Participamos de um evento ocorrido em 22 de fevereiro de 2026, no Teatro Carlos Gomes, com o objetivo de registrar, para a história, momentos de uma visita guiada realizada pelo ator James Beck em um dos espaços de cultura da cidade de Blumenau.
Fomos ao local com a expectativa de como seriam apresentados os trabalhos de seu arquiteto e os espaços atuais, pois temos ciência de que foram modificados no momento da execução. Também nos interessava saber qual história seria apresentada sobre um dos principais idealizadores do Teatro, o maestro alemão Heinz Geyer.
O nome do arquiteto da obra também não foi citado. Em contrapartida, mencionou-se o nome das primeiras feministas de Blumenau, o que deixou subentendido que elas teriam feito o teatro acontecer sozinhas — o que não condiz com a realidade histórica.
As primeiras gerações de Blumenau, integrando todas as classes sociais, construíram seus próprios espaços de canto e teatro. Esses ambientes não eram restritos apenas às igrejas, sociedades e clubes; estavam presentes também no Teatro Frohsinn e, posteriormente, no Teatro Carlos Gomes, na Casa São José e na Sociedade de Ginástica (Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau).
Inclusive, sobre o "Ginástico", até bem pouco tempo muitos imaginavam tratar-se apenas do ginásio coberto do Colégio Pedro II (antiga Escola Alemã), instituição que foi realocada do Stadtplatz para as proximidades da empresa Hering, no Vale do Bom Retiro.
Portanto, não se poderia afirmar — como foi feito — que apenas duas mulheres, mãe e filha, foram as guardiãs, responsáveis e mantenedoras da arte do teatro na cidade de Blumenau.
Para esclarecer esse ponto, apresentamos a seguir um brevíssimo histórico de cada um dos ambientes citados, reforçando o caráter coletivo dessa construção cultural na região toda.
Teatro Frohsinn
Quando os pioneiros chegaram à região, trouxeram em suas malas as práticas culturais de sua terra natal. Eram atividades ligadas ao canto (religioso, coral, solo e sarau), à música instrumental (religiosa, solo e orquestral), ao teatro, à pintura, à tapeçaria, à poesia e à literatura, entre outras. Através delas, interagiam socialmente muito além do trabalho doméstico ou fabril.
Essa interação, mantida pelos descendentes, não visava meramente 'preservar a cultura dos antepassados', mas sim continuar a praticá-la por lazer, amizade, educação e formação social. Para o pleno exercício dessas atividades musicais e teatrais, tornou-se necessário organizar um espaço adequado.
Assim, no Stadtplatz da Colônia Blumenau — após a consolidação das casas permanentes, da igreja, das sociedades, das roças e dos estábulos — a comunidade reuniu-se, ainda no século XIX, para debater a construção de seu próprio teatro, destinado a abrigar suas artes e sua música.Alguns anos mais tarde, porém, quando o empreendimento já florescia, surgiu entre os elementos novos mais instruídos o anseio duma vida cultural mais elevada, formando-se um circulo, cujo gosto pelo canto e pelo teatro lançou as bases da Sociedade Teatral de Blumenau, que se organizava mais tarde. As primeiras reuniões e noitadas artísticas tiveram lugar na casa de Reinhard, situada aproximadamente onde hoje, na rua Quinze de Novembro, está localizada a casa de negócio Buerger. Nanny Poethig, 1950.
Em 21 de dezembro de 1859, foi fundada a Schützenverein Blumenau (Sociedade de Atiradores), contando inicialmente com 47 sócios. No mesmo espaço, em 24 de junho de 1860, instituiu-se a Sociedade Teatral de Blumenau, embora sua formalização jurídica tenha ocorrido apenas em 18 de abril de 1895.
Em 1870, a Schützenverein construiu sua primeira sede. Junto a ela, criou-se um espaço dedicado à Sociedade Teatral, que se organizou no ambiente contando com um pequeno palco para suas apresentações. Já em 1872, houve uma ampliação dessa área, viabilizada pela contribuição de diversos representantes da comunidade e coordenada pela equipe do teatro.
Para viabilizar o projeto, a sociedade foi estruturada por meio da emissão de ações, comercializadas a dez cotas por cinco mil réis. De acordo com o artigo de Nanny Poethig no livro Centenário de Blumenau, os nomes dos pioneiros que se tornaram acionistas do grupo da Sociedade Teatral de Blumenau com representantes dos diversos representantes da sociedade e todos trabalhavam pelo êxito cultural local.
São eles:
Hermann Blumenau; Wilhelm Friedenreich; Charlotte Kegel; Louis Alternburg; Franz Lungershausen; W. Brandes; Meister Richter; Hans Breithaupt; Franz Faust; Marques; W. Scheeffer; Vahl; W. Eberhardt; Kirchbach; "Tio" Brand; A. C. Ebel; Victor Gaertner; Hermann Wendeburg; H. Gloeden; Ballehr; Carl Rischbieter; Avé-Lallemant; C. Külps; August Daniel Persuhn; Emil Odebrecht; Gtahl; Roedel; Hindimeyer; Rudolf Krause; Ferdinand Schrader; Bichels; Heinrich Krohberger; Grewsmühl; Sametzki; Curt Bernard Scheidemantel; Dr. Fritz Müller; G. Beger; H. Hosang; Peter Hartmann; Cardoso; Clasen; Ferdinand Ernst Friedrich Hackradt; Kumlehm; Meger; Gustav Spierling; Heinrich Probst; Alfred Beims e Carl Friedenreich.
Passados 8 anos e a tragédia da enchente de 1880, que não poupou nem mesmo a primeira sede do teatro de Blumenau, em 1885, foi criada uma nova associação de teatro, até então denominada de Sociedade Teatral de Blumenau, e que passou a se chamar Theaterverein Frohsinn.
De acordo com Nanny Poethig, 1950, faziam parte do corpo cênico (1860 até 1885) até essa formação: Rose Gaertner, Frau Meger, Frau Gloeden, Clara Breithaupt, Marie Breithaupt, Meta Friedenreich, Fräulein Wendeburg, Frau von Hartentshi, Clara Screep, Ida Peters, Rudolf Krause, Hermann Ruediger, Heinrich Froehner, Blomeger, Christopher Schmidt, Alfred Beims, Otto Freygang, Ernst Hertel, Leopold Hoeschl, Theodor Lüders, Schott e Paul Schwartz e esposa. Muitos, além do nome das duas Gaertner mencionadas na visita guiada.
A Theaterverein Frohsinn desejou construir uma nova sede e entre 1895 e 1896 e adquiriu um terreno em que se situou um dos primeiros comércios de Blumenau, o Meyer & Spierling, no Boulevard Hermann Wendeburg, Rua das Palmeiras - a Palmenallee.
| Registro após a enchente 1880 - Do Acervo da Família Odebrecht, encontro com familiares na Alemanha. |
| Rose Gaertner. |
Atendendo a reinvindicação de Rose Gaertner, os envolvidos foram atrás de iniciativas para captação de recursos, o que deixou a secretária e tesoureira da sociedade ocupada por muito tempo, para quitar os empréstimos levantados.
De acordo com o artigo de Nanny Poethig, 1950, faziam parte da sociedade no período do "novo teatro", os seguintes nomes:
Hermann Hering; Bruno Hering; Paul Hering; Gustav Salinger; Bruno Lungershausen; Lug Niemeyer, Ernst Colin; Alwin Schrader; Rudolf Kleine; Max Hering; Franke; Max Feddersen; Julius Probst; Doerck; Heinrich Krause; Minna Hering; Elise Hering (Steinbach); Johanna Hering; Nanny Hering (Poethig); Margarete Hering (Müller); Gertrud Hering (Gross); Marie Gross; Marie Reiche (Lungers-hausen); Tekla Probst; Olga Salinger (Probst) e Elly Rischbieter (Mans).
| Localização do Teatro Frohsinn, ainda na paisagem no momento desta fotografia. No local atualmente está a sede da CELESC. |
A nova sede da Theaterverein Frohsinn foi executada pelo construtor Rönicke e terminada em abril de 1896.
Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917, quando o Brasil participou com tropas, contra a Alemanha, a Theaterverein Frohsinn foi obrigada a encerrar suas atividades teatrais e até então, seu presidente era Gustav Salinger. Nesse mesmo ano, em 3 de junho, foi convocada uma assembleia para eleger nova diretoria e novo presidente, sendo eleito Augusto Zittlow, que permaneceu no cargo por 23 anos. Zittlow residia na frente do Theater Frohsinn.
Em abril de 1920 houve uma retomada das apresentações teatrais. Neste tempo a diretoria do Frohsinn era:
- Presidente: Augusto Zittlow;
- Secretário: Otto Rohkohl;
- Tesoureiro: Rudi Kleine;
- Diretor de palco: Nanny Poethig;
- Decoradora: Maria Lungershausen.
O ano de 1921 foi marcado por grandes atividades teatrais. Foram ensaiadas e apresentadas inúmeras peças. E assim foi a rotina entre os anos de 1922 até 1934. Nanny Poethig, 1950, lista todas as peças apresentadas nesse intervalo de tempo, em seu artigo no livro Centenário de Blumenau de 1950.
Casa São José
| Peça de Teatro de Domingo, 14 de fevereiro de 1909. |
A sede da Sociedade São José foi inaugurada em 1º de novembro de 1906, por iniciativa do Padre José Maria Jacobs, nas proximidades de sua paróquia — a Igreja Matriz de Blumenau. O jornal Blumenauer Zeitung noticiou na época:
"União de São José. Quinta-feira, 1º de novembro de 1906. Às 11 horas: inauguração da sede da Sociedade; e às 19 horas, no mesmo local, teatro com peças em alemão e português. Entrada: 1$000. Para os sócios: $500."
A sede da São José foi construída com material reaproveitado do Barracão dos Imigrantes. Conforme a programação festiva, as representações teatrais iniciaram-se às 19 horas no palco do salão. A partir de então, o espaço teve espetáculos mencionados em registros históricos por mais cinco décadas, até ser desmantelado.
| Dona Alda Niemeyer e Georg Kahrbeck na peça Dinner For One, Teatro alemão no C.C. 25 de Julho de Blumenau. |
Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau - Ginástico
| Sede da Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau -foi inaugurada em 3 de agosto de 1924. |
A Associação Gymnastica Blumenau (Turnverein Blumenau) foi fundada em 5 de outubro de 1873, tendo seu estatuto registrado oficialmente em 1º de agosto de 1904. Além das práticas esportivas, seus ambientes acolhiam atividades sociais e culturais em espaços multiuso, seguindo um programa similar ao que ocorria em outras cidades que receberam a contribuição da cultura alemã, tanto no Brasil quanto na Alemanha.
Apresentavam-se, além de números de ginástica, reuniões recreativas, excursões e noites de entretenimento com música, canto e teatro. As noites de entretenimento eram frequentes, integrando números artísticos e ginástica rítmica. De acordo com Edith Kormann, apesar das restrições para a admissão de sócios, essas noites eram, geralmente, abertas ao público. Em 21 de março de 1909, a Associação apresentou no salão de Richard Holetz uma dessas noites públicas; além da ginástica, houve apresentações humorísticas, cenas burlescas e a peça teatral "Augusto e Ângela na floresta das palmeiras".
Geralmente, as noites culturais ocorriam no período da Páscoa, sendo realizadas no Theater Frohsinn ou no salão de Richard Holetz. Essa mesma programação foi levada em 16 de maio de 1914 ao salão Eberst, em Indaial — que, à época, também pertencia ao território de Blumenau.
Mesmo no período da Primeira Guerra Mundial, em 1914, em 9 de abril de 1916, ocorreu uma noite cultural e de ginástica no Theater Frohsinn para angariar fundos à Associação, incluindo canto, música e a peça em um ato "O Inspetor de Incêndio". É fascinante observar como a história local tenta separar a sociedade de ginástica da sociedade do Theater Frohsinn, quando, na verdade, os protagonistas eram os mesmos: ginastas que também praticavam a cultura no espaço teatral muito antes do recorte temporal citado por algumas fontes (1920–1935). No dia da visita também percebemos a separação de classes que praticavam o teatro, como se existisse a classe de artistas separados da classe empresarial, sendo que todos praticavam a arte e faziam parte das respectivas associações que a promoviam.
Como visto, grupo teatral integrava a Schützengesellschaft Blumenau (Sociedade de Atiradores). Diferente do que sugerem alguns textos históricos locais — que reduzem a memória do teatro à figura de Edith Gaertner e ao seu histórico cemitério de gatos —, o Theater-Verein Blumenau (Sociedade Teatral Blumenau), fundado em 24 de junho de 1860, possuía uma estrutura coletiva robusta.
Historicamente, o grupo teatral nasceu anexo à Schützengesellschaft Blumenau (fundada em 2 de dezembro de 1859). Foi após uma apresentação teatral, em 24 de junho de 1860, que se oficializou o Theater-Verein Blumenau.
Em 1917, a Associação Gymnastica Blumenau - Turnverein Blumenau adquiriu da Neu Deutsche Schule, "um chão", de 11.383m2 por 5:962$800 Réis e mais tarde, mais um pedaço de 840m2 por um conto de Réis.
As noites culturais retornaram em 1920. Aconteciam no Theater Frohsinn, com as apresentações de ginástica, música e teatro, apresentações do Coro Masculino Liederkranz sob a regência Kurt Boettner (Professor que também foi o idealizador do escotismo em Santa Catarina - fundado em 13 de janeiro de 1913). É curioso que somente nesse recorte de tempo histórico, são consideradas as atividades e movimentações culturais do Theater Frohsinn, com relevância para o registro, que já ocorriam no final do século XIX.
Nesse tempo o Mannergesangverein - Coro Masculino Liederkranz - foi "emparelhado" às demais sociedades: teatral, de música e ginástica. Muitos, atualmente desconhecem que este coro existe desde 1909.
| Três tempos distintos, onde é possível detectar alterações no patrimônio - mais especificadamente na janela da mansarda. |
| Maestro Heinz Geyer, cujo nome foi dado ao grande palco do teatro e que visitamos no dia 22 de fevereiro de 2026. |
Nos dias 28 e 29 de outubro de 1933, a Associação Gymnastica Blumenau (Turnverein Blumenau) festejou seu 60º aniversário de fundação. A programação teve início às 17h, com celebrações na sede social, e prosseguiu às 20h15 no Theater Frohsinn, onde foram apresentados números de ginástica diretamente no palco.
A festividade contou com a apresentação do Coro Masculino Liederkranz sob a regência do maestro Heinz Geyer, que também regeu a Musikkapelle Lyra naquela noite solene - e que foi o idealizador do Teatro Carlos Gomes.
Teatro Carlos Gomes
Em 27 de janeiro de 1921, chegou ao Brasil o maestro Heinz Geyer. Na Alemanha, após participar da Primeira Guerra Mundial, Geyer sofria de reumatismo. Foi habilmente aconselhado por um médico a se mudar para um lugar de clima tropical e não hesitou em seguir as prescrições. Chegou a Blumenau e, como maestro, encontrou a banda musical de Hermann Ruediger, a banda musical Lyra de Ernst Bernhardt, o Club Musical e outros muitos clubes musicais, bandas e associações de canto.
Heinz Geyer se tornou uma personalidade da música e do canto de Blumenau quando, em 7 de setembro de 1922, no Centenário da Independência, participou ativamente do desfile oficial usando o uniforme do "Tiro de Guerra-475".
No concerto de Natal de 26 de dezembro de 1929, Geyer acompanhou o Liederkranz com a orquestra, recebendo o reconhecimento dos blumenauenses. A partir de então, tornou-se regente, além da orquestra, dos corais e solista nos concertos por ele dirigidos. Isto o entusiasmou muito e lhe abriu novas perspectivas. Com o aumento dos sócios da Theaterverein Frohsinn, a sociedade vislumbrou uma nova sede — a união com a Sociedade Musical Liederkranz, fundada no dia 26 de maio de 1909. E assim aconteceu.
| Terreno adquirido para construir a nova sede. |
Antes disto, em 1935, após decidirem pela construção de uma sede maior e durante a aquisição do terreno, Geyer intermediou a negociação. Arthur Rabe, proprietário do terreno escolhido, pedia 160 contos de réis pelo mesmo, e o maestro intercedeu pedindo um valor menor. Arthur Rabe cedeu o terreno para a sociedade por 145 contos de réis. Para a liberação da área necessária, foram demolidas as casas de Fides Deeke e de Nienstedt, localizadas na Rua XV de Novembro. A pedra fundamental foi lançada em 10 de novembro de 1935.
De acordo com o artigo de Nanny Poethig (1950), os nomes que se destacaram na Theaterverein Frohsinn, no período de 1910 até 1935, foram: Helene Salinger (Lang); Elsbeth Blohm (Feddersen); Cilly Blohm; Trude Blohm; Frieda Hindelmeyer; Uschi Deeke (Hering); Kaethe Schrader; Kaethe Hering (Werner); Lore Hering (Bek); Edith Rohkohl; Siegfried Rohkohl; Otto Blohm; Fritz Blohm; Curt Hering; Otto Rohkohl (cônsul alemão); Julius v. Czekus; Walter v. Czekus; Walter Werner; Frau Kreuzer; Herr Nietsche; Curt Boettner; Felix Hering; Adolf Poethig; Bruno Koshel; Frau Broddersen e Isolde Hering (Amaral).
Em 1935 a Sociedade Teatral Frohsinn lançou, dia 10 de novembro, a pedra fundamental da construção do novo teatro. Agora na Rua 15 de Novembro, no centro da cidade. Enquanto a sede era construída, em 1936 à Sociedade Frohsinn unia-se a Sociedade Liederkrantz, que era a fusão da Sociedade Musical Lyra com a Sociedade de Canto Germânia. Site do Carlos Gomes.Comentário: Centro da cidade? Interessante reflexão sobre a centralidade de Blumenau, que, até bem pouco tempo, era tida como o entorno da Rua das Palmeiras e do porto, onde se localizava a sede do Theater Frohsinn. O que mudou? Teria sido a localização da Casa São José e do grande colégio fundado pelo Padre José Maria Jacobs? O que, de fato, fez o eixo da centralidade se deslocar para a região da Igreja Matriz?
| Assim era Blumenau que Heinz Geyer conheceu, quando chegou na cidade. |
A sede da sociedade foi inaugurada em 1º de julho de 1939. Naquela época, o nome Theater und Musikverein Frohsinn Blumenau — resultado da junção do teatro com o canto — já havia sido mudado mais uma vez, tendo sido trocado, por imposição dos tempos de guerra, para Sociedade Dramático Musical Carlos Gomes.
Houve a fusão da dramaturgia e do canto em Blumenau, concretizando um projeto antigo surgido ainda no final da década de 1920. A partir dessa união, surgiu a sociedade Theater und Musikverein Frohsinn Blumenau — nome que consta no projeto da sede assinado pelo arquiteto e engenheiro Wilhelm Ferdinand Franz von Knoblauch (1901–1980).
O projeto foi concebido para o novo espaço do Frohsinn. Um detalhe relevante: isso ocorreu antes da Segunda Guerra Mundial, embora já houvesse ações impetradas pelo Nacionalismo na região, o que tornava o cenário político e cultural bastante tensionado.
O projeto foi assinado pelo arquiteto e engenheiro Franz von Knoblauch em 1936, um ano após o lançamento da pedra fundamental na Rua XV de Novembro. Naquele período, o projeto finalizado foi levado à Alemanha pelas mãos de um dos sócios da Theater und Musikverein Frohsinn Blumenau para ser avaliado por técnicos daquele país, sendo devidamente aprovado.
| Theater und Musikverein Frohsinn Blumenau - Este nome poderia ser resgatado. |
| Nome do teatro na data do projeto - maio de 1936, antes do início da Segunda Guerra Mundial. O que mudou? |
| Corte longitudinal. Detalhes do fosso para a orquestra, palco giratório, público, mezanino, bilheterias, Foyer e acessos da rua. Estrutura de telhado em madeira com coberturas de telhas cerâmicas. |
| Data do projeto do Corte Longitudinal - maio/junho de 1936. |
| Zum Theatergebäude des Musik und Theatervereins Frohsinn Blumenau - o nome do projeto. Não havia alusão ao nome Carlos Gomes. |
Embora von Knoblauch possuísse uma construtora, a execução da nova sede não ficou a cargo de sua empresa, e diversos elementos foram construídos de forma diferente do que constava na planta original. Von Knoblauch acompanhou essas modificações durante a execução, chegando a refazer alguns desenhos.
Até hoje, não se sabe quem foi o responsável pelas alterações, a começar pelas fachadas e pela realocação de alguns ambientes, como a cozinha e os banheiros. Os desenhos originais apresentavam uma distribuição primorosa dentro de um layout funcional, respeitando uma simetria que, como sabemos, é difícil de alcançar em um programa de necessidades tão complexo.
| Fachada Frontal, modificada na execução. Observar níveis do hall externo e do pátio externo. |
| Fachada Frontal, modificada na execução. Observar níveis do hall externo e do pátio externo. |
A primeira parte das obras do teatro foi concluída em 1939, abrangendo a estrutura externa, o salão de festas e o restaurante. Em 1º de setembro daquele ano, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. Getúlio Vargas, no poder desde 1930, juntamente com Nereu Ramos, havia implantado a partir daquela década o período conhecido como Nacionalismo — movimento que alterou profundamente o significado de educação e cultura no Vale do Itajaí e em todas as regiões com presença de imigrantes alemães, italianos e japoneses. As práticas culturais literalmente pararam.
Nesse contexto, o nome do teatro, que constava no projeto e cuja história remontava ao século XIX, foi alterado. A sociedade, até então denominada Theater und Musikverein Frohsinn Blumenau, passou a se chamar Sociedade Dramático Musical Carlos Gomes por imposição da Campanha de Nacionalização. O novo teatro foi inaugurado em 1º de julho de 1939, apenas dois meses antes do estopim da guerra. Naquele período, a instituição já era o resultado da fusão entre a Theaterverein Frohsinn e a Sociedade Musical Liederkranz.
O maestro Heinz Geyer foi o nome que se destacou nos primeiros anos de atividade na Sociedade Dramático Musical Carlos Gomes, onde produziu três óperas e inúmeras peças para canto. O Salão de Festas, com um espaço menor para apresentações, era um dos ambientes mais utilizados, pois, naquela época, cada espetáculo (teatro, concerto ou coral) era complementado por um baile.
Algum tempo depois, Heinz Geyer foi "aposentado" contra a sua vontade — fato que o deixou profundamente decepcionado e entristecido com os novos organizadores do Teatro Carlos Gomes. Quase sem querer, gravamos o depoimento de Victor Fernando Sasse, no qual ele relatava essa difícil passagem da vida do maestro.
A sala de espetáculos principal, as coxias e o palco giratório — com 12 metros de diâmetro — foram inaugurados em 5 de dezembro de 1942. O mesmo palco giratório que visitamos em 22 de fevereiro de 2026.
| Teatro recém-inaugurado, 1939, com as palmeiras imperiais recém-plantadas e espaço para manobra de automóveis. Década de 1930. |
| Década de 1940. |
| Década de 1950. |
A execução da obra ficou a cargo da construtora do arquiteto Eugen Brunner.
O arquiteto e engenheiro Franz von Knoblauch chegou a redesenhar páginas do projeto original, incorporando as mudanças para uso direto no canteiro de obras. Existem pranchas desse projeto com registros datados de 1938.
| Página do projeto redesenhado em 1938, por Franz von Knoblauch. |
Encontramos fontes que erroneamente indicam o arquiteto Eugen Brunner como autor do projeto do teatro. Não procede. Ele foi o executor da obra, com modificações no projeto original, que teve o assessoramento do arquiteto e engenheiro Franz von Knoblauch.
O projeto original do teatro permaneceu "guardado" por décadas em um dos ambientes do Teatro Carlos Gomes. Depois de encontrado na década de 1960, foi entregue à filha do arquiteto de fato, Annegret Karin von Knoblauch. Lembramos que o projeto é de 1936 e a obra foi inaugurada em 1939. O período da obra confere com o tempo disponível entre 1936 e 1939.
Atualmente, a instituição é denominada Sociedade Dramático Musical Carlos Gomes, e seu edifício é tombado como patrimônio histórico pelo Estado de Santa Catarina.
Para terminar a visita, ainda sob o palco, perguntamos sobre os "Túneis". Ouvimos: "É lenda Urbana." Mais sobre este assunto, neste link: "Túneis de Blumenau".
Vídeo
Fotografias
| Entrada pela porta principal - Salão Centenário. |
| Salão Centenário. |
| James Beck falando, abrindo a visita guiada - Salão Centenário. |
| Na sacada sobre o alpendre sobre a porta principal. |
| Pequeno Auditório Willy Sievert (226 lugares). |
| Grande Auditório Heinz Geyer (principal, com 784 lugares). |
| Palco do Grande Auditório Heinz Geyer (principal, com 784 lugares). |
| Escada do palco do grande auditório Heinz Geyer. |
| Sob o palco giratório do grande auditório Heinz Geyer. |
Um registro para a História.
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (X)
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