Mostrando postagens com marcador "Colônia Blumenau - no Sul do Brasil". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Colônia Blumenau - no Sul do Brasil". Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de março de 2025

Carta de Hermann Blumenau a August Johann Ludolf von Eye - Julho de 1869

Palmenallee - Boulevard Hermann Wendeburg, Rua das Palmeiras, início do século XX.
Por que o pesquisador August Johann Ludolf von Eye não aceitou o convite de Hermann Blumenau para migrar para sua colônia, no Vale do Itajaí. Ele migrou para o Rio Grande do Sul.
Do livro:  "Colônia Blumenau - no Sul do Brasil" -  Gilberto
Schmidt Gerlach - Bruno Kilian Kadletz - Marcondes Marchetti.
Como fonte de dados históricos, sem dúvida, algumas cartas e discursos são fontes inquestionáveis. Apresentamos a carta de Hermann Bruno Otto Blumenau enviada para August Johann Ludolf von Eye. Ele também é conhecido como Johann Ludolph August von Eye Von. A carta está publicada no livro Colônia Blumenau - no Sul do Brasil,na página 225 do Tomo I.
Eye nasceu em 24 de maio de 1825 na cidade de Fürstenau, distrito de Osnabrück, Baixa Saxônia - no  território da atual Alemanha. August Johann Ludolf von Eye foi poeta, filósofo, escritor, historiador e pintor cultural e de arte.
Eye nasceu em uma família nobre da Baixa Saxônia. Era o filho mais velho do secretário municipal Friedrich Ludwig Von Eye e de Justine Marie Agnese Von Eye. Em 1845, Eye ingressou na Universidade de Göttingen para estudar direito, mas logo se voltou para estudos filosóficos e históricos, os quais  prosseguiu na Universidade de Berlim. Durante seus estudos, em 1845, ele se tornou membro da Old Berlin Burschenschaft Germania.
O mais conhecido de seus livros: Leben und Wirken Albrecht Dürers - Vida e obra de Albrecht Dürer (Nördlingen 1860), esta uma publicação de 1889.
Em 1853, August Johann Ludolf von Eye foi nomeado por Hans Philipp Werner von und zu Aufseß (1801–1872) para o cargo de chefe das coleções de arte e antiguidades no Germanisches Museum em Nuremberg. No cargo, ele organizou, catalogou e aumentou as coleções, as quais, ao mesmo tempo, lhe forneceram material para pesquisa de história da arte e da cultura.
Barão Hans Philipp Werner von und zu Aufseß (1801- 1872), arqueólogo alemão e fundador do Germanisches Museum, atual Museu Nacional Germânico, em Nuremberg.
Ainda em Nuremberg, em 17 de fevereiro de 1856, Eye se casou com Friederika Christiana Eugenia Wilhelmina Ludmilla Wasser. No final da década de 1860, trocou correspondência com Hermann Blumenau. Em 1875, Eye aceitou um cargo na Escola de Artes e Ofícios de Dresden, até que, em 1879, se mudou para o Brasil, onde se dedicou aos esforços de colonização alemã, passagem registrada no livro Der Auswanderer, O Emigrante, Berlim 1885. Até que ponto houve influência de Hermann Blumenau para Eye migrar para a América do Sul?
Uma das cartas do fundador da Colônia Blumenau, Hermann Blumenau para o pesquisador da Alemanha, August Johann Ludolf von Eye. Detalhe: a troca de cartas foi feitas quando Hermann Blumenau se encontrava na Alemanha. Quem administrava a Colônia Blumenau neste período, por 4 anos, era Hermann Wendeburg.
De acordo com José Ferreira da Silva, na página 85 de sua publicação - História de Blumenau, Hermann Blumenau embarcou para a Europa - sem previsão de retorno - como representante do governo brasileiro, para contornar as denúncias de maus-tratos ao imigrante "alemão", principalmente nas fazendas de café, onde este vinha ocupando paulatinamente o lugar da mão de obra escrava. E também para apresentar, através de propaganda de convencimento, as "vantagens" para que os "alemães" migrassem para o Brasil e para a Colônia Blumenau. Hermann Blumenau partiu para Europa em 18 de março de 1865, onde permaneceu por 4 anos. neste intervalo de tempo trocou correspondência com Von Eye, sendo esta aqui publicado trocada no ano que retornou para o Brasil.
Hermann Bruno Otto Blumenau escreveu para  August Johann Ludolf von Eye  do território onde está a atual Alemanha.
Hamburg, 31.07.1869.

Prezado senhor!
A sua preciosa carta do dia 8 deste mês eu me apresso em me desculpar que somente hoje a respondo. Já há mais tempo me sinto bastante mal e todo esforço mental me cansa muito. Por outro lado, eu tinha, embora não quisesse, muitas outras obrigações a fazer.
Em consideração a isto, espero que o senhor perdoe o meu longo silêncio. Atualmente nem consigo mais escrever “manu própria”, mas sou obrigado a ditar; tenho muito trabalho e complicações contra as quais há mais tempo enfrento e que há uns 8 - 9 meses, me prejudicaram muito e no final me esgotaram, tanto mentalmente como fisicamente. Não fosse este o caso, eu teria que embarcar o mais tardar no dia 15 de agosto para o Brasil. Não foi possível e agora, infelizmente, isto acontecerá no dia 15 de setembro. Sobre a sua honrada missiva, lhe agradeço de coração pela maneira amigável e sábia com a qual o senhor outra vez me conduziu ao sentimento estimulante de justiça. Cartas como a sua, são um real raio de luz na luta contra a burrice e as limitações - principalmente com a baixeza por outro lado, com as quais Sturz e os redatores do jornal por ele influenciados, há mais tempo me denegriram e não deixaram nenhum cabelo bom em mim. Em última instância, isto não lhes ajudou muito. A emigração alemã para o sul do Brasil está crescendo consideravelmente e seria ainda maior no futuro se o Ministro da Agricultura regente ou por cegueira incompreensível ou por motivos políticos não tivesse desencadeado perseguições, provavelmente por carência no conhecimento sobre tudo relacionado com colonização não teria virado de cabeça para baixo todas as medidas imigratórias e colonizadoras, empurrando o Brasil para mãos inimigas e dando um pontapé nas florescentes colônias alemãs. 
Os raros e venenosos ataques e os infames meios odiosos com os quais - nominalmente diversos folhetins de Berlin aceitaram as mais palpáveis mentiras de Sturz, que foram consequentemente revidados por mim. 
Johann Jacob Sturz, Cônsul Geral do
Brasil na Prússia - 1878.
Isto é apropriado para me amargurar a vida e
  continuar a luta por mais tempo. Eu ficarei feliz - estiver novamente em Blumenau, pois se lá nunca me faltaram duras lutas, do mesmo não me faltará árduo trabalho. Não serão estas miseráveis provocações, com a qual uma parte da Imprensa alemã perseguiu a mim e à boa causa, que me farão desistir. 
Mas o senhor, prezado senhor, denomina Sturz um pedante amargurado, ele é mais do que isso e um dos piores caracteres que durante minha muito movimentada vida pude encontrar, um perfeito jesuíta e fingido, para quem qualquer meio é útil para espraiar o seu narcisismo e ânsia de vingança - duas de suas qualidades mais salientes. Isto muitos poucos sabem, e talvez muitos não o queiram saber, para não terem que confessar que se enganaram assustadoramente e que foram dopados. Se o senhor ler as coisas que lhe envio encadernadas e observar profundamente as ações de Sturz, o senhor chegará convicto à conclusão de que eu não exagero. Contudo, isto é profundamente lamentável, que uma tão enorme capacidade de trabalho esteja ligada a significativos, e também desordenados, conhecimentos e inteligência de seus proprietários e que de maneira tão asquerosa são difundidos, sendo usados somente para atrapalhar e destruir, e nunca de maneira continuada produzir algo de bom. 
Com a sua enorme capacidade de trabalho e carisma, Sturz poderia ter feito coisas enormes, mas preferiu se exibir em jornais para ser citado. Em vez de perseguir um plano, com persistência e calado para realmente realizar algo de grande. Com isto, ele chegou onde ele está, um produtor de projetos falidos, e que sobre tudo aquilo que não lhe serve lança bile e veneno. De momento, ele se ocupa em esclarecer aos berlinenses, que fortunas se poderiam produzir garimpando ouro no Paraguai. Eles mesmo quer ir para lá, como no passado foi para Dahomey. Eu posso lhe dar a certeza que a atual crua e simples atividade agrícola que o senhor conhece do passado, no Brasil dificilmente corresponderá as suas aspirações e não lhe serão suficientes para uma futura industrialização dos produtos para que lhe possam satisfazer as suas necessidades de subsistência e bem estar.
Antes de mais nada, são necessárias empresas para a fabricação do açúcar de cana e depois necessitam-se de máquinas para os moinhos, descascadores de arroz, serrarias, outros moinhos, olarias, máquinas para descaroçar  algodão, compra e elaboração de tabaco para a exportação, máquinas para descascar e moer a mandioca, etc.
Saliento que recomendo, aos que pretendem emigrar, que antes se aperfeiçoem em primeira linha na fabricação de açúcar de beterraba, principalmente para os que já tenham, ou ainda possam adquirir, conhecimentos químicos e técnicos e só depois de um ano e meio emigrem. Infelizmente o número de homens jovens, que estejam propensos a abraçar tais atividades rurais técnicas e que estejam capazes não é grande. Os que no Brasil poderiam fazer os melhores negócios, raramente emigram, também é necessário algum capital para assumir tais empreendimentos ou conseguirem capitalistas dispostos a investir. 
Estes costumam resistir, depois de algumas vezes terem sido enganados por conversadores, vigaristas ou incompetentes e por terem perdido seus investimentos. Quase todos empresários, tanto jovens como velhos, que investiram seus bens em tais empresas esperando sucesso e lucros, com os quais até agora tive contato, não conseguiram sair dos conflitos econômicos ou administrativos por terem sido muito bobos ou preguiçosos para com conhecimento fundarem empresas, dirigirem com proveito e não o fizeram melhor que qualquer colono da Pommern o faria, às vezes até de modo muito pior ou tentam se dedicar a outras maneiras de produzir.
Outros técnicos, num total, até o momento, muitos poucos vieram para cá, embora para muitos destes, nas nossas colônias alemãs exista um território amplo e inexplorado. Por exemplo, em diversas colônias instalações para descaroçar o algodão bruto, para a fiação do mesmo a fim de transformá-lo em material para produção de sacos ou outros tecidos brutos, seria certamente um negócio rendoso e poderia com relativamente poucos recursos ser mantido porque no início pouca coisa necessita ser investida.

Somente descaroçar e o fiar, poderia ser um negócio magnífico, porque em todas as colônias existem incontáveis tecelões que poderiam com grande vantagem dedicar 6 a 8 horas por dia do tempo que lhes resta da atividade na terra. Eu, infelizmente, não tive o tempo de me dedicar o esforço necessário e conseguir um homem capacitado, que deva entender com profundeza esta atividade, para a instalação de uma pequena fábrica deste ramo.
Com poucos milhares de
Thaleres, o negócio poderia começar a ser organizado. Sim, seria inadequado e incompreensível começar de maneira grande demais. Altos impostos de importação, por antecipação não garantem o lucro.
No ramo da agricultura e principalmente na indústria, necessitamos urgentemente da inteligência e sua representação, por exemplo, para a educação e ensino da juventude.
Também aqui as duas premissas devem ser úteis sendo corretas e práticas. Portanto, eficientes e laboriosos professores primários, os quais para os seus circunstantes e para a juventude ensinar, não somente ensinem a ler, escrever e calcular, mas que também estejam capacitados para atuarem através de seus conhecimentos estejam dispostos a ensinar coisas úteis. Pessoas, por exemplo, que sejam capazes para o ensino e que também entendam algo de apicultura, sericultura, fruticultura e vinicultura para que possam ensinar a vizinhança. Infelizmente estas pessoas não são muitas, raramente emigram e as escolas no Brasil, nem sempre oferecem atraentes vantagens.
Os colonos, que formam a grande massa dos habitantes das colônias, não gostam de gastar muito, costumam gastar muito pouco para o ensino e não valorizam um bom ensino para seus filhos. O professor muitas vezes deve ser formado e encontrado no próprio circulo de influências da colônia. Com o passar do tempo, isto certamente irá melhorar, assim que melhore o bem estar da massa dos colonos muito pobres que para cá vieram. Até agora a frequência escolar na maioria das localidades ainda é muito insatisfatória e principalmente para professores de classes superiores, o terreno das possibilidades é particularmente não recomendável, bem como o é para os Estados Unidos.
Do citado até agora, prezado senhor, poderá mais ou menos, concluir, se uma emigração para uma de nossas colônias lhe servirá. Eu lhe aconselho, pensar profundamente e MUITO bem antes de tomar uma decisão irrevogável.
Sugiro-lhe antes de se decidir fazer uma viagem ao Brasil e observar a coisa no local. É uma terra bela, mas só disso não se pode viver física ou mentalmente, a não ser vegetar. Por outro lado, o convívio com a natureza livre, apesar das atrações que nela se encontra, não oferece com o passar do tempo, uma compensação. Para mim, muitas coisas que  antes me oprimiam e torturavam, fui obrigado a superar. No Brasil encontrei alguns homens que se tinham como muito bem educados, o que em verdade, em parte, realmente o eram, que se sentiram desconfortáveis e infelizes, porque sacrificando a sua comodidade e inércia e nem sempre conseguiam comer e beber tão bem como no passado o faziam muitas vezes às custas de estranhos. Cada um que pretende emigrar deve conhecer a si mesmo, saber do que ele é capaz de fazer ou tolerar. Muitos não compreendem isto, quando finalmente reconhecem isto, regularmente acusam, não a si, mas o país ou a terceiros. Eu tive experiências muito amargas com estas pessoas.
O prezado senhor, certamente me acreditará, que, depois de ter, durante quase um quarto de século, trabalhando por minha causa, está no meu interesse, desanimar a alguém adequado e interessado em emigrar e principalmente assustar quem pretende vir para Blumenau. Eu vivi muitas coisas, a emigração decide muitas vezes sobre a felicidade ou infelicidade de uma família e eu posso, devo e quero me responsabilizar por esta decisão. Por isto eu lhe aconselho novamente, examinar a coisa no local para ver como as coisas são. Eu me alegraria imensamente se o senhor quiser me visitar no Brasil. Algumas coisas não servem para todos, o diarista, o pequeno agricultor, o profissional autônomo, e diversos industriais, assim como os jovens fisicamente e mentalmente sadios, de diversos e diferentes ofícios queiram, em nome de Deus, emigrar. Se trabalharem e se movimentarem fisicamente, quase sem exceções farão a sua felicidade. Já pessoas mais velhas, principalmente pais de família, devem  encarar a coisa duas ou três vezes antes de darem o passo definitivo, a não ser que estejam em grande miséria e sejam pressionados pela necessidade.
Talvez, o que lhe escrevi com o meu melhor saber e consciência, não corresponda bem aos seus desejos e tendências, apesar disso  espero e lhe peço de coração encarar a nossa colonização alemã-brasileira com um olho de bondade, e onde lhe seja possível interceder publicamente com a sua palavra. 
A colonização necessita isto urgentemente e por todos os lados, porque tanto na Alemanha como no Brasil, onde muitos amigos, mas não menos inimigos e negativistas, por estreiteza de espírito ou mesquinhez do coração lutam contra a colonização. Ela tem uma muito grande importância futura para a Alemanha e para o seu povo. Isto por seu lado é triste e incompreensível que tantos homens, sob outros aspectos compreensivos, capazes de ver as coisas, bem intencionados não podem ver, ou não conseguem ver a vantagem da colonização, por causa de um enganador e conversador como Sturz. Uma minoria se esforça procurando, após intenso estudo, avaliar as condições, no final endurecem afirmando, mesmo tendo mudado de opinião, que se enganaram ou que foram enganados. Deste tipo é a maioria dos redatores de jornais políticos. Eles estão por demais ocupados para conseguirem se esclarecer profundamente. Devem e querem mesmo assim ter e emitir uma opinião e são por isto uma fácil vítima de um fabulista de sofismas, desde que este tenha o necessário carisma e safadeza para sempre e sempre novamente se insinuarem. 
O Dr. Andrée, no Globus, já criticou diversas vezes, e de maneira bem dura e de modo algum injusto a estes senhores. Eu também teria bons motivos para isto, mas estou cansado destas brigas, deixo acontecer o que não posso evitar. Tenho em mão a carta do Sr. Räthensahner, redator do jornal Fränkischen Kurier de 29.04.1869, o qual, como parece, escreveu para um desejoso de emigrar e que me foi enviado por três ou quatro pessoas. 
Um homem tão bravo e de boa vontade que aparenta ser, revelou a maior ignorância sobre o Brasil. Eu não consigo enfrentar todas estas opiniões tortas e inimizades, mesmo que já esteja melhor do que há 2 ou 3 anos.
Para poder enfrentar eu teria que manter um escritório com milhares de colaboradores capazes à disposição. Mas este não é bem o meu caso, ter tal ocupação que corresponda às minhas tendências e capacidades. Eu prefiro atuar e trabalhar, de preferência nos campos e matos em Blumenau do que na Alemanha, sentado numa escrivaninha onde um pouco de satisfação poderia sentir, mas foi onde perdi minha saúde.
Pela sua gentil e amiga lembrança futura também eu me recomendo. 

Com alta consideração, 
H. Blumenau.
Hermann Blumenau, contrariando teor da carta para Eye, retornou o território da atual Alemanha, definitivamente, em 1884 e viveu mais 15 anos longe dos campos e matos em Blumenau.

Considerando-se o teor da carta e as informações históricas, August Johann Ludolf von Eye se mudou para o Brasil, 6 anos depois. Não para residir na Colônia Blumenau, mas sim, em um local do Rio Grande do Sul. Não tivemos êxito em encontrar seu "rastro", embora tenhamos encontrado muitos nomes da família von Eye e a informação de que ele faleceu na Alemanha, na cidade de Nordhausen, em 10 de janeiro de 1896. Será que Eye conversou com Sturtz?
As notícias que chegavam na Alemanha sobre a situação
 dos imigrantes no Brasil não eram muito boas, principalmente nas
 Fazendas de Café. Isso fez surgir o fiscal Hermann Blumenau,
para averiguar a situação. O que ele fez? Campanha para a
migração de pessoas de seu pais para as colônias do Brasil e para
a Colônia Blumenau, sua empresa privada.
Também comentamos que
Hermann Blumenau, em suas palavras, sutilmente desenhadas, procurou tirar um pouco da imagem negativa - consequência do processo histórico da fundação da Colônia Blumenauo qual foi testemunhado e narrado por - Johann Jacob Sturz, Cônsul Geral do Brasil na Prússia, em Berlim. Procurou obscurecer a veracidade de suas palavras, com outras, nada amáveis - usadas na carta
Por meio do seu texto, Blumenau faz um alerta ao interlocutor, avisando de que o destino Brasil não poderia ser necessariamente aquilo que alardeou durante os primeiros momentos de sua história, no qual fez propaganda na região da atual Alemanha sobre as vantagens de se escolher o Brasil para residir, criando um impacto não muito positivo no Cônsul alemão, o qual que percebia o quadro um pouco diferente daquele propagado.
Hermann Blumenau conheceu Sturz no ano de 1843, quando viajou para a capital da Inglaterra, a trabalho - na época. A conversa entre os dois foi longa. 
Foi durante esse encontro, foi quando Hermann Blumenau ouviu, pela primeira vez, as histórias sobre o Brasil, desde narrativas sobre a natureza e muito da propaganda de que o governo brasileiro vinha fazendo na Europa, para atrair imigrantes para desenvolver e povoar, o quanto antes, o inabitado Sul do Brasil - há muito tempo, região cobiçada pela Espanha. Foi o que atraiu a atenção para seu plano de fundar sua empresa, uma Colônia Agrícola.
E para terminar, aparentemente, Hermann Blumenau praticava Bullying, quando mencionava os colonos - principalmente aqueles oriundos de Pommern. Havia uma forma diferenciada de tratar as famílias, de acordo com a sua distância determinada no momento do assentamento em relação ao Stadtplatz da Colônia Blumenau e essa carta, parece materializar a forma de mencionar "colono" de maneira pejorativa. 
Colono era todo aquele que chegava para residir em uma colônia, portanto, todos o eram, indistintamente. 

Von Eye, A., Dr. Phil. viveu em Joinville por alguns anos (1881-1888). Em 1883 retornou à Alemanha após falecimento da esposa. Um dos seus três filhos, Ludwig, criou uma escola na vila, que foi incorporada em 1887 ao Liceu de Joinville (Gymnasium, da Associação escolar de Jlle-mais tarde Deutsche Schule). A filha, Marie von Eye (c.c. Rahe) também criou uma escola, de curta duração, em S. Bento. Em 1888 criou uma empresa denominada "Deutschbrasilianische Plantagegesellschaft" com projeto de plantações na Bahia e em Jlle, para exportação de papaína, abacaxi, banana. A plantação de mamão instalou em sua propriedade em Jlle, na rua 15, próximo à propriedade de O. Dörffel. A coisa toda aparentemente não tinha futuro, além de envolver recursos de terceiros. Uma história longa que foi exposta em artigos de jornal local. Mas von Eye estudou sambaquis na região e escreveu outros artigos sobre seus envolvimento com a criação de um museu na Alemanha. Brigitte Brandenburg, em 5 de março de 2025.

Um Registro para a História.

Eu sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (X)

Referências
  • BRASILIANA FOTOGRÁFICA. Instituto Moreira Salles. Álbum de Blumenau – Vista Parcial da Cidade – Acervo Pedro Corrêa do Lago. Disponível em: <http://brasilianafotografica. bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/2621> Acesso em: 30 de setembro de 2019 – 21:27h.
  • GERLACH, Gilberto S.; KADLETZ, Bruno K.; MARCHETTI, Marcondes. Colônia Blumenau no Sul do Brasil. 1. ed. São José: Clube de cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019.
  • SILVA, José Ferreira da. História de Blumenau. 2.ed. – Blumenau: Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988. – 299 p.
Para Ler mais Sobre este Período - Clicar Sobre:
  1. Heinrich Albert Friedrich Gustav Stutzer - Rápida passagem na Colônia Blumenau - Trabalho Social na Alemanha
  2. Fritz Müller - Final do Século XIX
  3. Fritz e Hermann - Dois Personagens da História de Santa Catarina
  4. História comum entre as Colônias Blumenau, Pommerroder, Itapocu, Humbold e São Bento - José Deeke
  5. Hotel Schreep no Stadtplatz - de Johann Schreep - Do Século XIX até os dias atuais
  6. Carl Franz Albert Hoepcke - Uma personalidade da História Catarinense
  7. Loja Maçônica na Colônia Blumenau - Zur Friendenspalme
  8. Colono no espaço da Colônia Blumenau.
  9. Centro histórico de Blumenau - Stadtplatz
  10. Nome dos moradores da Colônia Blumenau - Ano 1857
  11. August Müller e seu Diário - Colônia Blumenau e a enchente de 1880
  12. Centro histórico de Blumenau - Stadtplatz - Ontem e Hoje
  13. Nacionalismo no Vale do Itajaí
  14. Como pingos Fazer surgimento do Estado Alemão - Século XIX
  15. História ... Parte I - Dos Germanos AO surgimento: "Deutschland"
  16. Sequência Parte I - Livro Germânia - Tácito
  17. História - Prússia e Alemanha
  18. Historia ... Primeiros Imperadores Germânicos
  19. Império Alemão
  20. Residência da Família Blumenau - Texto da Filha do Sr. Hermann Blumenau
  21. Hermann Bruno Otto Blumenau - De 1819 até 1846
  22. Blumenau - do Stadtplatz ao Enxaimel
  23. Rua das Palmeiras e o Museu da Família Colonial
  24. Por que o dia 25 de Julho é uma data importante
  25. Blumenau - Século XIX até a construção da Ferrovia
  26. Fundação de Blumenau e sua formação a partir
  27. Arquitetura Militar - Forte São José de Ponta Grossa - Florianópolis SC













































quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Casa Koch e sua História - Construção enxaimel de 1826 corre risco - Estância Velha RS

Casa Koch - Estância Velha - Registro IPHAN.
A edificação com estrutura de madeira usando a técnica construtiva enxaimel, no Brasil, com maior concentração no Sul do país, está em célere processo de extinção na paisagem. Existem muitos inventários e trabalhos técnicos com registros para atestar importantes tipologias históricas. Estes, feitos por equipes técnicas especializadas preocupadas com o futuro da história presente na paisagem, legado recebido pela geração atual, guardiã e que têm a responsabilidade de salvaguardar e permitir que as futuras gerações, a exemplo do que ocorre em algumas partes do planeta, possam ter a oportunidade de poder contemplar esta história, como nós tivemos esta oportunidade.
Mediante vários motivos, do econômico à desinformação e ausência de sensibilidade, o que assistimos paulatinamente, áreas descaracterizadas e ocupadas por construções de gosto duvidoso e ou, com ausência de originalidade, ocupando os espaços históricos de maneira desconexas, ou mesmo, vazios inexplicáveis e incompreensíveis.

Acabamos de escrever o livro "Fachwerk - a Técnica Construtiva Enxaimel" e esta informação levou uma pessoa que reside em Estância Velha - no Rio Grande do Sul compartilhar sua preocupação e apresentar uma tipologia pertencente ao Patrimônio Histórico Arquitetônico, não somente do município, mas de toda a região do Vale dos Sinos e do Sul do Brasil, pois trata-se de um exemplar enxaimel construído na década de 20 do século XIX - uma das primeiras edificações construídas por imigrantes alemães naquela região e, talvez, no Sul do Brasil.

Para compreender melhor sua importância....
Um pouco de história da região.

Imagem relacionada
Índios Tupis guaranis - povoação economicamente
 independente e que deu origem à cultura gaúcha,
através das Missões.
Estância Velha foi um povoado que se desenvolveu, a partir de uma fazenda, na margem direita do Rio dos Sinos. Os primeiros moradores foram povos indígenas de várias tribos, como os tupis-guaranis e os kaingangs.
Em 1788 foi instalada a Real Feitoria do Linho Cânhamo, à margem esquerda do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, com a finalidade de produzir cordames para os navios portugueses. Para produzir matéria-prima para este estabelecimento, incentivou-se a criação de povoações de imigrantes portugueses e também com a presença de brasileiros, os quais foram distribuídos em muitas fazendas da região, como por exemplo: Fazenda Boa Vista - atual Portão; Fazenda Bom Jardim - atual Ivoti e  também, Fazenda Estância Velha - atual município de Estância Velha. Os primeiros imigrantes alemães chegaram na região em 1825 e se fixaram nas proximidades da Lagoa Lourenço Torres, na Boa Saúde, em cujas margens residia o vice-capataz Imperial, José Antonio de Quadros. 
As embarcações, como fez o vaporzinho de Hermann Blumenau 1846, entrava nesta lagoa e acessa com facilidade as povoações.
Casa Koch.
Entre estes imigrantes alemães - provavelmente estava a família que construiu a Casa Koch, construída em 1826 e que corre riscos de ser demolida, ou relocada de seu local original histórico.
Outro fator histórico pertinente, na escala regional do Sul do Brasil, são as informações de uma das primeiras cartas, escritas por Hermann Blumenau aos pais residentes na Alemanha, como fiscal do governo alemão - para checar a situação de seu compatriotas em solo brasileiro - as notícias que chegavam a Europa não eram muito positivas. Isso porque o governo alemão criou a "Sociedade de Proteção aos Emigrados Alemães" - Colonisation Vereins Hamburg - 1845/1846 - com sede em Hamburg e enviou Hermann Blumenau ao Brasil que chegou ao Sul em 1846.
Blumenau escreveu a carta para os pais em 1846, na qual descreve algumas destas fazendas de gado e curtumes desta região do Rio Grande do Sul, percepções adquiridas em sua primeira visita à região - onde visitou propriedades de imigrantes alemães localizadas nas povoações em torno do lago, pois viajou com embarcação fluvial - observar o mapa acima. Neste tempo a Casa Koch já fazia parte da paisagem local e a Colônia Blumenau sequer tinha sido fundada.

"Pedaços" da Carta de Hermann Blumenau data de 1846  e ilustra este primeiro contato dele com o Sul do Brasil, enviado para seus pais, na Alemanha. A carta inteira está na postagem - Clicar sobre: Hermann Bruno Otto Blumenau - De 1819 até 1846 - Sua carta.
"Depois de ter me referido a assuntos em geral, quero agora fazer-vos destes mais detalhadamente, mesmo que eu, de novo, não possa escrever como desejaria, por ter muito o que fazer e estar com a vista bastante afetada.
Preciso adiar ainda um relatório extenso, para quando tiver mais tempo e estiver melhor ambientado. Agora, portanto, só assuntos,  esparsos da minha vida e atividades, desde a minha chegada ao Rio Grande, de onde só lhes mandei duas cartas mensagens, por não me ter sobrado tempo para comunicações mais demoradas e ainda pela razão de ter sabido, tardiamente, da partida dos respectivos navios.
Viajei de vaporzinho do Rio Grande a Pelotas, situada a noroeste, no rio São Gonçalo, que liga a lagoa Mirim com a dos Patos. A passagem levou  cinco horas e foi agradável. As ribanceiras do rio são baixas e pouco pitorescas, mas de longe, no noroeste, aparece uma linda cordilheira azul, a Serra dos Tapes. Nas margens do Rio São Gonçalo, vi, pela primeira vez, uma capivara entre os juncos, (...).
O comendante do vapor, amável conterrâneo, permitiu-me pernoitar a bordo, onde eu, sob o meu casacão, dormi regularmente bem. No dia seguinte, mandamos chamar um outro alemão, bem conhecedor da região - uma espécie de tropeiro - para conversar com ele sobre uma incursão ao interior, que eu pretendia fazer, indaguei sobre tudo que me interessava, tirando informações valiosas. Depois andamos pelos arredores, onde cheguei a conhecer muita coisa que me era novidade e que observei com grande interesse.
(...)
Bem do lado, onde atracava o vapor, encontrava-se uma charqueada, onde é preparada a carne-seca salgada, e onde estavam sendo secados os couros e procedido o aproveitamento da gordura. Tais charqueadas se estendem ao longo do rio, no percurso de duas horas, sendo que as maiores aproveitam, diariamente, 300, 400 e até 600 cabeças de gado. A vista e o cheiro dessas charqueadas são horríveis - sangue, ossos, carne apodrecida e peles, estômagos e intestinos em decomposição em toda parte, pesteando o ar. Os chifres, ligados ainda a uma parte dos ossos da testa são aproveitados para cercados, dentro dos quais são mantidos porcos e outros animais que, parcialmente se alimentam de sobras de carne. Onde quer que se pise, para onde quer que se vá, sempre o mesmo aspecto de sangue, estômagos apodrecidos e mau cheiro. Fiquei deveras contente quando de lá saímos, por mais interessante que o assunto fosse. Os proprietários dessas charqueadas, os "charqueadores", são geralmente gente bruta, principalmente enriquecidos nos últimos tempos. Se a paz for restabelecida no país vizinho, para o que as expectativas atualmente são boas, o lucro torna-se-á menor, mas sempre ainda bastante compensador.
Mais tarde visitei ainda um negociante alemão, que me acolheu muito bem, tendo me oferecido pouso e um cavalo, dispondo-se a fazer uma excursão comigo. Andei depois por ali assim, tendo visto pela primeira vez, um lindo pomar de laranjeiras, que apresentava um esplendido aspecto., as árvores de ramagem escura e copa arrendondadas, onde apontavam as maravilhosas frutas que estavam justamente amadurecendo. É um belo espetáculo observar-se os pomos dourados, um perto do outro, às centenas! Os pés já produzem no seu quinto ano e consta que,  já no décimo ano dão 4 a 6 mil frutas anualmente. No interior me afirmaram que há laranjeiras de 8 polegadas de diâmetro de renderiam seus 4 a milhares de frutas por ano e teriam apenas 8 anos.
À noite, encontrei em casa do Sr. Claussen ainda alguns brasileiros, todos já um tanto alcoolizados, com os quais palestrei a respeito de minha excursão, sobre a qual, depois de muita discussão, finalmente nos entendemos. Mais tarde, ainda apareceu um grupo de jovens, fantasiados de polacos e poloneses, dançando a polca ao compasso de uma esquisita, ms bonita modalidade de música, que era novidade para mim:  uma pequena flauta com acompanhamento de pandeiro. após os outros terem ainda "champanhado" vastamente e eu meditado sobre os meus planos para o dia seguinte, fomos dormir. Subi a minha cama de campanha e cobri-me com um cobertor e o meu casacão, dormindo bem até o raiar do dia, quando o meu comandante veio do vapor buscar-me para o início da jornada à Serra dos Tapes.
Começou então a balburdia. O gerente da casa de hospedagem Claussen e alguns fazendeiros ali hospedados, todos ainda sob o domínio das consequências da champanha, não encontravam meios de se acordarem. verifiquei também que havia cavalo para mim, mas que não havia arreios. (...) Finalmente , passadas quatro horas, estávamos prontos para partir, isto é, o comandante e eu, pois todos os demais estavam de ressaca, o que não mais me desapontou, convicto, como fiquei, de que eles só estorvariam os meus propósitos.
Através de uma região de terras baixas, por vezes pantanosas, dirigimos-nos, montados nos nossos cavalos, em direção noroeste, ao encontro da montanha.
Três horas distantes da cidade, na propriedade de um amigo do comandante, pretendíamos trocar de cavalos. Não o encontrando, entretanto, em casa tivemos que continuar nos mesmos animais, que não eram lá muito bons. Um pouco adiante paramos em um estância para nos refrescarmos. O proprietário também não estava em casa, mas sim  a patroa e uma irmã dela, ambas chinas, ou índias, com olhos um tanto oblíquos, pele amarelada e cabelos pretos muito compridos. Como fosse domingo, estavam elas bem arrumadas, com vestidinhos bonitos e modernos, os cabelos penteados e bem trançados.  Interessante era o contraste destes requisitos da civilização com a absoluta ausência de bons modos. uma delas puxou as pernas, com a maior naturalidade, para cima do banco, encostando o queixo nos joelhos, enquanto a outra, penteando uma criança, falava com o meu companheiro ao mesmo tempo que, com o pente, palitava os dentes.
Lá tomei pela primeira vez o chá mate (erva mate) a folha de um arbusto em forma de árvore, a qual é torrada e socada. Sobre certa porção desta erva, se põe água fervendo (e açúcar quem quiser), sugando-se o líquido através de um canutilho de folha de Flandes, ou ouro, que termina em uma pequena bola perfurada, que se coloca dentro do chá. De início é fácil queimar-se a boca, como a mim aconteceu, mas depois saboreia-se com gosto esse chá e também sem açúcar, o qual, segundo se diz, muito mais saudável. É preparado sempre na casca de uma pequena abobora garrafa, do tamanho de uma mão fechada, às vezes enfeitadas com lindas decorações de prata.. Suga-se enquanto tiver chá. Depois, vem uma negra, pega a cuia, e despeja nela novamente água fervente e assim a cuia continua a rodar, não se devendo limpar, de maneira nenhuma, a bombilha, mesmo tendo saído, talvez, da boca de um vizinho bastante sujo, porque isto seria interpretado como ofensa. Quando o mate perde o gosto, é jogado fora e coloca-se nova porção de erva.
De lá partimos, após agradecimentos pelo gentil acolhimento, efusivos mas formais, tendo alcançado, após várias horas, na colina anteposta à serra outro amigo hospitaleiro, numa propriedade maravilhosamente bem situada, fazendo jus ao nome: "Muito Bonito".
Fomos acolhidos com muita gentileza e dignidade, tendo eu experimentado  aí, pela primeira vez, uma refeição à maneira nacional: carne de vaca, bem picadinha, com toucinho. O prato é acrescido de farinha de mandioca) produto conseguido pela raspagem, prensagem  e torração da raiz de mandioca) que se mistura à carne, e de que eu gostei muito, jantando-se ainda laranja à vontade.
A permanência ali foi muito interessante. A propriedade é muito bonita, um quarto de légua quadrada, totalmente cercada de laranjas e outras frutas. Mandei pedir informações pelo valor aproximado da mesma, obtendo a resposta que, ao preço de 12.000 dólares (18.000 Thalers) estaria certamente à venda. Seria uma propriedade para um agricultor abastado (Interesse nos negócios de terras). Fica à seis horas de viagem da cidade e do porto de Pelotas, margeada de boa estrada. Lá encontrei, por primeiro, as variedades de laranjas (ou da nossa "Apfelsine", de casca alaranjada), das quais existem diversas espécies de tamanhos e gostos diferentes, assim como acontece com nossas maçãs.
Tem aqui, uma laranja lima, de casca amarelo-claro, cor de limão,  doce, mas um tanto insonsa, a lima de umbigo e a bergamota (da qual se obtém o óleo de bergamota) que também é doce mas nada de gosto especial. As limas são inferiores às laranjas no gosto, mas tem a vantagem da produção durante todo o ano, enquanto a laranja é apenas de seis meses. Depois há  o limão, do qual também existem várias qualidades, alguns bem maiores e bastante mais ácidos do que o nosso limão, e por fim as qualidades azedas (cidras) que na Alemanha, chamamos de  "Pommeranza" ou laranja azeda.
Havia ainda outras árvores frutíferas, como figos,  pêssegos, pinheiros,  (que dão uma qualidade de nozes) como ainda cana de açúcar, batatas, etc. (Vegetais que vi ali pela primeira vez). além disso havia uma porção de arbustos floridos, mesmo sendo inverno na época, principalmente uma espécie de acácia de flor grande purpúrea quase escarlate.
Foi uma pousada agradável, aumentada ainda pela gentileza simples e agradável, mas de grande dignidade, daquela gente.
Depois de termos consumido farto almoço, chupado laranjas e tomado café para finalizar, partimos ao encontro de outro amigo ainda, o qual mora a várias léguas de distância, na montanha.
Anoiteceu entretanto, e nos vimos obrigados a pernoitar a uma milha de distância do nosso destino, em outra fazenda localizada mais esplendidamente ainda do que a "Muito Bonito". Fomos bem recebidos e nos serviram, a pedido de meu companheiro, ainda um pouco de linguiça e farinha, pois eu estava com bastante fome. O leito era duro e a noite gélida, e como tivéssemos apenas nossos casacos para nos cobrir, senti um pouco de frio, mas, mesmo assim, dormi muito bem. Durante a noite, os moradores daquela fazenda começaram a tarefa  de descascar raízes de mandioca para o preparo da farinha, ao clarão de enormes tochas. Não havendo mais sossego, nos levantamos e observamos, por algum tempo, a fauna. Depois pegamos as nossas montarias, o que levou bastante tempo e partimos, após os merecidos agradecimentos.
No alto dos morros havia geado fracamente,mas nos vales, a camada era mais grossa, e havia gelo da  grossura de um dedo nas poças d'água que, entretanto, derreteu muito depressa.
Foi uma magnífica manhã fria e eu mesmo, com região glútea bastante prejudicada, me encontrava em rósea disposição. Depois de duas horas, chegamos à fazenda do Senhor Serafim Barcelos, onde o meu companheiro, lutando entre um grupo de revolucionários, se encontrara aquartelado por diversas vezes.
Fomos recebidos com a mais gentil cordialidade, e fizemos passeios de reconhecimento pela região e pela fazenda, tendo eu recebido muitas informações sobre produtos agrícolas, agricultura, valor das propriedades, etc., sobre o que escreverei em outra ocasião.
(...)
A tardinha, após despedida cordial, com abraços e repetidos convites para outra visita, partimos para alcançarmos ainda "Muito bonito", onde nos haviam convidado para pernoitar.
Desorientamo-nos, entretanto, e cavalgamos pela região até às nove horas da noite, sem avistar casa alguma. Quando por fim encontramos uma estância no mato, onde se encontravam alguns negros e a proprietária, uma mulata. Mesmo que as aparências não fossem muito boas, vimo-nos obrigados a permanecer ali. Ainda nos serviram algumas costelas assadas ao fogo, além de farinha. a fome temperou a refeição simples, que não foi de grande asseio, tendo os dedos de fazer as funções de garfos. Depois nos serviram mate e fumados ainda alguns cigarros, e tendo eu rememorado os acontecimentos do dia, deitamo-nos para descansar dentro de uma cabana inacabada, sem paredes ainda, mas com coberta. O leito improvisado sobre um porta, era duro, porem o cansaço nos fez dormir bem.
Partimos ao raiar do dia em direção a "Muito Bonito", onde fomos novamente recebidos com muita amabilidade.
Depois de bem alimentados, tendo passada mais uma revista na bela propriedade, partimos, tendo chegado ao cair da noite em Pelotas, com a região glútea bastante maltratada, mas absolutamente satisfeitos com o resultado da excursão.
No dia seguinte, visitei uma fábrica de sebo nas proximidades, por cujo proprietário, um francês, fui muito bem recebido e que me mostrou as instalações, tendo conversado com ele sobre tudo que se pode ali empreender, ainda. O  homem havia iniciado, fazia cinco anos, com pouco recursos e, através de muito trabalho e empenho, possui agora, uma grande fábrica com 25 escravos. ele deu-me esperanças para um empreendimento químico, convidando-me, também, para fazer o necessário estágio no seu estabelecimento, para o caso de eu resolver voltar a Pelotas para estabelecer-me ali.
No dia seguinte voltei ao Rio Grande, onde precisei embarcar imediatamente no vapor que zarparia no dia seguinte, com destino ao Rio. Sobre esta viagem, comunicarei na carta seguinte. (...) "
Hermann Blumenau
Ao ler a carta de Hermann Blumenau aos seus pais - na Alemanha, escrita no ano de 1846, podemos imaginar que tenha passado na região das estâncias de gado - ou na região onde já estava construída a Casa Koch - na Estância Velha.
 Genuíno Sampaio
 A povoação da estância em 1933 tornou-se Distrito de Nova Palmeira, através do ato municipal N° 14, pertencente a São Leopoldo. Nova Palmeira, que agora se chamava Genuíno Sampaio - homenagem a um assassino miliciano, cuja biografia pode ser lida em (Clicar sobre) Genuíno Olimpio Sampaio - pelo Decreto-lei Estadual n.º 720, em 29 de dezembro de 1944, adquiriu parte do território do distrito da sede do município de Novo Hamburgo. No quadro fixado para vigorar no período de 1944-1948, o distrito de Genuíno Sampaio, figura no município de São Leopoldo. Em divisão territorial datada de 1-VII-1950, o distrito de Estância Velha, figura no município de São Leopoldo.
Foi elevado à categoria de município com a denominação de Estância Velha, pela Lei Estadual n.º 3818,  em 8 de setembro de 1959, desmembrado de São Leopoldo. Sede no antigo distrito de Estância Velha constituído do distrito sede foi instalado em 1° de janeiro de 1960. 
Primeiro mapa de Estância Velha - 1960. Fonte: 60 anos de Estância Velha: Guardião da memória mantém a história viva
Mapa de 1856.




Esta edificação em Estância Velha atual é apresentada assim
“Praça 1º de Maio - Estância Velha: casa estilo enxaimel”.

 Dizemos - cenário. A estrutura desta casa é qualquer coisa, menos feita 
de madeira para ser considerada enxaimel - e as ripas apresentadas 
na fachada tem  posições diferentes daquelas usadas estruturalmente. 
É importante conhecer este contexto histórico e sua evolução dentro da linha do tempo e poder concluir que esta edificação histórica apresentada nesta postagem foi construída em um dos primeiros momentos desta história  -  construída pelos primeiros imigrantes alemães que chegaram à região - marcando como o primeiro grupo organizado de imigrantes alemães chegado ao Sul do Brasil. Simultaneamente a esta ameaça que a Casa Koch sofre, a municipalidade destaca como um de seus pontos focais atuais, uma tipologia atual "maquiada" e apresentada como uma edificação construída com o "estilo enxaimel". Lembramos que a técnica construtiva enxaimel  não é estilo, e sim a característica estrutura de madeira que pode ser adotada em todos os estilos. Apresentamos em nosso livro sobre enxaimel, algumas tipologias dentro dos mais variados estilos - até o tempo presente, que faz uso do enxaimel.
Figura 155 do livro "Fachwerk - A Técncia Construtiva Enxaimel" - tipologia enxaimel atual.
Casa Koch - Estância Alta RS.
Em contrapartida, a Casa Koch, construída em Estância Velha, em 1826 é uma edificação original enxaimel, peculiar, que difere da tipologia tradicional da região do Vale dos Sinos. Apresenta caibros de madeira com bitola muito grande - reforçando sua história centenária, pois, aparentemente ainda não haviam problemas com a escassez  da madeira, que diminui muito esta dimensão e até mesmo, a quantidade de madeira usada nas casas enxaimel do Rio Grande do Sul.
Curiosamente a tipologia pertencente ao Patrimônio Histórico Arquitetônico local de Estância Alta RS faz parte do cadastro  inventariado pelo  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN sob o Código EV01. O descaso aparente com esta tipologia pertencente ao Patrimônio histórico Arquitetônico, não leva em consideração - também este trabalho técnico efetuado  em 5 de novembro de 2007, custeado com verba pública.

Dados do Castro do IPHAN
Casa Koch
Código EV01 

Projeto
Inventário da Arquitetura Rural em Municípios das Áreas de Imigração no Rio Grande do Sul - Unidade 12°SR

Técnicos responsáveis: 
Historiadora Fernanda Matschisnke, Arquiteta Enilda Miceli (conhecemos a arquiteta Enilda em Blumenau)- Coordenadoras.
Arquiteta Claudia Milani - Pesquisa campo e levantamentos.
Arquiteta Verônica Verônica Di Benedetti - Supervisão.

Data - 5 de novembro de 2007

Identificação e localização da propriedade/imóvel
Cidade: Estância Velha RS
Localidade/Bairro: Encosta do Sol
Denominação: Casa Koch
Proprietário: Alice Koch
Endereço: Rua Presidente Lucena
Uso original: residencial
Uso original: residencial

Breve Descrição com acréscimo de nossos comentários - em vermelho
Casa do tipo teutobrasileira, enxaimel alemão. Possui uma estrutura de madeira de grandes dimensões totalmente contraventada na diagonal e vedada por alvenaria de tijolos com argamassa de barro e cal. (A casa foi construída com a técnica construtiva enxaimel por imigrantes alemães - os primeiros na região - e o contraventamento é uma das principais características das casas construídas neste período - portanto há redundância nas informações apresentadas) A casa está integra no módulo principal, completamente original, recebeu um acréscimo na parte de serviço e ainda são percebidos os traços de janelas que davam para uma varanda. As telhas são de cerâmica tipo rabo de castor e a estrutura do telhado trabalha junto com a estrutura da casa (Tem tudo para que o primeiro telhado originalmente fosse feito de tabuinhas de madeira e posteriormente fosse trocado por telhas de barro tipo rabo de castor ou telhas planas). Nas duas paredes externas existe um contraventamento como se fosse um tesoura de linha alta. As tábuas do piso do sótão são largas e espessas e não possui forro. No andar térreo o forro predominante é do tipo saia e camisa (Muito utilizado nas casas enxaimel da Alemanha desde a idade média - visitamos algumas, que ainda recebiam um reforço de uma massa feita de barro e palha na parte posterior). As aberturas tipicamente alemãs são sólidas de boa madeira e conservam sua ferragens (Inexiste abertura "tipicamente alemãs" - as usadas originalmente nas construções dos imigrantes no Brasil, desprovidas da influencia da arquitetura local pretérita, são bem diferentes destas. Também as construídas na Alemanha. Estas, de madeira, eram usadas, por falta de opção do vidro ou mesmo, seu alto custo. Nesta região se usava muito o tipo guilhotina, como acontecia com edifícios públicos da Colônia Blumenau - influencia da arquitetura portuguesa regional). A construção está recuada da estrada e possui um lago na frente, com mais uma casa e galpão que serve de oficina e depósito (Toda casa do imigrante alemão do sul do Brasil do século XIX e início do século XX - na área rural  e muitas vezes também na área urbana - era munida de "rancho" e outros elementos do complexo residencial). A implantação, o jardim,  o trato com a paisagem, a relação da casa com o entorno são característico de uma paisagem européia (Não confere - a casa recebe influência da situação geográfica onde foi construída e da sociedade pré estabelecida feitas por grupos migratórios de outros países oriundos da paisagem europeia igualmente, e a maneira de ocupar o espaço, como a migração portuguesa e espanhola, migrações pretéritas a esta - dos alemães). Mantém-se preservada esta  leitura. Vale a pena destacar o pequeno galpão com características da arquitetura colonial portuguesa ao fundo do conjunto principal.
Modificações Visíveis
Construção de uma sala de refeições na parte posterior da casa, em alvenaria, há uns 60 anos atrás. comprovamos através de algumas patologias de umidade que deixam a mostra o tijolo de fechamento e as estruturas de madeira exatamente na área de emenda das paredes do módulo original enxaimel com a construção mais recente. O telhado muda e recebe uma calha de recolhimento do pluvial nesta região, são duas construções geminadas e com sistemas construtivos absolutamente diferentes, mas mesmo assim existe harmonia entre as duas arquiteturas e acaba adquirindo a historicidade que legitima este anexo. A parte de serviço com fornos e tanques agrega o valor cultural.
Informações adicionais
Hoje reside na casa somente o tio. O  sobrinho com sua família residem na casa ao lado, uma construção moderna. A residencia fica ao lado de um clube de pesca. A casa foi adquirida pelo bisavô da família Koch por volta de 1826. Muito móveis são representativos da cultura alemã: 2 camas de madeira torneadas, duas camas de ferro, uma cama de madeira com a guarda em madeira vergada, relógio com pêndulo, armário cabide, isqueiro de madeira com a figura de um alemão, compoteiras de vidro, louças, retratos de família, cômoda,  guarda-roupas, máquina de costura, armário de cozinha, mesa de cavalete (Mobiliários de vários períodos históricos). Os mais novos falam português, mas normalmente a língua mãe é o alemão. Os hábitos e todo o mobiliário são muito característicos do imigrante alemão podemos dizer que a cultural imaterial é muito viva ainda e este conjunto merece ser o destaque desta cidade. A casa é um museu vivo. e os seus proprietários demonstraram orgulho daquilo que conservam (Na Alemanha atual, em nossas pesquisas, visitando algumas tipologias históricas de aproximadamente 900 anos percebemos que muitas são atualizadas e munidas de tecnologia atual para uso das pessoas da sociedade atual, para que estas continuem na paisagem como referencias históricas. Nem sempre todas as edificações históricas precisam tornar-se museu, mas ser preservadas na paisagem, em pleno uso pela sociedade atual e com todo e pleno uso da tecnologia atual - Se não for assim, poderíamos ter mais museus que outros tipos de uso - quanto as edificações de uma cidade histórica. Os elementos formadores, objetos, equipamentos, documentos, fotografias, sim poderiam ser guardados em um único lugar da cidade devidamente catalogados - em um museu.).
As imagens comunicam...












A Casa Koch possui um planta baixa com características da influência da casa portuguesa na distribuição de seus ambiente. Em nossa pesquisa e publicada em nosso livro, encontramos casa com planta semelhante, localizada no Alto Vale do Itajaí, que recebeu influência da casa portuguesa, por estar localizada no caminho das tropas - conhecida Casa Krüger localizada no Município de Braço do Trombudo SC. A planta casa do imigrante alemão é bem característica e difere da casa portuguesa. Surgiu a partir de uma evolução que teve início do período neolítico - a partir da localização do fogo em seu interior.
Vista frontal da Casa Koch.


Estado de Conservação atual da Casa Koch




Janela Guilhotina - Influência da arquitetura portuguesa - estrutura visível sob a fina camada de acabamento e pintura - caibros de grande seção.
Estrutura do telhado coberto com telhas planas,
 ou germânicas ou rabo de castor.


Porta de madeira, duas folhas com a presença da bandeira, característica das edificações do imigrantes deste período com a função para facilitar a iluminação natural, quando as aberturas permanecessem fechadas e ou, com janelas de madeira.
A ausência de reboco na parte superior da janela, nos faz pensar que havia um forro nos primeiros tempos da história desta casa pertencente ao Patrimônio Histórico Arquitetônico. É possível perceber que os caibros são falquejados.
Porta de madeira, duas folhas com a presença da bandeira, característica das edificações do imigrantes deste período com a função para facilitar a iluminação natural, quando as aberturas permanecessem fechadas e ou, com janelas de madeira.
Janelas de madeira - material mais barato que o vidro, muitas vezes inacessível, onde alguns eram trocados posteriormente a construção da casa. Também aconteceu assim na Alemanha, quando as primeiras casas, sequer possuíam janelas, influencia do império Romano no Sul do atual território da Alemanha.
 Carlos Dietrich.
No dia 16 de maio de 2019 foi publicado no veículo on line "O Diário" por Sandra Costa, a notícia de que a Casa Koch poderia virar Patrimônio Histórico de Estância Velha, mediante o envio da indicação por parte do vereador Carlos Dietrich. Independentemente da indicação ou não, a Casa Dietrich já é um Patrimônio Histórico Arquitetônico, não somente de Estância Velha, mas do Rio Grande do Sul, do Sul do Brasil e do Brasil, com interesse também, para a Alemanha, como material de estudo.
"Estância Velha – O vereador Carlos Dietrich (Geada-MDB), entrou com um pedido de indicação ao Executivo, esta semana na Câmara de Vereadores. Geada solicita que a Prefeitura realize um inventário e o tombamento, no imóvel localizado na rua Oto Koch, no bairro das Rosas. A casa foi construída no ano de 1827, sendo uma das casas mais antigas do município, senão a mais antiga, remetendo a cultura alemã, possuindo estilo colonial. A propriedade pertencia a família Koch, e agora está abandonada e se deteriorando com o tempo. Conforme informações preliminares a área teria sido vendida e os novos proprietários pretendem remover a construção. A indicação foi encaminhada ao Executivo que deve acatar ou não o pedido do vereador."
A responsabilidade sobre o futuro desta casa pertencente ao Patrimônio Histórico Arquitetônico original, para que as novas gerações tenham acesso, como essa geração teve, depende da boa vontade e consciência sobre a importância desta tipologia, não somente para Estância Velha, mas para todo o Sul do Brasil - Brasil e Alemanha. 


Há pessoas lamentando, nas redes sociais. Ei...ainda há tempo! É fácil colocar esta casa, linda novamente. Alemanha reconstruiu cidades com mais de 80% destruídas, movidas por esta consciência. Por isso existe esta postagem. Mechamo-nos.


Assim que puder irei visitar o local e fazer fotos...
Para a história.

Leitura complementar - clicar sobre: