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terça-feira, 17 de junho de 2025

Dr. Alfredo Höß - da Faculdade de Medicina de Viena, dos hospitais de campanha russos - 1ª Guerra Mundial - até hospitais de Blumenau

Dr. Alfredo Höß e os hospitais Misericórdia da Vila Itoupava e Santa Isabel da centralidade de Blumenau. Trabalhou 7 anos no Hospital Misericórdia, conhecido na época como o Hospital do Dr. Höß, edifício inaugurado em 1923 e que ainda está na paisagem da Vila Itoupava. Depois trabalhou 21 anos no Hospital Santa Isabel, cujo edifício foi inaugurado em 1916 e não está mais na paisagem. Só para lembrar que a centenária universidade onde Dr. Höß cursou medicina, Universidade de Viena, fundada em 12 de março de 1365, também ainda está na paisagem de Viena, Áustria.

Alfredo Höß foi um médico austríaco que chegou a Blumenau aos 29 anos, em 8 de dezembro de 1921. Recebeu o convite do farmacêutico Max Haufe residente na região, para dirigir um hospital que, posteriormente, ajudou a construir, no território que à época era parte da povoação de Massaranduba, então distrito de Blumenau e depois, por 21 anos foi Diretor do Hospital Santa Isabel.
Dr. Alfredo  Höß  em Vila Itoupava, Blumenau.
Ele nasceu na cidade austríaca de Meggenhofen, distrito de Grieskirchen, no estado de Alta Áustria, em 29 de abril de 1892, filho de August Höß e de Maria Höß
Foi prisioneiro de guerra na Rússia e também esteve parte da equipe que prestava atendimento voluntário aos feridos de guerra, independentemente do lado que estivesse o ferido. Vamos conhecer esta história.


Ainda criança, Alfredo Höß iniciou seus estudos primários no ginásio episcopal "Colegium Petrinum Linz", no bairro de Linz, às margens do rio DanúbioUhrfahr.

Universidade Imperial de Viena, onde Höß cursou medicina
Na sequência de seus estudos, Alfredo Höß, integrou o Ginásio Estadual de Wels, também na Áustria. Em 1911 ingressou no curso de medicina na Universidade Imperial de Viena, cujos estudos teve que interromper quando, com o início da 1ª Guerra Mundial em 28 de julho de 1914. contava com 22 anos de idade. Mesmo sem estar formado, foi convocado para o serviço militar no exército austríaco, atuando como oficial-médico no Regimento Imperial Tirolês. Era um garoto ainda se lembrarmos que nasceu em 1892. Quando a guerra terminou e chegou ao fim de seu estágio forçado, Alfredo tinha somente 26 anos. Com este regimento foi para a frente russa, sob o comando do General Auffenberg e dentro deste, esteve na primeira frente. Alfredo  Höß, que não abandonou seu posto no hospital de campanha, e lá, foi feito prisioneiro dos russos e transferido para o interior da Sibéria. Logo que tomaram conhecimento que o prisioneiro era estudante de medicina, prestes a se formar, seus algozes libertaram-no para que pudesse prestar seus serviços junto aos feridos, quando foi designado para atender a estes no campo de prisioneiros.
Na 1ª Guerra Mundial, estava muito longe de seu Heimat, trabalhando  em hospital de campanha de guerra em território russo, atendendo a feridos de guerra. Adquirindo aprendizado na área da cirurgia de maneira prática e dolorida. Ainda faltava um ano para concluir seu curso de medicina, feito após o término da guerra.
 Se, já na faculdade, Alfredo  Höß dera provas de perícia na arte operatória, mostrou-se, nos hospitais de sangue, um cirurgião hábil, abnegado, verdadeiramente compenetrado da sua responsabilidade. Trabalhava, muitas vezes, por vinte e quatro horas consecutivas, sempre alegre e sempre disposto a atender onde quer que fosse preciso a sua presença . Quando, dominado pelo cansaço, necessitava de algum repouso, deitava-se em qualquer canto do hospital, em que trabalhava, apenas os minutos necessários ao retemperamento momentâneo de suas forças. Não raro, teve que fazer longos percursos em trenós, sobre o gelo, atravessando lugares perigosos, habitados por feras, às quais, mais de uma vez, fora obrigado a atirar cães vivos para escapar, ele próprio, com vida. Nesse trabalho sobre-humano, numa demonstração magnífica de solidariedade para com o próximo, mesmo quando inimigo, e de arraigada afeição à missão que abraçara, o Dr. Alfredo  Höß permaneceu, até 1918, quando, ao término da guerra, regressou à Viena, terminando o curso no ano seguinte. Clinicou em Viena e, posteriormente, entrou para a Clínica Universitária de Linz, também na Áustria. Revista Blumenau em Cadernos
Um dos muitos hospitais de campanha da 1ª Guerra Mundial, ambiente de trabalho voluntário de Alfredo  Höß. 
Na Sibéria, empenhou-se em favor dos prisioneiros, junto ao comando russo. Um tempo depois, foi designado para atender aos doentes no campo de prisioneiros. Em 1915 foi promovido, pelo Comando russo, ao posto de oficial-médico e transferido ao Ural do Norte, onde, no Hospital Central da cidade de Bogoslovskiy Zewod, trabalhou sob as ordens e orientação do Dr. Ivan Iwanowitsch. Este médico havia se aperfeiçoado e especializado, antes da guerra, em grandes clínicas da Europa, como por exemplo na França, em Paris e nos melhores centros cirúrgicos da Alemanha, adquirindo experiência em cirurgia, compartilhando-os, durante os seus trabalhos em equipe, durante a guerra, com Alfredo Höß, quando percebeu seu grande interesse no aprendizado prático da cirurgia e em ajudar no quadro no qual estavam inseridos.
Se há um contemporâneo que mereça a estima, o respeito, a consideração dos habitantes do Vale do Itajaí, esse é o Dr. Alfredo Hoess que, durante muitos anos, foi diretor do Hospital Santa Isabel, de Blumenau.
Dotado de extraordinária. capacidade profissional, alia aos seus predicados de médico competente, uma bondade e uma dedicação à toda prova e que lhe conquistaram verdadeira veneração de quantos já necessitaram de seus cuidados. 
Nasceu na Alemanha, em 22 de abril de 1890. Terminados os estudos primários, ingressou na Faculdade de Medicina de Viena, tendo sido obrigado a interromper os estudos em 1914, a fim de seguir para a frente de batalha, como oficial. Mal chegado ao front, foi aprisionado pelos russos e levado para o Ural. Sabendo-o estudante de medicina, prestes a colar grau, os inimigos libertaram-no para que pudesse prestar serviços profissionais junto aos feridos. Se, já na faculdade, Alfredo Hoess dera provas de perícia na arte operatória, mostrou-se, nos hospitais de sangue, um cirurgião hábil, abnegado, verdadeiramente compenetrado da sua responsabilidade. Trabalhava, muitas vezes, por vinte e quatro horas consecutivas, sempre alegre e sempre disposto a atender onde quer que fosse precisa a sua presença. Quando, dominado pelo cansaço, necessitava de algum repouso, deitava-se em qualquer canto do hospital, em que trabalhava, apenas os minutos necessários ao retemperamento momentâneo de suas forças. 
Não raro, teve que fazer longos percursos em trenós, sobre o gelo, atravessando lugares perigosos, habitados por feras, às quais, mais de uma vez, fora obrigado a atirar cães vivos para escapar, ele próprio, com vida.
Nesse trabalho sobre-humano, numa demonstração magnífica de solidariedade para com o próximo, mesmo quando inimigo, e de arraigada afeição à missão que abraçara, o Dr. Hoess permaneceu, até 1918, quando, ao término da guerra, regressou à Viena, terminando o curso no ano seguinte. Clinicou em Viena e, posteriormente, entrou para a Clínica Universitária de Linz, também na Áustria. Salomão Mattos

Em palavras com a partícula "oe, como no caso no nome de família de Alfredo, "Hoeß" pode ser substituído por "ö". A letra "ß" do "Höß", no alemão substitui "SS". Isto explica que o nome "Hoess", em alemão é escrito como  "Höß", como escreveremos neste artigo.
Quando terminou a 1ª Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918,  Höß retorna para o curso em Viena e no ano seguinte, enfim, colou grau em medicina, na Universidade de Viena. Especializou-se em cirurgia e um de seus professores foi V. Eiselberg, considerado por ele, um de seus melhores professores e no qual se espelhou. Iniciou sua carreira pós formatura como médico-assistente no Hospital de Linz, na Áustria. Permaneceu em Linz até receber o convite do farmacêutico Max Haufe residente na região da atual Vila Itoupava, em 1921, para dirigir um novo hospital que se encontrava ainda em projeto. Quando aceitou a proposta, despertou reações de seus colegas de profissão, na Áustria, que consideraram sua partida, uma perda imensurável para o hospital onde trabalhavam. Isso não impediu a mudança do médico austríaco para Blumenau, Brasil, ainda em 1921. Contava com 29 anos e muita experiência profissional.
Em solo brasileiro tomou providências para regularizar sua situação profissional perante as autoridades sanitárias brasileiras e revalidou o seu diploma para então, iniciar seus trabalhos no então distrito de Blumenau, Massaranduba, que na época também ocupava o território da atual Vila Itoupava. O terreno, no qual foi construído, faz parte do atual território de Vila Itoupava, como também, o local onde fixou sua residência, na época Itoupava Rega (conhecida como Itoupava-Rega Baixa), que é, o atual distrito de Blumenau, Vila Itoupava. 
Enquanto o novo hospital não ficava pronto, o primeiro consultório foi montado em uma estrebaria reformada, cujo ambiente, também foi usado  para pequenas cirurgias. A localização atual é onde fica o pavilhão 1 da Haco Etiquetas. A sua primeira cirurgia foi feita em Emil Kobs, um caso de hérnia e foi amplamente propagado quase de maneira festiva. Kobs faleceu somente em 1984 e teve uma vida longa e saudável. O trabalho do Dr.  Höß não parou mais na região.
Entregou-se plenamente ao atendimento das famílias residentes na área rural dessa região de Blumenau.

[...], fazendo muitas vezes estafantes viagens, cavalgando de dia ou de noite, às mais afastadas "tifas", em atendimento aos doentes impossibilitados a vir à sua clínica particular, improvisada em sua residência. Blumenau em Cadernos TomoII,  maio de 1959, nº5

No primeiro momento de contato com a comunidade, Dr. Höß percebeu a prioridade da construção do hospital e coordenou os trabalhos, com o apoio de muitas pessoas dessa comunidade, como: Max Haufe, Max Wulf, Henrique Feldmann, Emílio Manke, Ervin Manzke, Frederico Kilian e outros. Para gerir o projeto, foi fundada a Sociedade Beneficência Misericórdia de Massaranduba. Construíram o hospital em um terreno adquirido pela sociedade fundada. 
Pouco mais de um ano após sua chegada à região (8 de dezembro de 1921), em 22 de maio de 1923, foi lançada a pedra fundamental do hospital, que ainda não era chamado de Hospital Misericórdia. A obra ficou sob a coordenação do mestre-de-obras Hugo Loth
Lembramos que na época a região tinha laços com a povoação de Massaranduba e era conhecida como Itoupava Rega Central. A direção e a administração do ficou sob os encargos do Dr. Höß, que de acordo com inúmeros depoimentos encontrados  e textos locais, o médico o fez com maestria e se entregou ao seu trabalho de corpo e alma.

  [...]Dr. Hoess dedicou-se com entusiasmo e amor ao engrandecimento deste nosocômio entregue à sua competência profissional e administrativa, em prol dos doentes da localidade e dos arredores, que nele encontraram mais do que um médico, um pai e amigo. Blumenau em Cadernos TomoII,  maio de 1959, nº5
 
Dr. Alfredo  Höß em seu Dodge Standard Series DA Six Phaeton - 1929, dirigindo na Vila Itoupava. Fonte: Vila.Tur.

Dr. Alfredo Höß
e sua família, esposa e filha moravam em uma residência grande e muito bem cuidada na região, onde atualmente está localizada a Vila Itoupava. A pessoa responsável pela manutenção do grande jardim da família foi Fredolino Nicolau Junkes. O filho de Fredolino, Heriberto Junkes, nos contou que o nome do hospital construído, coordenado e usado, pelo médico austríaco como ambiente de suas consultas era chamado, em todas as regiões de Blumenau, de Clínica ou, Hospital do Dr. Alfredo Höß. Não existia o nome Hospital Misericórdia.
A filha do Dr. Alfredo  Höß, na frente de sua residência, onde hoje é Vila Itoupava. Ano 1934.
Hospital Santa Isabel - Blumenau

Irmã Superiora do Hospital Santa Isabel
na década de 1930
.
Por 10 anos Dr. Höß  trabalhou  no "Hospital Dr. Höß" e as informações de seu bom trabalho prestado à comunidade local ficou conhecida em toda a região e também fora dela. 
Em 1930, o Hospital Santa Isabel da centralidade de Blumenau contratou o Dr. Alfredo  Höß. Contam que a Irmã Aluisianis, Superiora do Hospital Santa Isabel foi até a Vila Itoupava convidá-lo para trabalhar no Hospital católico do centro de Blumenau.
A comunidade de Vila Itoupava preparou um jantar de despedida do aplicado e competente médico para cerca de 250 pessoas, oriundas de todo o distrito de Massaranduba, de Itoupava Rega, Itoupava Alta e Central, Luiz Alves, Testo-Rega, Braço do Serafim e outras localidades, que se consultavam com o Dr. Höß. O cargo de médico do, que depois de sua saída seria chamado de Hospital Misericórdia, foi ocupado pelo médico alemão  Dr. Hans Mueller.
Não demorou muito, Dr. Alfredo  Höß assumiu a direção do Hospital Santa Isabel, atuando primeiramente sozinho, com o auxílio das irmãs, mas não demorou muito s recebeu assistência do Dr. Paulo Pedro Mayerle (de família de Joinville ).
10 anos antes de se aposentar. Seu nome  está
 correto. Foi "abrasileirado" para "Alfredo".
 Por um grande período, Dr Mayerle foi o médico-assistente  do Dr. Alfredo  Höß,  nas intervenções cirúrgicas.
Dr. Alfredo  Höß trabalhou  em torno de 21 anos no Hospital Santa Isabel, até se aposentar  em 1951com somente 59 anos de idade. Isso despertou nossa curiosidade e ficará em aberto até descobrirmos o motivo, pois Dr. Alfredo  Höß foi um médico experiente e com um currículo, muito bom.
Em 7 de novembro de 1959, pela Lei N°. 911, a Câmara Municipal de Blumenau lhe concedeu o título de "Cidadão Blumenauense".
Hospital Misericórdia - Vila Itoupava - Blumenau

O Hospital Misericórdia, foi construído na forma de mutirão de famílias da comunidade capitaneadas pelo Dr. Alfredo Höß e foi inaugurado em 22 de fevereiro de 1923. foi construído com técnica construtiva enxaimel, talvez a última tipologia com dimensões monumentais, construídos em Blumenau e que ainda se encontram na paisagem. 
A ala histórica e mais antiga, construída em original enxaimel a partir de uma composição simétrica com jogo de talhados e varanda fechada com característicos guarda-corpos em madeira trabalhada - estão usados na parte dos "fundos" do complexo como parte de serviços - outrora localizado paralelamente à rua principal Henrique Conrad, onde as pessoas tinham acesso, a pé por essa rua. Atualmente não mais. O acesso é feito pela rua Max Haufe - com automóvel - onde está a ala principal construída com alvenaria decorada com aparência de "enxaimel".
Localização do Hospital Misericórdia.
A antiga nucleação urbana que deu origem à Vila Itoupava, no início do século XX, distava aproximadamente 30 quilômetros da centralidade de Blumenau. Nessa época, o distrito possuía em torno de 1000 residentes e era o centro das divisas entre as nucleações de Jaraguá do Sul, Pomerode, Massaranduba, Luiz Alves e Gaspar. Considerando-se que os caminhos eram outros. Devido às grandes distância, os líderes locais dessas comunidades se reuniam para construir um hospital que atendesse a todos e ficava mais perto da cada uma das nucleações - um hospital regional. 
Hospital equidistante das principais nucleações urbanas da época.
Em 1921, com a presença do Dr. Alfredo  Höß na comunidade e com seu auxiliar Max Haufe, viabilizaram a instalação e o funcionamento do primeiro consultório, como mencionado, em uma estrebaria reformada e adequada ao uso. As obras do hospital foram concluídas em fevereiro de 1923, administrada pela fundação da Sociedade Beneficência Misericórdia
Para angariar fundos, foram emitidos Títulos de Contribuição. Ainda em 1923, foi eleita a primeira diretoria, formada por: Presidente: Max Wulf; Secretário: Max Haufe e Tesoureiro: Carl Bauer.
A primeira sede do Hospital Misericórdia  foi construída com a técnica enxaimel - estrutura de madeira e se encontra anexada ao atual complexo hospitalar. O uso atual do nobre  edifício enxaimel  está destinado a serviços, como copa e cozinha e localiza aos "fundos" do atual layout hospitalar. Desperdício de uma originalidade e história locais, raros no território de Blumenau e região. Poderia estar sendo usado como hall e a recepção do Hospital Misericórdia, esses ambientes localizados na nova edificação construída em alvenaria, com faxadismo conhecido como enxaimelóide - Cenário.
Hospital Misericórdia - inaugurado em 1923.
Arquitetura do Hospital Misericórdia - Ala antiga - Enxaimel
Tipologia urbana com a presença do Dachgaube, fachada voltada para a rua principal da povoação com a presença da varanda embutida no corpo do edifício.

Presença do alpendre sobre a porta lateral, elemento da edificação enxaimel urbana.

Estrutura enxaimel monumental cm a presença de aberturas em madeira dotadas de bandeiras com duas folhas de abrir, como eram feitas as tipologias residenciais, em escala menor.


Varanda originalmente localizada na parte frontal do hospital, fechada com guarda corpos de madeira trabalhada, originais. Atualmente está localizada na parte dos "fundos" do complexo hospitalar. Poderia ser mais bem aproveitada.


Subutilizado. A parte mais nobre da edificação histórica é um "depósito".

Janelas com características das janelas das construções feitas pelo imigrante na virada do século XIX para o século XX - tipo duas folhas, envidraças com almofadas. Estado de conservação satisfatório
Aberturas semelhantes àquelas usadas nas tipologias residenciais om a presença da bandeira envidraçada com duas folhas de abrir.
Detalhes construtivos característicos úteis para a montagem da estrutura no local em que serão construídos - os Abbundzeichen. Toda a estrutura é confeccionada em um galpão por profissionais de carpintaria, que marcam seus caibros, para facilitar a remontagem no sítio. Isso também permite sua realocação, com base em uma nova desmontagem e remontagem no mesmo sítio ou em outro. Por isso, para sua manutenção, muitas vezes se faz necessário a desmontagem da estrutura de uma edificação histórica construída com a técnica enxaimel. O Hospital Misericórdia, edificação de grandes proporções localizada na Vila Itoupava apresenta seu fechamento feito com o tijolos queimados - do tipo usado na arquitetura Backsteinexpressionismus - norte da Alemanha.
Detalhes.

A guilda dos carpinteiros não usaria material manuseado por outra guilda – do ferreiro e criou seus próprios pregos – de madeira ou Holznägeln.



Detalhes da fachada lateral esquerda.

Antigos enxertos na estrutura original.

Atualmente o acesso principal do Hospital Misericórdia da Vila Itoupava funciona em uma ala recente, construída em alvenaria colorida, cujo resultado é um cenário pseudo enxaimel, com vigas de alvenaria pintadas de preto. Percebemos que esse uso deveria ser naturalmente feito no edifício histórico - enxaimel, com toda a sua originalidade e com o acesso resgatado para o pedestre oriundo da rua Henrique Conrad - rua principal da Vila Itoupava.
O edifício Histórico está voltado para a principal rua da Vila Itoupava, no entanto é usado como fundos do Hospital Misericórdia, pois são consideradas somente as pessoas que chegam de automóvel. Está subutilizado.

Acesso principal ao Hospital Misericórdia está localizado em um anexo construído posteriormente, em alvenaria, com "maquiagem " de enxaimel, estrutura pintada sobre as paredes revestidas com tijoletas cerâmicas. 
A título de curiosidade, uma irmã de Dr. Alfredo Höß, Maria Höß (1896 - 1960), casada Hoffmann, também veio para o Brasil, incentivada pelo médico. Maria conheceu e se casou com o farmacêutico João Bruno Ricardo Hoffmann, que residia no Rio dos Bugres, atual Alfredo Wagner, antes de abrir sua farmácia na Vila Itoupava. Através de seu documento de óbito, conhecemos os nomes dos pais de Dr. Alfredo Höß: August e Maria Höß.
A Professora Elisabeth Maria Derschum que
comemorou seus 97 anos em 4 de maio de 2025.
Também de acordo com uma família amiga dos Höß, os Goldackers, o Dr. Alfredo  Höß  foi casado com Elisabeth Höß. A casa da família de sua esposa foi bombardeada pelos russos. Ela conseguiu fugir e se tornou enfermeira quando se conheceram. Foi o segundo casamento de Alfredo. Em Blumenau, residiam na Alameda Rio Branco. Quando Dr. Alfredo  Höß faleceu em 1965, Elisabeth voltou para Alemanha. Voltava para Blumenau, para visitar os amigos que deixou na cidade.

Também a Professora Elisabeth Maria Derschum que comemorou seus 97 anos em 4 de maio de 2025, contribuiu com seu comentário para contribuir com esta história.
A Professora Elisabeth disse:

Dr. Höß era estimado por todos. Um excelente médico,  apto para agir em qualquer situação médica. Salvou a vida de muita gente. Meus pais se relacionavam muito bem com ele e com as irmãs do Hospital Santa Isabel. Dr. Höß nos examinou numerosas vezes e seu diagnóstico sempre foi perfeito. Era um homem tranquilo e calado. Dedicado ao seu trabalho. Elisabeth Maria Derschum, 18 de junho de 2024 - 17h20.

No Brasil, bem recente...
Aconteceu na sessão especial, do Senado do dia 22 de fevereiro de 1923, uma homenagem alusiva ao centenário do Hospital Misericórdia de Blumenau, o chamado “Hospital da Vila Itoupava”, construído por iniciativa dos moradores da das comunidades da região liderados por Dr. Alfredo  Höß.
Em 29 de maio de 2023, o Hospital Misericórdia foi lembrado em ato no Senado do Brasil no qual foi citado como fundador da instituição o Dr. Alfredo  Höß.


ESF Alfredo Hoess (Höß) - Vila Itoupava.
O médico austríaco, Dr. Alfred  Höß(Assim era seu nome correto), que fez história na Áustria, na Rússia, na Vila Itoupava e na centralidade de Blumenau faleceu em Blumenau, no dia 4 de outubro de 1965. 
Há uma praça na Vila Itoupava que leva o seu nome (embora o Google não a encontre) e também há uma Unidade de Saúde, localizada na base do elevado em que se encontra o Hospital Misericórdia.
Em 14 de novembro de 1963 foi fundada a Casa São José, na residência que pertenceu ao Dr. Alfredo  Höß e que atualmente pertence aos franciscanos. 

Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (X)

 




Referências

  • Arquivo Blumenau. HOESS, Dr. Alfred. Disponível em: https://arquivodeblumenau.com.br/wp-content/uploads/2017/03/7h.pdf. Acesso em 16 de junho de 2025, 8h34.
  •  -   Dr. Alfredo Hoess. Blumenau em Cadernos TOMO XIX - Nº 8, agosto de 1978. Páginas 220-222.
  •  -  Figuras do Presente - Dr. Alfredo HoessBlumenau em Cadernos TOMO II - Nº 5, maio de 1959. Páginas 92-93.
  • Redação - O Município Blumenau. Hospital de Blumenau receberá homenagem no Senado por completar 100 anos. 09/03/2023 13:22. Disponível em: https://omunicipioblumenau.com.br/hospital-de-blumenau-recebera-homenagem-no-senado-por-completar-100-anos/ . Acesso em 16 de junho de 2025, 20h45.
  • SILVA, Jotaan. Referência em transplantes, Hospital Santa Isabel completa 110 anos; veja como era primeira estrutura. Jornal O Município Blumenau. Disponível em: https://omunicipioblumenau.com.br/referencia-em-transplantes-hospital-santa-isabel-completa-110-anos-veja-como-era-primeira-estrutura/ . Acesso em: 17 de junho de 2025, 5h30.
  • Vila.tur. Dr. Alfredo Hoess. Disponível em: https://www.vila.tur.br/alfredo-hoess. Acesso em: 15 de junho de 2025.







quarta-feira, 8 de maio de 2024

Casa Labes - Construída em 1890 em Blumenau ("Demolida"?) - Na verdade foi realocada para Luiz Alves e Gaspar - um pouco dessa História

Patrimônio Histórico Arquitetônico de Blumenau – a casa Labes – foi registrado como demolida no Cadastro do Projeto Memorvale. A casa histórica não foi demolida, mas  realocada para o interior de Luiz Alves, procedimento que a técnica construtiva permite. Nesse momento se encontra em processo de desmonte e será novamente realocada, agora para Gaspar. Deixaremos o registro de sua história.

Uma casa cadastrada no *Projeto Memorvale que estava localizada na Rua São Paulo, sob número 1166, construída com a técnica construtiva enxaimel, de acordo com o Memorvale, em 1886  e de acordo com a placa fixada na casa, foi construída em 1890. No projeto Memorvale está registrada como demolida.  O patrimônio estava localizado nas proximidades do Chapéus Nelsa e foi construída por  Friedrich Carl Labes, avô de  Nina Höltgebaum, dado fornecido pela ficha do Projeto  Memorvale, como, então proprietária. Denominaremos o patrimônio histórico arquitetônico doravante como Casa Labes.
Localização original da Casa Labes - mencionada nos registros da época como "Caminho para Altona".

O que está construído no local onde estava a Casa Labes, na atualidade. Fonte: Google Earth.
Ficha do Projeto Memorvale
Descrição do Cadastro do Memorvale:
Descrição: A residência apresenta 3 etapas de construção, sendo a primeira em alvenaria (tijolos maciços) e detalhes em madeira falquejada, protegida com óleo queimado. A segunda etapa, em madeira (parede simples) e terceira etapa, em madeira, mais recente.
Inst. elétrica: t5oda aparente c/ alguns interruptores acoplados na própria lâmpada.
Inst. Hidráulica: existente apenas na terceira etapa, sendo que a obra em questão não a apresentava nas outras etapas.

Histórico: Foi construída em 1886.

Observações:  No pavimento superior (sótão) existe uma abertura de forma retangular, que antigamente, a proprietária, a utilizada para proteção contra os índios que habitavam o Vale do Itajaí no início do século.

A Casa Labes não foi demolida, como registrado no Memorvale. Foi realocada para Luiz Alves, em 1984, quando mal e mal as pessoas conheciam a técnica construtiva enxaimel e como a mesma era construída. Mas, a volumetria e os encaixes com os Holznagel foram respeitados, como também o uso de parte das telhas planas originais, muito mais sólidas e pesadas do aquelas usadas no tempo atual, pois eram produzidas manualmente, uma a uma. Encontram-se em perfeito estado de conservação e por certo deverão estar na composição no novo local em que for montada.
Casa Labes foi montada em Luiz Alves em 1984 e está sendo desmontada para ser remontada em Gaspar. 
Concluímos isso, em função de uma placa fixada na casa histórica por seu benfeitor, amante da cultura e da história de Blumenau. Há muito tempo ele insistia para que fôssemos ao local para ver o seu enxaimel que ele salvara da demolição e a realocara, iniciativa que a técnica construtiva permite viabilizar, por ser uma construção "pré-moldada", feita no galpão e montada no local escolhido em que será instalada. O antigo proprietário da casa acompanhava nosso trabalho de perto. Nunca surgiu a oportunidade real para que pudéssemos conhecer sua casa enxaimel. Ele faleceu em 11 de dezembro de 2023. Ficou a lembrança de que poderíamos ter conhecido a casa enxaimel de uma pessoa que amava a cultura.
Em abril de 2024, alguém nos avisou que havia uma tipologia enxaimel diferente de todas aquelas construídas na região, e que a casa seria realocada para Gaspar. O entusiasmo foi tão grande que fomos até o local e nos deparamos com essa placa com informações históricas. Tiramos o nome de nosso amigo para preservá-lo, mas tratava-se de sua casa que não conseguiu nos apresentar a  tempo.
Na placa estava o nome da pessoa que nos convidou para conhecê-la e assim a conhecemos, sendo desmontada e será levada para outro sítio, tal qual ele fez em 1984.
Unsern Vätern zum Gedächtnis, uns zur lehre unseren vaterland zum heil.
Pela memória de nossos pais, pelo nosso ensino A salvação da nossa pátria.

Curiosamente a
data de construção apresentada na placa da casa é diferente da data da ficha do Memorvale. Faz mais sentido, pela idade de quem a construiu. A casa foi construída em 1890, dois anos antes do casamento de seu construtor, Friedrich Carl LabesElise Dorothea Emma Clasen
Em nossa visita, seu proprietário não estava junto, mas era como se ele estivesse, observamos cada detalhe dessa tipologia semelhante àquelas construídas no Vale do Rio Capivari que dá acesso a São Bonifácio e nunca vista na região do Vale do Itajaí. Lembre-se que escrevemos em nosso livro: Enxaimel é a estrutura de madeira encaixada, com formas e fechamentos desenvolvidos de acordo com cada região, implicando com sua cultura e geografia. Isso explica por que a casa enxaimel é diferente nos diferentes lugares, do Brasil e do Mundo. Comentaremos alguma coisa na sequencia.

Família Labes
Foto de Hauptmann Gustav Friedrichbem, 1849, com
 25 anos de idade, capitão de infantaria do exército
 prussiano, usando seu traje militar de gala (Waffenrock).
De acordo com o registro do Cadastro Memorvale, cuja última proprietária era neta de 
Friedrich Carl Labes,  seu construtor, fato confirmado na placa fixada na casa em sua nova localização, em Luiz AlvesFriedrich Carl Labes também era conhecido como Charles Labes e Carlos Labes. Suas relações sociais mais estreitas aconteciam com as famílias de Altona, atual bairro de Blumenau, Itoupava Seca.
Labes foi filho do imigrante prussiano Hauptmann Gustav Friedrich Labes, Capitão de Infantaria do Exército Prussiano (1849), nascido em 1° de julho de 1824 e de Friederike Amalie Florentine Kunitz nascida em 18 de abril de 1829que migraram para a região com a família. Friedrich Carl, nascido em Blumenau, se casou com  Elise Dorothea Emma Clasen, em 12 de julho de 1892, dois anos após construir sua casa, em 1890.
Documento de casamento de Friedrich Carl Labes e  Elise Dorothea Emma Clasen. No rodapé alguma coisa mencionando Carl Rischbieter e cerveja. Observar que o noivo assinou como Charles. Que confusão.
Elise Dorotheia era era irmã de Hedwig Auguste Clasen, esposa de Carl Friedrich Georg Rischbieter, da cervejaria, onde atualmente está instalado o Norden. 
De acordo com a publicação de "Pioneiros da Colônia Blumenau; Famílias evangélicas de confissão Lutherana  da Colônia  Blumenau: 1856-1940/ Paróquia Lutherana Blumenau Centro", a casa enxaimel do Labes estava localizada no caminho para Altona, onde residiam muitos de seus familiares, através dos casamentos, como por exemplo, os Clasen. 
O casal teve 5 filhos:
Conrado Labes (1893–1960); Julius Labes (1895–1949); Ricardo Labes (1897–1976); Adelheid Labes (1899–1981); Alwin Labes (1903–1966).
Encontramos detalhes sobre a família de Friedrich Carl Labes e da família Clasen na publicação citada.
Texto da publicação "Pioneiros da Colônia Blumenau; Famílias evangélicas de confissão Lutherana da Colônia Blumenau: 1856-1940 / Paróquia Lutherana Blumenau Centro".
Há o registro da morte de Charles Labes, residindo no Caminho para Altona, falecido com 53 anos. Também há o registro do casamento de sua filha Adelheid com Ferdinand Klein que trabalhava na EFSC, os pais de Nina Höltgebaum, última proprietária da família da Casa Labes. Ferdinand Klein tinha o mesmo nome de seu avô, cunhado de Leopold Röschl, primeiro Cônsul Honorário do Império Austro-húngaro na região.
Ferdinand Klein, genro do construtor da casa e neto da irmã de Leopold Hoeschl - que participou de forma direta da construção da EFSC.
Ferdinand Klein era filho de Franz Joseph Klein e de Maria Theresia Emma Klein. Franz era filho dos pioneiros Ferdinand Klein e Amalie Anna Höschl - irmão do primeiro cônsul austro húngaro na região - Leopold Höschl. Ele nasceu em 17 de setembro de 1890. Detalhes apresentados, pois ele foi o pai de Nina, neta de Labes, e que morava no local quando foram levantados os dados para o Projeto Memorvale.
Friedrich Carl Labes foi comerciante, proprietário de torrefação de café (Café MOKA) e de atafona, criador de abelhas, como foi registrado na imagem abaixo.
Friedrich Carl Labes com a esposa Elise Dorothea Emma Clasen, nascida em 17 de janeiro de 1870 e seus dois filhos: Adelheid e Alwyn. Friedrich Carl trabalha com a produção de mel. 

Friedrich Carl Labes era conhecido pela vida boemia por isso, faleceu jovem ainda em decorrência de um mal adquirido e que poderia ser evitado. O assunto é exposto no Livro ¨Crônicas de Altona¨ escrito por Max Humpfl. Labes faleceu em 18 de outubro de 1922, com 53 anos de idade. Sua esposa  viveu mais 41 anos após a sua morte. Elise Dorothea Emma faleceu em 27 de julho de 1963. Estão sepultados no Cemitério Luterano Centro - Blumenau.
A esposa de Friedrich Carl Labes comemorando seu 80° na frente da Casa Labes. 

Casa enxaimel Labes

A casa, que de acordo com a placa nela fixada foi construída em 1890, apresenta a tipologia construída na região de São Bonifácio, na grande Florianópolis e onde já pesquisamos e mesmo efetuamos projetos de restauro de uma centenária. 
Antes, vale relembrar o que é enxaimel.

Enxaimel 

Enxaimel é a denominação da  técnica construtiva de madeira encaixada usada na estrutura de uma edificação. O início de seu período de  evolução é muito antigo e reporta ao período em que o homem deixou de ser caçador e coletor e passou a ser agricultor e pastor, assentado em regiões com florestas densas, às quais, quase sempre, deveria derrubar para construir roças e pastos para o rebanho e com a matéria prima da madeira, construíam seus abrigos e casas. Esse processo evoluiu com a tecnologia ao longo dos séculos e da histórias das cidades e do urbanismo em vários locais do planeta em que aconteceu esta revolução social contando com a presença da floresta.  Explicamos este processo de maneira detalhada no livro "Fachwerk - A Técnica Construtiva Enxaimel", publicado em 2019. 
Figura 32 do livro "Fachwerk - A Técnica Construtiva Enxaimel".
A técnica construtiva resumidamente se caracteriza pela da estrutura independente feita de  madeira, completada com o fechamento, neste podendo ser usados materiais variados, sendo os mais usados pelos primeiros imigrantes alemães, no Brasil: madeira, pedra, taipa e tijolos maciços aparentes e ou rebocados. A sua tipologia volumétrica sofreu alterações ao longo do tempo histórico e também, variando de região para região - de acordo com sua geografia, materiais disponíveis e cultura predominante. Também explicamos este processo na publicação de nossa autoria citada anteriormente.
O enxaimel que encontramos em
São Bonifácio apresenta características do enxaimel construído no Vale do Itajaí, no final do século XIX, mas com diferenças no volume final, no qual não existe a "quebra do telhado" das casas rurais da região do Vale do Itajaí. Estas tinha um inclinação do telhado menor
Para aumentar o pé-direito do sótão, que tinha panos de telhados com grande inclinação, efetuavam o prolongamento das paredes do pavimento térreo, tal como foi efetuado na Casa Labes. Imaginamos que alguém que veio da região de São Bonifácio pode ter auxiliado na construção da casa de Blumenau.

As imagens comunicam

Casa Enxaimel São Bonifácio
Visitamos São Bonifácio em dois momentos do início do ano de 2021 e tivemos a grata surpresa de encontrar uma cidade muito bonita fundada por imigrante alemães localizada em uma região da Bacia do Rio Tubarão, distante aproximadamente 80 quilômetros de Florianópolis.
Encontramos e registramos dezenas de edificações construídas pelo imigrante alemão e também, por seus descendentes ao longo dos vales da bacia, principalmente no Vale do Rio Capivari e de seus afluentes. Estas edificações foram construídas com a mesma técnica construtiva usada pelo imigrante alemão assentado na Colônia Blumenau, Vale do Itajaí, com estrutura composta de madeira encaixada com paus de grandes seções e fechamento feito com tijolos maciços aparentes. A única ressalva, e compreensível sob o aspecto antropológico, é a influência da casa luso/brasileira, na configuração de sua volumetria. Está apresenta um telhado formado por duas águas, porém com uma inclinação menor. Os pioneiros construíram desta maneira - mas desejavam utilizar o sótão, como é usual na Alemanha. Para isso, utilizaram os elementos estruturais de madeira maiores, ultrapassando o pé direito do pavimento térreo, até o sótão, elevando esta altura interna e tornando-o funcional e com mais ambientes para uso. Assim também foi construída a Casa  Labes em um cenário onde a evolução da casa seguiu outro sentido, com panos de telhados dotados de grandes inclinações.






Com o alongamentos dos elementos verticais de madeira, externamente a edificação construída com a estrutura enxaimel de São Bonifácio fica com a altura (aparentemente) mais alta.
Casa Labes - em processo de desmonte para ser realocada de Luiz Alves para Gaspar







Panos de telhados com pouca inclinação e o prolongamento dos elementos verticais, em direção ao sótão - como nas casas de São Bonifácio. Essa casa foi construída originalmente em Blumenau, na rua São Paulo, próximo a FURB.


Casa Labes sendo desmontada para ser realocada em Gaspar.

Casa Enxaimel na Região do Vale do Itajaí

Observando as tipologias, em nosso livro, classificamos as casas enxaimel da região por períodos e características do sítio. E nesta classificação, não encontramos uma tipologia como esta, como a Casa Labes. Resumidamente colocamos alguns exemplos de Casa Rural e Urbana, cientes de que houve uma evolução na maneira de construir.

Casa Urbana
Em um primeiro momento essa tipologia também foi construída em áreas rurais, era como se fazia na Alemanha. Desprovida de qualquer anexo. Observar o detalhe do "X" na empena, como havia na empena da Casa Labes. Essa casa da Rua XV de Novembro tem semelhança, em alguns aspectos, com a Casa Labes.
Casa Labes também tinha o "X" na empena. Difere da Casa de Gustav Ermlich somente pela extensão dos elementos verticais.

A Casa de Gustav  Ermlich possui o mesmo detalhe, em  "X" na empena que existe na empena da Casa Labes.

Com o passar do tempo, as portas das casas da área urbana receberam esse alpendre de proteção.

Casa enxaimel urbana recebeu alpendre de proteção sobre a porta principal. Casa mais antiga do Vale do Itajaí, construída em 1958 no Stadtplatz de Blumenau - Palmenalle.
Casa Rural


As primeiras casas urbanas eram como as casas rurais. Quando resolveram construir os anexos frontal e posterior, a varanda e a cozinha. Para isso ser viável, quanto a altura do pé-direito, foi necessário criar a quebra do telhado.

Sempre é bom lembrar, que na Alemanha, o enxaimel irradiou para diversas regiões, com climas e características diferentes, evoluindo sua técnica e adaptada ao meio, por mais de 7 mil anos.
Do Museu Fränkisches Freilandmuseum

Um Registro para a História.

*Projeto Cadastramento do Patrimônio Arquitetônico Memorvale

O projeto Cadastramento do Patrimônio Arquitetônico – Memorvale foi a efetivação do cadastramento das principais tipologias pertencentes ao patrimônio histórico arquitetônico de Blumenau e região, nas décadas de 1980 e 1990 e, que teve como epílogo, o tombamento, pela Fundação Catarinense de Cultura, de vários imóveis no centro de Blumenau e outros restaurados. Professor Vilmar Vidor foi o idealizador e proponente do projeto, tendo em sua equipe, dentre outras pessoas, a professora Amábile M. T. Dorigatti, que também coordenou o projeto, em determinada época.
Para a efetivação prática do projeto, Professor Vilmar Vidor contou com o apoio da FURB, através da participação de estagiários acadêmicos da instituição, que elaboraram o cadastro de imóveis antigos, de todos os tipos, linguagem e técnicas construtivas, entre os quais, aqueles construídos com a técnica construtiva enxaimel. O cadastro individual de cada tipologia, continha um pequeno relatório técnico, descrição, planta baixa, elevações e fotografias dos imóveis selecionados.

Fichas do Cadastro do Patrimônio Arquitetônico - Memorvale 

Tivemos acessos a mais de 1100 fichas pertencentes ao Cadastro do Patrimônio Arquitetônico – Memorvale (E que apresentaremos de modo individual - listada neste espaço), semelhantes a esta pequena amostra apresentada abaixo, onde estão listadas algumas das centenas de tipologias construídas com a técnica construtiva enxaimel, autoportante, e outras técnicas, dentro de diferentes estilos e recortes de tempo, que existem e existiam na cidade de Blumenau região. O modelo da ficha foi criado pelo Professor Vilmar Vidor e sua equipe e usado para elaborar o pioneiro cadastro do Patrimônio Histórico Arquitetônico, conhecido como Memorvale. De acordo com o Professor Vidor, pioneiro nesta pesquisa no Vale do Itajaí, em entrevista cedida ao jornalista Altair Pimpão, em 2 de março de 2014, 2/3 das edificações cadastradas de Blumenau, foram demolidas. Atualmente, mais, com certeza.
O assunto patrimônio e este trabalho eram tão novos dentro da academia, na cidade de Blumenau e região, que em algumas fichas, as casas foram definidas como “enchaimel”

O acervo e seu destino

Ainda na entrevista cedida ao jornalista Altair Carlos Pimpão em 2 de março de 2014, o Professor Vilmar Vidor explicou que o fichário dos imóveis foi repassado para a Fundação Cultural de Blumenau, para o Instituto de Pesquisas e Planejamento de Blumenau – IPPUB e para a FURB, onde pesquisamos o acervoO trabalho foi desenvolvido em parceria, entre a FURB e o IPPUB, foi muito facilitado e viabilizado, porque o Professor Vidor era Presidente do IPPUB, e simultaneamente, professor da FURB, o que lhe permitiu "diminuir distâncias" e a burocracia para o êxito do projeto.
A partir do projeto de Cadastramento do Patrimônio Arquitetônico, conhecido como Memorvale, a Professora do Curso de Serviço Social da FURB – Amábile M. T. Dorigatti, criou a Associação dos Proprietários de Imóveis Antigos; importante para o êxito do projeto, sua fluidez, levantamentos e efetivação dos cadastramentos das edificações históricas, viabilizando diálogos, projetos e parcerias entre proprietáriospesquisadores e poder público. 
Desta forma, a equipe de pesquisas coordenada pelo Professor Vilmar Vidor mantinha um diálogo permanente com os proprietários de imóveis antigos, através da associação que tinha uma cadeira no Conselho do Patrimônio Histórico de Blumenau, e também, no Conselho de Planejamento Urbano de Blumenau. Nas assembleias desta Associação, a municipalidade e os proprietários debatiam sobre a manutenção do patrimônio e sobre possíveis políticas preservacionistas. Existia um Estatuto e as reuniões eram periódicas.
Este material da Memorvale que pesquisamos, acessamos o Setor de Documentos Especiais da Biblioteca da FURB.

Para acessar demais edificações listadas nesse Blog e que fazem parte do Cadastro Memorvale - Clicar sobre: Arquitetura/Projeto Memorvale



Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
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Leituras Complementares - Clicar sobre o título escolhido:


Referências
  • GERLACH, Gilberto Schmidt. Colônia Blumenau no sul do Brasil.  Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz, Marcondes Marchetti, pesquisa; Gilberto Schmidt-Gerlach, organização; tradução Pedro Jungmann. – São José : Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019. 2 t. (400 p.) : il., retrs.
  • HUMPL, Max. Crônica do vilarejo de Itoupava Seca : Altona: desde a origem até a incorporação à área urbana de Blumenau 1.ed. Méri Frotschter  Kramer e Johannes Kramer (organizadores). Escrito em 2018. Blumenau: Edifurb, 2015. 227 p. : il.
  • Paróquia da Comunidade Lutherana Blumenau - Centro. Pioneiros da Colônia Blumenau; Famílias evangélicas de confissão Lutherana  da Colônia  Blumenau: 1856-1940/ Paróquia Lutherana Blumenau Centro; [Tradução e Transcrição  de Curt Höltgebaum, Arquivo Histórico Professor José Ferreira da Silva]. Blumenau: 1856-1940 - Dados Eletrônicos, Blumenau SC (SC); Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, 2016- .
  • SILVA, José Ferreira da. A História das antigas cervejarias de Blumenau. Blumenau, Revista Blumenau em Cadernos, Fundação Cultural de Blumenau, tomo III, n. 9, set. 1960.
  • WITTMANN, Angelina. C.R.: Fachwerk – A técnica Construtiva Enxaimel. – 1.ed. – Blumenau, SC : AmoLer, 2019. – 405 p. : il.
  • WITTMANN, Angelina. Pesquisador alemão de Fachwerk – Manfred Gerner em Blumenau após 23 anos – Um pouco desta História. Publicado em: 20 de janeiro de 2019. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2019/05/pesquisador-alemao-de-fachwerk-manfr ed.html> Acesso em: 29 de julho de 2019 – 13:59h.
  • WITTMANN, Angelina. Würzburg – Roteiro Alemanha 2016. Publicado em: 20 de janeiro de 2017. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2017/01/wurzburg-roteiro-alemanha-2016.html> Acesso em: 11 de julho de 2019 – 8:05h.
  • WFB FENSTER. Bauernhäuser. Disponível em: <https://www.wfb-fenster.de/referenzen/bau ernhaeuser/> Acesso em: 11 de agosto de 2019