Pommerroda, foi fundada no território da Colônia Blumenau, às margens do Rio do Testo. Sua localização era estratégica: no caminho para o porto de São Francisco do Sul, que passava pelas colônias de Hansa Itapocu, Hansa Humboldt e Dona Francisca. 
Também se pode observar que o trajeto de São Bento até o porto de São Francisco do Sul poderia ser percorrido de trem. No mapa feito por José Deeke em 1905, está assinalado o traçado ferroviário — um transporte de vanguarda e muito contemporâneo para a época.
Observando esta logística interna no interior das colônias alemãs e o traçado dos caminhos, podemos afirmar que esta foi uma rota incrementada não somente pela Sociedade Colonizadora Hanseática, mas também pela Colônia Blumenau. Tratava-se de uma das principais vias até o Porto de São Francisco do Sul, por onde chegaram muitas famílias de imigrantes e produtos importados da Europa, principalmente da Alemanha, para o interior do território.
Fonte foto: Almanaque OCP.
Na fotografia acima, observa-se uma família de imigrantes alemães da Colônia Humboldt (Corupá). Observar a edificação ao fundo, coberta com telhas de tabuinhas de madeira — o sistema original de telhamento conhecido como Schindel. O Schindel é considerado a primeira telha inventada e que deu origem, posteriormente, a telhas feitas com outros materiais.
Esta casa de Corupá foi inteiramente construída em madeira, apresentando a característica varanda na parte frontal e um rancho aos fundos. A edificação repousa sobre pilaretes de pedra, elevada do solo, seguindo o mesmo padrão das casas enxaimel com fechamento em tijolos aparentes. Esta construção possui todas as características de uma estrutura enxaimel (Fachwerk), porém com o fechamento executado em madeira.
A pose dos membros da família, mesmo com vestimentas simples, transmite uma marcante postura de dignidade. Provavelmente trajavam suas melhores roupas para o registro — uma prática comum na época para que a fotografia fosse enviada aos familiares que permaneceram na Alemanha, refletindo sua realidade como pioneiros e construtores das novas cidades da região.

Promenade - Observando o patrimônio na paisagem na Companhia de Paulo Henrique, Arquiteta Susan Eipper e Marco de Vries

Seguimos o roteiro das casas levantadas por Siegel e fotografamos alguns dos exemplares, para ilustrar este momento de sua pesquisa, que tem como objetivo efetuar um levantamento das casas construídas com a técnica enxaimel em Corupá atual. Antes de prosseguir, perguntamos e também respondemos: 
O que é enxaimel?
Duas das três edificações do Museu da Família Colonial, localizado na Palmenallee Straße — Rua das Palmeiras e antigo Boulevard Hermann Wendeburg, em Blumenau, SC. A primeira, à esquerda, é a edificação mais antiga do Vale do Itajaí. Foi construída em 1858 com a técnica enxaimel (Fachwerk) e pertenceu a Hermann Wendeburg e família, representando uma tipologia da evolução do enxaimel na área urbana. A segunda, à direita, data de 1864 e foi residência de Victor Gaertner e família.
Enxaimel, resumidamente, de acordo com o livro "Fachwerk - Técnica Construtiva Enxaimel" Angelina Wittmann:
 A casa com a estrutura enxaimel é um dos muitos modelos resultantes de um processo que teve início durante a primeira grande revolução do homem, quando este deixou de ser coletor e caçador e se fixou no solo, tornando-se agricultor a pastor.
Homem que domou, segundo Munford, a si mesmo e depois, o meio insalubre que tinha que tirar a sua sobrevivência e construir a sua casa primária com materiais tirados deste meio, o embrião da casa de madeira encaixada, com a presença dos primeiros encaixes. 
Enxaimel é uma estrutura de madeira independente das paredes, com toda a complexidades da distribuição de cargas que isto significa e só conseguida nas casas de alvenaria após os experimentos na igreja de Santa Sofia, no século VI e depois evoluído até chegar a leveza dos vitrais das catedrais góticas - o ápice desta revolução na técnica construtiva em alvenaria de pedras. A casa de madeira já apresentava a sua estrutura independente das paredes, 7.000 anos a.C. 
A estrutura enxaimel agregou identidade e características diferenciadas às cidades intramuros, e depois às cidades livres assentadas juntos aos rios, na Alemanha, na Europa e também, no Vale do Itajaí e outras regiões do Brasil. Ao contrário do que afirmam as pessoas desprovidas de conhecimento, a técnica construtiva nunca deixou de ser construída em solo alemão, por representar uma das expressões culturais máximas - na forma de arquitetura - daquelas cidades e que habita o inconsciente coletivo, há mais de 7.000 anos. 
As pessoas que guardam este patrimônio no tempo presente e também constroem novos, são descendentes diretos daqueles que iniciaram o embrião desta técnica construtiva no período neolítico e esta foi repassada de uma geração a outra, sempre com o acréscimo de melhorias e novas tecnologias advindas de experimentos práticos. Há também, aqueles que fazem questão da tradição no momento de construir uma casa enxaimel, utilizando as mesmas ferramentas, rituais e práticas, de alguns milhares de anos atrás outros da época áurea medieval - período nacional da Alemanha, onde a produção contemporânea de enxaimel faz uso de tecnologia de ponta, robótica, modelagem, disponibilidade em catálogos, com 369 diversos tipos de materiais para o fechamento, formas e volumes, tudo seguindo a rigorosa legislação ambiental e construtiva daquele país. 
Atualmente, na Alemanha, o uso da estrutura enxaimel e sua versatilidade mediante a disponibilidade de diversos materiais alternativos para seu fechamento tem também, o aspecto ecológico e seu uso relacionado à sustentabilidade do bem morar. Angelina Wittmann - páginas 368/369

As imagens comunicam - Corupá - fevereiro de 2026...



Casa construída em 1906.












Casa enxaimel, de acordo com a classificação em nossa pesquisa, com os anexos rurais: Varanda e cozinha.


























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Seminário de Corupá visto  do Mirante do Morro Süssenbach,



Mirante do Morro Süssenbach.





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Esta tipologia é muito interessante. Sua abertura são peculiares e diferentes daquelas que normalmente eram usadas nas casas da região.







Edificação que está recebendo atenção do poder público de Corupá. Uma tipologia característica do norte da Alemanha, construída com a técnica do Backstein, mas com a volumetria típica da casa enxaimel.



Edificação que está recebendo atenção do poder público de Corupá. Uma tipologia característica do norte da Alemanha, construída com a técnica do Backstein, mas com a volumetria típica da casa enxaimel.




Tipologia enxaimel com fechamento em madeira.

Qual a história da família que construiu esta casa?





Após a observação de parte do patrimônio de Corupá, fomos recebidos por um grupo local para um café e também para realizar trocas sobre o patrimônio e a importância do trabalho de Paulo Henrique Siegel. Após o café, fizeram uso da palavra: nós, Ingelore Werner Eipper (primeira-dama) e o pesquisador e agrimensor Paulo Henrique Siegel.

As falas no Jardim de Charlotte - Corupá SC
Estiveram presentes no encontro da tarde, durante o café no Jardim de Charlotte: Paulo Henrique Siegel, Fernanda Siegel, Anita Siegel, a arquiteta Susan Eipper, Marco de Vries, Ingelore Werner Eipper, o prefeito de Corupá  Eddy Edgard Eipper, a Secretária de Turismo Glauce Inês de Araújo, o arquiteto da prefeitura Adrian Fuchs Fey, Christi Fuchs Fey, Rosane Graff  do Instituto Carlos Rutzen e Giuliano Berti, do Seminário Sagrado Coração de Jesus.
Marco de Vries, Paulo Henrique Siegel, Glauce Inês de Araújo, Angelina Wittmann, Christi Fuchs Fey e Adrian Fuchs Fey.

No dia seguinte, o casal Eipper e família ofereceu um almoço em sua residência para nós, Christl Fuchs Fey e para a família do pesquisador Paulo Henrique Siegel. Ofertamos parte de nossos títulos à pesquisa de Corupá.
Paulo Henrique Siegel e Ingelore Werner Eipper.


Ingelore Werner Eipper.


























Com a Arquiteta Susan Eipper e sua mãe, Ingelore Werner Eipper. Susan trabalha na Bauhaus, Alemanha. Tivemos a oportunidade de conhecê-lo, através das "pontes" construídas por Fernanda Siegel.





Muito obrigada pela oportunidade.
Um registro para a História.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
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