domingo, 8 de fevereiro de 2026

Floresta Negra (Schwarzwald) - Reinhold Klotz - Götz Buam - Arquitetura ancestral - Alemanha 2025

 

Vogt - Wolfegg de manhã cedinho.

Saímos cedinho da região de Wolfegg/Vogt, próximo a Ravensburg, em direção ao oeste, mais especificamente, à cadeia de montanhas conhecida como Floresta Negra (Schwarzwald). 
O amanhecer estava lindo. Despedimo-nos de Norbert e Alex Gälle, na noite anterior, com memórias que levaremos para sempre e muita gratidão por momentos incríveis, devidamente registrados nesta série Roteiro Alemanha 2025. Foram sete dias inesquecíveis e esperamos poder retribuir quando nos visitarem novamente.
Reinhold Klotz nos recebeu com a recepção calorosa de quem  tocou
 muito  com seus amigos na Oktoberfest Blumenau. Foi emocionante.
Percorremos aproximadamente 119 km entre a nossa "casa sustentável" em Vogt e a cidade de Villingen-Schwenningen, na Floresta Negra (Schwarzwald). Encontramo-nos com Reinhold Klotz e sua esposa, Siglinde Schrenk, em um posto de gasolina na Rottweiler Str., 158.
Nossa programação, além de entregar presentes ao casal, previa passar o dia com eles na região. Eles nos aguardavam no local combinado segurando a bandeira do Brasil. Assim que chegamos, por volta das 9h30, procuramos um lugar para tomar um café e planejar o dia, que passou rapidamente.
Rodovia para Schwarzwald. Passagem para os animais locais, para atravessar a rodovia.




Reinhold Klotz e Siglinde Schrenk.

Local do encontro à beira da estrada - na cidade de Villingen-Schwenningen.
Reinhold Klotz na década de 1980, em Blumenau.
Acervo Klotz.
Herr Klotz
, quando viajava com a banda alemã Götz Buam, do maestro Ziggi, para a Oktoberfest Blumenau, era o responsável por registrar as excursões, tarefa que fazia com grande apreço por meio de suas fotografias. Ele realizou registros importantes que compartilhou conosco e que podem ser encontrados no livro "Oktoberfest Blumenau 40 anos — O palco do despertar cultural".
Reinhold Klotz com outros integrantes da banda Götz Buam  na frente do Hotel. Acervo Klotz.


Desfile na Rua XV de Novembro. Acervo Klotz.
Acervo Klotz.

 Desfile na Rua XV de Novembro. Acervo Klotz.
Tomamos café em um estabelecimento localizado ao lado do posto que nos encontramos.


No local, encontramos várias opções da culinária alemã para provar, acompanhadas de um bom café e ótima companhia. À mesa, atualizamos os assuntos de 40 anos de Oktoberfest Blumenau. A impressão era de que já nos conhecíamos há muito tempo.

Roberto Wittmann e Reinhold Klotz, ex músico da Götz Buam.











Após o café e muita conversa, seguimos viagem entre as montanhas da Schwarzwald até o local onde almoçaríamos. Fomos no carro de Herr Klotz, e o bate-papo continuou pela estrada. Fizemos registros em vídeo, que estão no final desta postagem, para que possam ter uma melhor percepção do que presenciamos.
Hexenloch Mühle.
Viajamos sentido leste, um percurso de uma paisagem deslumbrante de mais 45km e atravessamos um vale rodeado de uma floresta até chegar ao restaurante Hexenlochmühle. Também fizemos registros em fotografias e vídeos. 
Trajeto que percorremos entre o posto de gasolina e o restaurante Hexenloch Mill. Um detalhe: o carro de Herr Klotz estava com o estepe. Logo no início da viagem, constatamos que havia um pneu furado. Antes de partirmos, houve disposição para a troca e, com o estepe, rodamos mais de 40 km entre vales e floresta.

Vale percorrido na Schwarzwald até o restaurante Hexenlochmühle.
Um pouco sobre a Floresta Negra (Schwarzwald) 

A Floresta Negra (Schwarzwald) era o local da Alemanha que Rodolfo Wittmann mais admirava e achava bonito. Quantas e quantas vezes ele citou e descreveu as paisagens desta região para nós. Ao tentarmos imaginar — através de suas descrições — visualizávamos um lugar escuro e fechado e não é nada disso.
No local, foi impossível não lembrar do "Seu Rodolfo". Vamos conhecer um pouco sobre Schwarzwald.

A Floresta Negra  (Schwarzwald) possui elevadas altitudes, chegando a 1.493 m acima do nível do mar. Com uma área de mais de 6.000 quilômetros quadrados, ela é formada por uma cadeia de montanhas contínua — a mais alta e extensa da Alemanha. A região está localizada ao sudoeste de Baden-Württemberg, estado onde ainda permanecemos.
Antigo postal da região. Casa ancestral e parte da evolução da
casa enxaimel, cujo embrião surgiu na região - Europa Central.
Predominantemente coberta por densas matas, a Schwarzwald estende-se do Alto Reno, ao sul, até a região de Kraichgau, ao norte. A oeste, faz fronteira com a Planície do Alto Reno e, a leste, funde-se com as regiões de Gäu, Baar e a paisagem montanhosa a oeste de Klettgau. A Floresta Negra representa o ponto mais elevado das escarpas do sudoeste da Alemanha. Seu limite natural é definido pela presença de calcário Muschelkalk, ausente na região central da floresta. Essa linha, devido à fertilidade do solo dependente da rocha matriz, marca simultaneamente um limite de vegetação e a fronteira entre as antigas áreas de povoamento e a Floresta Negra — que só foi permanentemente habitada na Alta Idade Média. A região percorre aproximadamente 150 km de norte a sul, com largura de até 50 km ao sul e 30 km ao norte.

À direita ponta do Bodensee, região onde estávamos. Fonte: Wikipédia.


Uma guarita do Limes, na região.
Na Antiguidade, a Schwarzwald era conhecida como Abnoba mons, em homenagem à divindade celta Abnoba. No final do período romano, era chamada de Marciana Silva ("Floresta Marcínica", do germânico marka, que significa fronteira). A região provavelmente delimitava o território dos Marcomanos ("povo da fronteira"), que se estabeleceram a leste do http://Limes romano. Esses Marcomanos pertenciam à tribo germânica dos Suevos, antepassados dos atuais Suábios.
Império Romano e seus limites, também com a Floresta Negra. 
Descobertas científicas recentes, baseadas em análises de pólen e levantamentos arqueológicos, indicam que a Floresta Negra  (Schwarzwald) pode ter sido povoada desde a pré-história, Alto Neolítico e acreditamos que foi, em função da tipologia de suas casas de campo, observaremos depois. 
Também há evidências de fundição de ferro entre os séculos VI e IV a.C. em Neuenbürg, além das famosas termas romanas de Aquae, em Baden-Baden (séculos I ao III d.C.). Na Idade Média, a região já era citada em cartulários como saltu Svarzwald, no ano de 868.
Vestígios de fortificações militares dos séculos XVII e XVIII, como os redutos barrocos do Marquês Ludwig Wilhelm, ainda podem ser encontrados na paisagem. Originalmente, a floresta era composta por árvores decíduas e abetos, mas após um desmatamento intenso em meados do século XIX, foi reflorestada predominantemente com monoculturas de abetos — o que conferiu a ela o aspecto denso e escuro que conhecemos hoje.

Casas da Floresta Negra
Período de transformações nesta região da Europa, durante a Revolução Agrícola, quando surgiu o embrião da técnica construtiva enxaimel.
Conjunto de casas neolíticas e os pátios cercados – embrião das povoações – Idade do Cobre. Fotografia: FLEMMINGBAU.
Embrião do enxaimel, período do Alto Neolítico.
Constatamos, em nossa pesquisa sobre a evolução da técnica enxaimel na Europa, que sua origem remonta ao período em que o homem deixou de ser caçador e coletor para tornar-se agricultor e pastor. Ao fixar-se no solo e promover a Revolução Agrícola — onde não existiam abrigos naturais, mas sim densas florestas — ele criou o embrião de tipologias semelhantes às casas da Floresta Negra, conhecidas na Idade Média como casas de fazenda (Hof). Nessas construções, predominam características como a estrutura de madeira, a planta retangular de grandes dimensões e o icônico telhado coberto com junco. Tais tipologias surgiram muito antes da ocupação romana e não eram aprovadas por seu maior arquiteto, Vitrúvio.
Postal de uma característica casa de fazenda da região da Floresta Negra - parte da evolução da construção das casas construídas com a técnica construtiva enxaimel.





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A faixa onde surgiram os primeiros abrigos de madeira na Europa também abrangia esta região e, ao longo da história, essa técnica migrou e evoluiu de maneiras diferentes em cada localidade. É fantástico encontrar tipologias que se tornaram características da casa rural da Floresta Negra (Schwarzwald), como parte fundamental da história da evolução técnica da construção em madeira.

Relógios Cucos e joias

Relógio cuco em escala 1/1 - Floresta Negra, Schonachbach,
próximo a Triberg.
Um registro especial: Reinhold Klotz nos levou até o Eble Uhren-Park, localizado em Schonachbach, próximo a Triberg, para conhecermos o maior relógio cuco do mundo. Infelizmente, no momento da nossa visita, encontrava-se fechado. Visitamos este local em 2013. Esta é a região do relógios cuco. Os exemplares pioneiros surgiram na Schwarzwald ainda na segunda metade do século XVII, embora a relojoaria tenha se estabelecido como um ofício independente apenas por volta de 1730. O relógio cuco tradicional possui uma forma baseada em uma tipologia arquitetônica do século XIX: as antigas estações ferroviárias da região. Por isso, sua fachada frontal assemelha-se a uma edificação típica, com telhados inclinados e rica ornamentação em entalhes de madeira. Esses detalhes ilustram o modo de vida local, com figuras e elementos que muitas vezes se movem ao som do cuco — som este produzido, originalmente, por um sistema de foles e pêndulos de bronze. Atualmente, além dos modelos mecânicos, existem versões em plástico e os modelos a quartzo (eletromecânicos), cujo som é obtido eletronicamente.
Existem poucas publicações e informações definitivas sobre a origem do lendário relógio cuco da Schwarzwald. As fontes disponíveis apresentam divergências consideráveis quanto a datas e nomes, tornando incerto quem exatamente desenhou ou executou os primeiros exemplares na região.
Embora os historiadores que estudam a relojoaria local apresentem contradições em suas teses, a história é preservada através de peças raríssimas e muito antigas. Estes exemplares, conservados em residências particulares e museus, funcionam como registros físicos que ajudam a ilustrar e reconstruir a trajetória desse icônico ofício alemão. 7
 
Havia muitas pequenas oficinas entre Triberg e Titisee-Neustadt que produziram relógios com mecanismos de madeira (cuco) durante os séculos XVIII e XIX. Esses produtos eram excepcionalmente baratos, pois a madeira era abundante e mais fácil de trabalhar do que o metal. Apartir de 1780, a produção passou a ser realizada por meio da divisão do trabalho: além dos relojoeiros, surgiram suboficiais altamente especializados, como fabricantes de molduras, fundidores de sinos e engrenagens, além de produtores de correntes e mostradores.
Até o estabelecimento das primeiras indústrias, esses produtos artesanais dominaram o mercado mundial de relógios de parede. Um fator decisivo para esse sucesso foi o controle do marketing pelos próprios moradores da Floresta Negra (Schwarzwald); já no século XVIII, empresas comerciais locais distribuíam os relógios tanto no mercado interno quanto no externo.
Em meados do século XIX, a fabricação artesanal mergulhou em uma profunda crise com o surgimento das fábricas. No entanto, por volta de 1900, a produção em massa de novos tipos de relógios de metal consolidou-se na região. Com centros em Schramberg (Junghans, Hamburg-American Clock Factory) e Schwenningen, no planalto vizinho de Baar (Bürk, Kienzle, Mauthe), o sudoeste da Alemanha tornou-se novamente um centro mundial da relojoaria. Complementando essa vocação técnica, desde o início da industrialização, Pforzheim abriga inúmeras empresas de joalheria e uma renomada escola de ourivesaria.

Fabricação de violinos

Floresta Negra (Schwarzwald).
Por mais de seis gerações, a família Straub figurou entre os mais importantes representantes da luthieria na Schwarzwald. Essa tradição de fabricação de instrumentos no sul da Alemanha existe desde o século XVII, paralelamente às escolas tirolesa e bávara. A partir dos estudos da pesquisadora Olga Adelmann, a produção da região foi classificada como parte da "tradição alemânica", que abrange o sul da Floresta Negra e partes da Suíça. As coníferas que crescem lentamente em altitudes elevadas na região são particularmente adequadas como matéria-prima para a construção desses instrumentos de corda, devido à densidade da madeira.
Simon Straub (nascido por volta de 1662 em Friedenweiler) foi um expoente da luthieria barroca. Pertencente à quarta geração da dinastia Straub, ele é considerado um de seus melhores representantes; seu registro de óbito no município de Rudenberg traz o honroso título de "famosissimus Cheliser" (o mais famoso fabricante de violinos). Como marca distintiva, Simon esculpia uma cabeça de leão no final da caixa de cravelhas de seus instrumentos, que foram comercializados por todo o mundo germânico, Hungria e Holanda.
Violinos Johann Georg Straub.
Johann Georg Straub
(1798–1854), conhecido como "Geigenhans", foi um dos últimos grandes representantes da oitava geração da família. Em 2010, sua cidade natal, Rötenbach, ergueu uma escultura de violino em madeira com 6,50 metros de altura para homenagear essa tradição secular. A importância dos instrumentos Straub é tamanha que o próprio Ludwig van Beethoven utilizou um deles em seus primeiros anos — exemplar que hoje integra o acervo da Beethoven-Haus em Bonn. Outras peças podem ser encontradas na Coleção Estadual de Instrumentos Musicais Antigos, em Berlim.

Trajes Históricos

Os trajes históricos da Schwarzwald são usados ainda hoje, especialmente em ocasiões festivas e cerimoniais. A estética dessas vestimentas varia consideravelmente de acordo com a localidade. Um dos trajes mais emblemáticos é o das comunidades de Kirnbach, Reichenbach e Gutach, no Vale do Kinzig, que apresenta o característico Bollenhut — o chapéu adornado com pompons de lã.
A cor dos pompons carrega um código social preciso: mulheres solteiras utilizam pompons vermelhos, enquanto as casadas usam pompons pretos. Além disso, mulheres em idade de casar podem usar, antes e durante o dia do matrimônio, uma impressionante coroa de noiva chamada Schäppel. Em cidades como St. Georgen, os maiores exemplares dessa coroa — ricamente decorada com pérolas de vidro e espelhos — chegam a pesar cinco quilos.
Um dos trajes históricos da Floresta Negra (Schwarzwald).

Um dos trajes históricos da Floresta Negra (Schwarzwald).

As imagens comunicam...
Vídeo
Fotografias











Restaurante Hexenlochmühle
O moinho Hexenlochmühle (Moinho do Buraco das Bruxas) foi construído em 1825 e é um dos mais belos e típicos moinhos antigos da Schwarzwald. Situado no romântico vale de Hexenloch, entre St. Märgen e Furtwangen, pertence à mesma família desde 1839, estando hoje em sua 4ª geração. O casal Klotz nos levou até este lugar mágico e ancestral.
Originalmente construído como uma serraria, o moinho tem suas rodas movidas pelas águas do ribeirão Heubach, com uma vazão de aproximadamente 300 litros por segundo. A grande roda d'água, com 4 metros de diâmetro, aciona uma serra vertical e uma serra circular, ambas preservadas e ainda em pleno funcionamento.






Roberto Wittmann e Reinhold Klotz.











Ribeirão Heubach.

O restaurante totalmente revestido com Schindel — termo que significa "telha" no idioma alemão, técnica a partir da qual, posteriormente, criaram-se telhas com outros materiais. Observamos outras tipologias construídas nesta região da Alemanha e afirmamos que este é o local que mais preservou a casa enxaimel neolítica sob os aspectos de volumetria e dimensões, o que não é o caso deste exemplar específico. Essa questão já nos permite perceber que a Alemanha sob o aspecto cultural, de práticas, tecnologia, geografia, história, muda de região para região.






Cardápio.







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Voltando para o posto de gasolina - onde deixamos o carro. Paisagem.






























































Ao retornarmos ao estacionamento do posto de gasolina para buscar nosso carro e seguir o Roteiro Alemanha 2025 — em direção a Winterbach im Remstal, ainda em Baden-Württemberg — realizamos um gesto especial. Entregamos a Reinhold Klotz, integrante da antiga formação do grupo Götz Buam (regida pelo saudoso Maestro Siggi), um caneco oficial da Oktoberfest Blumenau. O presente foi enviado por Guilherme Benno Guenther, Diretor Geral do Parque Vila Germânica e responsável pela organização da festa de outubro, em Blumenau.

Com Reinhold Klotz e Siglinde Schrenk.



Entregando o caneco da Oktoberfest Blumenau ao ex músico da Götz Buam, Reinhold Klotz e Siglinde Schrenk, sua esposa.







Um livro com um pouco de história de Blumenau.




Presentes para Siglinde Schrenk.


Do posto de gasolina, seguimos rumo a Winterbach im Remstal, cidade e região da família Wittmann, onde Ursel e Olav aguardavam nossa chegada. Chegamos ao destino depois das 20h e, nesta época do ano na Alemanha, o dia ainda estava claro, pois anoitece muito tarde.
No final do dia 28 de abril, encontro com familiares.


Rumo à Schwarzwald (Floresta Negra).
QG 5  - Cidade de Villingen-Schwenningeng.
Um registro para a História.
 
Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
Angewitt  (You Tube) 
AngelinaWittmann  (Facebook)
Leituras Complementares - Clicar sobre o título

Roteiro 3 com base na cidade Passau
Roteiro 4 com base na cidade Wolfegg
Roteiro 5 com base na cidade Villingen-Schwenningen - Floresta Negra























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