quinta-feira, 18 de junho de 2026

Uma volta em Itajaí a partir do NGI Sul Ferry Boat Itajaí - uma alternativa de transporte na foz do Rio Itajaí-Açu

Casa Malburg - de Nikolaus Malburg.

Sempre é novo, embarcar no Ferry Boat, em Navegantes, cuja passagem é $R2,00, atravessar a Foz do Rio Itajaí-Açu e desembarcar em Itajaí, percebendo ainda o casario na passagem onde imigrantes de Blumenau, do século XIX tiveram seus primeiros empregos, como é o caso da Casa Malburg - de Nikolaus Malburg.

Casa Malburg, Itajaí.
Relembrando um pouco, historicamente, o embrião da cidade de Itajaí nasceu e se desenvolveu em torno do curato, fundado para este fim no início do século XIX. Não foi diferente em inúmeras cidades do Vale do Itajaí: os núcleos urbanos se desenvolviam no entorno da igreja. Com isso, em 5 de maio de 1835, foi criada a Lei Provincial Nº 11, através da qual foram fundadas duas colônias na Freguesia do Santíssimo Sacramento do Itajaí — um caminho novo para os imigrantes que se mudavam da Colônia de São Pedro de Alcântara, considerada, a partir de então, o centro emissor de correntes migratórias internas. A partir deste momento histórico, famílias de imigrantes subiram o Vale do Itajaí via Itajaí, antes mesmo de ser fundada a Colônia Blumenau. A partir da Lei Provincial mencionada anteriormente, foram criadas uma colônia no arraial Pocinho e outra no Itajaí-Mirim, com o Arraial Tabuleiro. Do desenvolvimento destes, surgiram outros dois núcleos, que são: Belchior e Ribeirão Conceição (atual Gaspar). Nesta época, toda esta região, desde o mar até o Alto Vale, pertencia à jurisdição do município de Porto Belo. A nova lei estabelecia que cada imigrante tinha o direito a uma porção de terra.
Com a fundação da Freguesia do Santíssimo Sacramento do Itajaí na foz do grande Rio Itajaí-Açu — a "porta do Vale do Itajaí" —, acelerou-se o processo migratório para a região do Vale do Itajaí, que iniciou antes da vinda de Hermann Blumenau para a região.
Estas movimentações sociais do início do século XIX foram acontecendo de maneira muito natural, após a migração interna ou a partir dela. O Porto de Itajaí ficava entre o Pontal do Norte e a Ponta Cabeçuda, ao sul. Na frente do ancoradouro onde ficavam as embarcações dos primeiros imigrantes que chegavam à região, existia somente a Fazenda do Arzão — que passou então ao administrador da Freguesia do Santíssimo Sacramento do Itajaí, o Major Agostinho Alves Ramos. A fazenda fora residência de João Dias de Arzão, companheiro do fundador de São Francisco do Sul em 1658, e por isso era conhecida por esse nome. João Dias de Arzão era oriundo de São Paulo e sua família procurava minas de ouro e outros metais preciosos pelo interior do Brasil. Naquele ano, ele requereu e obteve uma sesmaria — que era um lote colonial — às margens do Rio Itajaí-Açu, em frente à foz do Rio Itajaí-Mirim, e ali construiu sua casa. Não tinha a intenção de fundar uma povoação. Seu interesse, como o de todo bandeirante paulista, era encontrar ouro, mas não obteve o sucesso desejado.
Major Agostinho Alves Ramos.
O imigrante português Agostinho Alves Ramos, o administrador, quando conheceu o local nas proximidades da foz do Rio Itajaí-Açu, viajava em busca de negócios, e o lugar lhe despertou ideias. Este português vivia em Nossa Senhora do Desterro, onde era sócio de uma pequena venda. Cabe lembrar também que, no início do século XIX, a viagem via modal marítimo era muito comum na costa brasileira. Em uma dessas viagens, Agostinho Alves Ramos visitou pela primeira vez a foz do Itajaí-Açu. Tanto gostou que se mudou para o local e requereu ao Bispo do Rio de Janeiro a fundação de um Curato, o que aconteceu em 31 de março de 1824. 
Para esclarecer, curato é um termo religioso derivado de cura (ou padre), usado para designar aldeias e povoados com as condições necessárias para se tornarem uma paróquia; geralmente, as cidades surgiam no entorno de uma igreja. O que de fato aconteceu: com a criação do Curato do Santíssimo Sacramento, estava fundada Itajaí.
Vila de Itajaí em 1884.
Construídas uma pequenina capela e o cemitério aos fundos, o núcleo logo começou a atrair outros residentes. Entre eles, a liderança foi exercida por Agostinho Alves Ramos, seu fundador. Neste momento, Itajaí tornou-se a "porta de entrada" de muitos pioneiros que, através do transporte fluvial pelo Rio Itajaí-Açu, partiram para fundar inúmeras cidades da rede urbana da Bacia do Itajaí. Correntes migratórias também vinham pelos "fundos", via Palhoça e São Pedro de Alcântara, e pelo norte, via Porto de São Francisco. Mas, sem qualquer dúvida, Itajaí teve grande importância, contando com a presença do Rio Itajaí-Açu, navegável entre a sede da Colônia Blumenau e o porto marítimo de Itajaí, que mais tarde passou a ser um porto internacional, recebendo navios da Europa e atualmente, da Ásia, onde registramos a entrada de um navio porta-contêineres (ou containership) chines.
Entrando na foz do Rio Itajaí-Açu sendo rebocador por 5 rebocadores.
Porto de Itajaí

A história do Porto de Itajaí iniciou século XIX, muito antes da construção das suas estruturas atuais de concreto, quando a foz do Rio Itajaí-Açu funcionava como um ancoradouro natural estratégico. 
Na segunda metade deste século, o local tornou-se a principal porta de entrada para os migrantes que chegavam ao Vale do Itajaí, registrando um fluxo de passageiros e imigrantes alemães, italianos e poloneses que chegou a superar o da capital catarinense. Como os grandes navios não conseguiam subir o rio devido à baixa profundidade da barra, os imigrantes desembarcavam em Itajaí e seguiam em pequenas embarcações fluviais para fundar cidades como Blumenau e Brusque. 
Obra de Élio Hahnemann de 2002 - retratando a chegada dos primeiros 17 pioneiros, desembarcando na foz do Ribeirão da Velha, fotografado por nós na parede da Fundação Cultural de Blumenau, localizada no edifício da antiga prefeitura municipal.
Esse movimento migratório gerou um comércio intenso nas margens do rio e, à medida que o interior se desenvolvia, o trapiche natural passou a escoar a produção agrícola e a extração de madeira da região.
A necessidade de domar as correntes e a instabilidade da foz do rio levou aos primeiros estudos técnicos e obras dos molhes no início do século XX. 
O terminal comercial foi formalmente inaugurado em 1938, com o primeiro trecho de cais de alvenaria, impulsionando as exportações estaduais. Nas décadas seguintes, o porto passou por sucessivas ampliações e modernizações estruturais até que, em 1995, ocorreu o processo de municipalização. Sob a gestão da prefeitura e com as operações comerciais de contêineres concedidas à iniciativa privada, o complexo portuário viveu um processo de desenvolvimento gradual, consolidando-se como o segundo maior movimentador de contêineres do Brasil.
Em 2022, quando o contrato de concessão de longa data expirou, houve problemas. Impasses políticos, com gestão desastrosa (em uma estrutura que gerava lucros) e atrasos na modelagem de um novo leilão pelo Governo Federal paralisaram completamente a movimentação de contêineres no cais público, deixando o porto vazio por quase dois anos e ocasionando prejuízos econômicos para toda a região.
O cenário atual, se encontra em plena recuperação operacional. O porto foi refederalizado pelo Ministério de Portos e Aeroportos, que transferiu a gestão e regulação da autoridade portuária temporariamente para a Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba), servindo como uma etapa de transição até a criação definitiva da estatal regional Docas de Santa Catarina. 
Na área comercial, a JBS Terminais assumiu a operação sob um contrato transitório. Sendo assim, o Porto de Itajaí reativou seu pátio de contêineres e opera mais de dez linhas regulares de longo curso para mercados globais e está sendo preparado para o leilão de arrendamento definitivo de longo prazo.
Há muita coisa nesta história que precisaria ser melhor detalhada, como um registro sério para a história.
Porto de Itajaí.
Mercado Público de Itajaí

O Mercado Público de Itajaí foi inaugurado em 1º de janeiro de 1917, na gestão do superintendente municipal Coronel Marcos Konder. pai de Gustavo Adolpho Konder, nascido em Itajaí e que, quando adulto, residia em Blumenau e escrevia crônicas. Em uma destas, denunciou o algoz do Gottlieb Reif, de Itajaí e que o fez mudar-se para o Alto Vale do Itajaí e fundar Pouso Redondo.
Construído às margens do Rio Itajaí-Açu, o espaço foi criado para centralizar o comércio de carnes, grãos, verduras e peixes, que antes ocorria em feiras livres na rua. 
Deveria ser o primeiro edifício, pois não tem nada de art decó.
O abastecimento do local dependia do transporte marítimo e da produção das colônias agrícolas locais.
Em 1936, o edifício passou por uma reconstrução devido a um incêndio que destruiu a estrutura original. O novo projeto arquitetônico adotou traços do estilo art déco na fachada e manteve um pátio interno com chafariz central. Sua estrutura é em enxaimel. 
Com a expansão dos supermercados ao longo do século XX, o mercado perdeu a função de principal entreposto de abastecimento da cidade. 
Posteriormente, o patrimônio foi tombado como patrimônio histórico municipal e estadual, passando por reformas estruturais para mudar o seu uso.
Os boxes de venda de alimentos foram convertidos em restaurantes de frutos do mar e lojas de artesanato. O pátio central tornou-se um espaço para apresentações musicais e um local de encontros. Atualmente, o complexo está integrado ao Mercado do Peixe, localizado no edifício anexo.
Estrutura de madeira encaixada.






Estrutura em enxaimel.
As imagens comunicam - uma volta em Itajaí 2026...
Chegando no Ferry Boat à pé, pela rua da Prefeitura de Navegantes.






































































Praça Vidal Ramos

A Praça Vidal Ramos, conhecida também como Largo da Matriz Velha, é o espaço público mais antigo e histórico da cidade de Itajaí. Está localizada no Centro Histórico de Itajaí - é o "marco zero" da cidade. Em um dos seus lados, está localizada a Igreja Imaculada Conceição. Em 1910, foi batizada com esse nome em homenagem ao ex-governador de Santa Catarina, Vidal Ramos. A praça está localizada próxima ao Rio Itajaí-Açu, o que permite aos visitantes observar o movimento de navios e outras embarcações.
Seus espaços abrigam monumentos dedicados a figuras históricas da região, como Lauro Müller, Elisabeth Malburg e Santa Paulina, consolidando-se como um patrimônio cultural, ponto focal e ponto de encontro tradicional de Itajaí.

Igreja Imaculada Conceição - Marco Zero - Praça Vidal Ramos (Busto).
Casa Burghardt 

Característica do barroco alemão - construções do início
 do século XX em Itajaí SC.
A Casa Burghardt foi construída em 1902 pelo pioneiro August Heinrich Ernest Henry Hundt, ou Harry Hundt. A edificação, com uso misto (comercial e residencial), foi projetada pelo arquiteto alemão Reinhold Roenick. Em seu ambiente comercial (pavimento térreo), funcionava a conhecida "Casa de Louça de Harry Hundt", e a residência da família estava no segundo pavimento da edificação.
Com o falecimento de Hundt, em 1903, sua viúva, Matilde, assumiu os negócios e, em 1910, casou-se com Nikolau Burghardt.
O casarão foi construído no estilo eclético, como o Mercado Público, com predominância das linhas barrocas. Aliás, os frontões lembram muito os frontões que existiam no antigo edifício do Mercado Público da cidade.
Casa Konder

A Casa Konder, que está localizada na Rua Lauro Müller, nº 83, foi construída entre 1894 e 1897, também pelo arquiteto-construtor alemão Reinhold Roenick, para ser a residência de Marcos Konder. Ao longo de sua história, o edifício foi comitê na campanha civilista de Rui Barbosa (1910), além de abrigar bancos, repartições públicas e a tradicional livraria Casa Aberta.
O patrimônio é formalmente protegido como patrimônio histórico municipal e estadual, pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC). Sua arquitetura exibe um estilo eclético com traços neoclássicos, caracterizado por uma fachada térrea simétrica com aberturas em arcos plenos, um eixo central destacado por uma mansarda superior com sacada em gradil de ferro e um frontão triangular ornamentado no topo da estrutura.









Casa da Cultura Dide Brandão - antigo Grupo Escolar Victor Meirelles

O Grupo Escolar Victor Meirelles foi inaugurado em 4 de dezembro de 1913. Foi o primeiro grupo escolar de Itajaí e um dos pioneiros de Santa Catarina.
O edifício original da escola está localizado na Rua Hercílio Luz. A edificação foi tombada como patrimônio histórico estadual e municipal.
No início da década de 1980, as atividades pedagógicas deixaram o patrimônio e foram realocadas em um novo edifício construído nos fundos do terreno original, permitindo que a antiga sede tivesse seus ambientes usados para a Casa de Cultura Dide Brandão, no local desde 1982.
Casa da Cultura Dide Brandão - feira de artesanato culturada.
Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento
A Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, localizada no centro de Itajaí, foi inaugurada em dia 15 de novembro de 1955, após décadas de esforço comunitário para a sua construção, a edificação foi projetada pelo Simão Gramlich. O estilo arquitetônico mescla elementos do neogótico e do românico.
O exterior é marcado por linhas verticais acentuadas, arcos ogivais e seis grandes torres, sendo as duas principais com 50 metros de altura, que dominam a paisagem urbana local.
Em seu interior, o templo é uma verdadeira galeria de arte sacra monumental. As paredes e tetos são decorados com afrescos e pinturas detalhadas dos renomados artistas italianos Aldo Locatelli e Emílio Cessa, que retratam passagens bíblicas cruciais com grande realismo e expressividade. A iluminação natural é filtrada por mais de 50 vitrais coloridos. No interior há uma obra, Moisés com as Tábuas da Lei, esculpida pelo artista expressionista blumenauense Erwin Curt Teichmann, considerada a maior escultura sacra em peça única de madeira do estado. 
Está localizada na Praça Governador Irineu Bornhausen.
Igreja Matriz - Paróquia Santíssimo Sacramento - Itajaí SC

Avenida Coronel Marcos Konder.
Museu Histórico de Itajaí - Palacete Marcos Konder

O Museu Histórico de Itajaí está localizado no Palacete Marcos Konder, inaugurado em 22 de outubro de 1925 e tombado como patrimônio cultural. Foi idealizado pelo superintendente de Itajaí, Marcos Konder, que pretendeu centralizar as atividades públicas locais em um único edifício. O edifício foi projetado por Jacob Goettmann em estilo eclético. Sua fachada exibe três torres distintas que quebram os paradigmas arquitetônicos da região e simbolizam, politicamente, a harmonia entre os três poderes da República: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Antes de se tornar um espaço cultural, o palácio concentrou toda a vida administrativa regional e abrigou simultaneamente a Prefeitura, a Câmara de Vereadores e o Fórum da comarca de 1925 até 1953. Originalmente batizado de Palacete Municipal, o edifício recebeu o nome de Palácio Prefeito Marcos Konder em 1962, como forma de homenagem. O local foi tombado oficialmente como patrimônio histórico pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) em 2001.
Atualmente, o acervo do museu reúne mais de 16 mil peças, que incluem mobiliário antigo, pratarias, rádios, uniformes militares e itens de uso pessoal.
O museu fica na Rua Hercílio Luz, número 681, no Centro de Itajaí.











Igreja Matriz Nossa senhora dos Navegantes - Navegantes.

Vídeo

Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Qual a origem etimológica e o significado do termo "Enxaimel" - em alemão - Fachwerk

Meyer & Spierling - Stadtplatz de Blumenau - Palmenallee.
 

Pesquisador Günter Weimar - UFSC, 2008.
A primeira vez que lemos o termo "enxaimel" foi na publicação do arquiteto gaúcho Günter Weimer, no início da década de 1980. Depois encontramos publicações regionais, no Vale do Itajaí, onde encontramos a expressão escrita diferentemente. Lemos em textos técnicos a palavra "enchaimel" e, sem saber, censuramos, achando que o autor/pesquisador estava equivocado, o que pode não ser bem assim.

Outro dia alguém nos perguntou: o que significa, especificamente, "enxaimel" e sobre sua origem sob a ótica etmonológica?
Resolvemos, então, buscar essa resposta e constatamos que o termo "enchaimel" pode ser que não esteja totalmente errado como imaginávamos.
Braço do Trombudo SC.
De acordo com Weimer, a palavra "enxaimel" não é alemã e nem árabe. O arquiteto defende que a palavra "enxaimel" já existia no vocabulário ibérico medieval muito antes da chegada dos alemães ao Brasil.
Descreve que o termo se reporta ao "mobiliário" (prateleiras). Explica que, na carpintaria luso-brasileira, o vocábulo original designava peças isoladas de madeira, caibros de suporte ou estruturas de armações horizontais e verticais — isto é, o esqueleto de marcenaria usado para erguer estantes, jiraus, estrados e prateleiras de secagem ou exposição de mercadorias. Lembramos que a estrutura de madeira encaixada não se limita somente à construção de edifícios, mas também de máquinas e mobiliário.

Estrutura sem fechamento, que lembrava a estrutura de prateleiras.
Com trama de madeiras a partir da conexão de peças de madeiras
horizontais, verticais e inclinadas.
Quando os primeiros imigrantes alemães começaram a construir o Fachwerk no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, representantes oficiais do Estado, engenheiros luso-brasileiros e vizinhos que documentavam as colônias usaram o termo técnico de marcenaria que mais se assemelhava visualmente àquela estrutura. Eles olhavam para a casa sem o fechamento (seja de tijolos, madeira ou de taipa) e viam uma grande armação vazada cheia de nichos, idêntica a uma grande estante ou estrutura de prateleiras. O termo técnico de mobiliário foi, portanto, "emprestado" para a arquitetura. Faz muito sentido.
Se for observada a tradução literal de Fachwerk, temos “construção em prateleiras", e através dela se designa uma construção onde as paredes são estruturadas por uma trama de madeira conseguida a partir da conexão de peças horizontais, verticais e inclinadas, encaixadas entre si, e cujos tramos (em alemão: Fach, pl. Fächer) são posteriormente preenchidos com fechamentos que podem ser de taipa, adobe, pedra, tijolos, madeira, paneis industrializados, vidro, etc.
Trama estrutural de madeira com fechamento de vidro e de tijolos rebocados.

De acordo com o Dicionário da Arquitetura Brasileira, de Corona e Lemos, enxaimel é: 

1) uma parede interna de taipa; 
2) um pau a prumo ou inclinado que recebe ripas; 
3) o mesmo que taipal;
4) sinônimo de esteio, nos mocambos de taipa nordestinos. 
Nesses conceitos, a palavra "enxaimel" sempre tem relação com uma peça de madeira e não, como no alemão, com uma estrutura composta de muitas peças de madeira encaixadas e conectadas estruturalmente. A palavra enxaimel, em toda a nossa pesquisa, sempre deve ser entendida como no alemão: elementos estruturais de madeira conectados entre si.

Outras fontes definem que a palavra "enxaimel" é derivada do termo antigo "enchaimel", que significa "enchimento". Com isso, não está errado o termo "enchaimel" que encontramos na década de 1990, em textos antigos, na região, relacionados às primeiras pesquisas sobre o conceito. O pioneiro na pesquisa nesta região foi o Dr. Vilmar Vidor, arquiteto e professor, doutor pela Sorbonne e fundador do segundo curso de Arquitetura e Urbanismo de Santa Catarina — na FURB, Blumenau.
Uma das fotografias que o Professor Vilmar Vidor mais gostava. Curso de restauro de estrutura enxaimel ministrado por Manfred Gerner - um dos maiores nomes da pesquisa do Fachwerk - Enxaimel, na Alemanha - 12 a 16 de agosto de 1996. O encontro e o curso foi idealizado e promovido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Blumenau - IPPUB - neste tempo Vilmar Vidor foi seu Presidente.
Concluímos, portanto, que a origem da palavra "enxaimel" é, de certa maneira, incerta e divide linguistas e historiadores, pois o termo já existia na língua portuguesa muito antes da chegada dos imigrantes alemães ao Brasil. A principal linha etimológica aponta para o termo antigo "enchaimel", tal como encontramos em textos antigos da década de 1990, na região do Vale do Itajaí, que significa "enchimento". 

Além desta reflexão ainda há mais duas reflexões para a evolução dessa palavra que devem ser consideradas. 
A origem do "enxaimel" na língua portuguesa:

  • Origem Latina: Estudiosos apontam que a palavra evoluiu a partir do latim vulgar. O termo descrevia o ato de preencher os vãos de uma estrutura. Originalmente em Portugal, o termo "enchaimel" descrevia cada uma das estacas ou tabuões de madeira que sustentavam o barro amassado nas construções tradicionais de taipa. Quando os portugueses viram uma das técnicas das construções alemãs (com estrutura independente de madeira preenchida), o termo passou, então e denominar essa técnica construtiva, em solo brasileiro.
Casa enxaimel onde viveu a professora da E.B.M Machado de Assis - Professora Norma Dignart Huber, cujos alunos ainda andam por aí. A Professora Norma lecionou na E.B.M Machado de Assis - Antiga Escola Alemã Altona, na décadas de 1960 e 1970. Foi demolida para dar lugar para um edifício. O desenho da rua, foi modificado em projeto do IPPUB - em respeito ao patrimônio, não considerado posteriormente.
  • Origem Germânica Antiga: Outros pesquisadores, sugerem uma raiz no alto-alemão antigo (Mittelhochdeutsch, do período entre 1050 e 1350). A palavra derivaria de Vach (que significa "pau" ou "painel de madeira"), a mesma raiz que gerou a palavra alemã moderna para a técnica: Fachwerk.

Embora a técnica construtiva que conhecemos no Sul do Brasil tenha sua origem no enxaimel originário na Alemanha, a palavra enxaimel é um termo da própria língua portuguesa adaptado para descrever esse método de "encher" paredes estruturadas em madeira, que  Günter Weimar denominou "prateleiras".







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Um registro para a História.
 
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Referências
  • CORONA, Eduardo; LEMOS, Carlos A. C.. Dicionário da Arquitetura Brasileira. -2. ed. fac-similada. - São Paulo: Companhia das Artes, 1998. - 472p. :il.
  • WEIMAR, Günter. A arquitetura da imigração alemã; um estudo sobre a adaptação da arquitetura centro-europeia no meio rural do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Ed. da Universidade, UFRGS, São Paulo, Nobel, 1983. 296p. ilust.
  • WITTMANN, Angelina. Fachwerk: a técnica construtiva enxaimel. - 1. ed. - Blumenau, SC :AmoLer, 2019. - 405 p. : il.